A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos

Apresentado em: “Social Sciences and Humanities in the Changing North-South Relations”, INTERCO-SSH – Cordoba, 2015

Esta exposição trata do encontro de funcionários da Fundação Ford – uma das grandes entidades filantrópicas americanas que financiam a produção de conhecimento e de instituições – com parceiros e beneficiários brasileiros passíveis de negociar projetos de interesses convergentes. Por meio desse caso exemplar, que envolve as atividades da Fundação na área das ciências sociais no Brasil, nos anos 1960-1980, interesso-me pela maneira como certos projetos transnacionais são importados e difundidos, chamando a atenção para os program officers, catalisadores na transferência e difusão de projetos transnacionais envoltos nos paradigmas da ciência política e da economia norte-americana.

Na famosa descrição de Dwight Macdonald, a Fundação Ford, que se lançou no cenário internacional durante da guerra Fria, seria simplesmente uma quantidade de dinheiro rodeada de pessoas desejosas dela (Macdonald, 1955:3).

O que pretendo demonstrar aqui vai mais longe, considerando que uma fundação filantrópica não distribui seu dinheiro sem discernimento e nem age isolada. O sucesso de seus programas depende da ação de seus mediadores na escolha dos beneficiários, pois é por meio das doações, e de quem as recebe, que ela exerce sua influência. Atentando para as somas importantes que a Fundação Ford destinou à produção de conhecimentos no domínio das ciências sociais no Brasil (mais de 13 milhões de dólares entre 1966 e 1989), chamo a atenção para a maneira como se deu o encontro dos program officers, encarregados de aprovar as doações, com os intelectuais brasileiros receptivos ao suporte técnico e financeiro oferecido para a criação de instituições de pesquisa em ciências sociais inovadoras, tendo em vista um programa de formação de novas elites para o país.

A hipótese que sustenta este trabalho é a de que as estratégias nacionais e internacionais são convergentes. O sucesso das estratégias de transferência de conhecimentos depende do encontro dos atores envolvidos nessa transferência em momentos históricos muito específicos: os receptores locais, carregados de expectativas e dispostos a subverter regras que não os beneficiam, e os mediadores estrangeiros, capazes de difundir valores e promover mudanças de percepção dentro de um quadro de referências institucionais (desenvolvidas no país de origem) suficientemente flexível para que sejam adaptadas ao sistema local de forma pragmática.

Destacarei especialmente  o encontro que levou à criação do Departamento de Ciência Política na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, o primeiro do Brasil (1965), e ao recrutamento de professores dessa universidade para estudar essa disciplina no sistema pós-graduado norte-americano – dando sequência ao que as elites econômicas e políticas do estado de Minas Gerais já haviam iniciado quando, rompendo com a tradição das ciências sociais sediadas em faculdades de filosofia, incluíram, em 1954, a sociologia política numa faculdade de economia. Será sublinhado também o encontro com os professores expurgados da USP pelo governo militar, o que levou à criação, em 1969, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), o primeiro grande centro de pesquisa independente sobre a realidade brasileira, um caso privilegiado pela visibilidade que deu à complexa relação existente entre a produção científica e a vida social e política [1]. Lembrarei, ainda, a criação da pós-graduação em ciências sociais no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ e sua valorização do empirismo, a romper com a tradição eminentemente ensaística das ciências sociais. Por fim, o papel estimulante desses agentes mediadores na criação do Comitê Assessor em Ciências Sociais, que dinamizou a Associação Nacional da Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), em 1978, “expressão do novo equilíbrio de forças entre programas de pós-graduação, centros de pesquisa, disciplinas, tradições de pensamento e de prática científica” (Miceli, 1993:61).

As ações resultantes desses encontros serão apreciadas tendo em mente dois efeitos merecedores de reflexão. Primeiro, elas estiveram na origem dos novos modelos de interpretação da realidade nacional, que se desviaram dos anteriores que estavam ancorados no direito e na sociologia. Além de subverter a hierarquia dos conhecimentos, esses novos modelos trouxeram uma nova prospectiva no trato com os problemas sociais e as políticas públicas, buscando priorizar a competência técnica, fundamentada na estatística. Em segundo lugar, boa parte dos intelectuais de alto nível patrocinados pela Fundação engajaram-se posteriormente na luta pela modernização dos dispositivos de Estado e das competências de governo, transformando-se nos mais importantes atores na reestruturação do espaço político brasileiro dos anos 1990. [2]

Esta exposição está dividia em três partes. Na primeira tratarei dos propósitos da agência de financiamento. Na segunda, dos funcionários da fundação enviados ao Brasil e sua intermediação no financiamento da produção de conhecimento e de instituições junto a parceiros e beneficiários.  Por fim, uma síntese da linha da atuação da Fundação no que se refere à criação da ANPOCS.

Os contatos inicias da Fundação Ford no Brasil e o programa de transferência dos paradigmas da ciência política no Brasil

O encontro direto dos representantes da Fundação Ford com os cientistas sociais brasileiros só aconteceu após o golpe de Estado de 1964. Até então, as recomendações para os programas da Fundação a serem implantados estavam ainda fortemente vinculados à política externa dos Estados Unidos, bastando a vinda de consultores norte-americanos para tratar das questões de política e planejamento da modernização do país, na esteira dos programas da USAID, Peace Corps e Alliance for Progress.  Tais programas não exigiam contatos mais profundos com os intelectuais locais.

O escritório da Fundação Ford no Brasil foi instalado em 1962, no mesmo ano de outros semelhantes na América Latina (Chile e México) e na África (Nairóbi). A abertura dos escritórios marca, portanto, o deslocamento da filantropia internacional da Fundação para regiões limítrofes de governos comunistas. A mudança de rumo já havia sido anunciada com a inauguração oficial do escritório de Istambul, na Turquia, em 1960. Mas para a América Latina, dentre os vários eventos políticos desestabilizadores neste período da Guerra Fria, a motivação principal para este movimento foi a revolução cubana, que priorizou a  canalização das doações para a difusão de ideias de modernização, desenvolvimento e democracia no continente.

A divulgação dessas ideias no Brasil, no delicado momento político dos anos 1960, foi facilitada pelas discussões que existiam na sociedade brasileira concernentes à aceleração da industrialização do país, as quais prolongavam os temas da Comissão Mista Brasil/Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico[3] (1951-1953), ligada ao Ponto IV do Plano Marshal. Os trabalhos desta Comissão haviam contribuído para a prática de gestão e aplicação mais racional dos recursos públicos, além da formação de uma equipe de técnicos brasileiros aptos a devolver projetos de infraestrutura. Mas, até o final dos anos 1950, nenhum dos temas da discussão em administração pública chegou a enfrentar a área do desenvolvimento social e político.

A Fundação Ford no Brasil viria, portanto, atuar exatamente nos domínios não contemplados pela Comissão Mista Brasil/Estados Unidos: o social e o político, por meio da educação superior

A estratégia para o financiamento de pesquisas e cursos de pós-graduação na área das ciências sociais foi estabelecida pouco a pouco. Em 1964, o golpe de Estado, que contou com o apoio do governo americano, afastou a Fundação dos programas locais ligados à política externa norte-americana ( USAID e à Alliance for Progress.). Em seu lugar, foram trazidas as técnicas da Behavioral Sciences, apreendidas no famoso Salzburg Seminar ( o qual a Fundacao havia financiado) como base para expandir, também no Brasil, the United States thinking about political and economic development through education (Holmes, 2013:42-43; Pollack,1979:56-58). Pensava-se em possibilitar o aparecimento de uma comunidade de cientistas sociais brasileiros que não fosse territorialmente circunscrita e que dialogasse com a sociologia empirista, o modelo das relações entre pesquisa social e agentes econômicos e políticos elaborado por Paul F. Lazarsfeld,nos Estados Unidos. Como Peter Bell, o mais importante agente da Fundação no Brasil no período de 1965 a 1969 afirmou,  “os cientistas sociais poderiam ajudar a explorar e clarificar as dimensões política e social do desenvolvimento”.

A orientação para essas ações coincide com a que foi dada pelo Seminário de Salzburg, ou seja, primeiro recrutar e atrair estudiosos em ciências sociais integrando-os às estratégias promovida pelo mecenas, na esperança de que eles desenvolvessem, mais tarde, programas de ensino e pesquisa no país de origem sem mais intervenção direta da Fundação. Segundo,  assistir o grupo de cientistas apoiados para que eles pudessem criar e desenvolver em seu país uma agência científica central, a fim de coordenar a pesquisa científica nacional e evitar a “fuga de cérebros” (Rose, 2003:72-94).

Peter Bell na implementação do programa da Fundação Ford

O representante da Fundação selecionado para a implementação desse programa no Brasil foi Peter Bell que, então com 22 anos, fez jus às recomendações contidas no Gaither Report  no que se refere aos principais critérios para a escolha dos  agentes que garantiriam o sucesso do programa filantrópico da Ford: uma maior ênfase nas  habilidades interpessoais, na imaginação e na experiência em interesses gerais do que na idade, especialização ou reputação.; experiência em viagens e “flexibility to deal with all kinds of people, and a deep conviction with respect to the fundamental objectives of the program”. Qualidades que seriam “necessary to change the content of the program from time to time to meet new conditions”.  (Gaither:133-136).

Quando foi escolhido, Peter Bell havia acabado de receber seu diploma da Woodrow Wilson School of International Affairs em Princeton. como ele prórpio registrou,  seus contatos com o exterior, sensibilizando-o para  “opportunities to resolve conflict, to make peace, to bring about justice, to protect the vulnerable, and to support the poor and disadvantaged”, já vinham do tempo de seus estudos secundários, quando recebeu uma bolsa de estudos para o American Field Service, fazendo parte do primeiros grupo de estudantes secundaristas a ir para o Japão após da Segunda Guerra Mundial, visitando Nagasaki com uma família japonesa. Depois do segundo ano da graduação em Yale, ele se engaged in the civil rights movement, na Operation Crossroads Africa, que resulted in the award to him, entregue a estudantes dedicados a resolver problemas internacionais e buscar a paz, pelo trabalho realizado na Costa do Marfim. Posteriormente adquiriu familiaridade com o governo norte-americano em área sensível da política externa ao trabalhar como estagiário em international security affairs at the Department of Defense, aprendendo o suficiente “about American involvement in Vietnam to be deeply troubled”;  o que o decidiu a desistir de uma carreira governamental e  aceitar o convite para entrar  na Divisão Internacional da Fundação Ford. Em suas entrevistas, usa como uma espécie de mantra, as palavras de seu professor de metafísica em Yale: “Go out and make the world less miserable.”[4]

A primeira missão de Peter Bell no Brasil lhe mostrou o valor desse curriculo para atuar no cenário brasileiro que Sergio Miceli descreveu, com muita propriedade, como mais assemelhado a um enredo de filme  policial do que a um exercício profissional do mecenato (Miceli, 1993:47). De fato, ao chegar na  Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG , em 1965, foi recebido com a  explosão de uma bomba detonada por estudantes avisando-o para que mantivesse distância. Durante os cinco anos de permanência no Brasil  atuou em meio a essas bombas de intimidação, ameaças, provocações, perseguições aos beneficiários das doações, o que, no final acabou “contribuindo para a modelagem de  rotas próprias e arriscadas para a atuação  da Fundação no Brasil” (Miceli, 1993:47) na área das  ciências sociais. A primeira doação aprovada foi para a criação do Departamento de Ciência Política na Faculdade de Ciências Econômicas – FACE, apesar das bombas – seguidas das bolsas de estudo para professores desta escola estudarem ciência política nas principais universidades americanas.  Como se pode ver, abaixo, das 26 bolsas doadas nos primeiros anos, 16 eram da Faculdade de Ciências Economicas de UFMG.

Quadro 1

Science politique – Boursiers de la Fondation FORD (1966-1976)
(par pays, institution d’origine, et destination)

Institution de destination Institution d’origine
UFMG UFRG UFF PUC-RIO USP UnB UFRGS Total
Stanford – EUA 4 1 5
MIT- EUA 3 3
Berkeley- EUA 1 2 3
Harvard – EUA 2 1 3
Michigan – EUA 3

 

3
UCLA – EUA 2 2
Chicago – EUA 1 1
Vanderbilt – EUA 1 1
Cornell- EUA 1 1
Universités

européennes

2 1 3
Total 16 3 1 1 2 1 1 25

Source –Curriculo Lattes, Associaciacão Nacional dos Cientistas Políticos, informations d’entrevues.

 

A ciência política como disciplina ainda não havia sido introduzida nos cursos superiores brasileiros. E não havia ainda no país um sistema de bolsas de estudos institucionalizado e muito menos voltado para a área das ciências sociais. O sistema de bolsas de estudos no Brasil só foi institucionalizado após a reforma universitária de 1968.

Nesse contexto, como compreender as razões da escolha da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG feita em detrimento de outras instituições possíveis, entre diversas renomadas que funcionavam em centros intelectuais mais conhecidos e centrais, tanto no Rio de Janeiro como em  São Paulo – num momento político em que a Fundação Ford, no Brasil, era percebida como uma espécie de “instrumento do imperialismo americano” e os estudantes e professores que se aproximavam dela eram encarados como “abomináveis” (Miceli 1993; Reis, 2004)? O que levou os estudantes e professores de Minas Gerais a aceitarem  o auxílio da agência filantrópica e como eles se legitimaram perante os agentes da Fundação no Brasil?

