A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos

Apresentado em: “Social Sciences and Humanities in the Changing North-South Relations”, INTERCO-SSH – Cordoba, 2015

Esta exposição trata do encontro de funcionários da Fundação Ford – uma das grandes entidades filantrópicas americanas que financiam a produção de conhecimento e de instituições – com parceiros e beneficiários brasileiros passíveis de negociar projetos de interesses convergentes. Por meio desse caso exemplar, que envolve as atividades da Fundação na área das ciências sociais no Brasil, nos anos 1960-1980, interesso-me pela maneira como certos projetos transnacionais são importados e difundidos, chamando a atenção para os program officers, catalisadores na transferência e difusão de projetos transnacionais envoltos nos paradigmas da ciência política e da economia norte-americana.

Na famosa descrição de Dwight Macdonald, a Fundação Ford, que se lançou no cenário internacional durante da guerra Fria, seria simplesmente uma quantidade de dinheiro rodeada de pessoas desejosas dela (Macdonald, 1955:3).

O que pretendo demonstrar aqui vai mais longe, considerando que uma fundação filantrópica não distribui seu dinheiro sem discernimento e nem age isolada. O sucesso de seus programas depende da ação de seus mediadores na escolha dos beneficiários, pois é por meio das doações, e de quem as recebe, que ela exerce sua influência. Atentando para as somas importantes que a Fundação Ford destinou à produção de conhecimentos no domínio das ciências sociais no Brasil (mais de 13 milhões de dólares entre 1966 e 1989), chamo a atenção para a maneira como se deu o encontro dos program officers, encarregados de aprovar as doações, com os intelectuais brasileiros receptivos ao suporte técnico e financeiro oferecido para a criação de instituições de pesquisa em ciências sociais inovadoras, tendo em vista um programa de formação de novas elites para o país.

A hipótese que sustenta este trabalho é a de que as estratégias nacionais e internacionais são convergentes. O sucesso das estratégias de transferência de conhecimentos depende do encontro dos atores envolvidos nessa transferência em momentos históricos muito específicos: os receptores locais, carregados de expectativas e dispostos a subverter regras que não os beneficiam, e os mediadores estrangeiros, capazes de difundir valores e promover mudanças de percepção dentro de um quadro de referências institucionais (desenvolvidas no país de origem) suficientemente flexível para que sejam adaptadas ao sistema local de forma pragmática.

Destacarei especialmente  o encontro que levou à criação do Departamento de Ciência Política na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, o primeiro do Brasil (1965), e ao recrutamento de professores dessa universidade para estudar essa disciplina no sistema pós-graduado norte-americano – dando sequência ao que as elites econômicas e políticas do estado de Minas Gerais já haviam iniciado quando, rompendo com a tradição das ciências sociais sediadas em faculdades de filosofia, incluíram, em 1954, a sociologia política numa faculdade de economia. Será sublinhado também o encontro com os professores expurgados da USP pelo governo militar, o que levou à criação, em 1969, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), o primeiro grande centro de pesquisa independente sobre a realidade brasileira, um caso privilegiado pela visibilidade que deu à complexa relação existente entre a produção científica e a vida social e política [1]. Lembrarei, ainda, a criação da pós-graduação em ciências sociais no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ e sua valorização do empirismo, a romper com a tradição eminentemente ensaística das ciências sociais. Por fim, o papel estimulante desses agentes mediadores na criação do Comitê Assessor em Ciências Sociais, que dinamizou a Associação Nacional da Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), em 1978, “expressão do novo equilíbrio de forças entre programas de pós-graduação, centros de pesquisa, disciplinas, tradições de pensamento e de prática científica” (Miceli, 1993:61).

As ações resultantes desses encontros serão apreciadas tendo em mente dois efeitos merecedores de reflexão. Primeiro, elas estiveram na origem dos novos modelos de interpretação da realidade nacional, que se desviaram dos anteriores que estavam ancorados no direito e na sociologia. Além de subverter a hierarquia dos conhecimentos, esses novos modelos trouxeram uma nova prospectiva no trato com os problemas sociais e as políticas públicas, buscando priorizar a competência técnica, fundamentada na estatística. Em segundo lugar, boa parte dos intelectuais de alto nível patrocinados pela Fundação engajaram-se posteriormente na luta pela modernização dos dispositivos de Estado e das competências de governo, transformando-se nos mais importantes atores na reestruturação do espaço político brasileiro dos anos 1990. [2]

Esta exposição está dividia em três partes. Na primeira tratarei dos propósitos da agência de financiamento. Na segunda, dos funcionários da fundação enviados ao Brasil e sua intermediação no financiamento da produção de conhecimento e de instituições junto a parceiros e beneficiários.  Por fim, uma síntese da linha da atuação da Fundação no que se refere à criação da ANPOCS.

Os contatos inicias da Fundação Ford no Brasil e o programa de transferência dos paradigmas da ciência política no Brasil

O encontro direto dos representantes da Fundação Ford com os cientistas sociais brasileiros só aconteceu após o golpe de Estado de 1964. Até então, as recomendações para os programas da Fundação a serem implantados estavam ainda fortemente vinculados à política externa dos Estados Unidos, bastando a vinda de consultores norte-americanos para tratar das questões de política e planejamento da modernização do país, na esteira dos programas da USAID, Peace Corps e Alliance for Progress.  Tais programas não exigiam contatos mais profundos com os intelectuais locais.

O escritório da Fundação Ford no Brasil foi instalado em 1962, no mesmo ano de outros semelhantes na América Latina (Chile e México) e na África (Nairóbi). A abertura dos escritórios marca, portanto, o deslocamento da filantropia internacional da Fundação para regiões limítrofes de governos comunistas. A mudança de rumo já havia sido anunciada com a inauguração oficial do escritório de Istambul, na Turquia, em 1960. Mas para a América Latina, dentre os vários eventos políticos desestabilizadores neste período da Guerra Fria, a motivação principal para este movimento foi a revolução cubana, que priorizou a  canalização das doações para a difusão de ideias de modernização, desenvolvimento e democracia no continente.

A divulgação dessas ideias no Brasil, no delicado momento político dos anos 1960, foi facilitada pelas discussões que existiam na sociedade brasileira concernentes à aceleração da industrialização do país, as quais prolongavam os temas da Comissão Mista Brasil/Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico[3] (1951-1953), ligada ao Ponto IV do Plano Marshal. Os trabalhos desta Comissão haviam contribuído para a prática de gestão e aplicação mais racional dos recursos públicos, além da formação de uma equipe de técnicos brasileiros aptos a devolver projetos de infraestrutura. Mas, até o final dos anos 1950, nenhum dos temas da discussão em administração pública chegou a enfrentar a área do desenvolvimento social e político.

A Fundação Ford no Brasil viria, portanto, atuar exatamente nos domínios não contemplados pela Comissão Mista Brasil/Estados Unidos: o social e o político, por meio da educação superior

A estratégia para o financiamento de pesquisas e cursos de pós-graduação na área das ciências sociais foi estabelecida pouco a pouco. Em 1964, o golpe de Estado, que contou com o apoio do governo americano, afastou a Fundação dos programas locais ligados à política externa norte-americana ( USAID e à Alliance for Progress.). Em seu lugar, foram trazidas as técnicas da Behavioral Sciences, apreendidas no famoso Salzburg Seminar ( o qual a Fundacao havia financiado) como base para expandir, também no Brasil, the United States thinking about political and economic development through education (Holmes, 2013:42-43; Pollack,1979:56-58). Pensava-se em possibilitar o aparecimento de uma comunidade de cientistas sociais brasileiros que não fosse territorialmente circunscrita e que dialogasse com a sociologia empirista, o modelo das relações entre pesquisa social e agentes econômicos e políticos elaborado por Paul F. Lazarsfeld,nos Estados Unidos. Como Peter Bell, o mais importante agente da Fundação no Brasil no período de 1965 a 1969 afirmou,  “os cientistas sociais poderiam ajudar a explorar e clarificar as dimensões política e social do desenvolvimento”.

A orientação para essas ações coincide com a que foi dada pelo Seminário de Salzburg, ou seja, primeiro recrutar e atrair estudiosos em ciências sociais integrando-os às estratégias promovida pelo mecenas, na esperança de que eles desenvolvessem, mais tarde, programas de ensino e pesquisa no país de origem sem mais intervenção direta da Fundação. Segundo,  assistir o grupo de cientistas apoiados para que eles pudessem criar e desenvolver em seu país uma agência científica central, a fim de coordenar a pesquisa científica nacional e evitar a “fuga de cérebros” (Rose, 2003:72-94).

Peter Bell na implementação do programa da Fundação Ford

O representante da Fundação selecionado para a implementação desse programa no Brasil foi Peter Bell que, então com 22 anos, fez jus às recomendações contidas no Gaither Report  no que se refere aos principais critérios para a escolha dos  agentes que garantiriam o sucesso do programa filantrópico da Ford: uma maior ênfase nas  habilidades interpessoais, na imaginação e na experiência em interesses gerais do que na idade, especialização ou reputação.; experiência em viagens e “flexibility to deal with all kinds of people, and a deep conviction with respect to the fundamental objectives of the program”. Qualidades que seriam “necessary to change the content of the program from time to time to meet new conditions”.  (Gaither:133-136).

Quando foi escolhido, Peter Bell havia acabado de receber seu diploma da Woodrow Wilson School of International Affairs em Princeton. como ele prórpio registrou,  seus contatos com o exterior, sensibilizando-o para  “opportunities to resolve conflict, to make peace, to bring about justice, to protect the vulnerable, and to support the poor and disadvantaged”, já vinham do tempo de seus estudos secundários, quando recebeu uma bolsa de estudos para o American Field Service, fazendo parte do primeiros grupo de estudantes secundaristas a ir para o Japão após da Segunda Guerra Mundial, visitando Nagasaki com uma família japonesa. Depois do segundo ano da graduação em Yale, ele se engaged in the civil rights movement, na Operation Crossroads Africa, que resulted in the award to him, entregue a estudantes dedicados a resolver problemas internacionais e buscar a paz, pelo trabalho realizado na Costa do Marfim. Posteriormente adquiriu familiaridade com o governo norte-americano em área sensível da política externa ao trabalhar como estagiário em international security affairs at the Department of Defense, aprendendo o suficiente “about American involvement in Vietnam to be deeply troubled”;  o que o decidiu a desistir de uma carreira governamental e  aceitar o convite para entrar  na Divisão Internacional da Fundação Ford. Em suas entrevistas, usa como uma espécie de mantra, as palavras de seu professor de metafísica em Yale: “Go out and make the world less miserable.”[4]

A primeira missão de Peter Bell no Brasil lhe mostrou o valor desse curriculo para atuar no cenário brasileiro que Sergio Miceli descreveu, com muita propriedade, como mais assemelhado a um enredo de filme  policial do que a um exercício profissional do mecenato (Miceli, 1993:47). De fato, ao chegar na  Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG , em 1965, foi recebido com a  explosão de uma bomba detonada por estudantes avisando-o para que mantivesse distância. Durante os cinco anos de permanência no Brasil  atuou em meio a essas bombas de intimidação, ameaças, provocações, perseguições aos beneficiários das doações, o que, no final acabou “contribuindo para a modelagem de  rotas próprias e arriscadas para a atuação  da Fundação no Brasil” (Miceli, 1993:47) na área das  ciências sociais. A primeira doação aprovada foi para a criação do Departamento de Ciência Política na Faculdade de Ciências Econômicas – FACE, apesar das bombas – seguidas das bolsas de estudo para professores desta escola estudarem ciência política nas principais universidades americanas.  Como se pode ver, abaixo, das 26 bolsas doadas nos primeiros anos, 16 eram da Faculdade de Ciências Economicas de UFMG.

Quadro 1

Science politique – Boursiers de la Fondation FORD (1966-1976)
(par pays, institution d’origine, et destination)

Institution de destination Institution d’origine
UFMG UFRG UFF PUC-RIO USP UnB UFRGS Total
Stanford – EUA 4 1 5
MIT- EUA 3 3
Berkeley- EUA 1 2 3
Harvard – EUA 2 1 3
Michigan – EUA 3

 

3
UCLA – EUA 2 2
Chicago – EUA 1 1
Vanderbilt – EUA 1 1
Cornell- EUA 1 1
Universités

européennes

2 1 3
Total 16 3 1 1 2 1 1 25

Source –Curriculo Lattes, Associaciacão Nacional dos Cientistas Políticos, informations d’entrevues.

 

A ciência política como disciplina ainda não havia sido introduzida nos cursos superiores brasileiros. E não havia ainda no país um sistema de bolsas de estudos institucionalizado e muito menos voltado para a área das ciências sociais. O sistema de bolsas de estudos no Brasil só foi institucionalizado após a reforma universitária de 1968.

Nesse contexto, como compreender as razões da escolha da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG feita em detrimento de outras instituições possíveis, entre diversas renomadas que funcionavam em centros intelectuais mais conhecidos e centrais, tanto no Rio de Janeiro como em  São Paulo – num momento político em que a Fundação Ford, no Brasil, era percebida como uma espécie de “instrumento do imperialismo americano” e os estudantes e professores que se aproximavam dela eram encarados como “abomináveis” (Miceli 1993; Reis, 2004)? O que levou os estudantes e professores de Minas Gerais a aceitarem  o auxílio da agência filantrópica e como eles se legitimaram perante os agentes da Fundação no Brasil?

O encontro com o curso de sociologia política na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG e seus professores bolsistas

A escolha da FACE veio de pontos internacionais comuns nos primeiros    contatos de Peter Bell no Brasil. Primeiramente, com Leonidas Xausa, um PhD em ciência política pela Universidade de Columbia[5] . Como se sabe, foi nessa universidade que Lazarsfeld desenvolveu as técnicas de sondagem, a ferramenta chave de toda pesquisa americana até os anos 1960.  Leonidas Xausa lhe apresentou  Octávio Cintra, um jovem professor do curso de Sociologia e Política da FACE,   ex-bolsista da ONU– FLACSO, localizada em Santiago, no Chile, onde se situavam  os escritórios  especializados das Nações Unidas na America Latina. Esses pontos itnernacionais comuns levaram Bell a conhecer o curso de sociologia que funcionava, diferentemente de todos os outros cursos de sociologia no Brasil, dentro de uma Faculdade de Economia.

Em meio a bombas de repúdio jogadas por estudantes, Bell encontrou nesta escola uma geração de sociólogos disciplinados, com uma formação sociológica internacional que selava a aliança  entre política e pesquisa social,  a começar com o empirismo das sondagens. No cursos de de Sociologia, davam um novo impulso às reflexoes sobre política no Brasil, com artigos publicados na Revista Brasileira de Estudos Políticos RBEP, divulgando temas novos no meio acadêmico , como natureza dos sistema de partidos e comportamento eleitoral, origem social dos dirigentes, etc. Única no gênero no Brasil da época, era a mais internacional das revistas de Ciências Sociais feitas no Brasil e foi a primeira a suscitar artigos empíricos orientados metodologicamente por surveys. Uma área de estudos que a própria Fundação Ford havia criado, em 1954, no Center for Advanced Studies in the Behavioral Sciences, em Stanford, e exportado para a Europa, com  fundos substanciais, por meio do Salzburg Seminar criado em Harvard.

O curso de sociologia e política havia sido criado dentro da FACE, em 1953, com vistas a pensar a modernização da administração pública do Estado de Minas Gerais (Arruda, 1989), quando Juscelino Kubitschek era governador do estado. Por essa razão,  foi anexado ao de Administração Pública. Sua constituição tinha a ver com as  estratégias políticas de formação de profissionais necessários no plano nacional, num momento em que os grandes progressos para o planejamento da economia nacional estavam em curso na Comissão Mista Brasil/Estados Unidos. Longe da realidade agrária da economia mineira, muitos professores do curso já procuravam  romper com a tradição ensaística dos estudos políticos brasileiros ligados ao direito constitucional e à economia política, orientando-se em proximidade com a ciência política elaborada nos Estados Unidos (Reis, 2004:17). Manter um curso de sociologia política acoplado ao de Administração Publica numa Faculdade de Economia era uma grande inovação e, pelo apoio dado a ele por banqueiros e políticos renomados (Paula, 2006:333; 2011), pode-se pensar no seu papel de  garantir a posição dos políticos mineiros junto às instituições do Estado Nacional. , Juscelino Kubitschek, por exemplo, que fora eleito presidente da República, em 1955, com um ambicioso plano de metas para eliminar os “pontos de estrangulamento” da economia brasileira, realizado  com base no diagnóstico da Comissão Mista , foi membro da direcao dessa Faculdade..

Dos 11 primeiros professores recrutados por Peter Bell para estudar ciência política nos Estados Unidos, no período 1966-1969, sete deles  foram selecionados deste curso por dois professores da universidade de Stanford, Frank Bonilla e Robert Packeman, onde se encontrava o Center for Advanced Studies in the Behavioral Sciences criado pela  Ford Foundation. Uma pesquisa (Canedo, 2009:41-42) identifica esses sete professores mineiros como possuindo um capital social relativamente modesto, a primeira geração a aceder aos estudos superiores na família e, sobretudo, sem qualquer laço de parentesco com a rede das grandes famílias políticas de Minas Gerais, que detinham as mais importantes posições governamentais, inclusive no nível nacional[6]. Ainda assim frequentaram escolas secundárias de primeira linha em Belo Horizonte e obtiveram  bolsas de estudos para se diplomarem na FACE, dentro de um programa criado por um professor da Universidade de Pittsburgh, Elwyn A. Mauck, enviado pelo Brazilian Board of Advisors on Public Administration para adaptar o curso aos conceitos dos estudos multidisciplinares que eram desenvolvidos nos Estados Unidos (United States. Foreign Operations Administration, 1954:20; Barros, 2013:112-118)[7]. O programa de bolsas foi implementado pela direção da Faculdade com apoio dos empresários e banqueiros mineiros(Barros, 2013:112-118). Foi o primeiro no gênero implantado no Brasil, baseado no mérito, dispondo de infraestrutura extraordinária em relação aos demais cursos similares no Brasil. Tinha por base a ideia de que, em ambiente continuado, os  graduandos da FACE, selecionados por concursos,  se  transformassem na massa inicial para uma pós-graduação sólida e competente, abrindo caminho para a capacitação e a reprodução do quadro docente (Canedo,2009).

O fato de terem conquistado bolsas de estudos por mérito em importantes instituições nacionais e internacionais e serem intelectuais reconhecidos na academia não apagava o fato de a sociologia não ser considerada um curso de prestígio para o mercado local. Além  do mais, a formação fora dos parâmetros dos mais influentes cursos de sociologia existentes nas universidades brasileiras indica a dificuldade para encontrar uma porta para atuação profissional fora da UFMG,  ou alcançar altos cargos na administração pública federal, que estavam preferencialmente abertos para os herdeiros das grandes famílias mineiras (Canedo, 2009). Esses herdeiros escolhiam a tradicional Faculdade de Direito, de maior prestígio para quem aspirava a altos postos políticos.

José Murilo de Carvalho, um desses ex-bolsistas, hoje membro da Academia Brasileira de Letras e autor de livros que contribuíram para a revisão total da história republicana brasileira,  explica,  em entrevista, esta situação e o  funcionamento prático da hierarquia universitária:

Eu não tinha perspectiva profissional. Para dar um exemplo, não me passava pela cabeça que um dia pudesse comprar um carro […].  O fenômeno era mais geral e transparecia nos bailes do Diretório Central dos Estudantes. Na dança, a distância entre moças e rapazes era definida a partir da resposta que se dava a uma pergunta inevitável que elas faziam logo que de início: “que curso você está fazendo?” Se a resposta fosse Sociologia Política, ou outro curso de pequeno prestígio, a distância entre os pares aumentava e daí a pouco elas se escusavam e voltavam às cadeiras à espera de melhor sorte. Quem quisesse se dar bem tinha que responder Engenharia, Medicina, Direito, ou Economia. Aí elas grudavam. (Paiva, 2010: 228)

Motivo pelo qual, muitos deles filiaram-se a grupos de esquerda, no início dos anos 1960, e foram profundamente afetados pela repressão política após o golpe de Estado de 1964. Como para a maioria dos brasileiros, o golpe os pegou de surpresa, “como o céu desabando sobre nossas cabeças […]. Vagávamos perdidos pelas ruas de Belo Horizonte, enquanto os alunos de direita circulavam armados, denunciando colegas e fazendo prisões” (Paiva, 2010: 228).

Nessa Faculdade de Ciências Econômicas, entre os que vagavam perdidos neste momento político especial, Peter Bell encontrou o terreno favorável a seus objetivos: não só o de constituir uma ciência rigorosa da sociedade, como o de também cultivar virtudes cívicas indispensáveis à construção de um mercado internacional da competência do Estado.  O apoio para a criação do Departamento de Ciência Política na UFMG  ajuda a entender a estratégia de longo prazo da Fundação: investir em algo novo, numa disciplina ainda inexistente no Brasil com forte apoio de uma universidade reconhecida. É o que explica o desinteresse manifestado por Bell à solicitação financeira da USAID para um projeto de estudos do Centro de Estudos e Pesquisas no Ensino do Direito – CEPED – visando a reforma no ensino jurídico:

As with housing, it can be easier to build from scratch than to restructure a pre-existing but outmoded building. Reforming legal education meant changing well-entrenched institutional practices and cultures—no easy task, as the Foundation and CEPED would discover. […]  I had some inkling of how difficult it might be for a small center–outside of any law school and without strong university support–to bring about the far-reaching reform of legal education; but in retrospect we failed to appreciate what a slow, uphill climb it would at best be (Bell, 2010:13).

A decisão de investir na FACE e nos seus professores, com forte suporte de uma universidade, em lugar de reformar o ensino jurídico com suas práticas e culturas institucionais, resultou em frutos de alta qualidade, compatível com o investimento feito de ambos os lados.

Com o contínuo apoio financeiro da Fundação Ford, criaram programas pioneiros de pós-graduação em política, tanto em Minas Gerais quanto no Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro – IUPERJ,  que foi localizado dentro de uma das mais antigas instituições privadas  de ensino superior do país (Faculdade Candido Mendes). Dentro do IUPEJ transformaram a revista Dados: Revista de Ciências Sociais, de nome bem significativo para a valorização do empirismo, numa revista internacional que, ainda, é uma referência na área.

 

O encontro com intelectuais expurgados da USP: a produção de conhecimento em ciências sociais como  vetor das  reformas de Estado

Também receptivos a desenvolver um projeto em conjunto com a Fundação Ford foram os intelectuais expurgados Universidade de São Paulo pelo Ato Institucional n. 5 (13 de dezembro de 1968). Neles Peter Bell encontrou o desejo e a expectativa de permanecerem produtivamente engajados no Brasil em atividades de pesquisa por meio da criação de um think tank independente, capaz de implementar novos métodos de trabalho científico para superar a compartimentalização do conhecimento, promover mudanças e influir na realidade.

Sob inspiração e liderança de Fernando Henrique Cardoso,  cinco desses professores afastados da universidade, oriundos de diversos campos do conhecimento – o filósofo José Arthur Giannotti, a demógrafa Elza Berquó, o sociólogo Candido Camargo Procópio, o economista Paul Singer e o cientista político Juarez Brandão Lopes – haviam se reunidos, seis meses depois do expurgo, para organizar o centro e  “criar as condições de continuidade de um pensamento livre nos anos da truculenta ditadura militar” (Montero, 2002). A rapidez do movimento indica que a ideia já vinha sendo desenvolvida há alguns anos (Sorj, 2001: 30-31).

Tal como os professores de Minas Gerais, esses paulistas tinham formação em universidades americanas (com exceção de Singer) e procuravam algo novo, diferenciado do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) – o mais influente think tank do país naquele momento – pois não tinham a  intenção  de se assumirem como porta vozes dos movimentos sociais e, menos ainda, criar um centro de pesquisas  formulador de doutrinas. Assim, na ata de fundação, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – CEBRAP foi  definido como uma sociedade civil, sem fins lucrativos, com objetivos de pesquisa, assistência técnica, consultoria, treinamento e ensino (Berquo, 2012).

Um projeto com esta ambição necessitava de respaldo político e financeiro, o que apresentava dificuldades. Além da falta de recursos, era  enorme a suspeita de “subversivos” em relação ao grupo. Seus integrantes mobilizaram inicialmente as relações sociais e políticas que mantinham com os setores liberais da elite (sobretudo paulista): entre os empresários – todos com forte orientação intelectual – destacam-se os nomes de José Mindlin, Celso Lafer, Oswaldo Gusmão, P. Farkas e, entre os políticos, Paulo Egídio, Severo Gomes, Dilson Funaro.

Tratava-se de “vínculos bastantes sofisticados tanto no nível dos indivíduos como no nível de relações com instituições”, de acordo com Frank Bonilha, consultor da Fundação Ford (Sorj, 2001:33), o que capacitava o grupo para uma solicitação de verba para a criação do centro. Bolivar Lamounier, umdos  mineiros da FACE que já havia sido tirado da prisao por peter Bell, desempenhou um papel de intermediário nas negociações.

Num discurso de agradecimento aos colegas do CEBRAP que o celebravam pelo premio Kluger, Fernando Henrique relata que Peter Bell “agiu incisivamente para convencer seus patrocinadores de que valia a pena dar algum recurso para uma organização como o CEBRAP, que nascia numa área cinzenta: não se sabia se seria aceito com legitimidade, ou se seria considerado uma organização subversiva” (Cardoso, 2002:199).

Pelo seu lado, Peter Bell continuava a receber ameaças. Desta vez, elas não vieram de estudantes e nem mesmo dos policiais que ele visitara numerosas vezes nas delegacias de policia para dar respaldo a professores presos. A ameaça veio do próprio representante da embaixada americana no Rio:

Ele começou me avisando: “Se você sabe o que é bom para a sua carreira, você irá desistir de obter a verba para o CEBRAP”. Eu disse a ele que nós trabalhamos muito na recomendação, revisamos com cuidado a proposta e os planos de Fernando Henrique e seus colegas, e estávamos convencidos de que atendia aos nossos parâmetros. Realmente, nós estávamos entusiasmados com aquela oportunidade […].  Ele respondeu marcando um encontro para mim no dia seguinte com um oficial da CIA. Ele chegou carregando uma pasta com memorandos e clippings de jornal. Eu examinei o material com ele: cada item simplesmente indicava que Fernando Henrique havia sido visto na presença de um “conhecido esquerdista”. Eu disse ao meu visitante que a pasta era tão somente sobre “culpado por associação” e que eu não havia visto nada que invalidasse nossa recomendação aos representantes da fundação. Eles de fato rapidamente aprovaram a doação. (Bell, 2012)

A disposição de Bell de apoiar o CEBRAP desencadeou uma intensa polêmica entre os intelectuais diante do significado político e mesmo moral que a aceitação do dinheiro dessa instituição poderia ter naquele momento, e das possíveis restrições de ordem intelectual que este tipo de vínculo poderia acarretar para os membros do Centro (Sorj, 2001:32).

Entretanto, foi a  doação que Bell aprovou  para a criação do CEBRAP (dois milhões duzentos e dezesseis dólares) que transformou o Centro numa referência na produção de conhecimentos de ponta nas diferentes ciências sociais, funcionando como fórum de debates sobre grandes  problemas nacionais e  não somente como meio para  transferência  de conceitos clássicos, como se fazia até então. Desta maneira, o Centro contribuiu para definir o papel social e político dos intelectuais, aproximando-os de públicos relativamente divergentes, como tecnocratas e reformadores modernistas, mas também  ideólogos da esquerda marxista e  apoiadores do movimento de 1964.

A Fundação amparou financeiramente o trabalhos do CEBRAP até 1976, quando a FINEP – Financiamento de Estudos e Projetos Científicos e Tecnológicos – vinculada ao Ministério do Planejamento, iniciou o processo de construção institucional das Ciências Sociais no Brasil,  iniciado pela Fundação Ford.

Boa parte dos fundadores do CEBRAP, assim como os primeiros beneficiários das doações da Fundação Ford em Minas Gerais,  fez parte do governo Fernando Henrique Cardoso, quando este foi eleito presidente da República em 1994, após a redemocratização do país.  Eles foram chamados pelo presidente a assumir o papel de principais assessores para as políticas de Estado inovadoras promovidas no período. Das reformas de que participaram sobressai a do sistema estatístico do IBGE, órgão que reúne os indicadores e as informações básicas para o governo e a população, responsável pela reorganização do impacto dos serviços sociais oferecidos pelo governo com educação básica e assistência à saúde e principalmente os benefícios da previdência social e o pagamento de pensões (Schwartzman, 2009). Foi o que possibilitou o impacto dos programas sociais públicos de redistribuição da renda implantados no período, em especial  no campo da política de enfrentamento da pobreza, lideradas por Vilmar Farias, relativas às instituições do sistema de proteção social: a elaboração da chamada “rede de proteção social do governo”, que pretendia combater a pobreza nas cidades com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Esse programa inaugurou no Brasil a política social de transferências monetárias a pessoas ou famílias de mais baixa renda, destinado a protegê-las nas distintas circunstâncias de risco e vulnerabilidade social. Os ex- beneficiários das dotações fizeram parte também da maioria dos conselhos criados, entre eles o de educação e política externa, e vários ministérios, como o da Saúde e o da Cultura, participando das reformas do Estado brasileiro, para transformá-lo em indutor do crescimento e regulamentador da economia. Enfim, essa equipe de governo foi produto de uma elite gerada por um modelo de Estado desenvolvido dentro do CEBRAP, que formou gerações de intelectuais, cientistas e técnicos de primeira grandeza. .

Ao completar seus quarenta anos em 2011, o CEBRAP contava com algo em torno de 68 pesquisadores entre sêniores, plenos e assistentes.  A criação e a consolidação de programas de pós-graduação nas universidades trouxe novas gerações ao Centro, mas como a maioria dos fundadores, estas novas gerações  também foram formadas, na sua maioria,  nos centros de pós-graduação em ciência política dos Estados Unidos, continuando a trazer de lá os novos instrumentais analíticos para enfrentar os debates mais contemporâneos sobre democracia, Estado, partidos políticos e eleições

A criação da ANPOCS: agregar os pesquisadores numa comunidade internacional

Peter Bel deixou o Brasil no final de 1969. As doações que aprovou cumpriram os objetivos da Fundação Ford, inscritos no famoso Relatório Gaither de 1950: ajustamento das atividades acadêmicas ao trabalho de militância política democrática no modelo americano, com vistas ao fortalecimento e treinamento de elites políticas para quadros executivos nacionais e internacionais, e “tomando as áreas subdesenvolvidas do mundo como foco especial” (Gaither, 1950: 52-61).  Em 1970, instituições de pesquisa em ciências sociais apoiadas pela Fundação (o Departamento de Ciência Política de Minas Gerais, o IUPERJ e o CEBRAP, bem como o programa de pós-graduação em antropologia social do Museu Nacional) já estavam funcionando bem, transformando-se em estruturas com futuro no panorama brasileiro. Mas moviam-se de forma isolada, sem discussão dos problemas de ensino e de pesquisa dos pós-graduados nas Ciências Sociais, cujos programas cresciam ano a ano como resultado da reforma universitária de 1968 (Canedo e Garcia, 2011)

A necessidade de agregar os pesquisadores numa comunidade nacional surgiu, naturalmente, dos centros privados, CEBRAP e IUPERJ, criados dentro da linha de atuação da Fundação Ford, e tomou corpo em 1978 por ocasião da criação da ANPOCS – Associação Nacional de Pós graduação em Ciências sociais (ver em anexo os primeiros documentos ligados à criação da ANPOCS com endereço do IUPERJ).

A primeira discussão sobre o assunto aconteceu durante o Seminário sobre Indicadores Sociais do Desenvolvimento Nacional na América Latina, organizado no IUPERJ, em maio de 1972, no Rio de Janeiro. Mas o esboço da redação da minuta da futura associação foi escrito por um funcionário da FINEP, Mario Brockmann Machado, ele próprio um ex-bolsista da Fundação, e distribuído no 1º Encontro Nacional de Coordenadores de Programas de Pós-graduação em Ciências Sociais, realizado no ano seguinte, em Fortaleza, o que o levou a dizer que a ANPOCS, fundada em 1978,  não foi somente um caudatário das ações dos program officers da Fundação (Machado, 1993:103).

Menos do que a dotação aprovada para a ANPOCS, o segredo da missão de exportação de conhecimentos da Fundação Ford, levada a efeito pelos seus program officers, notadamente Peter Bell, situa-se no fato deles terem sabido perceber, em cada momento histórico, qual deveria ser a prioridade, fazendo valer, antes de tudo a capacidade operacional já existente. Assim, no caso da ANPOCS, souberam exercer uma influência grande na percepção dos professores da pós-graduação no que dizia respeito à importância da ANPOCS para a divulgação de virtudes cívicas na prática do trabalho de equipe capazes de lhes assegurar o acesso à produção internacional por meio de exigências quanto à literatura sobre o tema, hipóteses orientadoras, natureza dos dados a serem coletados etc. (ANPOCS, 1991).

E essa foi a tarefa dos membros do Comitê Assessor em Ciências Sociais, organizado por Shepard Forman, para julgar auxílio à pesquisa, financiado pela Fundação nas áreas de Sociologia, Ciência Política e Antropologia. Neste concurso FORD/ANPOCS, o funcionamento do comitê levava em conta o mérito, com normas publicamente orientadas (ANPOCS, 1991). Seus membros eram escolhidos “aos olhos de pesquisadores que regularmente se encontram, discutem e formam opinião (nos GTs, nos Encontros e nas Assembleias) ”, o que  influía nos próprios parâmetros do concurso (Brandão, 1993:160-162)[8].

Membros do Comitê Assessor em Ciências Sociais (criado pela Fundação Ford) que deu origem à ANPOCS, em 1978. Da esquerda para a direita, Shepard Forman e Priscila (representante e secretária da Fundação), Otávio Velho, Sílvio Maranhão, José Murilo de Carvalho, Fábio Wanderley Reis, Klass Wortman, Ruth Cardoso e Juarez Brandão Lopes. Agachado, Boris Fausto. (foto: arquivo pessoal ) . Fonte:  Revista Ciência Hoje, 2013.. 

<http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2013/301/imagens/pensadordobrasil02.jpg/view&gt;

Para Juarez Brandão Lopes, as normas de garantia de impessoalidade, isenção do julgamento pela defesa das notas em discussão com os pares, criadas para o Comitê, foram aspectos que deram legitimidade à comissão do concurso administrado pela Fundação. Ele levava em conta o fato de que nos comitês assessores das financiadoras governamentais os julgadores são pareceristas que não se encontram e que são escolhidos pelo grupo interno dos altos funcionários. Assim, mesmo quando a Fundação Ford decidiu passar a administração do concurso de auxílio à pesquisa para a própria ANPOCS, as normas continuaram a existir.   Por meio do auxílio à pesquisa foi também assegurado o acesso a produção internacional, garantidas pelas normas do edital para o projeto de pesquisa.

José Murilo de Carvalho, presente na fotografia acima, comenta em entrevista dada a estudantes de ciências sociais que “quem opta por fazer Ciências Sociais hoje, candidata-se a fazer parte dessa comunidade sólida e pujante, que já conversa de igual para igual com os interlocutores externos e começa a fazer parte relevante de uma comunidade internacional”.  (2012)

Paro por aqui, esperando que com esse caso possa ter contribuído para uma discussão sobre a exportação e importação de conhecimentos, um fenômeno de difícil medição, inscrito em estratégias de jogo duplo, com resultados nada triviais no campo científico e na área social e política (Dezalay). Resultados que se manifestam com intervalos e reajustes institucionais que confirmam episódios mais ou menos longos de afrontamentos, tão sensíveis e controversos como aqueles revelados durante o apoio dado pela Fundação Ford à institucionalização das ciências sociais no Brasil.

Referências

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Quadro 3.- Major Ford Foundation endowments in favor of social sciences in Brazil, initiating in the years 1967 -1979

Início e  encerramento dos convênios Posição Instituições Disciplinas prioritárias Montante das dotações em US$
1969-1987 Cebrap – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – São Paulo (única instituição Política a receber endowment de US$ 750.000 em 1975 Economia, Demografia, Sociologia e Ciência Política 1.721.200
1967-1989 Iuperj – Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro Ciência Política e Sociologia 1.671.323
1968-1989 Museu Nacional/UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro Antropologia 1.283.496
1979-1989 Cedec – Centro de Estudos de Cultura Contemporânea – São Paulo Ciência Política e Sociologia 1.097.079
1978-1989 Anpocs – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais Antropologia, Sociologia e Ciência Política 922.032
1966-1984 UFMG/DCP – Universidade Federal de MinasGerais/ Departamento de Ciência Política Ciência Política 860.477
1982-1990 Fundação Carlos Chagas/São Paulo Estudos sobre mulheres 585.200
1970-1984 UFP/Pimes – Universidade Federal de Pernambuco /Programa Integrado, Mestrado em Economia e Sociologia Mestrado em Economia e Sociologia 538.782
1972-1988 UnB – Universidade Nacional de Brasília Antropologia 436.315
1967-1975 10º UFRGS/Universidade Federal do Rio Grande do Sul Ciência Política 422.311
1973-1983   Total para instituições   9.538.215  (71%)
Concursos de bolsas   1.558.145  (12%)
Demais dotações   2.296.749  (17%)
Total geral/dotações Ford   13.393.109 (100%)

Source: Ford Foundation, New York, 1988, reproduce from Miceli (1990, p. 72).

NOTAS

[1]. Fazer a relação com a criação do ITDT, em 1963,  nas palavras de Enrique Oteiza (director del Instituto): “es imperioso conocer la naturaleza de nuestros problemas y ensayar auténticas soluciones a los mismos”.

[2] O caso que exponho faz parte de uma pesquisa maior sobre a sociohistória da vida política brasileira, voltada para a observação sistemática dos usos, dos comportamentos e das representações dos atores políticos e sociais, procurando compreender, de um lado, como os indivíduos interiorizam e incorporam maneiras de pensar e agir e, de outro, que uso fazem disso em suas práticas dentro das instituições. O trabalho resulta de dois projetos temáticos conduzidos pela mesma equipe de pesquisadores ligados a universidades brasileiras, francesas e argentinas. O primeiro temático foi patrocinado por um dos acordos Brasil/França – CAPES/COFECUB – e tratou dos itinerários intelectuais dos estudantes brasileiros que se dirigiram ao exterior na busca de formação doutoral. O segundo foi financiado pela FAPESP e identificou os recursos sociais empregados pelos que vão estudar no exterior, bem como as vias internacionais percorridas por eles para rentabilizar o diploma obtido e se inserir nas transformações em curso no domínio do poder em escala globalizada.

[3] Formada no âmbito do Ministério da Fazenda, e integrada por técnicos brasileiros e norte-americanos, a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico fazia parte do plano norte-americano de assistência técnica para a América Latina, contido no Ponto IV do Programa que norteou a política externa dos Estados Unidos após a II Guerra Mundial. A finalidade era “promover o desenvolvimento econômico do Brasil, tendo em vista, particularmente, a formulação de planos de investimento destinados a vencer as deficiências em transporte e energia”. Quarenta e um minuciosos projetos foram elaborados. Além disso, a Comissão preparou um Relatório Geral em que são examinadas as tendências a longo prazo da economia brasileira. O Relatório pode ser lido em:  <http://www.centrocelsofurtado.org.br/arquivos/image/201109231638540.MD2_0_277_1.pdf>

[4] Disponível em: <http://alumninet.yale.edu/classes/yc1962/pbell0804-2.html&gt;

[5] – Tratava-se de Leonidas Xausa era professor catedrático da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).Devo a Helgio Trindade esta informação (Trindade, 2004).

[6] O Estado de Minas Gerais é conhecido por ser um viveiro de políticos de envergadura nacional. Biografias, entrevistas e crônicas literárias são algumas das fontes comumente utilizadas pelos historiadores para funcionar como princípio de avaliação do poder da elite política mineira durante o Império (1822-1889) e, em especial, sob a República: seis presidentes da República, numerosos ministros (entre os das pastas mais importantes), oito vice-presidentes da República, uma forte representação nas principais comissões de finanças e de justiça no Congresso Nacional, e as principais funções em todos os ministérios. Desde o início da Nova República, nos anos 1980, a formação política de três presidentes sobre cinco foi realizada em Minas Gerais (Canedo, 1998).

[7] Foi esta experiência que Elwyn A. Mauck levou, posteriormente,  como base para a criação de Departamentos de Administração Pública  na Nigéria, Taiwan, Coréia e na Turquia (Pittsburgh Univ. 1968:VIII).

[8]No ano de 1983, o Informe ANPOCS traz a lista completa das 38 dotações aprovadas pela Fundação para projeto de pesquisa, com nome dos aprovados, com títulos de projetos mostrando grande diversidade, e concentração de pesquisados na UFRJ, PUC/Rio, USP e UFRGS.