O encontro com o curso de sociologia política na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG e seus professores bolsistas

A escolha da FACE veio de pontos internacionais comuns nos primeiros    contatos de Peter Bell no Brasil. Primeiramente, com Leonidas Xausa, um PhD em ciência política pela Universidade de Columbia[5] . Como se sabe, foi nessa universidade que Lazarsfeld desenvolveu as técnicas de sondagem, a ferramenta chave de toda pesquisa americana até os anos 1960.  Leonidas Xausa lhe apresentou  Octávio Cintra, um jovem professor do curso de Sociologia e Política da FACE,   ex-bolsista da ONU– FLACSO, localizada em Santiago, no Chile, onde se situavam  os escritórios  especializados das Nações Unidas na America Latina. Esses pontos itnernacionais comuns levaram Bell a conhecer o curso de sociologia que funcionava, diferentemente de todos os outros cursos de sociologia no Brasil, dentro de uma Faculdade de Economia.

Em meio a bombas de repúdio jogadas por estudantes, Bell encontrou nesta escola uma geração de sociólogos disciplinados, com uma formação sociológica internacional que selava a aliança  entre política e pesquisa social,  a começar com o empirismo das sondagens. No cursos de de Sociologia, davam um novo impulso às reflexoes sobre política no Brasil, com artigos publicados na Revista Brasileira de Estudos Políticos RBEP, divulgando temas novos no meio acadêmico , como natureza dos sistema de partidos e comportamento eleitoral, origem social dos dirigentes, etc. Única no gênero no Brasil da época, era a mais internacional das revistas de Ciências Sociais feitas no Brasil e foi a primeira a suscitar artigos empíricos orientados metodologicamente por surveys. Uma área de estudos que a própria Fundação Ford havia criado, em 1954, no Center for Advanced Studies in the Behavioral Sciences, em Stanford, e exportado para a Europa, com  fundos substanciais, por meio do Salzburg Seminar criado em Harvard.

O curso de sociologia e política havia sido criado dentro da FACE, em 1953, com vistas a pensar a modernização da administração pública do Estado de Minas Gerais (Arruda, 1989), quando Juscelino Kubitschek era governador do estado. Por essa razão,  foi anexado ao de Administração Pública. Sua constituição tinha a ver com as  estratégias políticas de formação de profissionais necessários no plano nacional, num momento em que os grandes progressos para o planejamento da economia nacional estavam em curso na Comissão Mista Brasil/Estados Unidos. Longe da realidade agrária da economia mineira, muitos professores do curso já procuravam  romper com a tradição ensaística dos estudos políticos brasileiros ligados ao direito constitucional e à economia política, orientando-se em proximidade com a ciência política elaborada nos Estados Unidos (Reis, 2004:17). Manter um curso de sociologia política acoplado ao de Administração Publica numa Faculdade de Economia era uma grande inovação e, pelo apoio dado a ele por banqueiros e políticos renomados (Paula, 2006:333; 2011), pode-se pensar no seu papel de  garantir a posição dos políticos mineiros junto às instituições do Estado Nacional. , Juscelino Kubitschek, por exemplo, que fora eleito presidente da República, em 1955, com um ambicioso plano de metas para eliminar os “pontos de estrangulamento” da economia brasileira, realizado  com base no diagnóstico da Comissão Mista , foi membro da direcao dessa Faculdade..

Dos 11 primeiros professores recrutados por Peter Bell para estudar ciência política nos Estados Unidos, no período 1966-1969, sete deles  foram selecionados deste curso por dois professores da universidade de Stanford, Frank Bonilla e Robert Packeman, onde se encontrava o Center for Advanced Studies in the Behavioral Sciences criado pela  Ford Foundation. Uma pesquisa (Canedo, 2009:41-42) identifica esses sete professores mineiros como possuindo um capital social relativamente modesto, a primeira geração a aceder aos estudos superiores na família e, sobretudo, sem qualquer laço de parentesco com a rede das grandes famílias políticas de Minas Gerais, que detinham as mais importantes posições governamentais, inclusive no nível nacional[6]. Ainda assim frequentaram escolas secundárias de primeira linha em Belo Horizonte e obtiveram  bolsas de estudos para se diplomarem na FACE, dentro de um programa criado por um professor da Universidade de Pittsburgh, Elwyn A. Mauck, enviado pelo Brazilian Board of Advisors on Public Administration para adaptar o curso aos conceitos dos estudos multidisciplinares que eram desenvolvidos nos Estados Unidos (United States. Foreign Operations Administration, 1954:20; Barros, 2013:112-118)[7]. O programa de bolsas foi implementado pela direção da Faculdade com apoio dos empresários e banqueiros mineiros(Barros, 2013:112-118). Foi o primeiro no gênero implantado no Brasil, baseado no mérito, dispondo de infraestrutura extraordinária em relação aos demais cursos similares no Brasil. Tinha por base a ideia de que, em ambiente continuado, os  graduandos da FACE, selecionados por concursos,  se  transformassem na massa inicial para uma pós-graduação sólida e competente, abrindo caminho para a capacitação e a reprodução do quadro docente (Canedo,2009).

O fato de terem conquistado bolsas de estudos por mérito em importantes instituições nacionais e internacionais e serem intelectuais reconhecidos na academia não apagava o fato de a sociologia não ser considerada um curso de prestígio para o mercado local. Além  do mais, a formação fora dos parâmetros dos mais influentes cursos de sociologia existentes nas universidades brasileiras indica a dificuldade para encontrar uma porta para atuação profissional fora da UFMG,  ou alcançar altos cargos na administração pública federal, que estavam preferencialmente abertos para os herdeiros das grandes famílias mineiras (Canedo, 2009). Esses herdeiros escolhiam a tradicional Faculdade de Direito, de maior prestígio para quem aspirava a altos postos políticos.

José Murilo de Carvalho, um desses ex-bolsistas, hoje membro da Academia Brasileira de Letras e autor de livros que contribuíram para a revisão total da história republicana brasileira,  explica,  em entrevista, esta situação e o  funcionamento prático da hierarquia universitária:

Eu não tinha perspectiva profissional. Para dar um exemplo, não me passava pela cabeça que um dia pudesse comprar um carro […].  O fenômeno era mais geral e transparecia nos bailes do Diretório Central dos Estudantes. Na dança, a distância entre moças e rapazes era definida a partir da resposta que se dava a uma pergunta inevitável que elas faziam logo que de início: “que curso você está fazendo?” Se a resposta fosse Sociologia Política, ou outro curso de pequeno prestígio, a distância entre os pares aumentava e daí a pouco elas se escusavam e voltavam às cadeiras à espera de melhor sorte. Quem quisesse se dar bem tinha que responder Engenharia, Medicina, Direito, ou Economia. Aí elas grudavam. (Paiva, 2010: 228)

Motivo pelo qual, muitos deles filiaram-se a grupos de esquerda, no início dos anos 1960, e foram profundamente afetados pela repressão política após o golpe de Estado de 1964. Como para a maioria dos brasileiros, o golpe os pegou de surpresa, “como o céu desabando sobre nossas cabeças […]. Vagávamos perdidos pelas ruas de Belo Horizonte, enquanto os alunos de direita circulavam armados, denunciando colegas e fazendo prisões” (Paiva, 2010: 228).

Nessa Faculdade de Ciências Econômicas, entre os que vagavam perdidos neste momento político especial, Peter Bell encontrou o terreno favorável a seus objetivos: não só o de constituir uma ciência rigorosa da sociedade, como o de também cultivar virtudes cívicas indispensáveis à construção de um mercado internacional da competência do Estado.  O apoio para a criação do Departamento de Ciência Política na UFMG  ajuda a entender a estratégia de longo prazo da Fundação: investir em algo novo, numa disciplina ainda inexistente no Brasil com forte apoio de uma universidade reconhecida. É o que explica o desinteresse manifestado por Bell à solicitação financeira da USAID para um projeto de estudos do Centro de Estudos e Pesquisas no Ensino do Direito – CEPED – visando a reforma no ensino jurídico:

As with housing, it can be easier to build from scratch than to restructure a pre-existing but outmoded building. Reforming legal education meant changing well-entrenched institutional practices and cultures—no easy task, as the Foundation and CEPED would discover. […]  I had some inkling of how difficult it might be for a small center–outside of any law school and without strong university support–to bring about the far-reaching reform of legal education; but in retrospect we failed to appreciate what a slow, uphill climb it would at best be (Bell, 2010:13).

A decisão de investir na FACE e nos seus professores, com forte suporte de uma universidade, em lugar de reformar o ensino jurídico com suas práticas e culturas institucionais, resultou em frutos de alta qualidade, compatível com o investimento feito de ambos os lados.

Com o contínuo apoio financeiro da Fundação Ford, criaram programas pioneiros de pós-graduação em política, tanto em Minas Gerais quanto no Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro – IUPERJ,  que foi localizado dentro de uma das mais antigas instituições privadas  de ensino superior do país (Faculdade Candido Mendes). Dentro do IUPEJ transformaram a revista Dados: Revista de Ciências Sociais, de nome bem significativo para a valorização do empirismo, numa revista internacional que, ainda, é uma referência na área.

 

O encontro com intelectuais expurgados da USP: a produção de conhecimento em ciências sociais como  vetor das  reformas de Estado

Também receptivos a desenvolver um projeto em conjunto com a Fundação Ford foram os intelectuais expurgados Universidade de São Paulo pelo Ato Institucional n. 5 (13 de dezembro de 1968). Neles Peter Bell encontrou o desejo e a expectativa de permanecerem produtivamente engajados no Brasil em atividades de pesquisa por meio da criação de um think tank independente, capaz de implementar novos métodos de trabalho científico para superar a compartimentalização do conhecimento, promover mudanças e influir na realidade.

Sob inspiração e liderança de Fernando Henrique Cardoso,  cinco desses professores afastados da universidade, oriundos de diversos campos do conhecimento – o filósofo José Arthur Giannotti, a demógrafa Elza Berquó, o sociólogo Candido Camargo Procópio, o economista Paul Singer e o cientista político Juarez Brandão Lopes – haviam se reunidos, seis meses depois do expurgo, para organizar o centro e  “criar as condições de continuidade de um pensamento livre nos anos da truculenta ditadura militar” (Montero, 2002). A rapidez do movimento indica que a ideia já vinha sendo desenvolvida há alguns anos (Sorj, 2001: 30-31).

Tal como os professores de Minas Gerais, esses paulistas tinham formação em universidades americanas (com exceção de Singer) e procuravam algo novo, diferenciado do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) – o mais influente think tank do país naquele momento – pois não tinham a  intenção  de se assumirem como porta vozes dos movimentos sociais e, menos ainda, criar um centro de pesquisas  formulador de doutrinas. Assim, na ata de fundação, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – CEBRAP foi  definido como uma sociedade civil, sem fins lucrativos, com objetivos de pesquisa, assistência técnica, consultoria, treinamento e ensino (Berquo, 2012).

Um projeto com esta ambição necessitava de respaldo político e financeiro, o que apresentava dificuldades. Além da falta de recursos, era  enorme a suspeita de “subversivos” em relação ao grupo. Seus integrantes mobilizaram inicialmente as relações sociais e políticas que mantinham com os setores liberais da elite (sobretudo paulista): entre os empresários – todos com forte orientação intelectual – destacam-se os nomes de José Mindlin, Celso Lafer, Oswaldo Gusmão, P. Farkas e, entre os políticos, Paulo Egídio, Severo Gomes, Dilson Funaro.

Tratava-se de “vínculos bastantes sofisticados tanto no nível dos indivíduos como no nível de relações com instituições”, de acordo com Frank Bonilha, consultor da Fundação Ford (Sorj, 2001:33), o que capacitava o grupo para uma solicitação de verba para a criação do centro. Bolivar Lamounier, umdos  mineiros da FACE que já havia sido tirado da prisao por peter Bell, desempenhou um papel de intermediário nas negociações.

Num discurso de agradecimento aos colegas do CEBRAP que o celebravam pelo premio Kluger, Fernando Henrique relata que Peter Bell “agiu incisivamente para convencer seus patrocinadores de que valia a pena dar algum recurso para uma organização como o CEBRAP, que nascia numa área cinzenta: não se sabia se seria aceito com legitimidade, ou se seria considerado uma organização subversiva” (Cardoso, 2002:199).

Pelo seu lado, Peter Bell continuava a receber ameaças. Desta vez, elas não vieram de estudantes e nem mesmo dos policiais que ele visitara numerosas vezes nas delegacias de policia para dar respaldo a professores presos. A ameaça veio do próprio representante da embaixada americana no Rio:

Ele começou me avisando: “Se você sabe o que é bom para a sua carreira, você irá desistir de obter a verba para o CEBRAP”. Eu disse a ele que nós trabalhamos muito na recomendação, revisamos com cuidado a proposta e os planos de Fernando Henrique e seus colegas, e estávamos convencidos de que atendia aos nossos parâmetros. Realmente, nós estávamos entusiasmados com aquela oportunidade […].  Ele respondeu marcando um encontro para mim no dia seguinte com um oficial da CIA. Ele chegou carregando uma pasta com memorandos e clippings de jornal. Eu examinei o material com ele: cada item simplesmente indicava que Fernando Henrique havia sido visto na presença de um “conhecido esquerdista”. Eu disse ao meu visitante que a pasta era tão somente sobre “culpado por associação” e que eu não havia visto nada que invalidasse nossa recomendação aos representantes da fundação. Eles de fato rapidamente aprovaram a doação. (Bell, 2012)

A disposição de Bell de apoiar o CEBRAP desencadeou uma intensa polêmica entre os intelectuais diante do significado político e mesmo moral que a aceitação do dinheiro dessa instituição poderia ter naquele momento, e das possíveis restrições de ordem intelectual que este tipo de vínculo poderia acarretar para os membros do Centro (Sorj, 2001:32).