Um capital político multiplicado no trabalho genealógico

Publicado em: Revista Pós Ciências Sociais. v. 8 n. 15 São Luis/MA, 2011

RESUMO

Utilizando arquivos privados e entrevistas como suporte da discussão, este artigo analisa uma genealogia, publicada em 1970, que retraça, seletivamente, uma longa história de famílias de Minas Gerais que controlaram recursos políticos ligados aos postos da administração do Estado, desde o Império, passando pela República e por ditaduras, até os anos 1960. Examinando as formas escolhidas pelo autor para construir a genealogia  – em especial a escolha de uma mulher (e não de um casal) para a origem de uma família que agrupa pessoas dispersas em muitas linhagens masculinas, e que não poderiam ser ligadas de outra forma – e , ao mesmo tempo, estudando minuciosamente as alianças matrimoniais cumulativas, o estudo dessa genealogia dá uma visão do que permitiu a estas famílias, durante mais de cento e cinquenta anos, disputar com sucesso num campo de forças tão instável como a política. Dessa maneira, o artigo vai além do estudo genealógico propriamente dito, permitindo compreender o que assegura a determinados grupos a força necessária para agir, com êxito, nas transformações do espaço político.

Palavras-chave: Genealogia como instrumento político. Alianças matrimoniais. Famílias de políticos. Controle de recursos políticos. Acumulação de capital político e social. Produção simbólica.

ABSTRACT

Using private archives and interviews to give support to the discussion, this paper analyses a genealogy book, published in 1970, which presents the account of kinship of several families from the State of Minas Gerais whose members participated actively in politics and government administration from the independence of Brazil up until the 1960s. By examining the choices of the author on building the genealogy – in particular the choice of a woman as the origin of the family in order to embrace many male lines that wouldn’t be connected otherwise – and studying the cumulative marriage alliances, the review of this genealogy helps to unfold this family history, over more than 150 years, observing what enabled all those different lineages to act successfully on a power field as instable as this of politics. Thereby, the paper goes beyond the mere genealogical review, by allowing the reader to understand what ensures certain groups the necessary strength to succeed despite the transformations of the political space.

Keywords: Genealogy. Marriage alliances. Political family. Command of political resources. Accumulation of political and social capital. Political means.

Artigo completo aqui.

Escola versus cultura?

Publicado em:  Educação e Pesquisa. vol.35 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2009

RESUMO

Originariamente uma aula magna proferida num concurso para professor titular, o artigo reúne instrumentos para uma reflexão sobre a relação entre escola e cultura, tendo em vista a coincidência que se costuma estabelecer entre a instituição escolar e a cultura. Essa coincidência, à priori impossível, realiza-se na prática, ainda que seja contestada, pois como a história registra, ela é feita com o uso de recursos de grande brutalidade. Primeiramente discute-se como a cultura (definida como o conjunto de atividades que fornece descrições do mundo por meio da “livre expressão”) é vivida na prática da instituição escolar. Em seguida, são mostradas as fórmulas políticas que escondem a relação de força por trás da obra da institucionalização da escola, a qual, fundando-se na premissa de que só ela é eficiente para educar os indivíduos, vem se apresentando como solução duradoura para o dilema. Procura-se demonstrar que o dilema da coincidência entre escola e cultura existe porque fórmulas sedutoras conseguem esconder o segredo de uma lógica que repousa nas relações de força existentes na obra de construção do Estado Nacional da qual nós, assim como a escola, somos produto. Nesse contexto, a análise da relação escola versus cultura é feita em analogia com a que vincula Estado versus nação.

Palavras-chave: Escola – Cultura – Estado – Nação – Sóciohistória.


 

 

Originariamente uma aula magna proferida num concurso para professor titular na disciplina Escola e Cultura, este artigo visa reunir instrumentos para uma reflexão sobre o título da disciplina. Está centrado no dilema proposto por muitos programas de várias faculdades de educação no país que, nos seus enunciados, sugerem uma coincidência, à priori impossível, entre a instituição escolar e a cultura. Ora, escola e cultura se relacionam, mas seguramente não são coincidentes. Entretanto, tal coincidência se realiza na prática, ainda que seja frequentemente contestada.

Procurarei examinar esse dilema a partir de dois pontos. Primeiramente o sentido que os sociohistoriadores1dão à palavra cultura e a relação existente entre esse termo e o que é vivenciado, de forma prática, na escola. Em seguida, procurarei mostrar as fórmulas políticas que escondem a relação de força por trás da obra de construção do Estado e a consequente institucionalização da escola, a qual, com base nas ideias da eficácia da instituição escolar, como forma de se educar as pessoas, vem se apresentando como solução duradoura para o dilema.

Sob o termo cultura, os sociohistoriadores englobam todas as atividades que têm por base fornecer novas descrições do mundo, e estas se apresentam sob formas extremamente variadas. O sociohistoriador francês Gérard Noiriel (2006) propõe, sumariamente, agrupá-las em dois conjuntos: o primeiro é organizado em torno das questões de “verdade”, do qual fazem parte os jornalistas e os pesquisadores que têm por função a produção de informações ou fatos apresentados como verdadeiros. O segundo conjunto reúne o mundo das artes e do espetáculo, isto é, as atividades voltadas para a criação e o divertimento. O ponto de ligação entre os indivíduos que fazem parte desses meios culturais é a defesa da “livre expressão” em oposição às leis de mercado e ao Estado. Nesse caso, a cultura é definida como o conjunto dos discursos e das práticas que tentam escapar das duas principais formas de empecilho (econômicas e políticas) para a livre expressão e que são reinantes no mundo de hoje. Não à toa, Pierre Bourdieu fez da cultura um lugar privilegiado para observar o funcionamento do poder simbólico.

Os sociohistoriadores compreendem os diferentes domínios da vida cultural como configurações interligando os atores (escritores, artistas etc.) que concorrem para captar os favores do que denominam “público”. Esse termo foi escolhido para mostrar que enquanto a esfera econômica tem a empresa como centro de atividades e a esfera política tem o partido político, a cultura tem o público como seu centro de energia. Com isso, dão relevo aos tipos de relação que caracterizam os agrupamentos culturais. Daniel Roche (1998) e Roger Chartier (1992) estudaram assim as relações existentes entre os que escrevem e os que leem, ou seja, o público, graças à mediação do texto impresso.

Antoine Hennion (1993) estudou a paixão pela música por meio da mediação de uma série de objetos e de operações efetuadas pelos atores sociais que vão permitir a apreciação da música. Para ele, a música vive graças aos homens que a animam e desempenham um papel de intermediários na relação entre a música e o público. Marco Aurélio de Lima (2007), no seu trabalho de tese sobre bandas estudantis, mostra exatamente isso: a teia que interliga o maestro de bandas, o mecenas, o produtor dos concursos de bandas, o editor da editora de partituras Irmãos Vitale, o proprietário da Cesar Sons que fabrica os instrumentos musicais, os administradores de bandas estudantis, entre outros, visando colocar a banda na praça pública. Considera ainda os objetos de intermediação: o instrumento, a partitura, o disco, o aparelho de som, o computador etc.

Ora, essas formas de interdependência convivem mal dentro das fronteiras da escola, que costuma ser considerada o lugar da transmissão dessas descrições do mundo produzidas e criadas nos diferentes domínios da vida cultural. No dizer de Bernard Lahire (1993), um dos sociólogos da educação bem conhecido no momento, o modo de transmissão da cultura não se dissocia da natureza escrita dos conhecimentos. Trata-se, portanto, de fazer com que, na escola, os alunos interiorizem

[…] os conhecimentos que conquistaram sua coerência na e pela escrita […]. Uma pedagogia do desenho, da música, da atividade física, da atividade literária, da dança etc… não se faz sem uma escrita do desenho, uma escrita musical, uma escrita esportiva, uma escrita militar, uma escrita da dança. São escritas que implicam, o mais das vezes, gramáticas, teorias, práticas. (p. 30)

Um dos efeitos dessa transmissão escrita pode ser acompanhado na dissertação de Ana Roseli dos Santos (2008) sobre o aprendizado musical; no texto de Lia Braga Vieira (2001) sobre o ensino musical; e no livro Hennion (1988): tudo ocorre nas aulas de música como se o que está codificado no papel fosse realmente o som musical, evidenciando a abstração do código em relação ao som e a autonomia das regras em relação à música.

Esse modo de transmitir os conhecimentos associados à escrita encaminha para as descobertas do antropólogo britânico Jack Goody (1987), ligadas a essa espécie de “razão gráfica” que habita o âmago da cultura escrita desde que aparece e se dissemina. Com bastante coerência e originalidade, ele dá a entender, desde o seu primeiro livro publicado nos anos 1960, que a tentativa de colocar uma cultura em forma escrita é um processo de objetivação que permite, àquele que escreve, selecionar, nos fluxos multiformes das atividades humanas, os elementos que interessam. Esses elementos acabam por se impor como evidências ou verdades primeiras e assim serem transportados no espaço e no tempo. É para esse aspecto que Gérard Noiriel (2006) chama a atenção quando ajunta o fato de que, longe de obedecer a um puro desejo de conhecimento, a escrita se desenvolve por razões práticas, frequentemente, de ordem econômica ou política. É o caso, por exemplo, do progresso da Cartografia durante a época colonial, que resultou dos esforços empregados pelos europeus para balizar itinerários, identificar lugares, assinalar riqueza, visando concentrar forças militares que permitiram subjugar populações locais e as espoliar. O caso da literatura colonial procurando justificar a dominação europeia também é emblemático. É a partir dessa premissa que os sociohistoriadores ficam atentos para as várias consequências trazidas pela escrita na tentativa de descrever o mundo.

Voltando a Jack Goody, em entrevista a Peter Burke e Maria Lúcia Pallares-Burke (2004), o autor explanou como escritas diferentes podem significar coisas muito diferentes. Segundo ele, na Libéria, por exemplo, existe uma escrita arábica para os versos religiosos, uma escrita inglesa na escola e a escrita da língua nativa Vai, que foi inventada em 1819.

O que era particularmente interessante era a facilidade com que a escrita na primeira língua [o Vai] era ensinada. Ela era ensinada informalmente, e tanto quanto eu saiba, o único lugar em que ocorria dessa maneira. A escrita parece se converter facilmente em sistemas de ensino, onde quer que você esteja, seja na China, na Índia, ou num país islâmico. As pessoas criam sistemas escolares, mas os Vai prescindiam dele. Quando chegavam na idade em que queriam comunicar-se ou escrever em Vai, iam até um tio, ou até qualquer pessoa, e diziam ‘poderia me ensinar a escrever isto?’ E tudo acontecia muito facilmente. Mike Cole e eu estávamos especialmente interessados em tudo isso, porque naquela época estávamos tentando imaginar como lidar com a aversão à aprendizagem da leitura e escrita que encontrávamos em algumas escolas do mundo ocidental. E argumentávamos que valeria a pena experimentar um sistema no qual as pessoas passassem a escrever em diferentes idades, isto é, que não todas começassem a escrever com a mesma idade. Dessa maneira, tornaríamos a aprendizagem da escrita um ato mais voluntário. (p. 338)

No entanto, isso, como se sabe, desde a institucionalização da escola no mundo ocidental no século XIX, tornou-se praticamente impossível. A escola substituiu a aprendizagem como meio de educação, o que se tornou possível, como demonstrou Ariès (1981), desde que a criança, a partir do século XVI, deixou de ser misturada aos adultos e de aprender a vida diretamente por meio do contato com eles. Retirada do mundo dos adultos, passou a conhecer um longo processo de enclausuramento, a qual se dá nome de escolarização.

Dessa maneira, diferentemente do que acontece no mundo da cultura no espaço escolar, a descrição do mundo é feita distintamente das práticas do mundo social, isto é, do espaço, do tempo e da vida social, pois tem como objetivo travar identificações prematuras com um grupo social. Aprender a ler, a escrever e a armazenar conhecimentos dentro do espaço escolar acontece numa situação que separa o ensino das operações nas quais se está investindo, de modo tal que ele só serve para aprender sem outro fim diferente dele mesmo. Fora do jogo social imediato, tal modo de ensino contribui para formar uma individualidade abstrata e capaz de abstração, de aprender de maneira diferente da prática (Queiroz, 1995). No entanto, de outro lado, importa sublinhar que como a elaboração das “descrições do mundo” a serem introduzidas na escola advém de uma construção sociohistórica ou ainda, para retomar o conceito de Bourdieu, de um “arbitrário cultural”, porque submetido a imperativos morais, políticos ou econômicos, ela necessita de um trabalho técnico – a transposição didática – para ser acessível, compreendida e assimilável. É o que se entende hoje pelo nome de cultura escolar e que o historiador Dominique Julia (2001) descreve como

[…] um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que podem variar segundo as épocas (finalidades religiosas, sociopolíticas ou simplesmente de socialização). (p. 10)

A Cultura é, portanto, transmitida pela escola, mas de forma muito diferente da forma como foi produzida e com finalidades também muito diferentes. No total, o que a escola realiza é a tentativa de comunicar a todos a ideia da cultura, da ciência, do conhecimento objetivo e, principalmente, de uma razão universal, visando construir o indivíduo das sociedades modernas, cuja característica é a capacidade de abstração, de distanciar-se: a pessoa moderna é reflexiva. É o que dificulta aos alunos de meios populares, saídos de um modo de socialização prático com forte predomínio da oralidade, a adaptação ao texto escolar. E o que leva Bourdieu (2003) a escrever que

[…] a liberdade de se libertar das restrições escolares pertence apenas àqueles que assimilaram suficientemente a cultura escolar para interiorizar a atitude autônoma em relação a esta cultura, ensinada por uma Escola tão profundamente impregnada pelos valores das culturas dos grupos dominantes que ela retoma, por sua conta, a desvalorização mundana das práticas escolares. A oposição escolar entre cultura canônica, estereotipada, por um lado, e, por outro, cultura autêntica, libertada dos discursos escolares, só tem sentido para uma ínfima minoria de homens cultos, porque a plena posse da cultura escolar é a condição da superação da cultura da Escola em direção à cultura livre – ou seja – libertada de suas origens escolares. (p. 93)

Enfim, o que quero dizer é que cultura e escola se relacionam, mas seguramente não são coincidentes.

Entretanto, tal como acontece quando se pensa na relação entre Estado e nação, essa coincidência se realiza no dia a dia, apesar de uma nítida ausência de evidência dela. Por exemplo, a fixação das fronteiras de um Estado não transcreve de maneira satisfatória a existência de uma nação e do seu direito à autonomia: todo “princípio das nacionalidades”, como bem o demonstra Anne-Marie Thiesse (1999), é uma fórmula de ética política que esconde as relações de força econômicas e militares em ação durante a formação dos Estados. E como a história registra, ela é escondida ao preço de um gigantesco trabalho, teórico e prático, que é reinterpretado em termos nacionais quando incluído nas fronteiras do Estado. Lembro aqui os recursos angustiantes empregados no período da descolonização para a fixação de fronteiras dos vários Estados da África, ocasião em que se procurou deslocar os equilíbrios tradicionais por razões impostas pelo nacionalismo. Lembro também os recentes deslocamentos maciços de população vividos nos episódios da “limpeza étnica” na antiga Iugoslávia. Em todos os casos, a “nacionalização” do Estado foi conduzida por políticas que aliaram, de acordo com a relação de força e as épocas, coerção e inculcação do sentimento de pertencimento em populações muito diferentes sobre o plano linguístico, religioso, histórico. Nesse dispositivo, como se sabe, a escola dos Estados nacionais constituiu uma peça mestra na imposição de uma mesma língua nacional, uma história, uma geografia, um sistema de ensino unificado etc., contribuindo para construir o que é designado como identidade nacional na inculcação dos fundamentos de uma verdadeira “religião cívica” e, mais precisamente, os pressupostos fundamentais da imagem (nacional) de si (Bourdieu, 1994). Não há aí a negação da diversidade, mas a sua integração realizada de uma maneira que hierarquiza: tudo que está situado no território do Estado resulta da nação, e toda particularidade local é um componente do conjunto. A diversidade, no caso, não é contradição da unidade: é a sua riqueza e deve ser traduzida de maneira harmoniosa. Os subconjuntos que impedem a representação da harmonia são ocultados (Thiesse,1999) sob a aparência do universal que fundamenta, também no caso brasileiro, a visão brutalmente integradora dos ideais republicanos. Tendo em vista o fato de que a universalização das exigências assim instituídas não se acompanha da universalização do acesso aos meios de as satisfazer, ela favorece ao mesmo tempo a monopolização do universal por alguns e a privação de todos os outros da especificidade de sua humanidade.

Nesses termos, penso nos efeitos da tentativa de fazer coincidir o conhecimento da população de alunos das periferias mais pobres, cada vez mais numerosa, com o ponto de vista cultural exigido pelos padrões de excelência do sistema escolar dos Estados nacionais que têm por base a escrita e a abstração. A brutalidade psicológica para fazer essa coincidência se realizar em termos harmoniosos tem levado, como a imprensa traz correntemente para suas manchetes, muitos adolescentes a rupturas violentas com a ordem escolar e social, a fim de restaurarem sua identidade cultural ameaçada. Lembro aqui o tráfico de drogas, a depredação das escolas, as agressões físicas a professores e colegas (O Estado de São Paulo, 16/11/2008), o caso de Columbine nos Estados Unidos. O filme, dirigido por João Jardim, Pro dia nascer feliz (2006) retrata de forma pungente essa brutalidade psicológica: no relato anônimo de uma adolescente que conta como matou a facadas uma colega de escola: “ela ainda demorou dez minutos para morrer. Sou menor, três anos na Febem passam rápido”; no caso do menino de Duque de Caxias que está na fronteira da marginalidade e não disfarça o orgulho que sentiu quando foi a um baile funk armado, mas que também sente o mesmo orgulho ao se apresentar num grupo de percussão do colégio; na história da menina que se sente rejeitada na escola; ou naquela da professora que é, no sentido figurado, violentada pelos estudantes. Enfim, as histórias do filme mostram o comportamento de adolescentes dentro da escola, não apenas em relação ao professor, mas também em relação aos colegas e a esse momento intenso do medo frente ao presente e a falta de perspectiva no futuro, o qual eles tentam extravasar – ora se mostrando violentos, ora deprimidos – no ambiente claustrofóbico da escola.

Assim, se esse dilema da coincidência entre Estado/nação e escola/cultura existe, é porque nele há uma solução de eficácia duradoura. Considerando, por exemplo, que estar dentro das fronteiras de um Estado não indica verdadeiramente o pertencimento à nação, torna-se difícil pensar o termo nação – como ficou fixado nos fins do século XIX – fora de uma tensão que opõe, ao mesmo tempo, uma definição subjetiva, isto é, político-cultural, e uma definição objetiva, ou seja, jurídico-administrativa. Esse embaralhado de conceitos pode ser visto no trabalho de Gomes (2004) sobre os refugiados políticos angolanos.

A confusão do pertencimento ao Estado com o pertencimento à nação, de acordo com Gérard Noiriel (2001), existe porque favorece os empreendimentos de dominação política. Da mesma maneira, pode-se dizer que o padrão cultural fixado nas fronteiras da escola existe porque favorece os empreendimentos de dominação das elites do Estado. Nessa situação, a escola permanece sendo o único local considerado legítimo para o acesso à cultura. Escola e cultura, Estado e nação vivem, assim, dentro da mesma tensão que, no século XIX, opôs cultura erudita e cultura popular, cultura dos intelectuais e cultura dos manuais, cultura dos colonizadores e cultura dos colonizados etc.

Christophe Charle (1987; 1990), nos seus dois livros sobre as elites republicanas e sobre o nascimento dos intelectuais, estuda essa tensão como resultado da ação das novas categorias sociais (profissões liberais, profissões econômicas, profissões intelectuais), com recursos diferentes daqueles dos membros da nobreza ou da Igreja, os quais, no momento em que foi fixado o poder do Estado leigo, passaram a reclamar uma nova distribuição de postos de autoridade fundada no volume do capital escolar. Quando no poder, essas categorias se preocuparam, para garanti-lo, em tomar o controle das instâncias de produção da memória e da cultura nacional.

No caso específico do Brasil, o trabalho de Sérgio Miceli (1979) sobre os intelectuais, publicado dez anos antes do de Charle, retraça essas mesmas estratégias. Os intelectuais lutaram para alcançar posições criadas nos setores público e privado do mercado de postos durante o período Getúlio Vargas, isto é, durante o processo de nacionalização do Estado brasileiro. O trabalho de construção da ideia de nação no período e sua definição em termos jurídico-administrativo esteve ancorado na abertura, entre outros, do Ministério da Educação e Saúde Pública, do Conselho de Imigração e Colonização, Departamento de Imprensa e Propaganda e das leis orgânicas do Ensino, que contribuíram para redefinir os canais de acesso e influência no poder político central.