Entretanto, foi a  doação que Bell aprovou  para a criação do CEBRAP (dois milhões duzentos e dezesseis dólares) que transformou o Centro numa referência na produção de conhecimentos de ponta nas diferentes ciências sociais, funcionando como fórum de debates sobre grandes  problemas nacionais e  não somente como meio para  transferência  de conceitos clássicos, como se fazia até então. Desta maneira, o Centro contribuiu para definir o papel social e político dos intelectuais, aproximando-os de públicos relativamente divergentes, como tecnocratas e reformadores modernistas, mas também  ideólogos da esquerda marxista e  apoiadores do movimento de 1964.

A Fundação amparou financeiramente o trabalhos do CEBRAP até 1976, quando a FINEP – Financiamento de Estudos e Projetos Científicos e Tecnológicos – vinculada ao Ministério do Planejamento, iniciou o processo de construção institucional das Ciências Sociais no Brasil,  iniciado pela Fundação Ford.

Boa parte dos fundadores do CEBRAP, assim como os primeiros beneficiários das doações da Fundação Ford em Minas Gerais,  fez parte do governo Fernando Henrique Cardoso, quando este foi eleito presidente da República em 1994, após a redemocratização do país.  Eles foram chamados pelo presidente a assumir o papel de principais assessores para as políticas de Estado inovadoras promovidas no período. Das reformas de que participaram sobressai a do sistema estatístico do IBGE, órgão que reúne os indicadores e as informações básicas para o governo e a população, responsável pela reorganização do impacto dos serviços sociais oferecidos pelo governo com educação básica e assistência à saúde e principalmente os benefícios da previdência social e o pagamento de pensões (Schwartzman, 2009). Foi o que possibilitou o impacto dos programas sociais públicos de redistribuição da renda implantados no período, em especial  no campo da política de enfrentamento da pobreza, lideradas por Vilmar Farias, relativas às instituições do sistema de proteção social: a elaboração da chamada “rede de proteção social do governo”, que pretendia combater a pobreza nas cidades com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Esse programa inaugurou no Brasil a política social de transferências monetárias a pessoas ou famílias de mais baixa renda, destinado a protegê-las nas distintas circunstâncias de risco e vulnerabilidade social. Os ex- beneficiários das dotações fizeram parte também da maioria dos conselhos criados, entre eles o de educação e política externa, e vários ministérios, como o da Saúde e o da Cultura, participando das reformas do Estado brasileiro, para transformá-lo em indutor do crescimento e regulamentador da economia. Enfim, essa equipe de governo foi produto de uma elite gerada por um modelo de Estado desenvolvido dentro do CEBRAP, que formou gerações de intelectuais, cientistas e técnicos de primeira grandeza. .

Ao completar seus quarenta anos em 2011, o CEBRAP contava com algo em torno de 68 pesquisadores entre sêniores, plenos e assistentes.  A criação e a consolidação de programas de pós-graduação nas universidades trouxe novas gerações ao Centro, mas como a maioria dos fundadores, estas novas gerações  também foram formadas, na sua maioria,  nos centros de pós-graduação em ciência política dos Estados Unidos, continuando a trazer de lá os novos instrumentais analíticos para enfrentar os debates mais contemporâneos sobre democracia, Estado, partidos políticos e eleições

A criação da ANPOCS: agregar os pesquisadores numa comunidade internacional

Peter Bel deixou o Brasil no final de 1969. As doações que aprovou cumpriram os objetivos da Fundação Ford, inscritos no famoso Relatório Gaither de 1950: ajustamento das atividades acadêmicas ao trabalho de militância política democrática no modelo americano, com vistas ao fortalecimento e treinamento de elites políticas para quadros executivos nacionais e internacionais, e “tomando as áreas subdesenvolvidas do mundo como foco especial” (Gaither, 1950: 52-61).  Em 1970, instituições de pesquisa em ciências sociais apoiadas pela Fundação (o Departamento de Ciência Política de Minas Gerais, o IUPERJ e o CEBRAP, bem como o programa de pós-graduação em antropologia social do Museu Nacional) já estavam funcionando bem, transformando-se em estruturas com futuro no panorama brasileiro. Mas moviam-se de forma isolada, sem discussão dos problemas de ensino e de pesquisa dos pós-graduados nas Ciências Sociais, cujos programas cresciam ano a ano como resultado da reforma universitária de 1968 (Canedo e Garcia, 2011)

A necessidade de agregar os pesquisadores numa comunidade nacional surgiu, naturalmente, dos centros privados, CEBRAP e IUPERJ, criados dentro da linha de atuação da Fundação Ford, e tomou corpo em 1978 por ocasião da criação da ANPOCS – Associação Nacional de Pós graduação em Ciências sociais (ver em anexo os primeiros documentos ligados à criação da ANPOCS com endereço do IUPERJ).

A primeira discussão sobre o assunto aconteceu durante o Seminário sobre Indicadores Sociais do Desenvolvimento Nacional na América Latina, organizado no IUPERJ, em maio de 1972, no Rio de Janeiro. Mas o esboço da redação da minuta da futura associação foi escrito por um funcionário da FINEP, Mario Brockmann Machado, ele próprio um ex-bolsista da Fundação, e distribuído no 1º Encontro Nacional de Coordenadores de Programas de Pós-graduação em Ciências Sociais, realizado no ano seguinte, em Fortaleza, o que o levou a dizer que a ANPOCS, fundada em 1978,  não foi somente um caudatário das ações dos program officers da Fundação (Machado, 1993:103).

Menos do que a dotação aprovada para a ANPOCS, o segredo da missão de exportação de conhecimentos da Fundação Ford, levada a efeito pelos seus program officers, notadamente Peter Bell, situa-se no fato deles terem sabido perceber, em cada momento histórico, qual deveria ser a prioridade, fazendo valer, antes de tudo a capacidade operacional já existente. Assim, no caso da ANPOCS, souberam exercer uma influência grande na percepção dos professores da pós-graduação no que dizia respeito à importância da ANPOCS para a divulgação de virtudes cívicas na prática do trabalho de equipe capazes de lhes assegurar o acesso à produção internacional por meio de exigências quanto à literatura sobre o tema, hipóteses orientadoras, natureza dos dados a serem coletados etc. (ANPOCS, 1991).

E essa foi a tarefa dos membros do Comitê Assessor em Ciências Sociais, organizado por Shepard Forman, para julgar auxílio à pesquisa, financiado pela Fundação nas áreas de Sociologia, Ciência Política e Antropologia. Neste concurso FORD/ANPOCS, o funcionamento do comitê levava em conta o mérito, com normas publicamente orientadas (ANPOCS, 1991). Seus membros eram escolhidos “aos olhos de pesquisadores que regularmente se encontram, discutem e formam opinião (nos GTs, nos Encontros e nas Assembleias) ”, o que  influía nos próprios parâmetros do concurso (Brandão, 1993:160-162)[8].

Membros do Comitê Assessor em Ciências Sociais (criado pela Fundação Ford) que deu origem à ANPOCS, em 1978. Da esquerda para a direita, Shepard Forman e Priscila (representante e secretária da Fundação), Otávio Velho, Sílvio Maranhão, José Murilo de Carvalho, Fábio Wanderley Reis, Klass Wortman, Ruth Cardoso e Juarez Brandão Lopes. Agachado, Boris Fausto. (foto: arquivo pessoal ) . Fonte:  Revista Ciência Hoje, 2013.. 

<http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2013/301/imagens/pensadordobrasil02.jpg/view&gt;

Para Juarez Brandão Lopes, as normas de garantia de impessoalidade, isenção do julgamento pela defesa das notas em discussão com os pares, criadas para o Comitê, foram aspectos que deram legitimidade à comissão do concurso administrado pela Fundação. Ele levava em conta o fato de que nos comitês assessores das financiadoras governamentais os julgadores são pareceristas que não se encontram e que são escolhidos pelo grupo interno dos altos funcionários. Assim, mesmo quando a Fundação Ford decidiu passar a administração do concurso de auxílio à pesquisa para a própria ANPOCS, as normas continuaram a existir.   Por meio do auxílio à pesquisa foi também assegurado o acesso a produção internacional, garantidas pelas normas do edital para o projeto de pesquisa.

José Murilo de Carvalho, presente na fotografia acima, comenta em entrevista dada a estudantes de ciências sociais que “quem opta por fazer Ciências Sociais hoje, candidata-se a fazer parte dessa comunidade sólida e pujante, que já conversa de igual para igual com os interlocutores externos e começa a fazer parte relevante de uma comunidade internacional”.  (2012)

Paro por aqui, esperando que com esse caso possa ter contribuído para uma discussão sobre a exportação e importação de conhecimentos, um fenômeno de difícil medição, inscrito em estratégias de jogo duplo, com resultados nada triviais no campo científico e na área social e política (Dezalay). Resultados que se manifestam com intervalos e reajustes institucionais que confirmam episódios mais ou menos longos de afrontamentos, tão sensíveis e controversos como aqueles revelados durante o apoio dado pela Fundação Ford à institucionalização das ciências sociais no Brasil.

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Quadro 3.- Major Ford Foundation endowments in favor of social sciences in Brazil, initiating in the years 1967 -1979

Início e  encerramento dos convênios Posição Instituições Disciplinas prioritárias Montante das dotações em US$
1969-1987 Cebrap – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – São Paulo (única instituição Política a receber endowment de US$ 750.000 em 1975 Economia, Demografia, Sociologia e Ciência Política 1.721.200
1967-1989 Iuperj – Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro Ciência Política e Sociologia 1.671.323
1968-1989 Museu Nacional/UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro Antropologia 1.283.496
1979-1989 Cedec – Centro de Estudos de Cultura Contemporânea – São Paulo Ciência Política e Sociologia 1.097.079
1978-1989 Anpocs – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais Antropologia, Sociologia e Ciência Política 922.032
1966-1984 UFMG/DCP – Universidade Federal de MinasGerais/ Departamento de Ciência Política Ciência Política 860.477
1982-1990 Fundação Carlos Chagas/São Paulo Estudos sobre mulheres 585.200
1970-1984 UFP/Pimes – Universidade Federal de Pernambuco /Programa Integrado, Mestrado em Economia e Sociologia Mestrado em Economia e Sociologia 538.782
1972-1988 UnB – Universidade Nacional de Brasília Antropologia 436.315
1967-1975 10º UFRGS/Universidade Federal do Rio Grande do Sul Ciência Política 422.311
1973-1983   Total para instituições   9.538.215  (71%)
Concursos de bolsas   1.558.145  (12%)
Demais dotações   2.296.749  (17%)
Total geral/dotações Ford   13.393.109 (100%)

Source: Ford Foundation, New York, 1988, reproduce from Miceli (1990, p. 72).

NOTAS

[1]. Fazer a relação com a criação do ITDT, em 1963,  nas palavras de Enrique Oteiza (director del Instituto): “es imperioso conocer la naturaleza de nuestros problemas y ensayar auténticas soluciones a los mismos”.

[2] O caso que exponho faz parte de uma pesquisa maior sobre a sociohistória da vida política brasileira, voltada para a observação sistemática dos usos, dos comportamentos e das representações dos atores políticos e sociais, procurando compreender, de um lado, como os indivíduos interiorizam e incorporam maneiras de pensar e agir e, de outro, que uso fazem disso em suas práticas dentro das instituições. O trabalho resulta de dois projetos temáticos conduzidos pela mesma equipe de pesquisadores ligados a universidades brasileiras, francesas e argentinas. O primeiro temático foi patrocinado por um dos acordos Brasil/França – CAPES/COFECUB – e tratou dos itinerários intelectuais dos estudantes brasileiros que se dirigiram ao exterior na busca de formação doutoral. O segundo foi financiado pela FAPESP e identificou os recursos sociais empregados pelos que vão estudar no exterior, bem como as vias internacionais percorridas por eles para rentabilizar o diploma obtido e se inserir nas transformações em curso no domínio do poder em escala globalizada.

[3] Formada no âmbito do Ministério da Fazenda, e integrada por técnicos brasileiros e norte-americanos, a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico fazia parte do plano norte-americano de assistência técnica para a América Latina, contido no Ponto IV do Programa que norteou a política externa dos Estados Unidos após a II Guerra Mundial. A finalidade era “promover o desenvolvimento econômico do Brasil, tendo em vista, particularmente, a formulação de planos de investimento destinados a vencer as deficiências em transporte e energia”. Quarenta e um minuciosos projetos foram elaborados. Além disso, a Comissão preparou um Relatório Geral em que são examinadas as tendências a longo prazo da economia brasileira. O Relatório pode ser lido em:  <http://www.centrocelsofurtado.org.br/arquivos/image/201109231638540.MD2_0_277_1.pdf>

[4] Disponível em: <http://alumninet.yale.edu/classes/yc1962/pbell0804-2.html&gt;

[5] – Tratava-se de Leonidas Xausa era professor catedrático da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).Devo a Helgio Trindade esta informação (Trindade, 2004).

[6] O Estado de Minas Gerais é conhecido por ser um viveiro de políticos de envergadura nacional. Biografias, entrevistas e crônicas literárias são algumas das fontes comumente utilizadas pelos historiadores para funcionar como princípio de avaliação do poder da elite política mineira durante o Império (1822-1889) e, em especial, sob a República: seis presidentes da República, numerosos ministros (entre os das pastas mais importantes), oito vice-presidentes da República, uma forte representação nas principais comissões de finanças e de justiça no Congresso Nacional, e as principais funções em todos os ministérios. Desde o início da Nova República, nos anos 1980, a formação política de três presidentes sobre cinco foi realizada em Minas Gerais (Canedo, 1998).