A valorização da escola e, por meio dela, a do capital escolar não deixou de ser, em ambos os casos, a maneira encontrada para se valorizar propriedades sociais das novas categorias sociais emergentes no campo do poder. Na França, que escutou o célebre discurso de Jules Ferry pronunciado na Sala Molière, em Paris, em 1870, a luta entre dois modos de produção das elites, meritocrática ou tradicional, condicionou os termos do debate que opunha os defensores do ensino leigo, igual para todos, a advogados do ensino confessional. Por essa razão, entre outras, a escola esteve no coração das preocupações dos republicanos. Isto é, ela foi um dos instrumentos mais importantes de legitimação da posição dominante das novas elites do século XIX europeu e meados do século XX no Brasil. E é ainda por meio dela que os grupos dirigentes continuam a utilizar os recursos do Estado para fazer valer uma representação de ordem social que justifica e mantém uma situação privilegiada. Situação essa realizada ao preço de um gigantesco trabalho teórico e prático, no qual os formuladores de políticas públicas agem de maneira competitiva pelo monopólio das vantagens materiais e simbólicas derivadas do campo estatal, ajustando suas contradições nas reformas que procuram solução para crises no sistema de ensino.

O fato é que o dilema da coincidência entre Escola e Cultura existe porque fórmulas sedutoras conseguem esconder o segredo de uma lógica que repousa nas relações de força existentes na obra de construção do Estado Nacional da qual nós, assim como a escola, somos produto.

Parafraseando Bourdieu (1993), um dos poderes principais do Estado é o de produzir e impor, especialmente por meio da escola, as categorias de pensamento que utilizamos espontaneamente a todas as coisas do mundo e ao próprio Estado. Vem daí a sedução exercida pelas representações do Estado e a dificuldade para pensá-lo. É o que o levou a modificar a célebre fórmula de Max Weber: “o Estado é uma comunidade humana que reivindica com sucesso o monopólio do uso legítimo da violência física em um território determinado”. Para Bourdieu (1993),

[…] o Estado é uma comunidade X (a ser determinada) que reivindica com sucesso o monopólio do uso legítimo da violência física e simbólica em um território determinado e sobre o conjunto da população correspondente. (p. 107)

O Estado, portanto, nessa definição, é resultado de um processo de concentração de diferentes tipos de capital: capital de força física, econômico, cultural – ou melhor, de informação – e simbólico. A concentração dos diferentes tipos de capital leva de fato à emergência de um capital específico, propriamente estatal, que permite ao Estado exercer um poder sobre os diversos campos e sobre as diferentes espécies de capital, em especial sobre o valor dado a elas (e ao mesmo tempo sobre as relações de força entre seus detentores).

Ainda que as diferentes dimensões desses processos de concentração (forças armadas, leis) sejam interdependentes por exigência da exposição do tema, detenho-me aqui no exame da contribuição do Estado para a unificação do mercado cultural ao unificar todos os códigos – jurídicos, linguísticos, métrico – e realizar a homogeneização das formas de comunicação, especialmente a burocrática (formulários e impressos). E é, sobretudo, por meio da escola que, com a generalização da educação primária durante o século XIX, se exerce a ação unificadora do Estado na questão da cultura, elemento fundamental da construção do Estado-nação.

A criação da sociedade nacional acompanha a afirmação da possibilidade da educação universal: todos os indivíduos são iguais perante a lei; o Estado tem o dever de fazer deles cidadãos dotados dos meios culturais de exercer ativamente seus direitos civis. Segue-se que o Estado é um campo de poder, um espaço de jogo no interior do qual os detentores de capital (de diferentes tipos) lutam particularmente pelo capital estatal que assegura o poder sobre sua reprodução, em especial por meio da instituição escolar.

Não é surpreendente, portanto, constatar, no discurso de Ferry (1893) “De l’égalité d’éducation”, que a concepção de educação republicana era algo desconhecido, misterioso e recebido por muitos como novidade, e mesmo insensatez, para os notáveis empenhados nas famosas e conhecidas guerras escolares do século XIX. E chega a ser curioso constatar que onze anos mais tarde, por ocasião da promulgação da lei da gratuidade e, no ano seguinte, da obrigatoriedade e da laicidade, a ideia já fosse considerada natural. As duas citações abaixo mostram a diferença existente entre um discurso eloquente pronunciado por um jornalista, deputado em início de carreira (1870), e o discurso de um ministro com carreira realizada, na carta aos professores de 1883, na qual toda a fala exprime a segurança do sistema público de ensino em curso:

Quando me coube (Ferry, 1893) esta suprema honra de representar uma seção da população parisiense na Câmara dos Deputados, eu me fiz um juramento: entre todas as questões, entre todas as necessidades do tempo, entre todos os problemas, eu escolhi um ao qual consagrarei toda a minha inteligência, toda a minha alma, meu coração, poder físico e moral: […] é o problema da educação do povo. […] Eu mesmo escolhi este tema: da igualdade da Educação, e estou certo que, entre as pessoas que me fazem a honra de me ouvir, há um grande número que, no aspecto desse título um pouco geral, um pouco misterioso, se dizem: o que é esta utopia? Ora, minha pretensão é mostrar que a igualdade da educação não é uma utopia; é um princípio; […] esta utopia aparente está na ordem das coisas possíveis. […] Eis as duas grandes conquistas deste século; a liberdade do trabalho e o sufrágio universal; doravante, nem o direito de trabalho, nem o direito de votar, isto é, de contribuir para a formação dos poderes públicos, estão mais atados ao nascimento: eles são o patrimônio de todo homem vindo ao mundo. […] A lamúria existente (à ideia da igualdade) é a das pessoas que resistem, sem provavelmente se dar conta disso, à civilização moderna, e que evitam tomar o partido da era democrática na qual entramos. (p. 287)

CIRCULAR

Aos professores, concernente ao ensino moral cívico

A abertura deste ano escolar corresponde ao segundo ano da aplicação da lei de 28 de março de 1882. Não quero deixá-lo começar sem lhes dirigir pessoalmente algumas recomendações que, sem dúvida não lhes parecerão supérfluas após o primeiro ano de experiência neste regime novo. Das diversas obrigações que ele lhes impõe, a que seguramente é tomada a peito, que lhes traz o maior acúmulo de trabalho e de preocupação, é a missão que lhes foi confiada de dar aos seus alunos a educação moral e a instrução cívica […].

A lei de 28 de marco se caracteriza por duas disposições que se completam sem se contradizer: de um lado, ela retira do programa obrigatório de ensino todo o dogma particular, de outro ela aí inclui o ensino moral e cívico. A instrução religiosa pertence às famílias e à igreja, a instrução moral á escola.

O legislador não fez uma obra negativa. Sem dúvida ele tomou como primeiro objetivo o de separar a escola da igreja, assegurar a liberdade de consciência dos mestres e dos alunos, de distinguir, enfim, dois domínios há muito tempo confundidos, o das crenças que são pessoais, livres e variáveis, e a dos conhecimentos que são comuns e indispensáveis a todos. Mas há outra coisa na lei de 28 de março: ela afirma a vontade de fundamentar em nós uma educação nacional e fundamentá-la sobre noções do dever e do direito que o legislador não hesita em inscrever em nome das primeiras verdades que ninguém pode ignorar. (p. 262)

Igualdade, obrigatoriedade, laicidade. Essa equação acabou por se impor com grande rapidez. Tal como o sufrágio universal, está inscrita em quase todas as constituições do mundo, com a escola pública sendo considerada instrumento essencial de promoção social e política. Passa-se rapidamente da regra imposta para a regra aceita. E tudo se torna natural junto com o vigor da crença no princípio meritocrático para o acesso às funções públicas, em especial para as altas funções públicas, que hoje se conhece com o nome de competência.

A evolução da posição dos oponentes da escola pública frente ao controle do Estado é significativa do uso comum que os grupos dominantes passaram a fazer da escola no Brasil dos anos 1950. No livro coordenado por Roque Spencer Maciel de Barros (1960) sobre a campanha pela escola pública nos anos 1950, é possível visualizar os antigos adversários que acederam aos postos do Estado se unirem aos liberais progressistas e aos socialistas em torno das teses básicas dos grandes renovadores da educação brasileira no período do entre-guerras. A convulsão da sociedade e da cultura nos anos 1960 acarretou um corte nesse longo processo. Para melhor compreendê-lo, cito Philipe Ariès que fala sobre o lugar da crise que se espalha pela escola nesse período.

Por mais inédita que seja, a revolução atual da juventude deixa de ser surpreendente quando a situamos na longa história das idades da vida desde a Idade Média: a passagem de uma sociedade rural, de classes de idade e de ritos de iniciação a uma sociedade mais urbanizada onde a criança torna-se um adulto sem transição; em seguida, passagem dessa sociedade de adultos muito jovens, do Antigo Regime, à nossa, onde a infância, de início, e depois a adolescência foram prolongadas e mantidas até muito tarde nos purgatórios escolares. Somos hoje um estudante passivo numa idade em que outrora exercíamos funções ativas.

Essa situação já antiga foi tolerada enquanto era limitada à nobreza e à burguesia. No entanto, quando, desde os anos 1930, o desenvolvimento econômico estendeu a classes cada vez mais numerosas a longa escolaridade dos jovens burgueses, os jovens tornaram-se uma sociedade maciça e pesada, privada dos modelos familiais, à margem da sociedade global. Como essa situação se tornou explosiva pertence a outra História. Observaremos apenas que, enquanto a revolta da adolescência foi limitada a bandos efêmeros (referência ao cinema, a James Dean etc.), ela não fascinou ninguém e foi confundida com manifestações de delinquência, típicas do após-guerra. Ela inquietou a opinião quando abalou, em particular na Franca, o sistema escolar. Era lógico que a juventude tivesse encontrado seu campo de batalha onde havia sido pouco a pouco encerrada, desde que os colégios latinos do fim da Idade Média começaram a ser frequentados por pequenos leigos (citado por Prado Jr, 1980).

Sobre o fundo dessa situação, aparecem, na mesma época do trecho acima de Ariès, os trabalhos de Pierre Bourdieu que apresentam uma outra dimensão do problema, ao mesmo tempo cotidiana e antropológica, que invade os prazeres, as paixões e as concepções de existência. Os gostos mais inocentes – o amor à música clássica, por exemplo – são estudados como meios estratégicos de posicionamento de um grupo social contra outros. Eram trabalhos que apareciam com grande sentido no convite a um posicionamento de si mesmo no contemplar o panorama objetivo das práticas culturais. Com rigor de análise linguística e estatística, os trabalhos colocavam em questão a fraseologia igualitária com que se exprimia a pedagogia. O livro A Reprodução (1982) é a tese de que o ensino escolar funciona como chancela das diferenças culturais e linguísticas já dadas antes da escolarização.

Assim, até os anos 1990, o debate sobre a igualdade das chances escolares, de um modo geral, tomou a forma de uma oposição um tanto artificial entre o que ficou conhecido como “teoria da reprodução”, desenvolvida por Bourdieu e Passeron, e o “modelo das escolhas racionais” (nível de instrução é agregação livre de condutas individuais – as condutas são racionais e cada um sabe bem o que faz – valores e tradições explicam as condutas), importado para a França por Raymond Boudon (1979) e daí reexportado ao Brasil.

A essa problemática se segue uma transformação nas elites de Estado interessadas na resolução dos problemas criados na e pela instituição escolar, e também transformações do estatuto daqueles a quem foram confiadas a função de definir o conteúdo escolar a ser seguido, em particular no campo político, para o qual se voltam os personagens autorizados, “oficiais”, agindo como detentores de uma função assinada pelo Estado, encarregados das políticas públicas, sejam juristas, economistas ou cientistas políticos, com os sociólogos da educação.

Assim, ao debate dos anos 1960-1980, se superpôs, nos anos 1990, a “democratização quantitativa”. Esta nomeia o alongamento da duração da escolarização e se opõe à “democratização qualitativa” que descreve, também de forma estatística, o enfraquecimento do laço entre diplomas e origem social. Objetivando legitimar as políticas escolares e procurando evitar análises críticas sobre a reprodução cultural e social realizada pela escola, os dados da “democratização quantitativa” só mostraram a transposição das desigualdades sociais dos jovens de famílias modestas ascendendo aos níveis de formação mais elevado, enquanto a relação dos jovens saídos dos meios sociais mais favorecidos permanecia tão importante quanto antes. Já os números da democratização qualitativa, como argumento crítico contra a teoria da reprodução, ao procurar mostrar o sucesso da escola, o fez como “efeito estabelecimento”. Foi o que levou a mobilização das equipes pedagógicas para um trabalho eficaz das escolas locais. Nesses estudos, vê-se concorrência entre os que podem dominar o número verdadeiro sobre a escola, ligado aos economistas e cientistas políticos, contra alguns sociólogos despidos do domínio da produção do número. Por trás desses trabalhos que manipulam as medidas do sucesso escolar, está em jogo, na verdade, as transformações da ideia de igualdade. O jogo político dos indicadores da democratização é o de assimilar a igualdade de chances ao aumento do número de alunos dentro da escola. Esse aumento, no entanto, abre às categorias populares o acesso a diplomas dotados de um valor frágil do ponto de vista social e profissional. Nessa produção de dados, não é abordada a igualdade de condições de entrada nos estabelecimentos escolares, o valor econômico dado pelo Estado às diferentes categorias de alunos e muito menos as condições de inserção profissional. Na verdade, a equivalência material dentro das escolas é mais declarada do que alcançada. Tal como acontece na fusão igualitária realizada dentro das urnas eleitorais, a agregação contábil dos alunos no interior das escolas, desembaraçados de todo particularismo social e cultural, e exibida publicamente nos dados estatísticos, como os votos, mistura estudantes de alcance e intensidade desiguais.

Esses debates, evidentemente, afetaram também a área da história da educação. Até então os estudos nessa área eram parte integrante do esforço da representação da escola, que faz parte da própria realidade da escola. Ou seja, esses estudos tiveram a sua atenção voltada para a organização formal das instituições escolares, numa tentativa de explicar, pela história regressiva, os processos de nacionalização da vida política de que ela fez parte e os seus momentos fundadores. A partir dos anos 1990, também se voltaram para as práticas internas da instituição escolar com base na noção de cultura escolar. A partir da observação das técnicas e dos conteúdos de ensino, feitos na longa duração, historiadores da escola procuram aí a existência de uma cultura formada pela ordem pedagógica, analisando as relações históricas criadas entre essa ordem e a sociedade na qual se insere (Chervel, 1998; Julia, 2001; Forquin, 2003; Faria Filho, 2004). Dessa maneira, as dúvidas sobre a finalidade da escola e da cultura que aí é transmitida, cujos sintomas apareceram cem anos após o discurso otimista de Ferry, retornaram para o seu interior, enredadas nas mesmas fórmulas políticas que engendraram a instituição ao ignorar a existência dos formuladores de conhecimentos de Estado que competem na luta para atualizar os dispositivos de Estado2. Assim, tanto as análises sobre a cultura escolar quanto as da “democratização qualitativa” e “democratização quantitativa” pressupõem e têm por suposto que o sistema escolar pode realizar o que toda a lógica do seu funcionamento, marcado pelas leis do Estado e pelo universal, tende a contradizer.

Em suma, as normas que dominam as atividades escolares, presas às normas que dominam a cultura nacional, estão submetidas a uma disciplina coletiva. Nela, os desejos pessoais, os ideais e as paixões, mesmo as políticas, estão presas no laço dos procedimentos de controle institucionalizados pelo Estado, nos quais as lutas pelo alargamento do grupo no poder levam novos detentores de uma forte cultura escolar a invocar justificativas universalistas da eficácia da instituição escolar como forma de se educar as pessoas, isto é, à monopolização do universal por alguns. Dessa maneira, tal como no caso da coincidência entre Estado e nação, a coincidência entre escola e cultura se realiza na prática porque favorece os empreendimentos de dominação das elites do Estado, conjunto de pessoas investidas da missão do interesse geral ou, pelo menos, a constituir seu ponto de vista em ponto de vista legítimo, isto é, universal, especialmente pelo recurso de uma retórica do oficial. E toda interrogação crítica sobre a coincidência, a priori impossível, entre escola e cultura, tende a ser percebida como sacrilégio, levando em consideração sua realização embrulhada na capa do universal.

 

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1. Conforme a prática dos sócio-historiadores, esta aula solicita instrumentos de reflexão emprestados de outras disciplinas das ciências sociais para construir seus questionamentos a partir do mundo contemporâneo e daí voltar ao passado. De onde a atenção que o texto dá à gênese dos fenômenos que analisa e à amplitude dos obstáculos que pesam sobre a ação dos que agem tanto num como no outro campo (escolar ou cultural) em razão da quantidade das interdependências nas quais estão presos. Sobre a sócio-história ver, em especial, Noiriel, 2006; Offerlé, 2001; Déloye, 1997.
2. De onde as perguntas existentes em esclarecedor artigo: “Até que ponto, por exemplo, não estamos produzindo um conhecimento historiográfico demandado pelas constantes reformas educacionais do presente? Até que ponto o presentismo e o pragmatismo das políticas educacionais estão atingindo nossas pesquisas? Até que ponto estamos aparelhados (ou nos aparelhando) para um diálogo fecundo e crítico com os nossos colegas das demais áreas da educação e com os responsáveis pelas políticas educacionais?” Cf. Faria Filho, 2004.

 

Les boursiers de la Fondation Ford et la recomposition des sciences sociales brésiliennes: Le cas de la science politique

Publicado em: Cahiers de la recherche sur l’éducation et les savoirs, Hors-série n°2, 2009, pp. 33–55.

Qu’est-ce qui assure à certains groupes, à des moments déterminés de restructuration de l’espace politique, la force suffisante pour agir, avec succès, dans le champ de la politique académique et dans les transformations de l’espace politique ?

Cet article[1] traite d’un groupe d’anciens boursiers de la Fondation Ford qui, après leur doctorat aux états-Unis, ont lutté, dans le champ des sciences sociales brésiliennes des années 1960-1980, pour faire reconnaître leur compétence et leur autorité intellectuelle en matière d’analyse des phénomènes politiques et pour fonder cette discipline scientifique au sein de l’enseignement supérieur brésilien, dans des centres de recherche et des institutions scientifiques, à côté des institutions de l’état et des marchés de l’expertise.

Deux dynamiques ont contribué au fort investissement réalisé par ce groupe d’anciens boursiers dans la délimitation et l’opérationnalisation de l’objet d’étude de la discipline. En premier lieu, la stratégie hégémonique des grandes organisations philanthropiques américaines dans le contexte de la guerre froide a occupé un rôle clef dans la production de connaissances, aux état-Unis et dans le monde entier (Hammack, 1999 : 44). Deuxièmement, dans le contexte autoritaire du Brésil des années 1964-82, les paradigmes de la science politique et de l’économie américaines ont été à l’origine de nouveaux modèles d’interprétation de la réalité nationale, s’écartant des anciens, ancrés dans le droit (Dezalay & Garth, 2002, 2006 ; Engelmann, 2006), ou dans la sociologie, et bousculant la hiérarchie des savoirs.

L’hypothèse qui soutient ce travail est que l’importation de la science politique est le résultat d’actions d’individus, d’institutions concrètes, et non le produit de tendances et de forces incontrôlées et abstraites. C’est ce qui justifie l’investigation des pratiques qui ont présidé au recrutement de boursiers par la Fondation Ford, et la mise en relation des réseaux familiaux, des écoles secondaires, des cours supérieurs et des bourses d’études avec les carrières et les investissements réalisés à cet effet.

Le matériel de recherche utilisé, outre la bibliographie concernant l’action philanthropique de la Fondation Ford dans le champ des sciences sociales, provient d’informations sur les parcours de ces anciens boursiers (correspondance, entrevues, témoignages, publiés dans des revues scientifiques : Pesquisa, Teoria e Sociedade, Estudos Históricos) et de recherche dans des banques de données et institutions spécialisées (Plataforma Lattes du CNPq, sites internet d’universités, de l’Académie des Sciences, de l’Académie brésilienne des Lettres, d’entreprises de consultants politiques, d’organismes internationaux comme CARE, le Club de Madrid, etc). Ces données ont été comparées avec celles existant dans la banque des boursiers créée par la recherche-mère « Circulation internationale d’universitaires et transformation de l’espace culturel », laquelle emmagasine les données d’études de 15 915 individus bénéficiaires d’une bourse d’étude au moyen des agences CAPES, CNPq, et FAPESP, entre 1987 et 1998.