[7] Foi esta experiência que Elwyn A. Mauck levou, posteriormente,  como base para a criação de Departamentos de Administração Pública  na Nigéria, Taiwan, Coréia e na Turquia (Pittsburgh Univ. 1968:VIII).

[8]No ano de 1983, o Informe ANPOCS traz a lista completa das 38 dotações aprovadas pela Fundação para projeto de pesquisa, com nome dos aprovados, com títulos de projetos mostrando grande diversidade, e concentração de pesquisados na UFRJ, PUC/Rio, USP e UFRGS.

L’importation et l’exportation de stratégies de construction de savoirs et d’élites d’Etat: la Fondation Ford au Brésil

Apresentada em: Journée d’études “Circulations transnationales et échelles d’analyse”. ENS, Vendredi 23 Mai 2014, 9h-18h, Salles Celan et Beckett,45 rue d’Ulm, 75005 Paris

 

SESSION 4 :  SAVOIRS D’ETAT ET ELITES INTERNATIONALES

Cet exposé portera sur la manière dont certains projets transnationaux sont importés et diffusés avec des valeurs et des cadres de référence suffisamment souples pour être pragmatiquement adaptés aux systèmes locaux.

Pour qu’il y ait une importation de projets, il faut qu’il y ait des exportateurs de projets, de connaissances, de savoir-faire, c’est-à-dire, des agents exportateurs et importateurs disposés à négocier des intérêts communs. Je débute par cette évidence inscrite dans les stratégies de domination hégémonique pour préciser mon but: celui de discuter l’exportation et importation de stratégies de circulation de connaissances d’Etat et de rénovation des élites politiques, par le biais du cas exemplaire des activités de la Fondation Ford au Brésil, dans les années 1960-1970.

Le choix de ce cas spécifique est en raison non seulement des  sommes importantes que la Ford a destinées à la production des connaissances dans le domaine des sciences sociales (13 millions de dollars entre 1966 et 1988), mais aussi du rôle fondamental que la fondation a eu dans la production de connaissances dans le domaine politique et social. Il s’agit d’un effort remarquable que la Fondation a développé dans le programme de formation de nouvelles élites pour un pays en développement, où elle a donné suite à ce quai était déjà en développement par les élites de Minas Gerais, à la Faculté de Sciences Economiques et Administratives. Ce cas met à jour, en particulier, la manière dont se fait la rencontre des agences internationales qui financent la production de la connaissance avec les institutions  avec des partenaires et bénéficiaires nationaux susceptibles  de négocier des objectifs et des projets en commun. Je crois que la discussion de ce cas, dans le cadre de la circulation des connaissances et des élites dans le milieu international peut s’écouler de manière profitable.

 

Je commencerai par les desseins de l’agence de financement et ensuite je présenterai les intérêts des bénéficiaires.

L’entrée de la Fondation Ford dans le scénario international a lieu à la suite de l’acceptation du célèbre rapport Gaither, de 1949, qui avait été commandé pour faire face aux défis de la guerre froide. Les cinq programmes thématiques proposés dans ce rapport[2]  ont conduit les agissements de la Fondation à:

. la formation d’élites intellectuelles et politiques;

. le support aux conceptions de changement qui associent la stabilité sociale aux processus de  modernisation économique, social et comportemental;

. la reconstruction des systèmes d’enseignement et du monde académique au moyen de support à la diffusion d’une culture en sciences sociales qui favorise le travail sur du matériel empirique, au-delà des modèles classiques.

Un tel programme, dans la dynamique de la guerre froide, a été qualifié par Frank Stutton, vice-président de la Division internationale de la Fondation Ford, comme étant une tentative de “changer le cours de l’histoire” (Rose, 2000:91). Affirmation on ne peut plus sincère, étant donné la croyance positiviste de la sociologie dans les années 1950, qui affirmait que la  science sociale était une science précise, munie des moyens pour modifier la réalité.

Deux dynamiques ont contribué au fort investissement de la Fondation au Brésil, déjà dans les années 1960. D’une part, la révolution cubaine,  qui a priorisé les actions menées dans des pays limitrophes, de gouvernements communistes, en Amérique Latine (mais aussi au Moyen Orient et en Afrique), visant à la construction d’un marché international de la compétence de l’Etat, sous l’hégémonie nord-américaine. D’autre part, les discussions au sein de la société brésilienne concernant l’accélération de l’industrialisation du pays, ce qui prolongeait les thèmes de la Commission Mixte Brésil/Etats-Unis (1951-1953) – dont le travail avait contribué à une pratique de gestion et application plus rationnelles des ressources publiques, outre la formation d’une équipe de techniciens brésiliens aptes à mettre au point des projets d’infrastructure, sans affronter  le domaine du développement social et politique.

La Fondation Ford agira exactement dans les domaines non contemplés par la Commission Mixte Brésil/Etats-Unis pour le développement économique[3]: social et politique.

Le bureau de la Fondation Ford est installé à Rio de Janeiro en 1962 et, au départ, il n’y a pas l’intérêt en créer la polémique.  Le actions, de caractère technocratique et apolitique, étaient orientées vers le support à des cours de spécialisation en ingénierie et administration publique et les bourses d’études pour l’agriculture.

Après le coup d’Etat de 1964, la Fondation Ford  s’est détournée du biais économique, infrastructurel et scientifique conventionnel pour se tourner vers financement et la création d’instruments pour développer la recherche et les cours de spécialisation dans le domaine des sciences sociales à travers l’action d’intellectuels réceptifs au financement de support technique, proposé par la Fondation. La création de bourses d’études en science politique, dans d’importantes universités américaines, une discipline  pas encore introduite dans les cours supérieurs brésiliens, a été l’une des grandes actions de la Fondation. Jusqu’alors il n’y avait pas nos plus dans le pays un système de bourses d’études institutionnalisé, qui dirait orienté vers le domaine des sciences sociales. Ainsi, il est important de rappeler les importants dons faits pour la création d’institutions de pointe pour la recherche en sciences sociales: à São Paulo, la Fondations a contribué à la création du Centre brésilien d’analyse et planification (CEBRAP); à Rio de Janeiro, à la création du cours de spécialisation en Anthropologie Sociale au Musée National.

Ainsi, outre inaugurer au Brésil un nouveau modèle qui a fait de la recherche méthodique et systématique une routine du scientiste social, la Ford a eu l’important rôle de soutenir et rendre possible la permanence dans le pays des étudiants de des chercheurs qui, autrement, seraient condamnés à l’exile, étant donné les poursuites, arrestations et tortures pratiqués par le gouvernement militaire, avec le soutient des Etats-Unis. Dans les mots de Peter Bell, représentant de la Fondation à cette époque, l’action était nécessaire parce que:

 

“Le gouvernement militaire a confondu les scientistes sociaux avec les syndicalistes et a limité leur liberté de questionnement, expression et association. La Fondation a  constaté qu’il était insuffisant de présumer que nous étions ‘apolitiques’ ou ‘technocratiques’. Comme organisation transnationale, nous avions l’obligation d’expliciter les valeurs qui orientaient notre concession de subsides et qu’ils étaient nécessaires au progrès des sciences sociales et naturelles. Au même temps, nous ne pourrions pas être partisans (Bell, 2012).

 

Cette orientation coïncide avec celle qui a été menée dans d’autres pays à proximité géographique de gouvernements communistes, comme la Turquie, dont le bureau avait été ouvert deux ans auparavant (Rose, 2003: 72-94). C’est-à-dire: 1) recruter et attirer des étudiants en sciences sociales, en les intégrant aux stratégies promues par le mécène, dans l’espoir qu’ils développent, par la suite, des programmes d’enseignement et de recherche dans leur pays d’origine, sans plus avoir l’intervention de la Fondation; 2) donner de l’assistance au groupe de scientifiques concerné, pour qu’ils puissent créer et développer, dans leur pays, une agence scientifique centrale, à fin de coordonner la recherche scientifique nationale et éviter ainsi la “fuite des cerveaux”. Dans les deux pays, une école d’administration a été le lieu préférentiel choisi pour le recrutement initial: en Turquie, celle de Istanbul; au Brésil, celle de Belo-Horizonte.

L’école choisie au Brésil a été la FACE – Faculté de Sciences Economiques – où il y avait un cours intitulé Sociologie et Politique, lié au cours d’Administration Publique. Comment comprendre les raisons de ce choix, fait au détriment d’autres institutions renommées qui fonctionnaient dans certains centres intellectuels plus connus et plus centraux, comme Rio de Janeiro et São Paulo – dans un moment politique où la Fondation Ford, au Brésil, était perçue comme une espèce d’instrument de l’impérialisme américain” et les étudiants et professeurs qui s’en approchaient étaient vus comme des “abominables” (Miceli 1993; Reis, 2004) ?

Deux éléments méritent une réflexion: 1) Une fondation philanthropique ne distribue pas son argent sans discernement; on sait que la réussite du programme dépend des bénéficiaires. Donc, les actions de la Fondation Ford doivent être perçues vis-à-vis des lutes de concurrence dans le marché national de compétences gouvernementales. 2) Ce qui a mené les étudiants et professeurs de Minas Gerais à accepter l’aide de l’agence philanthropique et comment ils se sont légitimés face aux agents de la Fondation au Brésil.

Dans le choix de la Face, une faculté situé loin du centre culturel et économique du pays, l’histoire de l’institution a été un facteur déterminant. L’école a été fondée en 1941 comme une institution privée, au nom de Faculté de sciences économiques et administratives de Minas Gerais. Jusqu’en 1945, on y a proposé un cours supérieur d’administration et finances qui avait pour but de former des “agents consulaires, des économistes, des financiers, des techniciens pour le service publique et des administrateurs d’entreprises”. A partir de 1945, elle incorpore la Faculté d’économie, administration et finances, annexe à l’Ecole technique de commerce de Belo Horizonte. En 1948, la FACE est incorporé à l’Université de Minas Gerais (UFMG) et, un an après, transformée en établissement fédéral d’enseignement, conjointement avec l’Université de Minas Gerais[4].

Le projet de création a été rendu possible grâce à la participation de toute l’élite culturelle, politique et financière de Minas Gerais, légitimé auprès des hommes d’affaires et syndicats du patronat qui le soutenaient activement. Juscelino Kubstschek, futur président de la République en 1955, participait au Conseil Supérieur, crée en 1946.

La FACE surgit en plein Estado Novo, la dictature brésilienne de 1937-1945, à un moment où l’Etat de Minas Gerais éprouvait un déclin momentanée de son influence dans la fédération. l’Etat de Minas Gerais est réputé comme étant une pépinière de politiques d’envergure national. D’où on a conclu que la faculté intégrait les stratégies politiques de formation de professionnels nécessaires sur le plan national et, conséquemment, une garantie de la position des politiques mineiros auprès des institutions de l’Etat national. A ce moment-là, Getúlio Vargas, le fondateur de l’Estado Novo, cherchait à restructurer l’Etat, professionnaliser le service public et lancer les bases pour l’industrialisation du pays.

En 1952, trois ans après l’intégration de la FACE à l’UFMG, à l’époque de la démocratisation du pays, on a crée le cours de sociologie et politique, lié à celui d’administration publique, quelques mois après la création d’un cours similaire à l’Ecole brésilienne d’administration publique de d’entreprises (EBAPE/FGV), de la Fondation Getúlio Vargas (FGV), une faculté privé de Rio de Janeiro. Mais, différemment du cours de la FGV, qui était orienté à la préparation de cadres mieux qualifiés pour l’administration publique et privée, celui de la FACE était voué à penser l’Etat et la Société à partir d’un abordage plus proche de la sociologie politique.

L’inclusion de la sociologie politique dans une faculté d’économie a représenté  une innovation à l’époque, car jusqu’alors les sciences sociales s’abritaient dans les facultés de philosophie. Les étudiants du cours de sociologie et politique, voisins, dans la FACE, de ceux du cours d’économie, ont été menés à un investissement en économie bien plus grand que celui de ses congénères des sciences sociales des facultés de philosophie. L’initiative contribuerait à l’établissement et à la consolidation d’un ethos de recherche, et à rompre avec la tradition éminemment essayiste des sciences sociales et à s’orienter vers la science plus “exacte” des statistiques, etc. Ultérieurement, le voisinage des économistes viendrait aussi à limiter l’intense influence française exercée dans les cours de sociologie du pays, une influence de base philosophique et marxiste.

L’innovation du cours est due, en grande partie, aux efforts du directeur de la FACE auprès du conseil technique de la Commission mixte Brésil Etats-Unis. Ce directeur avait pour but d’obtenir, via un accord de coopération entre le Brésil et les Etats-Unis – contenu dans le Point IV du Plan Marshall pour l’Amérique Latine – la venue de consultants nord-américains pour contribuer à l’élaboration des cours de pratique et gestion publique. En conséquence, le Brazilian Board of Advisors on Public Administration, a envoyé, en 1953, le professeur Elwyn A. Mauck, de l’Université de Pittsburg, avec un contrat d’un an, pour adapter le Brésil aux concepts des études multidisciplinaires qui étaient développés aux Etats-Unis. Outre un programme pour les cours, ce professeur a dû faire face à deux difficultés: 1) il n’y avait pas d’enseignants avec des connaissances concernant le domaine spécifique de l’administration publique, de la sociologie ou de la politique; 2) il n’y avait pas d’étudiants qui pourraient se consacrer intégralement aux études (Barros, 2013).

Pour faire face à la situation, Mauck a ébauché le programme de bourses d’études da la FACE, mis en œuvre par la direction de la faculté, avec le soutient des patrons et des banquiers de Minas Gerais. La mise en œuvre du système de bourses, avec des élèves à temps complet, permettrait la formation et la reproduction du personnel enseignant (Canedo 2013). Pour Mauck, ce projet a servit de base pour la création de services d’administration publique au Nigéria, à Taiwan, en Corée et en Turquie (Pittsburg Unv. 1968:VIII).

La logique du programme, basée sur le modèle nord-américain, était la suivante: les élèves étaient sélectionnés à partir de critères d’excellence. On leur exigeait un dévouement total, participation aux activités didactiques et la présentation de monographies à la fin de l’année. Ces élèves auraient à leur disposition une bibliothèque avec les classiques de la sociologie et de l’administration, outre des abonnements aux principaux magazines internationaux de la branche. Dans une environnement continu, ces élèves deviendraient la masse initiale pour une spécialisation solide et compétente.

L’efficace du système de bourses s’est avéré avec le recrutement postérieur des anciens boursiers de la FACE par l’ONU, pour un cours de spécialisation à la Faculté latino-américaine de sciences sociales – FLACSO –, au Chili, dont la capitale, Santiago, abritait aussi les bureaux régionaux de l’UNESCO, FAO et OIT. Reçus dans ce centre d’internationalisation, ces étudiants de Minas Gerais ont subit l’influence de différents pays de plus grande tradition de recherche et réflexion, mais avec la prédominance d’une orientation nord-américaine concernée par une articulation entre le travail théorique et la référence empirique, mettant l’accent sur la formation en méthodologie et sur les enquêtes par échantillonnage (Reis, 2001:21-22). Malgré la ” pathologie fatale d’une institution qui réunissait des étudiants de divers pays […] soumis à des idiosyncrasies et névroses des professeurs qui expérimentaient, eux-mêmes, une espèce de situation d’exil” (Reis, 2004:21), ces étudiant sont rentrés à la FACE avec un enthousiasme  renouvelé. Ils y ont assumé des postes de professeur dans le cours de sociologie et politique et ont donné un nouvel élan aux réflexions sur la politique au Brésil, y compris auprès de la Revue brésilienne d’études politiques (RBEP), fondée à la Faculté de droit, en 1956, à laquelle ils ont collaboré. La RBEP publiait des études empiriques et des textes sur des thèmes nouveaux dans le milieu académique brésilien (nature du système de partis, leur finances, comportement électoral, origine sociale des dirigeants, etc.). Unique dans son genre au Brésil de l’époque, cette publication alliait la tradition philosophique et juridique de la science politique française à l’orientation nord-américaine. C’était la plus internationale des revues de sciences sociales publiées au Brésil.

Du point de vue des étudiants du cours de sociologie e politique, il est important de souligner que, en raison du capital social limité et du manque de prestige du cours de sociologie sur le marché, il leur serait difficile de trouver une activité professionnelle hors de l’université, ou bien atteindre de hauts postes dans l’administration publique – qui était préférentiellement ouverte aux héritiers des grandes familles de Minas Gerais. Ces héritiers préféraient la traditionnelle Faculté de Droit, de plus grande valeur sociale pour ceux qui avaient des aspirations à une carrière législative ou, plus généralement, à travailler dans le gouvernement ou s’engager dans les affaires publiques. Une recherche que j’ai menée, entre 1965-1963,  a identifié les diplômés en sociologie  de capital social relativement modeste et surtout sans aucun lien de parenté avec les réseaux des familles d’hommes politiques réputés de Minas Gerais, et qui ont constitué la première génération, dans leur famille, qui a accédé aux études supérieures (Canedo, 2009:41-42). José Murilo de Carvalho, l’un des ces anciens boursiers, et aujourd’hui membre de l’Académie Brésilienne de Lettres et auteur de livres qui ont contribué à la révision totale de l’histoire républicaine brésilienne, donne son témoignage dans l’interview dont un extrait est reproduit ci-dessous:

 

“Je n’avait pas de perspective professionnelle. Pour vous donner un exemple, je n’imaginait même pas qu’un jour je pourrais acheter une voiture. Ma famille avait à peine de quoi tenir avec le revenus de dentiste de mon père. Le phénomène était plus généralisé e se faisait remarquer dans les bals du Diretório Central dos Estudantes. Au moment de la danse, la distance entre les jeunes filles et jeunes hommes était définie à partir de la réponse donnée à une question inévitable qu’elles posaient tout de suite: “quel cours faites-vous?”. Si la réponse était sociologie politique, ou un autre cours de peu de prestige, la distance imposée par fille augmentait et, peu après, elles s’excusaient et retournaient à leurs chaise, pour attendre d’avoir un meilleur parti. Ceux qui voudraient avoir un meilleur sort, devraient répondre ingénierie, droit ou économie. Dans ce cas, elles se collaient (Carvalho, 2010:228).

 

Beaucoup d’entre eux ont rejoint des groupes de gauche et ont ainsi été profondément affectés par la répression politique, après le coup d’Etat de 1964, quand ils étaient déjà des professeurs de la FACE. Comme pour la plupart des brésiliens, ils ont été pris de court par le coup militaire, “comme si le ciel nous tombait sur la tête […]. Nous errions dans les rues de Belo Horizonte, tandis que les étudiants de droite circulaient armés, dénonçaient leurs collègues  et procédaient à des arrestations” (Paiva, 2010:228).

C’est dans cette faculté de sciences économiques et à ce moment politique que Peter Bell, le représentant de la Fondation Ford au Brésil, a trouvé un terrain favorable à ses desseins: non seulement bâtir une science rigoureuse de la société, mais aussi cultiver des vertus civiques indispensables à la construction d’un marché international de la compétence d’Etat, sous l’hégémonie américaine. La décision d’encourager la création d’un secteur de sciences politique dans l’UFMG aide à comprendre la stratégie de long terme de la Ford: investir en quelque chose de nouveau, en une discipline encore inexistante au Brésil, avec un fort soutient d’une université reconnue et capable de préparer ses élèves pour chercher des solution à l’obstruction du développement. Ceci explique  le manque d’intérêt, de la part de Bell, pour la sollicitation financière de l’USAID pour un projet d’études du Centre d’Etudes et de Recherches dans l’Enseignement du Droit – CEPED – en vue d’une réforme de l’enseignement juridique.

 

” As with housing, it can be easier to build from scratch than to restructure a pre-existing but outmoded building. Reforming legal education meant changing well-entrenched institutional practices and cultures—no easy task, as the Foundation and CEPED would discover. […]  I had some inkling of how difficult it might be for a small center–outside of any law school and without strong university support–to bring about the far-reaching reform of legal education; but in retrospect we failed to appreciate what a slow, uphill climb it would at best be (Bell, 2010:13).”

 

Le secret de la mission d’exportation de Peter Bell a donc été de faire valoir la capacité opérationnelle installée pour créer des institutions innovantes. Pour le soutient à l’importation de la science politique, au singulier, comme discipline spécialisée dans l’analyse de l’espace public, on a fait valoir, tout d’abord, les cours de sociologie politique de la UFMG, l’appui institutionnel du recteur Orlando de Carvalho, le créateur et éditeur de la RBEP, et un groupe de sociologues avec une expérience internationale acquise dans les études de spécialisation au Chili et une formation sociologique plus proche des sciences sociales américaines que de l’orientation française, qui était celle suivie dans les écoles de São Paulo et Rio de Janeiro, dont les études politiques étaient liés à la réflexion sur le droit constitutionnel, à l’analyse de certains phénomènes sociaux et à l’économie politique (Arruda, 1989 ; 2004). Des raisons plus que suffisantes pour que la Fondation amasse des ressources  pour la création du secteur de science politique, le premier du Brésil, sous l’égide du rectorat, qui propose des bourses d’étude, dans le système de spécialisation nord-américain, à une génération de spécialistes ambitieux et au courant des directions théoriques de pointe de l’époque et qui expérimentaient “la sensation qu’il n’y avait rien avant nous, que tout devait être réinventé et recréé” (Schwartzman, 1997).

La rencontre de la Fondation Ford avec les anciens boursiers de la FACE a donné des fruit de haute qualité, compatibles avec l’investissement fait des deux côtés: les boursiers se sont imprégnés de culture libérale et légaliste des universités américaines et, à partir des forts liens qui s’y sont établis, ont crée un réseau d’anciens élèves et de collègues qui finalement est devenu mondial, après que ce réseau a rayonné dans les principaux centres académiques et politiques brésiliens. Quand les anciens boursiers sont revenus des Etats-Unis, dans les années 1970, ils ont introduit la science politique dans l’enseignement supérieur, dans les centres de recherche, dans les institutions d’Etat et dans les marchés de consulting, donnant ainsi origine à de nouveaux modèles d’interprétation de la réalité nationale. Avec le support financier suivi de la Fondation Ford, ils ont créé des programmes pionniers de spécialisation en politique à l’IUPER, lieu d’origine de la revue Dados: Revue de sciences sociales (1966), qui a été internationalisée par ce groupe de sociologues de Minas Gerais, présents au conseil d’édition, devenant ainsi la grande référence dans son domaine. Ils ont contribué encore à la création de l’Association nationale de spécialisation en sciences sociales, l’Anpocs, en 1977, où ils travaillé activement dans la création de groupes de travail sur les partis politiques, le comportement électoral, les problèmes d’institutionnalisation politique, innovant dans les études sur l’autoritarisme et l’inégalité social, thème des thèses qu’ils ont défendu aux Etats-Unis. Lors qu’elle a été crée, la FINEP – Financement des études et projets scientifiques et technologiques –, sous la houlette du ministère du Plan, remplaçant ainsi la Fondation Ford comme agence de financement des nouvelles formations doctorales et des projets de recherche en sciences sociales, la présence de ces boursiers dans cette agence n’a pas assuré que le financement des programmes de spécialisation, mais aussi celui des autres projets de grande portée dans le domaine, comme la modernisation des Archives Nationales et le partenariat  avec le Centre de recherches et documentation en histoire contemporaine (CPDOC), celui-ci aussi financé par la Fondation Ford, pour la création de la première histoire de la science au Brésil (Schwartman, 2009; Brockmann, 1993). Au sein du comité du CNPq (Conseil National de Développement scientifique et technologique) leur participation est remarquable dans le montage du système de support aux publications scientifiques (Schwartzman, 2009).

Un large nombre de ces anciens boursiers  a intégré le gouvernement Fernando Henrique Cardoso – lui-même un sociologue diplôme de l’Université de São Paulo, mais qui en a été évincé par le régime militaire et qui a été bénéficiaire de l’aide de la Fondation Ford en 1969, pour la création du CEBRAP (deux millions deux cents milles seize dollars), qui est aujourd’hui une référence dans la production de connaissances de pointe dans les différentes sciences sociales, il fonctionne comme un forum pour les débats sur les grands problèmes nationaux. Ces anciens boursiers ont été appelés par le président pour devenir ses principaux assesseurs pour les politiques d’Etat innovantes menées dans la période. Parmi les réformes auxquelles ils ont participé, il en ressort celle du système statistique de l’IBGE, une institution qui regroupe les indicateurs et les informations pour le gouvernement et pour la population, responsable de la réorganisation de l’impact des services sociaux fournis par le gouvernement, l’éducation de base et l’assistance à la santé publique et principalement les bénéfices de la sécurité sociale et le payement des pensions (Schwartzman, 2009). Ceci a rendu possible l’impact redistributif des programmes sociaux publics mis en œuvre dans cette période, en particulier dans le domaine de la politique de combat à la pauvreté, qui a été menée par l’un des ces anciens boursiers de la Ford, Vilmar Farias, relatives  aux institutions du système de protection sociale: l’élaboration du “réseau de protection sociale du gouvernement”, qui avait pour but de combattre la pauvreté dans les villes de bas taux de développement humain (DH). Ce programme a inauguré, au Brésil, la politique sociale de transfert monétaire aux individus ou aux familles de plus bas revenus, destiné à les protéger dans les différentes circonstance de risque et vulnérabilité sociale.

J’espère que le commentaire de ce cas puisse contribuer aux discutions sur l’exportation et l’importation de connaissances dans un monde globalisé, qui est un phénomène de difficile mensuration, inscrit dans les stratégies de double jeu, avec des résultats qui se manifestent à des intervalles et mises aux point institutionnelles qui confirment des épisodes plus ou moins longs d’affrontements, “amortis dans les guerres de palais” (Dezalay, 2002). Ce sont des épisodes si sensibles et controversés, comme le support de la Fondation Ford à l’institutionnalisation des sciences sociales au Brésil, qui ont abouti à des résultats inouïs dans les domaines scientifique et social.

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

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Quelques anciens boursiers de la Fondation FORD issus de la FACE, et influence sur divers espaces sociaux et politiques

 

NOM Présence dans la vie académique nationale Présence dans des associations Participation à des organismes publics nationaux Participation à des organismes internationaux Présence dans des Académies
Simon Schwartzman -Directeur de l’Institut Américain de Recherches sur le Brésil (AIR Brasil)

-Directeur de Groupes de Recherche sur l’Enseignement Supérieur à l’USP,

-Membre de l’Institut International de Statistique

-Membre de nombreux comités éditoriaux de revues scientifiques

 

– Président de l’Associação Brasileira de Sociologia

– membre de l’Associação Intern. de Sociologia

Président de la FINEP* -Président de l’IBGE*

-Rapporteur à la Commission Présidentielle pour l’org. système éducationnel

-Leader du groupe de travail du MinC pour la politique, secteur science et technologie

-Coordinateur projet d’éducation de l’UNESCO pour AL (OREALC)

-Président de l’American Institute for Research

-AIR Brasil

Académie brésilienne des sciences
Fabio Wanderley -Cofondateur du DCP/UFMG

-Chercheur invité CEBRAP

-Comité éditorial CNPq-FINEP

 

– Cofondateur de l’ANPOCS

– Président ANPOCS (1981-82)

 

FAPESP*

CNPq*

EAPERJ*

CAPES*

FINEP*

-Conseil directeur Consórcio de Estudos Urbanos de la Fondation FORD

-Membre de la Commission d’Evaluation InterAméricaine Foundat.