Science politique : les stratégies de la philanthropie internationale

La science politique au Brésil n’a pas encore fait l’objet d’une histoire reconnue, bien que son existence institutionnelle ne puisse pas être mise en doute : elle présente un ensemble d’attributs matériels (présence dans les universités, dans des agences de contrôle et de financement de la recherche de l’état, dans les instances de représentation académique, les organismes intergouvernementaux, les associations internationales, etc.) qui en font une discipline respectable. Selon la chronologie institutionnelle, la dénomination “science politique”, au singulier, comme discipline spécialisée dans l’analyse de l’espace public, apparaît officiellement, au Brésil, en 1965, quand est créé le Département de Science politique à la Faculté de Philosophie de l’Université Fédérale du Minas Gerais (UFMG). Auparavant, les études politiques faisaient partie du cursus des écoles de Droit, de Philosophie et de Sociologie, étant liées à la réflexion sur le droit constitutionnel, à l’analyse de certains phénomènes sociaux et à l’économie politique (Arruda, 1989 ; 2004).

La discipline a été légitimée dans les années 1970, lors de son inclusion dans le domaine des Sciences humaines d’après le classement des agences publiques de financement à la recherche. L’Association brésilienne de Sciences politiques a été créée en 1986. Mais l’identité de la discipline avait commencé à être discutée vingt-cinq années auparavant, au début de 1960, à Belo-Horizonte, à la Faculté de Sciences économiques (FACE), où existait un cours intitulé “Sociologie et Politique” couplé au cours d’Administration publique. De ces discussions est né le Département de Science politique à l’Université du Minas Gerais, le premier du Brésil, sous le patronage de la Fondation Ford.

Je n’ai pas la prétention de combler ici les lacunes existantes dans l’histoire de la science politique au Brésil, mais de soulever quelques points relatifs à l’action de la Fondation Ford pour y introduire cette discipline, à partir du cours de Sociologie et Politique de la FACE. Dans les deux seuls articles disponibles qui traitent spécifiquement de l’émergence de la science politique au Brésil (Arruda, 1989 ; Forjaz, 1997), on constate que le lien qui rattachait cette discipline au droit public et à l’économie politique a été coupé par l’engagement quasi-militant d’un groupe de nouveaux professeurs formé dans ce cours.

Ces professeurs, au nombre de seize, faisaient partie des vingt-cinq étudiants brésiliens recrutés par la Fondation Ford pour étudier la science politique à l’étranger. Sur ces seize, douze venaient de la FACE et sont partis aux état-Unis ; trois sont allés dans des universités européennes : deux d’entre eux venaient de l’USP, et le troisième de l’Université Fédérale du Rio Grande do Sul (tableau 1).

Après avoir obtenu le doctorat aux états-Unis, dix des boursiers de la FACE ont pu, avec l’appui de la Ford (cf. infra), créer à l’Institut Universitaire de Recherche de Rio de Janeiro (IUPERJ), le premier doctorat de Science Politique du pays. Toujours à l’IUPERJ, le groupe a contribué à la création de la revue Dados – Revista de Ciências Sociais, désormais la principale revue brésilienne dans ce domaine, et, grâce à ces réseaux, à la création de l’Association Nationale de pós-graduação et de Recherche en Sciences Sociales (ANPOCS), en 1977. Au sein de cette association, sous la direction de Olavo Brasil de Lima Jr, ces anciens doctorants de la FACE, parrainés par la Fondation Ford, ont travaillé activement à la création de « Groupes de travail », sur les partis, le comportement électoral et les problèmes d’institutionnalisation politique. Depuis, ces dix chercheurs siègent dans des comités du CNPq et de la CAPES, figurent comme conseillers ou experts auprès du gouvernement fédéral ou du parlement, et ont une présence constante dans les conférences et colloques internationaux.

Dans le tableau 2 (ci-dessous), construit avec les donnés concernant six scientifiques sélectionnés pour la démonstration[2], il est possible de vérifier la “rentabilité” propre à la circulation internationale dans la carrière de ces représentants de la nouvelle discipline et, en même temps, de constater leur présence dans les hauts lieux des décisions stratégiques internationales, dans la haute administration brésilienne et sur le marché de l’expertise.

L’observation de l’activité et de la carrière de ces anciens boursiers de la Fondation Ford nous permet de les situer non seulement comme les introducteurs de la science politique au Brésil, mais surtout comme des cadres dirigeants participant à l’élaboration des politiques publiques. Ils s’engagent dans des luttes pour moderniser les dispositifs de l’état, les compétences du gouvernement, et les circuits du marché, tant au niveau national qu’international, en tant que membres de commissions de réformes de l’état ou de conseils consultatifs internationaux. Ils comptent donc au nombre de ceux qui prétendent dire quelles sont « les meilleures manières » de s’insérer dans les transformations en cours dans le champ du pouvoir à une échelle globalisée.

C’est ce qui m’amène à montrer rapidement, à partir du programme Individual Behavior and Human Relations lancé par la Fondation Ford dans les années 50, les stratégies qui ont amené cette fondation à intervenir au Brésil et, plus spécifiquement, à privilégier un programme d’enseignement, essentiellement axé sur la science politique dans le Minas Gerais et à Rio de Janeiro, en se désintéressant de la formation des étudiants paulistes en sociologie. À São Paulo, l’investissement de la Fondation a concerné un centre de recherche sur la réalité brésilienne le CEBRAP – Centro brasileiro de Análise e Planejamento – qui a accueilli, hors de l’USP, une bonne partie des intellectuels de haut niveau évincés des universités paulistes par la dictature militaire. Le programme développé dans cette institution favorisa l’engagement en politique de nombre d’entre eux, dans les années 80, comme ce fut le cas pour l’ancien président de la République, Fernando Henrique Cardoso.

Il n’est donc pas surprenant de constater que les représentants de la nouvelle discipline ont été à la source d’un conflit entre les différentes factions du champ traditionnel des études politiques (droit, sociologie, philosophie), ce qui ouvre une voie à une réflexion sur la façon dont le champ s’est redéfini et reproduit avec l’arrivée de nouvelles générations.

La Fondation Ford et la formation d’un paradigme international des sciences sociales

Au début des années 50, les programmes de la Fondation Ford visaient le remplacement de la théorie politique traditionnelle par des études comparatives, relatives aux formes de gouvernement et aux comportements politiques dans un cadre international. Bernard Berelson, le directeur du programme, croyait que par ce biais, la Fondation pourrait influencer la conception et l’organisation d’un nouveau champ intellectuel (Gemelli, 2003 : 271) qui comprendrait non seulement la diffusion d’une culture en sciences sociales fondamentales, mais également d’une culture empirique en sciences sociales appliquées, qui servirait à « changer le cours de l’histoire », conformément à l’expression de Frank Sutton, dernier vice-président aux affaires internationales de la Ford (Rose, 2003 : 91).

La comparaison entre l’action de la Fondation Ford en Turquie et au Brésil aide à comprendre l’opération de mise en place d’un modèle de modernisation pour les pays en voie de développement (Lipset, 1963), par l’entremise d’intellectuels financés par la Fondation pour des projets techniques. De la même façon que la révolution cubaine a entraîné une priorité donnée aux actions développées en Amérique latine, la crainte de l’influence communiste en Europe méridionale et au Moyen Orient a mené à des actions similaires en Turquie. La Fondation y a fait 80 dons, d’un total de 16 millions de dollars, entre 1953 et 1971 (Rose, 2003). La date d’ouverture des bureaux de la Ford dans ce pays – 1960 – et l’orientation donnée au travail qui y était effectué coïncident bien avec ce qui a été fait au Brésil : premièrement, recruter et attirer des étudiants en sciences sociales en des lieux disposant des bases institutionnelles qui permettraient de les intégrer aux stratégies promues par les mécènes, en espérant qu’ils développeront, plus tard, des programmes d’enseignement dans le pays d’origine, sans plus d’intervention directe de la Fondation ; deuxièmement, assister le groupe de scientifiques ainsi soutenus pour qu’il puisse créer et développer dans leur pays une agence scientifique centrale, afin de coordonner la recherche scientifique nationale, et éviter le « brain-drain » (Rose, 2003). Dans les deux pays, le lieu préférentiel choisi pour le recrutement initial a été une école d’administration : celle d’Istanbul en Turquie et, au Brésil, celle de Belo-Horizonte.

En Turquie, les chercheurs se sont dirigés vers Harvard, alors qu’au Brésil, les étudiants se sont dispersés dans différentes universités des états-Unis (cf. supra, tableau 1). La Fondation partageait la croyance positiviste de la sociologie des années 60, qui affirmait que la science sociale était une science précise, ayant les moyens de modifier la réalité[3]. Ce qui justifiait les 16 millions de dollars que la Fondation a investis dans le programme scientifique de la Turquie, pendant la période 1966-1988, et les plus de 13 millions de dollars investis au Brésil, entre 1966-1988, essentiellement consacrés (tableau 3), au développement de la science politique considérée comme un outil stratégique. Ce financement a permis la création de formations doctorales qui sont encore de nos jours les pôles dominants, et de centre de recherches novateurs comme le CEBRAP, dirigé lors de sa création par le sociologue Fernando Henrique Cardoso.

Une fondation philanthropique ne distribue pas son argent sans discernement. Elle sait bien que le succès de ses programmes dépend de la rencontre de bénéficiaires expérimentés et susceptibles de négocier des projets en commun. Comprendre le choix du cours de Sociologie et Politique de l’UFMG pour le recrutement des boursiers, au détriment d’autres cours plus réputés, mais dominés par le marxisme, comme ceux de l’USP, dans un contexte politique où la Fondation était perçue, au Brésil, comme un « instrument de l’impérialisme américain », c’est comprendre l’espace de concurrence académique avec lequel et contre lequel la Fondation intervenait (Miceli, 1993 ; Reis, 2004).

Les étudiants mineiros dans l’espace des études politiques des années 1950-1960

Le recrutement des étudiants du cours de Sociologie et de Politique de la FACE par l’agent de la Fondation Ford, Peter Bell, tient à un ensemble de dispositions incorporées de ces étudiants. Le tableau 4 (ci-dessous) montre un groupe relativement homogène socialement, dont les études précédentes avaient été financées par des bourses d’études accordées par des institutions brésiliennes ou internationales.

Comme on peut l’observer, les étudiants mineiros recrutés possédaient un capital social relativement modeste et, surtout, aucun n’appartenait au réseau des familles d’hommes politiques connus du Minas Gerais. Mais ils ont fréquenté des écoles secondaires de premier plan, comme le Collège Arnaldo ou le Collège Marconi[4] , ce qui démontre l’intérêt de leurs familles pour l’investissementscolaire. À l’exception de l’un d’entre eux, tous semblent constituer la première génération qui accède aux études supérieures dans la famille. Tous ont bénéficié des bourses d’études de la FACE depuis la licence. Deux étudiants sont partis à l’étranger pour la première fois en tant que boursiers de l’ONU, pour une maîtrise en sociologie au Chili, à la Faculté Latino Américaine de Sciences Sociales (FLACSO). L’accès à ces formations exigeait un fort investissement en mathématiques et statistiques, une orientation qui « avait beaucoup à voir avec la science sociale nord-américaine » (Carvalho, 1998 : 61)[5] .

Le tableau souligne aussi le fait qu’ils avaient un engagement politique dans des mouvements étudiants de gauche clandestin : à l’AP ou à la POLOP6 , ce qui les distingue des héritiers des familles traditionnelles mineiras, inscrits à la Faculté de Droit, destinés à une carrière dans la haute fonction publique et qui étaient membres ou militants des partis politiques officiels. Eux appartenaient à la Faculté de Sciences économiques, une faculté éloignée du circuit social et politique fréquenté par les héritiers des “grandes familles” mineiras. Ces étudiants ont reçu des bourses d’études au mérite, financées par des entrepreneurs mineiros à la suite d’un concours considéré comme très difficile. Les étudiants comme les professeurs étaient soumis à un régime de travail à plein temps, fait rare au Brésil. Le privilège était accompagné d’une discipline d’acier, ils étaient tenus d’aider les collègues en difficulté et de rédiger un mémoire à la fin de chaque année scolaire (Carvalho, 1998 : 359). À cet effet, ils avaient à leur disposition une bibliothèque comportant les classiques de l’économie et de la sociologie, ainsi que des abonnements à des périodiques considérés comme les plus importants du monde académique international. L’entretien avec l’un des anciens boursiers montre que l’agenda de ces étudiants était dense :

« Après la matinée, consacrée aux cours, tout l’après-midi était occupé par des études intenses, des conversations soutenues, des travaux de rédactions, parce que les étudiants aussi bien que les professeurs collaboraient à la presse écrite. Par exemple, le quotidien Diário Católico avait un supplément littéraire qui a duré quelques années : la plupart de ses contributeurs venaient de notre équipe, nous faisions des comptes-rendus de livres ou d’autres articles sur des thèmes culturels ; il y avait aussi d’autres groupes qui collaboraient à la presse, mais le poids de notre équipe de Sciences économiques était particulièrement important » (Arruda, 1989 : 259).

Une grande partie d’entre eux a été engagée comme professeurs de la FACE, après le diplôme. « On inaugure, en ce moment, [1962] la première génération de professeurs anciens boursiers, ayant une tête moderne et nécessairement autodidactes », a écrit Cláudio de Moura Castro, ancien boursier[7]. Selon l’expression de Simon Schwartzman, le système des bourses a créé une trajectoire intellectuelle et professionnelle dans la « périphérie de la périphérie » (cité par Arruda, 1989 : 255), à savoir : dans la périphérie des écoles considérées comme légitimes, et dans la périphérie des grands centres intellectuels du pays.

Ainsi, les agents de la Fondation Ford ont trouvé à Belo-Horizonte une génération de sociologues à la fois disciplinés, mais aussi arrogants et iconoclastes comme tous les prétendants contrariés dans leur vocation politique, avec une formation sociologique plus proche des sciences sociales américaines que de l’orientation française accordée par des écoles paulistes. Ils expérimentaient « la sensation qu’il n’y avait rien avant nous, que tout devait être réinventé et recréé […]. La question était seulement de lire et d’étudier (dans les livres français qui arrivaient à la librairie Duas Cidades, ou en anglais, que nous apportait, Dieu sait d’où, Júlio Barbosa) », comme le dit Schwartzman (1997)[8] .

La discipline intellectuelle exigée par ce système de bourses distinguait ces élèves de ceux de la Faculté de Droit ou de la Faculté de Philosophie, où fonctionnaient également des cours de sciences sociales. Contrairement aux autres, le cours de Sociologie et politique de la FACE se déroulait au sein d’une Faculté d’économie créée pour assurer la modernisation de l’état du Minas Gerais et combler son retard face à Rio de Janeiro et à São Paulo (Arruda, 2004)[9]. Cette institution n’était pas le fruit du travail d’une mission étrangère, comme celles de l’état de São Paulo, mais celui des changements qui s’étaient produits dans l’état depuis les administrations de Milton Campos et de Juscelino Kubitschek, financées par la Fondation Rockfeller. La modernisation de l’appareil administratif a été promue par le recrutement de fonctionnaires basé sur le mérite, ce qui exigeait une filière d’enseignement spéciale, susceptible de développer l’ambition de jeunes brillantes recrues. C’est un tel enseignement qui a été assuré par la FACE, qui dispensait, entre autres cours, ceux d’économie et d’Administration Publique. Les étudiants de cette école étaient formés pour exercer la fonction de “conseiller du prince”. Ce programme, loin de la réalité agraire de l’économie mineira, était, cependant, en phase avec les stratégies politiques de formation de professionnels nécessaires sur le plan national, afin de maintenir les hommes politiques mineiros au pouvoir, au moment où des grandes avancées pour la planification de l’économie nationale avaient lieu.

Bolivar Lamounier, un des anciens boursiers, est assez explicite au sujet des objectifs du cours de Sociologie et de Politique :

« Cela veut dire que personne n’avait de doute sur le fait que, dans cette faculté, se formaient les futurs experts du Gouvernement [du Minas Gerais] ou de l’État [fédéral]. Et ceci, de fait, s’est produit… Moi, par exemple, j’ai eu comme professeur de Politique économique Fernando Reis, qui deviendra par la suite une figure puissante de l’état, président de la Compagnie Vale do Rio Doce, directeur d’entreprises d’état. Personne ne doutait qu’une génération d’experts s’y formait » (Arruda, 1989 : 255).

La première reconnaissance de l’efficacité du système de bourses de la FACE a été, dans un premier temps, le recrutement de ses meilleurs boursiers par la FLACSO. Au Chili, grâce à la FLACSO, ces étudiants mineiros, militants de mouvements de gauche, entrèrent en contact direct avec la science politique nord-américaine et avec une définition analytique de la politique, qui permettait « de montrer ce qu’il y a de politique dans les foyers de conflits et de solidarité qu’on trouverait dans toute sphère de la vie sociale, de même que leur éventuelle importance, plus ou moins grande, pour ce qui se passe sur le plan de l’État » (Reis, 2004 : 29).

La FLACSO a constitué la première grande impulsion pour la Science politique brésilienne. Dans cette approche de la politique, éloignée de l’orientation philosophique et juridique, il y avait déjà une accroche à Belo Horizonte, via les études électorales dirigées par Orlando Carvalho, avec la Revista Brasileira de Estudos Políticos (RBEP). Créée à la faculté de Droit en 1956, la revue, tournée vers l’édition des études empiriques, divulguait des méthodes et des thèmes nouveaux dans le milieu académique brésilien, comme la nature du système de partis, l’origine sociale des dirigeants, l’idéologie des partis, leurs finances, les pratiques électorales. Elle publiait des auteurs nationaux et étrangers, favorisant la circulation internationale des idées. Unique dans son genre au Brésil, elle servait de pont entre deux générations en combinant la tradition philosophique et juridique de la science politique française avec l’orientation nord-américaine, contribuant à la formation des étudiants de la FACE.

Le créateur de la RBEP, Orlando Carvalho, avait été un des fondateurs de l’UDN[10], et secrétaire d’état dans le gouvernement de l’udeniste Milton Campos. Ainsi, la revue mobilisait, dans les enquêtes et monographies qu’elle publiait sur les élections dans le Minas Gerais, toute l’idéologie udeniste tournée vers le “légalisme” et l’exhibition de l’attachement aux vertus civiques, ce qui n’était pas pour déplaire à des agences nord-américaines engagées dans la guerre froide[11]. Dans les commémorations des 75 ans de l’UFMG, en 2002, Murilo de Carvalho a fait une déclaration éclairante sur ce lien de la revue avec les militants udenistes, qui s’est développé avec la chute de Getúlio Vargas, en 1945 :

« En créant la RBEP un peu plus de dix ans après la démocratisation du pays [Orlando de Carvalho] était conscient que le perfectionnement du système des partis et des pratiques électorales était une condition essentielle à la consolidation de la démocratie. En cela, il représentait le bon côté de l’udenisme mineiro, personnifié surtout par Milton Campos. Mais la démocratie n’est pas advenue à cette époque. La bataille continue encore, et c’est l’honneur d’Orlando de Carvalho d’avoir été un des militants d’une cause à laquelle il faut croire pour ne pas la perdre » (Carvalho, 2002 : 2).

Dans ce milieu étudiant engagé, les agents de la Fondation Ford ont su trouver un terrain favorable à l’un de leurs objectifs, qui était non seulement de constituer une science rigoureuse de la société, mais aussi de cultiver une vertu civique indispensable à la construction d’un marché international de la compétence d’état[12], sous hégémonie américaine.

Du côté des étudiants recrutés, il est important de souligner le fait qu’ils n’auraient pas pu monter facilement la hiérarchie des partis politiques existants, ou même de la haute administration, qui constituaient une “réserve de chasse” des héritiers des grandes familles mineiras, sortis de la Faculté de Droit. Carlos Eloi Guimarães[13], député fédéral pendant six législatures, et descendant de grands chefs politiques nationaux de l’UDN, originaires de la même circonscription électorale que Bolivar Lamounier, exprime bien ce monopole de fait des postes électifs :

« Quant à mon entrée dans la vie publique, le début s’est déroulé de la façon suivante : mon oncle Paulo Campos et Magalhães Pinto (gouverneur UDN de l’État) ont décidé que je devrais être député […]. J’ai été élu député sans être connu des électeurs : à vingt-quatre ans, je ne pouvais pas être connu des électeurs ; de plus, je n’étais pas même un dirigeant syndical, et je venais de sortir récemment de la Faculté de Droit… » (CEMIG, 2004 : 14).