 
Bolivar Lamounier -Directeur président de l’IDESP

-Directeur CESOP/UNICAMP

-Comité éditorial CNPq-FINEP

Cofondateur de l’ANPOCS

 

-Membre de la Comisión Afonso Arinos, (1985), para preparacion de un ante projecto de la constitución.

-Coordinateur del programa de estudios sobre la revisión constitucional en el IEA/USP (1992)

– Membre de la Comisión Consultativa sobre Reforma del Estado (1996)

-Présidence du conseil délibératif de la CARI : Brésil

Membre de l’Inter American dialogue

(USA)

Membre du conseil consultatif du Club de Madrid.

Académie paulista des Lettres
José Murilo de Carvalho -Chercheur Casa Rui Barbosa

– Chercheur CPDOC

-Coord. Mestrado DCP/UFMG

– Membre Conselho Pós-Graduação /UFMG

– Coordinateur de la Pós-Graduação en Histoire Sociale UFRG

Conseiller de la SPBC -Membre Conseil Consultatif –FINEP

-Membre Conseil Délibératif-CNPq

Membre comitê Latino-americano du Social Science Research Council Académie Brésilienne des Lettres
Elisa Reis Coordinatrice du secteur des sciences sociales de la FAPERJ

– Fait partie de nombreux comités éditoriaux de revues scientifiques

-Membre de la Comissão Permanante de Estudos avançados (COPEA) à l’UFRJ

  -Membre comité assessor de la CNPq

-Membre du Conselho délibératif du CNPq

 Membre Academy of Science for the Developing World (TWAS). Académie Brésilienne des Sciences
Vilmar Faria -Prof. IUEPRJ

-Prof. DCP/UNICAMP

-Président CEBRAP

Co-fondateur de l’ANPOCS

Président de l’ANPOCS (1989-90)

– Ass. Cabinet présid . de la République

– Directeur FUNDAP

– Articulateur projet Alvorada (Comunidade Solidária e Bolsa Escola) de lutte contre la pauvreté

Secrétaire du Comitê Latino-Americano du Social Science Research Council  

*FINEP – Financiadora de Estudos e Projetos, créée par le gouvernement fédéral en1967 (pendant le régime

militaire) dans le but de fi nancer des projets d’innovation scientifi que et technologique dans les entreprises, les

centres de recherche, le gouvernement, etc.

* IBGE – Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística. Homologue de l’ INSEE, mais aussi responsable de la

cartographie.

*CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científi co e Tecnológico (CNPq). Organisme d’appui à la

recherche scientifi que et technologique et à la formation de ressources humaines pour la recherche.

*FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Sao Paulo, créée en 1962.

 

 

 

 

 

 

[1] Ce travail fait partie d’une recherche plus vaste résultant de deux projets thématiques conduits par la même équipe de chercheurs liés à des universités brésiliennes, françaises et argentines. Le premier thématique a été patronne par l’un des accords Brésil/France – CAPES/COFECUB – et a enquêté sur les itinéraires intellectuels des étudiants brésiliens qui se sont dirigés à l’étranger en quête de formation doctorale. Le deuxième a été financé par la  Fondation d’aide à la recherche de São Paulo – FAPESP – et qui a abouti à une meilleure identification des ressources sociales employées par ceux qui vont étudier à l’étranger et des voies internationales empruntées pour rentabiliser le diplôme obtenu et pour s’insérer dans les transformations en cours dans le domaine du pouvoir à l’échelle globalisée. Cette présentation n’est qu’une partie des résultats des deux projets.

 

[2]   Résumé des thèmes du rapport:

1- renforcement et entraînement d’élites destinées aux cadres supérieurs nationaux et internationaux, en spécial dans les régions sous-développées du monde(Gaither, 1949:52-61);

2- renforcement de la démocratie, par l’alignement de la recherche sur le terrain, voire de l’activité académique dans son ensemble, avec le travail d’information et la militance politique démocratique (GAITHER, 1949: 62-69);

3- renforcement de l’économie, par le support au développement, dissémination, popularisation et effective incorporation, par les formulateurs politiques, le patronat et les syndicats, de la nouvelle théorie économique (GAITHER, 1949: 70-78);

4- éducation dans la société démocratique, soutient ou collaboration dans les activités qui concernent la formation des leaderships, dans le but de former du personnel qualifié pour répondre aux besoins croissants des niveaux exécutif et technique du gouvernement et du système d’enseignement  (GAITHER, 1949: 79-89);

5- Soutient au développement des connaissances relatives au comportement humain et encouragement à son incorporation par les sphères de gouvernement et le monde des affaires  (GAITHER, 1949: 90-99);

 

[3] Instaurée dans le cadre du Ministère des Finances et composée par des techniciens brésiliens et nord-américains, la Commission  Mixte Brésil/Etats-Unis pour le développement économique faisait partie du plan nord-américain de le support technique pour l’Amérique Latine, contenu dans le Point IV du programme qui a guidé la politique étrangère des Etats-Unis après la II Guerre Mondiale. Le but était de “promouvoir le développement économique du Brésil, ayant en vue, particulièrement, la formulation de plans d’investissement destinés à surmonter les difficultés en transport et énergie”. Quarante et un projets minutieux ont été élaborés. En outre, la Commission a préparé un Rapport Général où sont examinés les transcendances a long terme de l’économie brésilienne. Le Rapport peut être consulté en ligne sur: : <http://www.centrocelsofurtado.org.br/arquivos/image/201109231638540.MD2_0_277_1.pdf

[4] Disponible: <http://web.face.ufmg.br/face/portal/institucional/face/historico.html&gt;

Herdeiros, militantes, cientistas políticos: socialização e politização dos grupos dirigentes no Brasil (1964-2010)

Publicado em: Kimi Tomizaki, Letícia Canêdo e Afrânio Garcia (orgs.). Estratégias educativas das elites brasileiras na era da globalização. São Paulo, Hucitec, 2013.

 

Com base em elementos marcantes encontrados na ascensão dos políticos mineiros ao poder – parte de uma longa história familiar na política de Minas Gerais[1] -, este artigo trata de estudantes mineiros que militaram nas décadas de 1960 e 1970 e que recentemente ascenderam a, ou conquistaram pelo voto, altos postos da República. Mas, diferentemente dos “herdeiros políticos”, que tiveram nas famílias um local de transmissão das competências – e também do sentimento de ter “vocação” para a política -, esses novos atores adquiriram a predisposição para a “defesa de uma causa política” no ambiente escolar, nos movimentos trotskistas e católicos e também na luta armada contra o governo militar.

O artigo faz parte de uma pesquisa mais ampla sendo realizada sobre a sócio história da vida política brasileira e voltada para a observação sistemática dos usos, dos comportamentos e das representações dos atores políticos e sociais, procurando compreender como, de um lado, os indivíduos interiorizam e incorporam as maneiras de pensar e agir; de outro lado, que uso fazem disso nas suas práticas dentro das instituições.

Sendo assim, a emergência desse novo grupo na política é mostrada neste artigo a partir da hipótese de que é o modelo de socialização política original que o distingue do grupo dos herdeiros e explica os recursos materiais e simbólicos distintos que ele investe na política.

Por sua vez, o caráter peculiar da aquisição desses recursos e das competências políticas – indissociável de engajamento militante dessemelhante em duas conjunturas históricas precisas – justifica a separação dos ex-militantes mineiros em dois conjuntos geracionais distintos[2]: o primeiro correspondendo aos que viveram os acontecimentos que levaram ao golpe de Estado de 1964 dentro de uma mesma classe de idade e de uma história escolar comum de sucesso em Belo Horizonte; o segundo, demarcado pelos efeitos do AI-5 de 13 de dezembro de 1968 que os expulsou da escola, com menos de vinte anos, e os levou a viver experiências extremas.

O artigo, fundamentado em base de dados prosopográfica construída progressivamente[3], está dividido em três partes. A primeira – apoiada na comparação dos modos diversificados de adquirir predisposição para a atividade política e no confronto das trajetórias escolares -, está voltada para a análise das “barreiras à entrada” a uma carreira profissional na política enfrentada por estudantes de origem social e intelectual bem diferente dos herdeiros políticos de Minas Gerais e, por conseguinte, do drástico investimento feito por uma parte deles para tentar subverter as regras e as modalidades da organização do campo político.

A segunda parte trata de duas dinâmicas que contribuíram para que os nomeados de primeira geração delimitassem e requalificassem seus objetivos, possibilitando-os transferir suas práticas militantes para o conjunto das organizações políticas. Em primeiro lugar, a interação da Igreja Católica latino-americana com a sociedade civil durante no período da ditadura militar e durante a abertura democrática (Della Cava, 1992; Ferreira, 2010), que foi chave para a requalificação dos objetivos dos estudantes católicos que tiveram contato com o trabalho de organizações católicas no exílio e puderam mobilizar recursos da CNBB para criação de ONGS; em segundo lugar, as estratégias hegemônicas das grandes fundações filantrópicas americanas durante a guerra fria, em especial as da Fundação Ford e suas práticas de recrutamento de estudantes de países limítrofes a este conflito para estudar ciência política nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, os recrutados tiveram condições substantivas para reavaliar os modos de pensar a vida política nacional, engajando-se na modernização dos dispositivos de Estado e das competências de governo (Canedo, 2009).

A terceira parte trata da requalificação dos ex-militantes mineiros da luta armada (nomeados segunda geração) dentro das formas institucionalizadas da política. Em razão do endurecimento do regime militar (prisão, tortura, morte, etc.), eles não se beneficiaram da circulação pelas potências democráticas e, diferentemente do grupo anterior, atuam em partido político, o Partido dos Trabalhadores (PT), que ajudaram a criar. No Governo, eleitos pelo PT, fortalecem suas posições no jogo político, em que pese as contradições entre o que aguardavam a partir da prática militante anterior e os novos conhecimentos e experiências com que se defrontam na aprendizagem das regras, ritos e savoir-faire requerido pelas formas políticas instituídas (Lefebvre, 2010: 219-247).

Por meio da trajetória dos militantes, chamo a atenção para a maneira como as habilidades conferidas pela militância (valorização do trabalho ideológico, domínio do aparelho e uma concepção tática da política), como as competências importadas do exterior (via doutorados completados em universidades dos Estados Unidos e via modos de condutas adquiridos em ações vinculadas a organizações internacionais durante exílio) foram requalificadas na prática política, sem renúncia a qualquer uma delas[4].

O artigo testemunha meu interesse em refletir sobre os caminhos, no mais das vezes improváveis, pelos quais homens e mulheres, dotados de percepções diferentes e contraditórias, se apropriam, por meio de práticas e usos diversos, de responsabilidades políticas que acreditam “dever” assumir. Tem por objetivo pensar a politização sem reduzi-la à difusão ou à ingestão de categorias universais vindas do alto; considerá-la resultado de práticas e crenças de atores sociais que, conscientemente, ou não, episodicamente ou de maneira contínua, contribuem para produzir transformações na instituição política (Lagroye, 2003; Offerlé, 2007).

 

 

Transmissão de poder e enquadramento moral em “grandes famílias”

 

Quanto ao meu ingresso na vida pública, o início se deu da seguinte forma: meu tio Paulo Campos e o Magalhães Pinto [governador de Minas Gerais] resolveram que eu deveria ser deputado no lugar dele, Paulo, já que o Magalhães havia lhe dado o cartório. Naquela época, quando você ganhava cartório, de imediato não podia tirar licença, só depois. Eles me elegeram deputado, eu não tinha voto. Uma pessoa com vinte e quatro anos de idade não pode ter voto, já que não era líder classista e havia saído da Faculdade de Direito recentemente.[5]

 

A escolha de Benedito [Valadares] foi feita por razões familiares. A irmã de D. Odete, sua mulher, era casada com Ernesto Dornelles, que era primo de Getulio Vargas e que ocupava postos importantes aqui em Minas. Ovídio de Abreu costumava dizer que a política mineira era feita com os laços familiares. Carlos Luz deu todo o apoio ao Milton Campos, em 1947, porque foi casado, em primeiras núpcias, com uma irmã de dona Déia, mulher do Milton. O Tancredo tinha uma tia que foi casada com um irmão do Ernesto Dornelles. O Zequinha Bonifácio e o Bias Fortes eram concunhados, assim como Juscelino Kubitschek e Gabriel Passos.[6]

 

Os depoimentos dos dois herdeiros políticos acima fazem uma síntese das condições políticas e sociais a que os interessados em galgar os postos eletivos e os da hierarquia dos partidos políticos existentes em Minas Gerais, ou mesmo da alta administração pública, estavam submetidos até os anos 1990. Eles evidenciam o monopólio de fato dos postos eletivos, “reserva de caça” dos grandes grupos familiares desse estado da federação. Explicitam, ainda, o montante de capital de relações sociais e políticas necessárias para assegurar um lugar entre as «raposas mineiras”.

O montante de relações sociais, expresso pelos depoentes acima num conjunto complexo de laços matrimoniais, se realizava fazendo vingar o “espírito de família”, gerador dos devotamentos, das generosidades, das solidariedades, e era mantido pelas mulheres, sujeito e objeto da história dessas famílias. Cabia a elas a introdução de talentos políticos masculinos na linhagem familiar por meio dos casamentos, ou aceitar, se necessário, o celibato; cuidar dos convites para festas familiares; receber as visitas, comparecer às festas de batizado e de aniversário, etc. Esta atividade realizada por mães, filhas, irmãs e afilhadas chama a atenção pela “disponibilidade” com que era operada e está associada à crença no poder político masculino articulado às competências políticas e tecno-burocráticas (Canêdo 1998).

O investimento social e político efetuado por meio dos casamentos era o que atava os herdeiros nos laços familiares e garantia a presença de pais, filhos, maridos, sobrinhos e primos nos altos cargos políticos como eleitos, ou como técnicos na administração pública. A competência parlamentar era adquirida muito cedo junto a gabinete de deputados (condução dos procedimentos, conhecimento dos regulamentos, etc); obtinham as demais práticas nos gabinetes de secretários estaduais, nas ante-salas do governo do estado, nas dos ministérios e da presidência da República, nos cargos de confiança dentro das agências estatais. Dessa maneira as grandes famílias asseguravam o controle dos cargos e dos organismos administrativos federais, estaduais e municipais, confirmando sua posição famílias como mediadoras entre os órgãos das administrações e os eleitores, perpetuando as relações de clientela pela distribuição, ou promessa de distribuição, de bens públicos aos eleitores, tanto no que concerne a empregos, favores, postos administrativos, encaminhamentos para médicos, etc., quanto a políticas públicas[7]

Por meio da gestão familiar da escola, os conhecimentos necessários para os diversos momentos da vida política e social eram reunidos dentro do grupo e ao mesmo tempo, reagrupados dentro das agências de governo (Canedo, 2002). Os diplomas das Faculdades de Direito e das Faculdades de Engenharia, por exemplo, forneceram a estes grupos familiares o núcleo hegemônico dos conhecimentos e habilidades necessárias ao Estado durante o período desenvolvimentista. Ao mesmo tempo, as escolas superiores eram os locais onde os parentes distantes se reconheciam e mantinham relações voltadas para a expansão do poder da parentela (Canedo, 1993).

Sob este aspecto, os políticos mineiros conheceram uma homogeneidade notável dentro da sua diversidade, na qual a escola de Direito em Minas Gerais, a Escola de Engenharia do Rio de Janeiro e os belos casamentos representaram papéis importante no processo de legitimação e de gestão dos compromissos passados entre as diferentes facções das elites. As relações sociais materializadas nessas escolas de prestígio garantiam o direito de entrada na carreira política pela via dos partidos políticos (partido Liberal ou Conservador, no Império; UDN ou PSD no período 1945-1965, etc.) pelos quais todos eram regularmente eleitos aos mais altos cargos da Federação, e nos quais se mantiveram fiéis. Era o que lhes propiciava, cada qual em seu partido, um universo comum de referências, a partir do qual os grupos familiares orientavam e avaliavam suas práticas, assentadas na lógica das obrigações pessoais recíprocas nos termos de amizade, de fidelidade[8].

A partir dos anos 1970, o aumento das demandas de serviços e equipamentos sociais nas cidades médias e nas grandes capitais ampliou o raio de ação desses grupos familiares, mantendo-os no mercado político (Hagopian, 1996). Isto porque os militares, no processo de consolidação da hegemonia financeira da União, fizeram proliferar as agências responsáveis pelas transferências de recursos para os programas especiais surgidos para municípios demandantes. (Castro, 1987). Valendo-se dos tipos de bens e tecnologias que detinham para o funcionamento desses programas (projetos de planejamento urbano, saneamento básico, infra-estrutura de rios portos e canais, etc.), os membros dessas grandes famílias foram cada vez mais encaminhados para o interior das agências estatais ao mesmo tempo em que propiciavam aos municípios controlados por suas famílias a modernização necessária para lhes preservar as posições políticas. Como se sabe, o regime militar, em meio a toda sorte de casuísmo, se sustentou com base nas eleições proporcionais que não foram suspensas.

O senso prático das estratégias educativas dessas famílias (Bourdieu, 1980), que permite a interiorização da capacidade de se adaptar a novos tempos, pode ser vista, ainda, na presença de alguns de seus membros em altos postos dos anos posteriores ao governo militar: os principais responsáveis pelos planos cruzado e real, Edmar Bacha e André Lara Resende, pertencem a essas grandes famílias mineiras[9].

Nessas condições, era pequena, ou quase nula, a chance efetiva dos descendentes de imigrantes, dos oriundos do baixo funcionalismo público, do comércio ou de ofícios, como alfaiate, assim como os membros de famílias decadentes da grande propriedade do café, conseguirem alcançar os altos postos político de Minas Gerais e, por meio deles, os postos elevados do governo federal. Nessa camada média da sociedade belo-horizontina, onde a maioria fortemente católica convivia com poucos protestantes e judeus, situavam-se os militantes dos anos 1960 numa Minas Gerais afastada dos grandes centros culturais do país, São Paulo e Rio de Janeiro, mas, ao mesmo tempo, segundo colégio eleitoral e local em que sete presidentes da República se socializaram[10]. Apesar das “barreiras não visíveis” que tornavam altamente improvável o ingresso de sucesso na política de jovens originários de circuito exterior às “grande famílias”, é  dessa camada social  que saem os importantes atores da reestruturação do espaço político brasileiro dos anos posteriores ao regime militar.

A sociologia dos campos de Pierre Bourdieu evidenciou o papel desempenhado pelos atores dominados e suas capacidades para subverter as regras que não os beneficiam (Bourdieu, 1985), trazendo novas reflexões sobre a problemática das condições de possibilidade da ação política e dos seus limites, em especial ao sublinhar que uma das propriedades dos campos é a relação de forças e como tal é um campo de luta para transformar essas relações de força (Bourdieu, 2000, p.61). A análise da entrada de novos pretendentes no campo político – com características sociais e intelectuais diversas dos grupos dirigentes tradicionais – foi feita a partir dessas reflexões. E exigiu conhecimento deles no que diz respeito ao enquadramento moral, objetivos iniciais atribuídos à suas ações militantes (culturais, religiosos, luta contra a ditadura, etc.). O que assegurou a alguns, e não a outros, nos momentos posteriores ao regime militar (anos 1990), a força necessária para agir, com sucesso, nas modificações das regras de funcionamento do campo político e de suas relações de força? Como se passa de um engajamento militante que se inscreve na perspectiva da revolução social e do radicalismo (luta armada contra a ditadura) para ação dentro de organizações políticas legitimadas?

 

O enquadramento moral de novos quadros políticos

Eu sou da América do Sul
Eu sei, vocês não vão saber
Mas agora eu sou cowboy
Sou do ouro eu sou vocês
Sou do mundo, sou Minas Gerais.

Para Lennon e MacCartney
(Lô Borges, Marcio Borges e Fernando Brandt)

 

Diferentemente dos herdeiros políticos mineiros, a Escola e a Igreja foram mais decisivas no trabalho de socialização política dos militantes dos anos 1960 do que a família. É o que a liderança estudantil que viveu o golpe político em 1964 tem em comum com a que foi alvo do AI-5, em 1968: o enquadramento moral realizados dentro da instituição escolar e dos movimentos estudantis, seja marxista ou católico. Donde o meu interesse em seguir a lógica prática que guiou os esforços e os investimentos pessoais desses ex-militantes dentro de duas escolas de primeira linha de Belo Horizonte, qual seja, o Colégio Estadual Central e a Faculdade de Ciências Econômicas da UMG.

Estas duas escolas – que serão representadas aqui como casos limite desta socialização política – se constituíam, na época em estudo, não só em viveiro de militantes, como também num lugar de acumulação de fatores contraditórios derivados da super seleção escolar. Para nelas entrar, e nelas permanecer, havia que se submeter a exames muito rígidos, muito seletivos, que diferenciavam grupos (bolsistas x não bolsistas; pessoal do teatro e da crítica de cinema x grupo cristão; grupo cristão x grupo marxista, etc.), e criava animosidades.

 

Quadro I –  O Colégio Estadual Central [11]

Situado num prédio que “flutuava alegre e solto em um grande espaço sem muros” (Vianna, 2003, p. 23), o Colégio Central, nome pelo qual era conhecido, foi projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1958, visando à ampliação dos estudos de outras camadas sociais fora da elite social e política tradicional e a promoção da idéia de ascensão social pela meritocracia. A edificação, projetada a pedido de Juscelino Kubitschek, então governador do Estado, alude, de maneira inigualável, a objetos de uso comum na vida escolar: a caixa d’água lembra um giz, as salas de aula uma régua “T”, a cantina tem o formato de uma borracha e o auditório, de um mata borrão. Foi neste colégio que os integrantes do Clube da Esquina fizeram seu primeiro contato. Aí estudaram Fernando Brant, Mauro Borges, Lô Borges, Beto Guedes, sem deixar de mencionar também, entre outros célebres personagens, o Henfil, cartunista, e seu não menos famoso irmão Herbert de Souza, o Betinho. Foi neste colégio também que frei Mateus fundou a JEC, dirigindo a Ação Católica brasileira para práticas sociais concretas e criando aí o núcleo dos militantes católicos que atuaram nos anos 1960-1970 contra o regime de exceção. Mas a escola congregava todos os credos, reunia protestantes, judeus, etc. que em outro local não teriam espaço garantido. Dilma Roussef (atual Presidente da República) declarou numa entrevista publicada em revista (IstoÉ,14/12/05) que foi esta escola de BH que a tornou subversiva: “nela eu percebi que o mundo não foi feito para debutantes”. Por meio do grêmio, do jornal do colégio (A INÚBIA), dos festivais de música, da ação de Frei Mateus e dos grupos de dissidência do Partido Comunista, uma fração destes secundaristas aprendeu a fazer política, terminando, mais tarde por contribuir para outra definição de “excelência” em política.

Até a década de 1970, o colégio possuía a estrutura de uma universidade, com reitores indicados pelo governador, e os professores como catedráticos. A escola era o núcleo das demais escolas estaduais da cidade, daí a denominação Central. Na década de 1970, as unidades se tornaram escolas independentes. O nome atual de “Escola Estadual Governador Milton Campos” é recente, de 1978, isto é após a reforma do ensino secundário (DL5692).

 

Quadro II

Faculdade de Ciências Econômicas da UMG

 

A Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Minas Gerais – FACE -foi fundada em 1941 como entidade privada. Dela participaram tanto representantes do empresariado financeiro mineiro quanto das associações patronais (Federação das Indústrias e Comércio), tendo um corpo de professores de nomes conhecidos nacionalmente, como Lucas Lopes e José de Magalhães Pinto. Em 1948 foi incorporada à Universidade Federal de Minas Gerais. A Faculdade foi criada para assegurar a modernização do estado de Minas Gerais face ao Rio de Janeiro e a São Paulo (Arruda, 2004). A intenção manifesta era formar a elite da burocracia pública, daí o peso dos cursos de Política, Administração e Economia, num equilíbrio curricular totalmente distinto do modelo dominante, centrado na Sociologia e voltado essencialmente para a formação de professores secundários (Forjaz, 1997).

Nos anos 1950 sofreu uma série de inovações importantes, entre elas a implantação do sistema de bolsas de estudos, que contemplava os melhores alunos, selecionados após provas consideradas muito difíceis, a adoção do regime de tempo integral para o corpo docente e discente, a criação de revistas que veiculavam temas importantes da realidade brasileira. O programa escolar, longe da realidade agrária da economia mineira, estava de acordo com os planos políticos de formação de um profissional que se tornava necessário no plano nacional numa época em que o país dava os primeiros passos para um planejamento da economia nacional. De fato, os cursos de Política, Administração e Economia ministrados na Faculdade de Ciências Econômicas de Minas Gerais propiciaram aos alunos alto grau de profissionalização acadêmica e convívio universitário, sendo que a referência ao sistema de bolsas e a consciência de constituírem uma “elite acadêmica” está sempre presente no depoimento dos ex-alunos.

Se o enquadramento moral foi comum para os estudantes dessas duas escolas, o período do engajamento e as razões que determinaram a ação militante correspondem a etapas diferentes do movimento contra a ditadura. Estes aspectos bem observados deixaram ver dois conjuntos geracionais distintos.

O primeiro grupo dos militantes objeto desse estudo saiu das turmas do curso de sociologia e política inserido na Faculdade de Ciências Econômicas – FACE -, no período entre 1959 e 1964. O golpe militar de 1964 o encontrou organizado em torno da POLOP (Política Operária) – o braço antistalinista e trotskista do movimento estudantil – e da AP (Ação Popular) – com origem na JEC (Juventude Estudantil Católica) e JUC (Juventude Universitária Católica) da Ação Católica. Possuíam entre 22 e 24 anos quando foram perseguidos pelo governo militar e grande parte se exilou em países latino-americano, no Canadá e na Bélgica, com apoio da Igreja Católica. Uma fração importante, entretanto, foi recrutada pela Fundação Ford para estudar ciência política e economia nos Estados Unidos.

O segundo conjunto viveu os anos mais duros da ditadura militar que a encontrou, em 1968, no Colégio Estadual Central e nos primeiros anos dos cursos de Economia da FACE e de medicina da UMG, militando na JEC, na AP e na POLOP. Eram mais jovens que os da primeira geração. Tinham entre 17 e 22 anos quando foram presos, torturados e alguns, assassinados. Não tiveram tempo para terminar os estudos. Os que sobreviveram somente os terminaram nos anos 1980, após a anistia aos presos políticos. Dessa maneira, não se doutoraram nos Estados Unidos, como o grupo anterior. Os que foram exilados viveram na Argélia, em Cuba, em países de língua portuguesa na África.