Les nouveaux politologues et la recomposition des sciences sociales

L’adhésion, sans beaucoup de discussion, de ces étudiants mineiros de la FACE à l’offre qui leur avait été faite par la Fondation Ford n’est pas surprenante, comme l’illustre les propos de Murilo de Carvalho, premier de ces boursiers à avoir été sélectionné :

« La Fondation Ford avait décidé d’investir dans les sciences sociales en Amérique latine, particulièrement dans les domaines de la science politique, de l’anthropologie et de l’économie […]. Cet appui a eu de grandes conséquences, il a entraîné ici la création de divers cours de science politique – celui du Minas, celui de l’IUPERJ […]. La motivation de la Ford est venue évidemment en réponse à la Révolution Cubaine. Mais il importe de dire qu’elle n’en a jamais retiré de profits directs. Elle donnait simplement aux institutions l’argent destiné aux bourses, et l’institution l’utilisait comme elle voulait. J’étais tout juste en train de terminer la licence (à la FACE), quand s’est ouverte la sélection des boursiers pour les États-Unis. J’ai été reçu et sélectionné dans la première promotion. D’autres l’ont été après, tant de l’IUPERJ […] que du Minas. J’y ai réellement été par hasard, j’ai terminé ma licence et je suis parti ensuite. Cela a été la raison pour laquelle je suis parti aux États-Unis, rien d’autre » (Carvalho, 1998 : 363).

Le témoignage de Fábio Wanderley Reis, un des chantres du Département de Science politique de l’université mineira, révèle la même absence d’une réflexion plus attentive sur les stratégies hégémoniques de la Fondation :

« Il s’est trouvé que la Fondation Ford a décidé de mettre en œuvre un programme de soutien aux sciences sociales au Brésil, certainement avec une motivation au moins confusément politique, et l’UFMG a été la première institution à être pourvue d’une dotation significative. António Octávio Cintra a occupé un rôle important dans les premiers contacts avec la Fondation Ford, grâce à Peter Bell, qui fut le premier agent effectif de la Fondation dans ce domaine. Des conversations entretenues alors, nous avons négocié la possibilité de créer, avec le soutien financier de la Fondation, un Département de Science politique […] qui inclurait les activités et les personnes en relation avec la politique, non seulement de la Faculté de Sciences économiques (Júlio Barbosa, Antonio Octávio Cintra, moi-même) mais aussi de l’École de Droit, autour du Professeur Orlando de Carvalho et de la Revista Brasileira de Estudos Políticos, et de l’ancienne Faculté de Philosophie, de Sciences et de Lettres, d’où le Professeur Tocary de Assis Bastos a intégré l’équipe initiale du Département » (Reis, 2004 : 27).

La rencontre qui s’est réalisée entre ces étudiants brillants et ambitieux – au capital social relativement faible et sans aucun capital politique notable, ayant par conséquent peu d’espoir d’insertion professionnelle à Belo-Horizonte – et les objectifs de la Fondation Ford a produit des fruits de grande qualité, compatibles avec l’investissement fait de part et d’autre : les boursiers se sont imprégnés de la culture libérale et légaliste des universités américaines et, à partir des liens forts qu’ils y ont établis, ils ont créé un réseau d’anciens collègues et d’élèves, imposant une nouvelle façon de concevoir la science politique. Ce réseau a irradié les principaux centres académiques et politiques brésiliens, puis s’est élargi au niveau international.

José Murilo de Carvalho, dans un commentaire exemplaire, éclaire la façon dont, à leur retour des états-Unis, les liens des anciens boursiers se sont consolidés pour modeler ce qui deviendra la science politique au Brésil :

« J’ai connu Wanderley (Guilherme dos Santos) à Stanford, nous sommes devenus amis, je suis revenu au Brésil, il est rentré peu après et m’a invité à quitter Minas pour venir à l’IUPERJ. À ce moment, il m’a semblé que ce serait une expérience intéressante […]. Il n’y a pas de doute que Rio et São Paulo sont beaucoup plus au centre du débat politique » (Carvalho, 1998 : 366).

Fábio Wanderley Reis est plus explicite quant à l’importance de l’articulation du système de disposition de ces jeunes mineiros avec les objectifs de la Fondation Ford pour la réorientation de l’enseignement politique :

« Mais le départ, à un moment donné, de nombreux mineiros pour Rio, en particulier à l’IUPERJ, s’est combiné avec les opportunités semblables de formation, favorisées par l’appui de la Fondation Ford à notre Département de Science politique et à l’IUPERJ, afin de créer une certaine homogénéité d’orientation qui, au moins dans le secteur de la science politique, permettait un contraste plus ou moins clair de ces deux expériences avec celles de l’USP ou de l’UNICAMP » (Reis, 2004 : 27).

De fait, de retour de l’étranger, ces représentants de la nouvelle discipline se sont transformés en une espèce de « jeunes Turcs », selon l’expression de Fábio Wanderley lui-même, par le conflit qu’ils engendrèrent entre les différentes factions du secteur traditionnel des études politiques (droit, sociologie, philosophie). Il en résulta de grandes tensions au sein de l’UFMG, allant jusqu’à la destitution de directions[14]. Ces polémiques se répercutaient fortement sur le groupe de sociologues et de philosophes paulistes. Les jeunes Turcs, obsédés par le traitement systématique de données empiriques – « couplage entre la référence à un matériel empirique et la réflexion qui ne renonce pas à être théorique » (Reis, 2004 : 24) – refusaient aux autres concurrents leur classement même dans la science politique, voire dans la science tout court.

Une génération entière de politologues a été formée avec cette orientation, qui allait dans le sens opposé de celle des sciences sociales dispensée par la Mission française des années 1930. Le nombre de thèses qu’ils ont orientées, le nombre d’universités où ils ont enseigné, et les centres de recherche dans lesquels ils ont circulé, ne laissent pas de doute sur la signification et l’impact de leur voyage aux états-Unis dans l’organisation des modes de production de la nouvelle discipline et dans les directions qu’elle a prise au Brésil. Leur rôle dans la formation à la théorie et aux méthodes et techniques de recherche véhiculées par les sciences sociales américaines, les processus de sélection, de filtrage et de traduction, c’est-àdire tout le travail de comparaison que constitue un voyage d’études, ressort dans le réseau intellectuel qu’ils ont développé pour une confrontation avec d’autres groupes actifs à São Paulo, à l’USP et au CEBRAP, et dans le Minas Gerais, réseau que résume le tableau 5.

De cette façon, un corps de producteurs reconnu en science politique a pu émerger, autour d’une dénomination, d’un objet, et d’une confrontation de questions et de méthodes dans l’espace des sciences sociales. L’action de ces anciens boursiers a permis de fonder une discipline. Comme l’écrit Michel Offerlé (2002 : 256), rappelant les travaux de Victor Karady (1979 : 49), celle-ci a surmonté les trois épreuves de légitimation face aux autres disciplines de sciences sociales : la production d’une connaissance spécifique (légitimation scientifique), la définition de moyens propres de recrutement (légitimation académique), et la réunion d’un public plus ou moins profane (légitimation sociale).

Mais c’est le recrutement pour une formation aux états-Unis qui a rendu possible l’homogénéité d’orientation nécessaire à l’insertion du programme de la nouvelle science politique dans les cadres institutionnels de l’académie brésilienne. En même temps, la formation, favorisée par les bourses de la Fondation Ford, a intégré les politologues brésiliens dans les débats promus par les cercles savants nord-américains, dont les contacts, jusqu’alors, se faisaient prioritairement dans le champ disciplinaire de l’économie, via la PUC/Rio et l’EPGE/FGV (Loureiro, 1997).

Cet article n’est qu’un premier pas dans une recherche plus vaste portant sur les facteurs qui ont permis l’importation de la science politique de facture nord-américaine au Brésil. Le travail est parti de l’hypothèse que le système organisé des échanges internationaux en matière de méthodes de gouvernement, autant dans sa définition économique (développement d’un marché international d’expertise) que dans sa définition éducationnelle (programme de formation de nouvelles élites pour les pays en développement), a été établi entre les années 1950-1970, avec l’appui de la Fondation Ford. Au moyen de bourses d’études pour parrainer des professions stratégiques, cette fondation a cherché à créer une opinion publique favorable au renforcement des études privilégiant certaines questions et certaines façons de les traiter.

Les thèses soutenues dans les universités américaines, au moment où l’autoritarisme au Brésil s’affichait dans sa face la plus dure, démontrent bien le déplacement des modes de penser la vie politique nationale, surtout si on considère que, d’une façon ou d’une autre, toutes portent sur la tradition autoritaire brésilienne dans une perspective historique et comparatiste[15]. Mais ces travaux ne sont pas réductibles à une reprise des problématiques de la science politique nord-américaine ; ils portent tout autant la trace des questions anciennes et nouvelles posées à propos de l’évolution de l’espace public brésilien. Au retour des états-Unis, les nouveaux politologues furent confrontés à la résistance du milieu académique à l’émergence de nouveaux savoirs autonomes. Leur combat pour la légitimation de la science politique provoqua une recomposition disciplinaire et suscita des problématiques qui ont eu des effets durables.

Le choix des étudiants de Belo-Horizonte par la Fondation était dû non seulement à l’intérêt des élites politiques locales pour cette association, dans le but de moderniser l’état, mais aussi à l’existence, sur place, d’une formation en études politiques plus proche des méthodes empiriques et des vertus civiques nord-américaines. L’adhésion des étudiants de la FACE – qui militaient dans des mouvements contre la dictature militaire au Brésil – à la proposition faite par la Fondation résulte de la rencontre d’un groupe d’étudiants brillants et ambitieux, au capital social relativement faible et au capital politique inexistant, ayant par conséquent peu d’espoir de carrière à Belo Horizonte, avec les objectifs de la Fondation Ford d’encourager l’émergence d’une génération de personnalités scientifiques capable d’affronter des débats interdisciplinaires et transnationaux.

BIBLIOGRAPHIE CITÉE

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ANNEXE

SIGLES

ANPOCS – Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais
AP – Ação Popular (movimento político ligado á esquerda católica)
CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
CEBRAP – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
CESOP – Centro de Estudos de Opinião Pública
CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
CPDOC – Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea
FACE – Faculdade de Ciências Econômicas
FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
FGV/RJ – Fundação Getúlio Vargas,Rio de Janeiro
FGV/SP – Fundação Getúlio Vargas, São Paulo
FINEP – Financiadora de Estudos e Projetos
FLACSO – Faculdade Latino Americana de Ciências Ssociais
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IUPERJ – Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro
POLOP – Organização Revolucionária Marxista – Política Operária
PUC – Pontifícia Universidade Católica
SPBC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais
UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas
USP – Universidade de São Paulo

NOTES

1– Ce travail est une version modifiée de la communication présentée au colloque « Circulation internationale
d’universitaires et renouveau de l’espace culturel », réalisé au CRBC/EHESS à Paris, au mois de novembre 2005. Je remercie J.-P. Faguer, M. Gheorghiu et Y. Dezalay pour les observations faites à cette occasion, et L. Avelar pour les précieuses informations sur le cours de Sociologie et de Politique de la Faculté de Sciences économiques du Minas Gerais, au Brésil.

2– Les six autres boursiers de la FACE, Amaury de Souza, Octávio Cintra, Olavo Brasil de Lima Jr (décédé), Sonia Avelar, Laura da Veiga et Regina Lima, étaient présents dans ce tableau, mais n’apporteraient pas d’éléments nouveaux à notre démonstration. On peut les trouver et les examiner dans l’Annexe, à côté d’autres boursiers de la Fondation.

3– « C’était l’époque de Parsons, qui publiait des articles conseillant au gouvernement d’adopter certaines politiques en direction des sciences sociales, d’investir de l’argent, etc. Ce fut réellement le sommet, l’âge d’or de l’Université américaine de façon générale, et en particulier des Sciences Sociales. […] Quand j’ai été à Princeton, dans les années 80, cette croyance était déjà en déclin. Tout ne fonctionnait pas très bien, le prestige de l’Université était en train de tomber, et ne cessa pas de tomber » (Carvalho, 1998 : 360).
4– Sur le Collège Arnaldo, où ont étudié une grande partie de l’élite du Minas Gerais, voir Cançado (1999) ; Canêdo (2002a). Le collège Marconi a été fondé par Orlando Carvalho, qui a publié, édité et dirigé la première revue brésilienne d’études politiques, au Brésil, en plus d’avoir été le recteur de l’UFMG, entre autres importantes charges dans le Minas Gerais.
5– Carvalho lui-même n’a pas reçu cette bourse, pour n’avoir pas réussi à résoudre une équation pendant le test de sélection.

6– L’AP a été un mouvement politique né de l’action des militants étudiants de la Juventude Universitária Católica et d’autres adjonctions de l’Ação Católica, en juin 1962, à partir d’un congrès de la JUC tenu à Belo Horizonte. Son inspiration idéologique puise chez Mounier, Teilhard de Chardin, Maritain et le Père Lebret. La POLOP date de 1961, avec des racines dans la Juventude Socialista do Partido Socialista Brasileiro, en fusion avec les circuits d’étudiants venus de la « Mocidade Trabalhista » du Minas Gerais, quelques trotskistes et dissidents du PCB de Rio de Janeiro, São Paulo, et du Minas.

7– http//www.dee.feis.unesp.br/pet/arquivos/visao.htm
8– Julío Barbosa, avocat, est celui qui a pensé et créé le cours de Sociologie et Politique du Minas Gerais, en 1953.
9– Le cours a été dirigé d’une main de fer par Ivon de Magalhães Pinto, personnalité liée à l’ancienne Banco Hypotecário de Minas Gerais et qui appartenait à un réseau social très connu dans le Minas. Il était, par ailleurs, descendant de députés de l’Assemblée générale de l’Empire et de la Chambre fédérale républicaine, cousin et neveu de signataires du manifeste des exploitants de mines qui, comme lui-même, ont également été fondateurs de l’UDN du Minas Gerais (Horta, 1956 ; Arruda, 1989 ; Góes Monteiro, 1994).
10– L’UDN – União Democrática Nacional – était l’un des partis nationaux créés en 1945, après la chute de Vargas et la libéralisation de la vie politique. Plutôt ancrée à droite, l’UDN visait directement et explicitement les classes moyennes – par son programme, ses discours, ses interventions dans la presse et, surtout, ses dénonciations de la corruption administrative. Son symbole était une torche olympique, avec la devise « le prix de la liberté est l’éternelle vigilance ».
11– À l’occasion de notre enquête, quatre des anciens boursiers ont tenu à souligner l’attachement de leurs parents aux idéaux de l’UDN.
12– En effet, pendant toute la période de la guerre froide, la concurrence entre différentes conceptions de l’état et de ses modalités d’existence se matérialise à travers l’offre d’expertise des grandes puissances (cf. Dezalay & Garth, 2002).
13– Carlos Eloy était aussi le neveu de Francisco Campos, du côté de sa mère, et de la famille Gustavo Capanema, tous deux importants hommes politiques de Minas Gerais, devenus des ministres de Vargas entre 1930 et 1945. Il est également le cousin de l’actuel député fédéral du PT, Virgilio Guimarães. Il a été l’un des premiers à écrire dans la RBEP : dans le premier numéro de la revue, en 1956, on trouve une de ses enquêtes sur les résultats électoraux à Dores do Indaiá. Murilo de Carvalho a publié ses premières études scientifiques dans la même revue (« Estudos do Poder Local no Brasil », n° 31, 1968/1969 : 231-248) ; « Barbacena, a Familia, a Política e uma Hipôtese », n° 20, 1966 : 153-193).

14– Voir Reis, 2004, et la déposition de Cláudio Moura e Castro (http://www.dee.feis.unesp.br/pet/arquivos/ visao.htm). Une ancienne élève de la FACE, à Belo-Horizonte, raconte, dans une entrevue, que la véhémence du débat, à laquelle elle n’était pas habituée, était telle qu’elle se renfermait totalement sur elle-même.

15– Par ordre alphabétique : Carvalho (J.-M.), « Elite and State-Building in imperial Brazil » ; Farias (V.), « Occupational Marginality, Employment and Poverty urban Brazil ; Reis (E.), « The agrarian roots of Conservative modernization Brazil 1880-1930 ; Reis (F.-W.), « Political development and social class : brazilian authorianism in perspective ; Schwartzman (S.), « Regional cleavages and political patrimonialism in Brazil.

Les boursiers brésiliens et l’accès aux formations d’excellence internationales

Publicado em: Cahiers du Brésil Contemporain, Paris, v. 57/58-, 2005. Com Afranio GARCIA JUNIOR.

La compétitivité économique est devenue le maître mot de l’actualité internationale ; on fait appel à cette notion pour penser le comportement des
individus, des groupes sociaux, des entreprises, des nations, des zones de libres échanges – Communauté Européenne, ALENA, MERCOSUR – etc. Dans l’arène internationale, tout se passe comme si le seul enjeu de taille était la constitution à l’échelle mondiale des marchés unifiés de biens et de services, ainsi que des marchés financiers. La course aux armements atomiques ou biochimiques et la conquête de l’espace sidéral, si
caractéristiques de la période de la guerre froide (1945-1989), semblent condamnées aux oubliettes, comme si la restructuration du champ du
pouvoir à l’échelle internationale dépendait uniquement de la puissance des entreprises et des individus d’origines territoriales différentes à s’affirmer à travers la croissance du commerce international et l’intensification de la mobilité des flux financiers. Cette emprise des concepts marchands pour penser toute interaction sociale est certainement liée à la centralité de la construction sociale des marchés à l’échelle mondiale, après la chute du mur de Berlin en 1989 et l’effondrement du pôle communiste. Mais, acceptant comme prémices de toute réflexion les fins visées par certains agents économiques et politiques hégémoniques, cette universalisation de la pensée économique fait écran à la compréhension des transformations du champ du pouvoir à l’échelle internationale. On s’interroge plus difficilement sur les fondements intellectuels de la puissance économique et politique des nations ou des corporations transnationales.

Continuar a ler…

 

Heranças e aprendizagens na transmissão da ordem política brasileira (1945-2002)

Publicado em: Cadernos Ceru, São Paulo/USP, v. 15, p. 103-130, 2004.

Resumo
O espaço de poder no Brasil está sendo cada vez mais ocupado por indivíduos com investimento acadêmico em escolas de prestígio no exterior e que construíram suas carreiras em mercados internacionais de conhecimentos técnicos. Para compreender os efeitos desse fenômeno na competição democrática, este trabalho explora dados biográficos de 34 políticos brasileiros em posições representativas nas instituições centrais do Estado (Parlamento, Executivo) em dois períodos de reestruturação do espaço político brasileiro (1945/64 e 1984/02). Analisa os recursos sociais e o tipo de conhecimento escolar utilizados por eles, avaliando-os a partir das chances desiguais que lhes foram oferecidas para permanecer e atuar no campo instável da política.

Abstract
Positions of power in Brazil are increasingly occupied by individuals with international experience at prestigious schools and by those who have built their carriers with the benefit of knowledge obtained in international market. To understand the effects of this phenomenon on competition in a democratic context, this paper explores biographic data for 34 Brazilian politicians who held important elected positions in the central government (Congress and the Executive) during two key periods of restructuring in Brazilian politics (1945/1964 and 1984/2002). The paper analyses the social resources and types of academic knowledge that these politicians used to maintain and advance their careers. The politicians are evaluated in the context of the advantageous and unequal opportunities that they benefited from at the beginning of their carries, and which contributed to their success and staying power in the unstable field of politics.

Este artigo resulta de uma exposição feita no XXVI encontro Anual da ANPOCS, em 2002. Devo agradecimentos a Joana Canedo e a Afrânio Garcia não só pela competente leitura e discussão da primeira versão deste texto, como também pela disponibilidade e amizade demonstradas. A pesquisa foi financiada pelo CNPq.

Introdução
A ocupação de posições dominantes na esfera política brasileira vem sendo descrita pelos estudiosos como uma progressiva substituição de antigos bacharéis, com seus conhecimentos de direito constitucional, por indivíduos que combinam conhecimento técnico sofisticado com sensibilidade política. Fernando Henrique Cardoso é sempre o modelo citado. Economistas eleitos por voto popular para o Parlamento, como José Serra, Delfim Neto, Eduardo Suplicy, entre outros, são exemplos paradigmáticos fornecidos para mostrar o afastamento dos especialistas em direito das posições representativas nas instituições centrais no Estado (parlamento, executivo). A base da descrição desta história política situa-se na reestruturação do espaço político que se seguiu ao período de domínio dos militares e na emergência de uma nova ordem econômica mundial, com as implicações daí decorrentes em termos de desemprego e intensificação das crises financeiras. Tais fatos teriam contribuído para o aparecimento de novos atores políticos cujas propriedades sócio-profissionais, assim como os procedimentos pelos quais são recrutados, divergiriam das que caracterizaram os representantes dos partidos dominantes nos anos anteriores a 1964.
Dentro deste raciocínio, pesquisadores que estudam o fenômeno incluem os titulares de posições político-administrativas, como Pedro Malan, no grupo de políticos modernos. Alegam que “o limite entre o que é a tarefa do burocrata e o que cabe ao político vem-se tornando cada vez mais tênue e, em alguns casos, há um total ‘embaralhamento’ destas duas funções” (Loureiro & Abrucio, 1999:69). Isto porque estes burocratas, portadores da competência técnica necessária para administrar a economia, orientam programas de ação comprometidos com a governabilidade, a qual é gerada nas relações negociadas entre o executivo e o legislativo. Mesmo agindo com conhecimento técnico sofisticado adquirido em escolas de alto-padrão, muitas vezes pertencentes ao circuito internacional, suas ações e discursos estariam cada vez mais norteados pelos sinais emitidos por políticos locais. No Parlamento, a atuação dos políticos profissionais estaria cada vez mais baseada no discurso técnico, o que o crescimento do número de deputados federais eleitos com diploma de economista ajuda a confirmar (Rodrigues, 2002:103).
Para a maior parte dos autores, a ponte entre os interesses representados pelos políticos e as decisões burocráticas provenientes desse conjunto tecnocráticos resulta do envolvimento do Estado brasileiro com a abertura das economias, as privatizações, a implantação do consenso de Washington e a conseqüente necessidade de uma atuação mais eficiente tanto por parte do poder executivo quanto do legislativo. Diante deste imperativo, “as elites partidárias”, que influenciam a indicação dos candidatos e o voto dos eleitores, encaminham a preferência dos cidadãos para políticos com conhecimento técnico especializado para atuar nos vários programas de “ajuste estrutural”.
Esses argumentos vêm alimentando a idéia do político profissional como objeto de opróbrio, com argumentos estigmatizados, como se vê nas denúncias dirigidas, de maneira generalizante, aos que vivem para e da política no Parlamento eleito. Contribuem também para aumentar a suspeita dos eleitores de que os políticos eleitos obedecem a interesses ligados a um mundo à parte, e não aos interesses dos votantes.
Os analistas não examinam, no entanto, quem foram os políticos bacharéis e nem quem são os indivíduos que os teriam substituído nos postos chave da competição democrática, da mesma forma como não se perguntam sobre as maneiras pelas quais eles chegaram a alcançar a preferência neste espaço político competitivo, desacreditando os antigos especialistas em lei e o tipo de conhecimento que os produziu (Dezalay§Garth 2000).
Neste artigo, procuro compreender quem são os indivíduos que estão agora ocupando o espaço de poder político no Brasil, o conhecimento que os produziu (ciências jurídicas e sociais, economia e administração, etc.), os procedimentos de recrutamento e as chances oferecidas aos pretendentes. Foram selecionados para estudo dois conjuntos biográficos comparáveis de políticos eleitos, com carreira de sucesso, nos dois colégios de mais alto percentual de eleitores no Brasil e com o maior número de assentos no Congresso Nacional: São Paulo e Minas Gerais . Também, visando uma comparação, analisei a biografia de 4 técnicos-políticos que participaram dos planos Cruzado e Real e assessoraram a presidência da República, cotejando-as com as dos eleitos.
O trabalho faz parte de uma pesquisa mais ampla sobre a problemática da transmissão do poder no Brasil e da profissionalização do pessoal político . A idéia que embasou a construção da pesquisa foi a de que a comparação desses dois conjuntos de biografias, em dois espaços de tempo político (1945/1964 e 1984/2002), acrescida do grupo tecnocrático, pudesse ser passível de funcionar como apoio para o estudo dos processos de legitimação do pessoal político, dos usos políticos das competências profissionais e do acesso às fontes de controle dos cargos públicos.
A pesquisa
Os dois períodos foram escolhidos para o estudo por se apresentarem como períodos de reestruturação, tendo sucedido a regimes autoritários, o que significou uma intensidade e uma maior visibilidade sobre o trabalho dos políticos.
O final dos anos 40 vivenciou o momento em que a transformação brutal do sufrágio – tornado obrigatório para os alfabetizados – e a criação de partidos políticos nacionais intensificaram as relações entre o eleitor (obrigado a votar) e o candidato (que tem necessidade do voto). E entre os próprios candidatos. A tendência foi no sentido de uma profissionalização do métier político, em especial porque com a implantação dos partidos sobre o conjunto do território nacional, e a necessidade de eles apresentarem o maior número de candidatos em todas as eleições – na mira de um crescimento de sua audiência –, aumentou a concorrência entre os políticos, tornando a competição muito difícil para os empreendimentos individuais. Neste período de aprendizado democrático, os políticos-bacharéis, envoltos em arcabouços jurídicos, ligados às mais prestigiosas faculdades de Direito, promoveram a estabilidade do regime, facilitaram as reformas sociais e protegeram o que se conhece com o nome de establishment. A data de 1964 é a do golpe de Estado que marcou a supressão dos partidos políticos existentes e cancelou as eleições para cargos de governador de estado e presidente da república.
Os anos que se sucederam aos governos militares (1984-2002) assistiram a uma considerável ampliação de eleitores com a inclusão do voto do analfabeto . Entretanto, o período se caracterizou pela crise de representação: corrupção, negociatas, nepotismo, etc. E o espaço do poder passou a ser, a cada eleição, ocupado pelos políticos “modernos”, ou “técnicos”, que construíram suas carreiras disputando o poder com as elites do Direito e os políticos tradicionais, trazendo agendas orientadas para a luta por valores ligados a abertura das economias e as privatizações, pertencentes ao que se nomeou Estado Neoliberal.
Para a pesquisa, utilizei dicionários biográficos (Abreu & Beloch, 2001; Monteiro, 1994) e entrevistas – não só as realizadas por mim, mas, e principalmente, as que vêm sendo publicadas pelo Centro de Documentação de História Oral do CPDOC e por outras instituições, como a Assembléia Legislativa de Minas Gerais.
A escolha dos políticos foi feita a partir de um banco de dados biográficos, sendo que os da amostra são os de maior visibilidade nacional e com tempo de atuação política longo e de sucesso. Este critério de escolha se baseou no fato de que as funções políticas se tornaram uma profissão de tipo particular: possui regras imprecisas, seus protagonistas não as registram como sua profissão, e implica uma especialização e profissionalizações múltiplas . A maior parte dos políticos exerceu, ou mesmo ainda exerce, outras atividades. Sendo assim, nem todos podem ser considerados profissionais, no sentido de consagrar tempo completo à suas responsabilidades de homens públicos (viver para e da política no sentido weberiano). A profissionalização se desenvolve, entretanto, na medida do crescimento das posições ocupadas na hierarquia dos cargos. Como argumenta Gaxie (1993:88), “nem todos os políticos são profissionais, mas os principais são”, pois a atividade política no nível elevado supõe uma total disponibilidade psicológica e econômica. Mesmo assim, há importantes políticos ausentes nos quadros que se seguem. O fato se deve a que não acrescentariam elementos novos à demonstração pretendida.
A seguir estão quadros que sintetizam a trajetória dos 34 políticos selecionados para análise.


Transmissão do poder político e democracia
Uma leitura rápida dos quadros produzidos para a pesquisa induz a identificação de dois tipos de políticos. O que primeiro salta aos olhos é a cadeia dinástica que prende os mineiros no espaço público (que nomeio aqui “herdeiros”), contrastando com o grupo dos paulistas, que nos dois períodos analisados se apresenta como políticos de primeira geração familiar na política. Enquanto nomes portugueses de velhas famílias detentoras do poder político pesam no espaço político mineiro contemporâneo, no paulista, a maioria dos nomes estrangeiros indica a origem imigrante, ligada a negócios industriais ou comerciais, demonstrando renovação de geração política em São Paulo , desde 1945, com uma única presença de representação operária. Esta reprodução/renovação pode ser observada também no Quadro 8, no qual são apresentados os tecnocratas responsáveis pelos planos cruzado e real, apesar da pequena amostragem.
Num universo democrático, as competências simbólicas (notoriedade familiar, genealogia política, etc.) não deveriam ser condições suficientes para atingir os altos postos da República, em especial para aqueles que vão decidir quem e quais as competências legítimas no espaço competitivo dos postos públicos. A existência de uma cadeia dinástica nas posições dominantes da República afeta profundamente as regras admitidas numa sociedade democrática, pois contradiz o princípio de representação existente na alternância de poder, que se associa à idéia de eleição, ou de concurso público, ligado ao mérito, e introduz um elemento de permanência no lugar de livre acesso e esperança na transformação. Dentro deste raciocínio, a reprodução da liderança política mineira seria sintoma da negação da tese clássica da democracia. E a renovação dos porta-vozes das aspirações dos paulistas seria sintoma de progresso democrático.
Para a redação da pesquisa, estes critérios apriorísticos foram abandonados após uma análise mais cuidadosa dos quadros biográficos. No lugar da facilidade das fórmulas universais, preferi pensar as práticas políticas e sociais que contribuem para que um grupo de políticos com prestígio e poder, confundindo-se, em parte, com o jogo de relações estabelecidas no período do Império, sobreviva, com sucesso, à introdução do pluripartidarismo, ao aumento da concorrência eleitoral (com a entrada na política de candidatos de outras origens sociais) à liberdade de imprensa, à liberação das reuniões públicas e à ampliação dos espaços de ação no governo. Alem do mais, esta sobrevivência obriga, também a uma reflexão mais profunda sobre a complexidade do processo de autonomia do político em relação ao social.
Pensar este processo e, ao mesmo tempo, o caráter operatório do viés social no universo político é importante, especialmente quando se observa, por exemplo, o quadro dos técnicos que participaram dos planos cruzado e real (Quadro 8).
Portadores de alta competência técnica para gerar estes planos, integrados numa rede de relações que se assentam em universidades americanas, ultrapassando as fronteiras regionais e nacionais, estes personagens deveriam ser a prova de um novo sistema meritocrático, afastado de qualquer tradição ou origem familiar . Entretanto, a observação do grupo familiar que socializou três destes tecnocratas, traz a dúvida sobre a total desvinculação deles com um conhecimento político produzido neste meio. Os pais e avós de Lopes e Rezende foram importantes figuras da tecnocracia política dos anos 40 e 50. O parentesco de Bacha indica ligações tanto com a área legislativa quanto com a financeira. Estes ancestrais iniciaram a carreira, da mesma forma que a maior parte dos herdeiros da época, como técnicos nas secretarias de Benedito Valadares, atestando o pertencimento a uma elite política que, como demonstrou Rebelo Horta (1956: 47-77), formava uma rede de 27 famílias controlando a política do Estado em escalões burocráticos.
Dessa maneira, se lemos o Quadro 8 no sentido dado por Bourdieu (1989: 84-90) para estratégias , os dados indicam duas coisas:1) o senso prático das estratégias educativas de algumas famílias políticas que conseguiram, na socialização de seus herdeiros, interiorizar neles a capacidade de se adaptar a novos tempos, no caso o tempo da tecnocracia e, dessa forma, salvar o essencial do poder político que esta socialização visava garantir; 2) as afinidades eletivas, que aproximam os agentes dotados de habitus ou gostos semelhantes e são produtos de condições e condicionamentos sociais semelhantes. Não à-toa, foi um herdeiro político, Fernando Henrique Cardoso (Quadro 3), envolvido com a modernização do Estado brasileiro, que recrutou Edmar Bacha, Francisco Lopes e Lara Resende para gerir e negociar a implantação do “consenso de Washington” e as linhas consideradas legítimas para uma atuação política eficiente.
Assim, dentro do interesse em compreender quem são os indivíduos que ocupam o espaço de poder político no Brasil, a análise dos quadros biográficos produzidos para a pesquisa foi feita dentro do tema da reprodução/renovação da geração política, ou herdeiros políticos x novos pretendentes. Mas procurei pensá-los com base nos estilos diferentes de conexão política para acesso e ascensão aos postos nacionais, tendo em vista o fato de que a profissionalização no campo da política é coletiva, perigosa para iniciativas muito pessoais e as chances oferecidas aos pretendentes são muito diversas.
A hipótese que dirigiu a redação desta pesquisa é a de há exigências para a prática política que não se encontram nas idéias universais sobre a democracia, nem escrita nas regras jurídicas, porque têm bases sociais fora do campo político. As bases sociais delimitam as margens de liberdade de ação para o exercício do que se convencionou chamar de “artes da política”.
Herança na política e familiarização com o universo da coisa pública
Cid Rebelo Horta, no seu artigo muito citado pelos cientistas sociais, já havia, em 1956, chamado a atenção para “consciência de solidariedade” existente nos grupo familiares mineiros, concentrados em seus centros de origem, com resíduos de suas lutas do Império continuando a traçar a linha partidária e “permitindo aos parentes se descobrirem facilmente em cada eleição, para efeito do proselitismo eleitoral” (1956: 60-61).
A leitura dos Quadros 3 e 4 indicam que as conexões políticas e o lado ativo do conhecimento prático dos políticos de Minas Gerais ainda podem ser encontradas neste cenário oficioso da política, com suas redes de parentelas munidas de conhecimento do funcionamento dos trâmites parlamentares e dos altos cargos burocráticos. Este mesmo padrão descrito há 50 anos por Rebelo Horta pode, ainda, ser visto na região de base eleitoral dos políticos eleitos nas últimas eleições para deputado federal (Cf. TRE de Minas Gerais. Eleições 1988 e 2002, por município). Isto é, embora estes herdeiros contemporâneos tenham nascido e sido educados em escolas da capital, a ligação com o local de origem familiar é prática e simbolicamente mantida, vinculando as gerações uma às outras num jogo complexo de cadeias de influências. Com os vínculos que mantém, aprendem rapidamente a se conhecer e a reconhecer seus próximos e antagonistas.
O lado ativo do conhecimento prático de muitos dos eleitos estudados pode perfeitamente ser observado em seus locais de origem, onde desde cedo participam de festas íntimas e cerimônias políticas, mantêm contato com a população local e com as suas preocupações, escutam a história do lugar e de seus personagens que se confundem, muitas vezes, com a história política oficial. O deputado Roberto Brant, por exemplo, que nasceu e iniciou sua carreira pública longe de Diamantina, procura vincular seu nome à cidade de seus ancestrais, onde nasceu seu pai, o Desembargador Moacir Pimenta Brant. Notícias de jornais o mostram nesta cidade em inaugurações, recebendo personagens ilustres, etc.
A análise dos itens “Família” e “Região de base eleitoral”, no caso, nos mostra que: 1) a prática política dos políticos mineiros continua a ser elaborada no interior de redes sociais e políticas, em especial no que se refere aos princípios classificatórios que sustentam as indicações partidárias e as campanhas eleitorais dos “herdeiros” ; 2) continuam a ter sucesso as estratégias dos grupos políticos das zonas eleitorais mais antigas de Minas Gerais, que transformam em ilegítimas as candidaturas estranhas ao lugar; 3) o controle do acesso às fontes dos cargos públicos continua nas mãos dessas mesmas redes.
A análise da precocidade política, por sua vez, mostra a atividade pedagógica familiar dando sentido ao duplo jogo ao qual a família desses herdeiros políticos se empenha: o domínio da cultura histórica familiar e o da prática política.
No caso da prática política, com poucas exceções, os herdeiros a adquirem nos gabinetes de deputados e secretarias estaduais, ministérios e ante-salas do governo do estado e presidência da república, ou em cargos de confiança em agências estatais. Dentro desses locais aprendem a escutar e falar, a se informar da situação e das preocupações de cada um, a examinar minuciosamente as situações particulares, a ser ativo e eficaz, a fazer valer suas intervenções e realizações, a conduzir uma reunião – tomar a palavra no melhor momento, propor soluções inspiradas em programas de circunstâncias, exprimindo relativa originalidade – enfim, a se distinguir por suas competências e pelo saber “estar disponível” na “defesa de uma nobre causa pública”. Como assistentes, chefes de gabinete, ou assessores, criaram redes de dependentes na resolução de problemas difíceis para os leigos, e também ataram previamente os laços com os políticos mais experimentados, inicialmente como colaboradores, e mais tarde articulando as relações acumuladas nas coxias. Isto é, tiveram uma formação, ou instrução, dentro da tradição burocrática, e alcançaram os altos postos da esfera política seguindo o caminho das Secretarias chaves do Estado, como Finanças, Justiça e Interior, ou das demais agências de governo, antes de ingressar no teatro parlamentar.
Conseguiram ter acesso a essas posições graças aos laços pré-existentes, sempre começando como “menino de recado”, expressão empregada por um dos entrevistados mineiros, o que levou Hagopian (1986:189-232) a defender em sua tese de doutorado que a mistura de raízes oligárquicas, do serviço público e, freqüentemente, de uma competência técnica entre os notáveis são aspectos da política mineira que ainda permanecem intactos.
Mas a detenção dos recursos mencionados pela brazilianista não é mecânica. Uma observação do vice-governador de Minas, durante o governo de Israel Pinheiro (filho de Jõao Pinheiro, presidente do estado em 1906-08, e avô de Lara Resende), ilustra as marcas simbólicas dos ancestrais nas ações políticas como resultados de uma longa aprendizagem normativa. Observou que Israel, com a idade de 70 anos, “costumava dizer que não tomaria determinada posição, pois certamente seu pai não aprovaria” (Vaz, 1996: 21).
Esta aprendizagem influi sobre a percepção que o herdeiro pode ter dele mesmo, capaz de sustentar um projeto pessoal de reprodução da atuação de seus ancestrais, como bem explica Fernando Henrique Cardoso, também herdeiro político (Quadro 3):
“Meu avô era muito próximo do Floriano [Peixoto], foi seu ajudante-de-ordem. Meu pai, quando menino, e o meu avô moraram no Palácio do Itamaraty, onde Floriano vivia. Meu avô era então um jovem abolicionista, republicano e bastante exaltado. Foi depois o único general – ele e o Hermes [da Fonseca] – que apoiou a Revolução de 1922. Meu pai também participou da revolução de 1922. Um tio meu – irmão do meu pai – também foi preso em 22. […] Augusto Inácio do Espírito Santo Cardoso, meu tio-avô, foi ministro de Getúlio. O filho de Augusto Inácio foi também ministro da Guerra e também do Getúlio, na década de 50 […]. Meu avô foi para o Rio Grande do Sul para lutar contra a Revolução Federalista. E ficou sob as ordens do pai de Getúlio, que era então um caudilho no Rio Grande. Estas histórias todas preencheram o meu imaginário, na infância […] Estes personagens para mim, não eram de ficção. Eram pessoas. Eu fui digamos, socializado, treinado, nesse ambiente de revisão permanente dos fatos políticos, e muitas vezes em oposição ao governo.” (Toledo, 1998: 340)
Comparando esses dados de treinamento para a carreira com a prática política dos não-herdeiros, fica evidente a desigualdade de acesso ao poder. Quando se observa o treinamento político dos paulistas, por exemplo, a presença de centros acadêmicos, empresas jornalísticas, sindicatos e associações no lugar das ante-salas do governo é flagrante. Os políticos de primeira geração não tiveram a chance para utilizar os métodos de gestão e de governo entesourados pelas parentelas e a serem transmitido entre elas. Não herdaram, e, portanto não puderam assimilar, as receitas experimentadas ao longo do tempo de exercício de seus antepassados nas funções públicas em nível nacional. Não puderam, também, aprendê-las, abstratamente, na escola, pois, nos anos 50, os cursos de administração e economia apenas se iniciavam como objeto de ensino teórico escolar e eram, geralmente, procurados por jovens de extração social mais baixa, como Delfim Neto, o primeiro a deles se aproveitar para o impulso em sua carreira (Loureiro, 1977: 38). A formação nos cursos de economia e administração teve um impacto positivo em termos políticos apenas para a geração que se seguiu à reforma educacional de 1968, quando tais cursos se expandiram e valorizaram.
É sem dúvida por isso que no caso de São Paulo, onde está situada grande parte dos políticos de primeira geração, a coluna referente aos cargos públicos ocupados em agências estatais (Quadro 7) estaria totalmente em branco não fosse uma ligeira passagem de Delfim Neto pela CONSPLAN, em 1965, e a de Paulo Maluf por um ano na diretoria da Caixa Econômica. Leôncio Martins Rodrigues (2000), ao se referir às bancadas na Câmara dos Deputados (51ª legislatura), chama a atenção para o mesmo fato, isto é, de que há uma baixíssima proporção, entre os paulistas, de deputados que vieram do segmento do alto funcionalismo (1%), em contraposição aos 8% de Minas. Da mesma forma que nossa amostra exibe três dos 6 herdeiros mineiros como ex-diretores de bancos estatais, a de Leôncio registra 6% dos integrantes da bancada mineira como ex-diretores de bancos estatais. E nenhum paulista.
Mas há um outro percurso que os políticos iniciantes necessitam percorrer, que também a escola e a prática militante pouco podem ajudar. Trata-se do aprendizado longo, de alto a baixo, do funcionamento das Assembléias Legislativas e de seus regulamentos. Ora, as práticas dos procedimentos jurídicos nos trabalhos das comissões das assembléias – a chave da vida parlamentar – são extremamente complexas e exigem alto grau de sutileza para seu exercício. As condições de discussão para produção de um texto são acompanhadas de um considerável corpus de precedentes. Por esta razão, as comissões foram sempre utilizada como recurso político pelos herdeiros mineiros.
Se a trajetória dos herdeiros pressupõe, além da existência prévia de recursos familiares, uma herança política a lhes permitir uma aprendizagem suave, previsível e lenta do ofício nas secretarias do governo e órgãos estatais, a dos políticos de primeira geração pode ser vista sendo desenvolvida muito mais no quadro de operação de militância e movimentos políticos de massa (dissidências paulistas das décadas de 1920 e 1930, organizações sindicais patronais ou de trabalhadores, movimentos estudantis ou populistas) ou de empreendimentos nos campos do direito (escritórios de advocacia) ou do jornalismo.
O resultado foi uma luta pela conquista de postos do poder muito mais evidente entre os políticos de primeira geração do que entre os herdeiros e cooptados das grandes famílias. Para estes, a garantia de aquisição dos postos é uma luta mais de manutenção do que de conquista, a qual se desenha na longa duração, de uma geração a outra. Para os políticos de primeira geração, sem ligação com as grandes famílias, como é o caso da maioria dos paulistas da amostragem, a luta é totalmente marcada pela conquista e acumulação de um capital militante e/ou escolar para se conseguir alcançar os postos políticos eletivos. Esta conquista tem duração longa.
O fato pode ser visto no Quadro 9, das idades do primeiro cargo eletivo. Ele mostra o recrutamento dos herdeiros para os postos eletivos na faixa média dos 30 anos e o ingresso mais tardio na carreira política dos novos pretendentes (faixa média dos 47 anos), a partir de uma situação profissional já estabelecida em outras áreas. É o que explica também o fato de os não-herdeiros terem sido eleitos pela primeira vez diretamente para cargos de nível nacional, ao contrário dos herdeiros, que começam, em geral, pelos cargos locais. Os dados também indicam a importância do investimento nos cursos de pós-graduação, que firmaram uma moderna e internacionalizada estrutura de formação acadêmica nos anos 60, para a legitimação dos políticos de primeira geração e a renovação de estratégias dos herdeiros no campo da tecnocracia (Quadro 8).
Os diplomas e o conhecimento que concorre para a produção de um político
Dos 14 políticos em evidência no período 1984-2001, quatro possuem o diploma de direito. Os quatros são herdeiros políticos. Contrasta com o período anterior em que a maioria (18 dos 22 políticos da amostragem) cursou uma Faculdade de Direito.
Soa estranho a nova geração preterir a formação em direito, pois esta formação sempre marcou os que tinham pretensões nesta carreira. O domínio da técnica jurídica é a pedra fundamental de um deputado, considerando que o trabalho parlamentar está orientado para um objetivo preciso: a fabricação da lei. Nas comissões, e também nas sessões plenárias, os deputados se exercitam emendando textos, retomando cada artigo, parágrafos, frases e palavras. E como já bem demonstrou Mattei Dogan (1999:177-178), o sucesso de uma comissão parlamentar depende muito mais da energia despendida pelos políticos nos procedimentos jurídicos do que da justeza do que ali se advoga. O rigor jurídico foi o trunfo de muitos dos políticos da amostra nas comissões parlamentares dos anos 50, em especial nas duas encarregadas dos interesses mais fortes: a da constituição e justiça, e a de finanças e orçamento.
Mas é também a aprendizagem, se não do talento oratório, mas pelo menos do hábito de falar em público, que sempre ajudou a explicar a procura pelo curso. Franco Montoro, em suas memórias, não deixa dúvidas quanto à importância de tal formação: “Foi na São Francisco que aprendi a falar em público, instrumento indispensável de todo político interessado em explicar e convencer. Entrei para a Academia de Letras da Faculdade e, assim que ganhei algum desembaraço, deixei de lado os textos escritos, trazendo no máximo algumas notas que me serviam de guia nas exposições mais longas” (2000: 42). Pois é bom lembrar que a defesa no Parlamento não é diferente daquela do tribunal: trata-se de convencer. Trocas de opiniões, deliberação publica, fabricação da lei são inseparáveis da expressão dos interesses e da figuração para o publico de uma relação de força. O debate parlamentar é uma batalha, face a face, onde o texto se torna um pretexto à manifestação de antagonismo entre dois campos e propósito para demonstração das paixões políticas.
Se nos anos 1945-64, a maioria dos deputados da amostra saiu de uma escola de Direito, o período 1984-2000 assinala esta preferência sendo suplantada por outras carreiras mais técnicas.
Estando em jogo os programas de reforma econômica, advindas da nova ordem mundial e suas implicações decorrentes da expansão de desemprego e intensificação das crises financeiras, o que se observa entre os políticos do período 1984-2001 é a preferência pelos cursos de economia, administração e engenharia (Quadro3). Há uma tendência, também de escolaridade mais longa. Dos novos pretendentes, três possuem doutorado em economia, sendo dois deles nos Estados Unidos. Entre os herdeiros houve também aumento do tempo escolar: Fernando Henrique tem pós-doutorado, em sociologia, nos Estados Unidos e na França, e Bonifácio de Andrada, como herdeiro mineiro, fez doutorado na própria UFMG, naturalmente em direito público.
Mas a maioria dos herdeiros abandonou a escola após a graduação cursada em universidades locais. Isto se explica provavelmente pelo fato de que, para o herdeiro, herdado pela política, no sentido referido por Marx aos camponeses (a terra herda o herdeiro que a herda), fica difícil o afastamento do jogo político local para participar de cursos em circuitos internacionais. O princípio das conexões eleitorais, ligado nas complexas situações de pertencimento e cadeias de influências, é a garantia do herdeiro e sua sobrevivência a diversas eleições. Subir lentamente os degraus do poder implica a manutenção dos vínculos simbólicos com o patrimônio eleitoral herdado. Uma circulação internacional, no caso, acabaria sendo vista como ausência de raízes. Para o herdeiro, o cosmopolitismo é visto como um estigma.
Por outro lado, para aqueles que não têm as mesmas conexões simbólicas com locais de origem como base para a formação de redes eleitorais, a idéia de internacionalização se inverte, tornando-se trunfo para acumulação de capital político, em especial no momento das transformações no sistema político e no aparato estatal, como o ocorrido a partir dos meados dos anos 60. Tais transformações servirão de justificativa para o início da inserção de pretendentes à carreira política no circuito científico internacional. Melhor dizendo, a modernização no período militar inaugurou novos canais de acesso aos postos políticos, em especial os cargos na área econômica, trazendo o peso da legitimidade científica para o processo decisório.
Em Minas, o crescimento dos técnicos políticos tornou-se mais evidente na administração de Israel Pinheiro (1965-1970), que inaugurou o “planejamento científico” no Governo de Minas Gerais. Como seu pai, João Pinheiro – o positivista presidente de Minas dos anos 1906-1908 –, no afã de promover o desenvolvimento econômico do estado, Israel convidou muitos técnicos para o governo. E muitos deles foram recrutados entre determinados filhos da oligarquia que, regularmente, desde o Governo Valadares, passando pelo governo Kubitschek, vinham redefinindo o saber necessário à política dentro das secretarias e agências de governo. Para Hagopian, esta peculiar gestão familiar do serviço público é o que explica por que, contrariamente ao acontecido em São Paulo, a transferência de poder nos cargos públicos em Minas Gerais, dos políticos para os técnicos, foi menos abrupta. Em Minas, “em meados da década de 1970, as elites políticas tradicionais e os tecnocratas ‘compartilharam’ o estado” (1986:192). Na verdade, até mesmo o mais importante posto político, o de governador do estado, foi escolhido pelo governo militar dentro da oligarquia.
O fato pode nos dar uma idéia de como a virtuosidade política dada pelo grupo familiar de origem, ou pela aprendizagem nas secretarias de Estado de Minas Gerais – que funcionavam também no modelo da organização familiar – pode se transformar em aprendizagem racional, sem que uma substitua a outra. Maria Arminda Arruda (1989) chama a atenção para este aspecto contraditório quando compara o projeto de criação dos primeiros cursos superiores de ciências políticas e econômicas em Minas Gerais e em São Paulo. Lembra ela que a criação da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Minas Gerais, em 1941, contou com a participação do empresariado financeiro mineiro e representantes das associações patronais (Federação das Indústrias e Comércio), tendo como figura central o banqueiro Ivon Leite de Magalhães Pinto , e um corpo de professores de nomes conhecidos nacionalmente, como Lucas Lopes e José de Magalhães Pinto. Em São Paulo, diferentemente, a iniciativa de se criar uma escola superior de economia se deu no quadro das orientações que presidiram o projeto da Universidade de São Paulo, isto é, voltada para a Faculdade de Filosofia e com ênfase na orientação jurídica e no caráter de complementação cultural (Limongi, 1988), passando a ser procurada por jovens sem condição econômica para freqüentar a prestigiosa escola de direito do largo São Francisco ou a Politécnica, ambas da USP (Loureiro, 1997:37). A própria Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, ligada a Roberto Simonsen, não tinha a economia e nem o serviço do Estado como centro catalisador . Já na Faculdade de Ciências Econômicas de Minas Gerais, o objetivo era formar economistas voltados para a macro-economia. Os formandos em Sociologia e Política e em Administração Pública eram orientados “no sentido de assessorar o governo” (Arruda, 1989: 254). Este programa, deslocado da realidade agrária da economia mineira, estava, entretanto, de acordo com os planos políticos de formação de um profissional que se tornava necessário no plano nacional numa época em que Getúlio consolidava as bases do Estado Nacional e os primeiros passos para um planejamento da economia. O fato é melhor explicitado pelo cientista político Bolivar Lamounier, ex-aluno desta escola:
“Eu me lembro de ter lido uma vez a oração que Oliveira Vianna faria na abertura da Escola de Sociologia e Política de São Paulo […] É interessante que ele dizia ali um pouco ingenuamente, pois ele era excessivamente tecnocrático […] ele imaginava uma escola que, na verdade, se realizou em Minas. Quer dizer, uma escola para formar pessoas que vão pensar os problemas do governo […] Ninguém tinha duvida de que naquela faculdade estavam se formando os técnicos futuros do Governo do Estado. E isto de fato aconteceu […] Eu, por exemplo, tive como professor de política Econômica o Fernando Reis, que se tornaria, posteriormente, figura poderosa do estado, presidente da Cia. Vale do Rio Doce, diretor de empresas estatais.” (Arruda, 1989: 254)
Em Minas, tratava-se, positivamente, de formar profissionais bem adestrados, com intimidade com os problemas da gestão pública e privada. A montagem da estrutura arrojada da escola se completou com o sistema de bolsas de estudo, que contemplava os melhores alunos, selecionados após provas seletivas, e pela obtenção do tempo integral para os professores. Nas palavras do diretor Ivon de Magalhães Pinto, “cumpria que a faculdade passasse a diplomar elementos mais capacitados, para serem utilizados pela própria escola nas atividades didáticas e técnico-científicas e ainda para atender as necessidades do mercado profissional. Daí a idéia do regime de tempo integral de estudos para alunos, mediante o sistema de bolsas de estudos” (Arruda, 1989: 258).
Não é surpreendente constatar que Edmar Bacha tenha feito graduação nesta escola criada pelo pai de um futuro colega na PUC do Rio de Janeiro, o Prof. Francisco Lopes. Ambos, após terminarem o curso de economia, usufruíram um dos efeitos da modernização do país, que foi a instalação dos programas de pós-graduação no exterior, o qual passou a dar legitimidade política a alguns indivíduos que, como eles, com respaldo anterior em redes políticas brasileiras, puderam se inserir no circuito internacional dos diplomas para acesso ao campo político.
Esse foi o caso dos economistas citados acima e de um outro herdeiro, André Lara Rezende. Os três não eram herdeiros de um patrimônio eleitoral, mas de um estilo de político mineiro inaugurado em Minas pelo bisavô de Lara, João Pinheiro, seguido por Juscelino Kubitschek e Israel Pinheiro. O objetivo deles não era o trabalho parlamentar – nenhum desses três se sobressaiu nesta área –, e sim atuar como planejadores e executores de políticas econômico-financeira de um estado modernizador.
O ponto de encontro desses políticos-técnicos de Minas situava-se nas Secretarias de Benedito Valadares, nos anos 1930, e na Cia. do Vale do Rio Doce, nos anos 1940, de onde saíram as afinidades eletivas que vão também unir seus descendentes na PUC do Rio de Janeiro e em Harvard. As redes montadas pelos técnicos políticos de Minas, tanto no Brasil como no Exterior, nos anos 40 e 50, e as práticas adquiridas na participação nas Comissões Mistas Brasil-Estados Unidos durante o Governo Getúlio Vargas, não passaram em branco para seus descendentes. Isto pode ser visto com a criação do departamento de Pós-graduação em Economia da PUC , grande parte sob a responsabilidade de Francisco Lopes e Edmar Bacha, cujo pai e tio já haviam participado da criação da faculdade de Economia de Minas. Não se pode esquecer, também, a desenvoltura com que Lara Resende apresenta, com 33 anos de idade, o seu artigo brasileiro na reunião do Fundo Monetário Internacional, em 1984 (Sardemberg, 1987:42-46). O respaldo dado pelos meios financeiros e acadêmicos internacionais a ele e aos planos elaborados por ele, seus professores, além de Pérsio Arida, tiveram a ver com a competência do trabalho, mas a visibilidade na imprensa e a decorrente aplicação se devem a redes anteriormente estabelecidas e a autoridade e credibilidade interiorizada por estes herdeiros técnicos-políticos na explicitação de seu trabalho no circuito cientifico internacional, permitindo-lhes reforçar a diferença em relação a outros grupos políticos e econômicos.
Assim, o efeito do diploma adquirido pelos herdeiros mineiros foi muito desigual, e dependeu da posição de cada um deles neste campo, mais precisamente, da distância ou proximidade com uma experiência política de gerações anteriores em assessorar o governo no plano nacional.
Já os diplomas de doutorado dos filhos mais novos de famílias de imigrantes enriquecidos na indústria, como Eduardo Matarazzo Suplicy, serviram para que eles agissem na política de maneira mais externa. A pós-graduação nos Estados Unidos foi útil para Suplicy adquirir espaço num partido político nascente, como o PT, aí se integrando como conselheiro, a partir de estudos realizados sobre controle de preços e salários.
Militantes estudantis exilados em 1964, filhos de pequenos comerciantes de bairros de imigrantes, como José Serra, tiveram, com a política de bolsas de agências internacionais, a oportunidade de fazer investimentos escolares que não eram compreendidos pela geração de seus pais. Com apoio de movimentos de esquerda na América Latina, em especial da ala católica (era da AP), Serra, por exemplo, ganhou a possibilidade de fazer rupturas e reconversões sociais importantes, e a chance de ingressar na política, via redes políticas de Franco Montoro ligadas à Igreja Católica (Quadro 5), que o nomeou Secretário do Planejamento do Estado de São Paulo durante seu governo pré-abertura. De conselheiro, poder-se-ia talvez dizer, ele se tornou herdeiro de Montoro e de sua democracia cristã.
Este duplo movimento, perder algo e ganhar a possibilidade de fazer rupturas a partir da adversidade, como José Serra, foi o mesmo a levar Fernando Henrique à sua trajetória política de sucesso após o exílio – no qual acumulou um capital científico ímpar nas instituições acadêmicas de ponta do Chile, França e Estados Unidos. Após sua volta, e ter perdido a cátedra de Ciências Políticas na USP com uma aposentadoria compulsória, o capital de relações acumulado no exílio ajudou-o a criar o CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), financiado pela Fundação Ford. E aproximou-o da área empresarial, via as encomendas de pesquisa. Mas ele próprio não deixa de reconhecer que seu sucesso político não se deve somente aos esforços despendidos em sua formação acadêmica e ao acúmulo das relações. “Fui socializado, treinado nesse ambiente de revisão permanente dos fatos políticos, e muitas vezes em oposição ao governo” (Toledo, 1998:340). Isto é, um treinamento político na família, que o aproximou de Ulisses Guimarães, no momento em que este procurava outras alianças capazes de legitimar a campanha das Diretas Já e o fortalecimento do PMDB. De menino que escutava as discussões e as histórias políticas da família, e de intelectual que aprendeu a “anotar com paciência, perguntar, perguntar de novo” (Toledo, 1998:343), passou, com a rede já montada por Ulisses, a pensar e a atuar como um profissional que se tornava necessário no plano nacional, escrevendo o novo programa das oposições, o MDB (Garcia, 2003:4).Considerações finais: herança na política ou transmissão?
O que esta pesquisa deixou até agora como saldo é o sentido do trabalho coletivo do político articulado em redes. Pensar nessas redes implica um mergulho não só nas estratégias de educação, mas, principalmente no significado de uma herança em política.
O caso de Lula é exemplar para uma discussão desse quilate. Não recebeu uma educação escolar e não foi socializado em uma tradição familiar de políticos. Sua possibilidade de arranque lhe veio de um capital político acumulado em movimentos sindicais operários e um momento político favorável às alianças e articulações, o mesmo momento aproveitado por Fernando Henrique junto à oposição liberal. Mas diferentemente de um herdeiro como Fernando Henrique, Lula, só dispondo de um capital político militante, articulou-se com outros militantes, seja de partidos de esquerda, sindicalistas ou universitários, para criar o PT.
A narrativa de um socialista histórico, Antonio Candido, sobre a fundação do PT em 1980 no Colégio Sion mostra bem toda uma esquerda militante brasileira que recolhia seu espólio para investi-la em algo:
“Não hesitei em ir à reunião histórica do Colégio Sion, em fevereiro de 1980, na qual me sentei ao lado de um antigo companheiro do Partido Socialista, Paulo Singer, vendo que lá estavam também outros companheiros mais velhos, como Lélia Abramo, Mário Pedrosa, Sérgio Buarque de Holanda, que receberam grandes aplausos. Lembro que chamou minha atenção um sinal dos tempos: a presença de pessoas originárias de opções ideológicas que alguns anos atrás se hostilizavam, por vezes com grande aspereza: stalinistas, trotskistas, socialistas democráticos. Ao vê-los reunidos em coexistência pacífica, como quem partilha de convicções comuns, percebi que estava começando uma era diferente na história da esquerda brasileira.” (Souza, 2000:1)
Nesta reunião cumpria-se uma formalidade indispensável, de acordo com a Lei nº 6.767 que modificou os dispositivos da Lei Orgânica dos Partidos Políticos de 1971. Para que o registro da nova agremiação se tornasse possível, haveria a necessidade de um manifesto, com um mínimo de 101 assinaturas, expressando os objetivos e as linhas fundamentais de pensamento que deveriam ser a base da proposta do partido. Entretanto, a mesa que dirigiu os trabalhos , com a presença de Lula, o número de pessoas que compareceu (uma média de 700) e as seis primeiras pessoas que assinaram o trabalho, representantes históricos dos partidos de esquerda , demonstram que Lula se tornou um político, não somente porque era um sindicalista, mas porque ele foi, à sua maneira, um herdeiro também. Não de uma oligarquia, mas foi herdado pela esquerda brasileira, que o herdou.

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Publicado em: Cahiers du Brésil Contemporain, CRBC/EHESS, Paris, v. 47/48, p. 71-119, 2002.

La valorisation des formes officielles d’appréhension politique, au détriment des formes de politisation des relations sociales, empêche une
indication plus précise sur les relations existant entre la société et les hommes politiques. En partant de ce souci, cet article cherche à penser les pratiques politiques et sociales au-delà de la vision idéalisée de la politique, c’est-à-dire en reconnaissant le caractère opérationnel des liens sociaux dans l’univers politique contemporain.
Cette proposition se heurte, certainement, à la constitution d’une activité politique qui devient de plus en plus autonome, dépendante d’un univers de règles, de croyances et de rôles propres, et exercée collectivement dans le cadre de partis politiques spécialisés. La proposition permet toutefois
d’examiner avec attention les relations entre les “hommes politiques” et “la société” : cette relation serait-elle arbitrée par les expériences sociales
antérieures, ou le jeu de la politique ne peut-il être compris que par ses propres règles ? Etant sujets du verdict populaire, les hommes politiques
peuvent-ils rester prisonniers des règles de leur monde propre ? S’ils ont la nécessité d’établir une relation avec ceux qui leur ont donné délégation, une partie de leur action ne devrait-elle pas être tournée vers une logique entièrement propre et dépendante d’un apprentissage, développé en même temps sur le champ social et à l’intérieur du champ politique ?

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