Mas o que chama mais a atenção nos dois conjuntos geracionais é a maneira como todo um repertório político militante, frequentemente ideológico, foi requalificado nos anos 1990, durante a reestruturação das instituições políticas que esses mineiros, ex-alunos do Colégio Estadual Central e da FACE, ajudaram a arquitetar com a saída dos militares. Trata-se de uma reconversão bastante coerente com os percursos desenvolvidos. O doutoramento em ciências políticas em universidades americanas, por exemplo, propiciou aos estudantes considerados “brilhantes” na FACE a possibilidade de assessorar associações e organizações nacionais ou internacionais (Canedo, 2009) onde são geradas influências normativas de grande importância, em especial no campo das políticas públicas. O percurso pelo exílio, com apoio da Igreja Católica, levou os ex-militantes cristãos à criação, no Brasil, das importantes ONGS apoiadas pela CNBB, e aos movimentos para criação de associações humanitárias, movimentos anti-globalização, sem falar na introdução, no Brasil, de categorias novas de mobilização (anti-Aids, contra fome, etc.). O percurso pelo SUL-SUL percorrido pela segunda geração levou a ações voltadas ao fortalecimento do sindicalismo do setor público, o qual se transformou na via de acesso de professores (escolas públicas) e bancários (bancos estatais) às organizações políticas. Donde veio o meu interesse em conhecer as propriedades sociais dessas duas gerações de líderes estudantis dentro da continuidade de percurso.

 

A primeira geração de militantes: uma elite cosmopolita

 

Eu acho que é a consciência de que, se você está numa província economicamente frágil, se você intelectualmente se torna provinciano, aí você entra numa escala exponencial. Aí você eleva tudo à potência décima, não é? Então justamente a consciência de que era uma periferia econômica tornava indispensável a vocação cosmopolita.

Bolivar Lamounier  (Arruda, 1989:256)

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Herbert de Souza, o Betinho, resumiu o tempo da sua geração como um tempo “que matava Getúlio, inaugurava Juscelino e prenunciava Jânio”. Na verdade, o tempo em que o diagnóstico realizado pela comissão Mista Brasil/Estados Unidos, entre 1951-1953, foi posto em prática pelo governo desenvolvimentista Juscelino com intuito de remover os obstáculos que se interpunham na superação do atraso brasileiro em relação aos países desenvolvidos, conforme divulgado a partir das “etapas do desenvolvimento econômico”, concepção desenvolvida por Walter Rostow (1960) que fazia sucesso no meio governamental dos países ocidentais.

Nada surpreendente constatar, portanto, que, no cômputo geral das propriedades sociais da liderança estudantil que viveu este tempo, o que sobressai é a homogeneidade do grupo dada por um projeto familiar de ascensão social pela formação escolar. O tempo de Juscelino apontava o investimento intelectual como caminho para superação da diferença existente entre a oportunidade que os pais tiveram e a que muitos deles visualizavam para os filhos. Um projeto que se distinguia, portanto, daquele que orientava a formação dos “herdeiros”, que estava mais voltado para a valorização do capital social (rede durável e vasta de relações de parentela) e simbólico (nome da família, ligações com a alta direção política, etc.) do que para o investimento intelectual.

Esse projeto, entretanto, implicava em deslocamentos fortes, tendo em vista o fato de que, na sua maioria, estes estudantes constituíam a primeira geração com curso superior na família. O primeiro deslocamento foi, portanto, moral, com o abandono lento do mundo da família e de seus interesses. Inicialmente, isto ocorreu em função do isolamento exigido para os rituais das provas e exames necessários a entrada nas escolas de prestígio. Ele se aprofundou com as exigências ligadas às bolsas de estudos concedidas aos melhores estudantes da Faculdade de Ciências Econômicas, as discussões intelectuais incessantes com os professores que passaram a frequentar, o estímulo à escrita em jornais, as atividades políticas, etc. Estas atividades eram, naturalmente, compreendidas com dificuldade pela geração de seus pais, e podiam até serem vistas como falha de motivação ou preguiça, conforme explica Simon Schwartzman, um dos fundadores da POLOP:

 

Meu pai sempre achava que eu desisti da engenharia porque eu era preguiçoso, não queria trabalhar, estudar para o concurso, estudar matemática. Ele não entendeu o que eu estava fazendo. Quer dizer, ninguém sabia o que era isso. Realmente, era um aventura, porque… Era uma coisa que parecia interessante, mas… O que é que é isso? Que profissão é essa? Para que é que serve?  Ninguém tinha idéia.

(S. Simon Schwartzman,  2009)

 

Os estudantes se distinguiam por meio dessas atividades. Havia “o curso regular e a elite do curso que eram os alunos bolsistas, mais os professores jovens de tempo integral”, relatou o cientista político Otávio Cintra, um desses bolsistas, também demonstrando a progressiva inclusão dos bolsistas em círculos de sociabilidade ligada à uma militância cada vez mais exigente:

Essa integração [com os professores] era sobretudo no sistema de horário integral. Depois que acabava a parte da manhã, que eram as aulas, aí havia toda essa parte da tarde de intenso estudo, intensa conversa, produção, porque tanto os professores, como também os alunos, escreviam em jornal.[…] fazíamos crítica de livros, escrevíamos críticas de assuntos culturais e havia outros gruppos também que escreviam, mas um peso grande era da nossa turma de Ciências Econômicas […]. Então, eram alunos assim, atípicos, porque a gente tinha muita atividade, além da participação política no movimento católico, movimentos marxistas, depois a UNE.

(Cf. Arruda, 1989: 259)

A grande tensão vivida pelos estudantes dentro desta escola, onde o superinvestimento intelectual parecia não ajudar a vislumbrar um futuro claro nesta sociedade de oligarcas, foi expresso por uma das grandes lideranças do grupo católico – José Herbert de Souza -, como conflito entre duas visões de encaminhamento político existentes no interior do movimento estudantil, mas que assinala também a concorrência intelectual intensa que os levou a convergir para o marxismo:

A tensão, que se manifestou na JUC, era a divergência com o grupo marxista. Ali, no mesmo edifício da Faculdade de Ciências Econômicas, onde estavam os fundadores da Ação Popular, estavam também os fundadores da POLOP. Teotônio dos Santos Júnior, Simon Schwartzman, etc. Era o conflito entre cristãos e marxistas, que, de alguma forma, levou o grupo cristão a estudar marxismo. Eu não li primeiro Marx, li sobre Marx através de um jesuíta. Mas Teotônio (dos Santos) e os outros já estavam lendo direto Marx. O nosso grupo nasceu e teve que debater com os novos marxistas, com o Partidão, com este grupo cultural [grupo da música e do cinema) que infernizava a nossa vida e com a Igreja tradicional.

(Herbert souza, 1991)

 

Na verdade, como também demonstra o artigo de Nicolas Guilhot sobre os neoconservadores americanos (2006, p. 153-173), a tensão se situava no fato de eles serem representativos de uma seleção ao mesmo tempo escolar e política muito mais rigorosa do que aquela dos herdeiros das famílias tradicionais. Estes faziam carreira em virtude de sua inteligência e de sua capacidade, sem dúvida, mas também fazia parte do processo a disponibilidade e o desembaraço social que os levava a aparecer nos escritórios de parentes e velhos amigos da família a partir de um simples chamado telefônico para emprego. Já os estudantes da Faculdade de Economia pertenciam a um grupo de estudantes que superaram os rigorosos exames de entrada nas escolas públicas seletivas, possuindo, pois, um capital intelectual fruto de um extraordinário investimento feito ao longo dos anos. Mas este capital adquirido se constituía numa parte dominada quando posto, simbolicamente, em relação ao dos herdeiros, pois tanto o colégio Estadual Central quanto a Faculdade de Ciências Econômicas eram escolas, na época, afastadas do circuito social e político frequentado pelas grandes famílias mineiras. Esta diferença no tipo de capital escolar ajuda a compreender a prática política dos atores dominados no interior dessas escolas e suas capacidades de subverter as regras que não os beneficiavam.

A prática da liderança estudantil radical derivava, em parte, da organização da JEC dentro do Colégio Central onde grande parte dessa liderança estudou. O dominicano frei Mateus aí conclamava adolescentes masculinos e femininos, católicos de classe média, a fundar um novo tipo de cristianismo, no qual eles seriam os responsáveis pelo futuro[12]: “Jovem que não quer transformar o mundo é como um burguês que sonha em morrer velho e gordo, dentro de uma banheira de água morna” (Fraga, 2003, p.69), dizia frei Mateus impressionando uma platéia de adolescentes católicos sensíveis. Competindo com colegas “marxistas” que criaram a POLOP – compostos na sua maioria por judeus e protestantes -, o grupo de ação política católica também pregava a transformação da sociedade oligárquica que lhes turvava o horizonte.

A militância do grupo estudantil era em tempo integral. No dizer de Betinho, “o sujeito se engajava na luta com a alma, o corpo, com a vida, com a morte”. A identificação muito grande com os pobres, com os dominados, com a desgraça, de matriz judaico-cristã, se juntava aí a uma missão tornada necessária pelas experiências pessoais de participação em acontecimentos específicos ao longo da vida escolar. O deslocamento da norma política oficial sintetizava, para eles, a busca de uma gramática política nova, que transformava a militância numa exigência: “Cultivávamos uma religiosidade muito politizada no sentido de uma sociedade justa, como uma visão anticapitalista e socialista, e a comunhão entendida como comunidade, enfim, muita coisa que não se comparava com a tradição predominante” (GONTIJO, 1989, p. 57).

Muitos proveitos foram retirados da passagem por essas escolas nos anos que antecederam o golpe de Estado de 1964. Sem dúvida, tais proveitos estiveram à altura dos sacrifícios consentidos. Uma parte conseguiu bolsa para a FLACSO – Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), que havia sido criada em 1957, no Chile, sob os auspícios da UNESCO. Na volta assumiram cargos de professores no próprio curso de Ciências Sociais onde haviam se formado. Outros, na porta de saída da Faculdade encontraram empregos na burocracia federal, que foram avocados como lutas culturais e políticas herdadas da militância estudantil: atribuíram-se, desde cedo, a formulação e a coordenação ideológica de muitos programas do governo João Goulart. Entre eles, os do Ministério da Educação, na gestão de Paulo de Tarso, o qual teve Betinho como chefe de sua assessoria.

A repressão política desencadeada após golpe de 1964 os afetou de maneira diferente.

A grande maioria dos militantes da AP se exilou. O exílio lhes proporcionou a convivência com democracias representativas consolidadas do mundo ocidental desenvolvido, em especial a do Canadá. Voto distrital, contato estreito entre o parlamentar e sua comunidade, participação intensa da sociedade civil organizada etc. impressionaram muito o grupo católico que no Canadá atuou menos na universidade e muito mais na descoberta das organizações não governamentais e sua atuação por meio do Conselho Mundial de Igrejas. Ao acompanhar a chegada dos microcomputadores às universidades canadenses,   puderam observar o crescimento das redes de informação e o potencial transformador da tecnologia. É o que explica o interesse que demonstraram, no retorno ao Brasil, pelo trabalho com o envolvimento da comunidade na discussão de políticas públicas, como faziam alguns institutos que conheceram no exílio, e o esforço empregado no lançamento do primeiro sistema de informações destinado às organizações da sociedade civil na América Latina, o AlterNex (Carvalho, 2006: 111-117). Para tal, evitaram os partidos políticos e o trabalho no governo. O caso típico de bandeira homologada fora das fronteiras do Brasil é a criação do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, o IBASE, em 1981[13], gestado no Canadá junto a Latin America Research Unit e o Conselho Mundial de Igrejas (Carvalho, 2006). A criação do IBASE foi o primeiro passo para a articulação da sociedade civil com empresas públicas que pudessem pensar a problemática da FOME no Brasil, o que contribuiu para dar origem a uma série de ações governamentais na área social, que vem se desdobrando em programas de eliminação da miséria. Em suma, emprestaram sua experiência militante, com apoio da Igreja Católica, na organização da sociedade civil, na difusão da informação, pugnando pela democratização do acesso aos computadores e às suas redes de comunicação (Carvalho, 2006). Não por coincidência, desde o final dos anos 1970, a CNBB vinha elaborando sua política em relação aos meios de comunicação, e propugnava para tal a colaboração entre a Igreja e os meios de comunicação leigos (Della Cava e Montero, 1991: 30-42).

Os que vivenciaram o sistema de bolsas por mérito na Faculdade de Ciências Econômicas, com a consciência de constituírem “uma elite acadêmica”, ampliaram uma internacionalização iniciada com bolsa de estudos na FLACSO. Com as bolsas de estudos doadas pela Fundação Ford, se doutoraram em ciência política nas universidades americanas (Harvard, Michigan, Stanford, Cornell). No final dos anos 1970, investiram seu capital militante, inicialmente, no campo das ciências sociais brasileiras, buscando o reconhecimento de sua competência e sua autoridade intelectual em matéria de análise dos fenômenos políticos. Introduziram, assim, a ciência política no interior do ensino superior, nos centros de pesquisas, nas instituições de Estado e nos mercados de expertises, dando origem a novos modelos de interpretação da realidade nacional.

Com o contínuo apoio da Fundação Ford, que financiava trabalhos de pesquisadores neo-marxistas nos Estados Unidos e na América Latina (Guilhot,2006), contribuíram para a criação dos programas pioneiros de pós-graduação em política no IUPERJ, de onde se originou a revista Dados – Revista de Ciências Sociais. Contribuíram, ainda, para a criação da ANPOCS, em 1977, onde trabalharam ativamente na criação de Grupos de Trabalho sobre partidos, comportamento eleitoral, problemas de institucionalização política, inovando os estudos sobre autoritarismo e desigualdade social, tema das teses que defenderam nos Estados Unidos. Como parte do grupo de intelectuais que assumiu ao poder nos anos 1990, eles se transformaram nos principais assessores para as políticas de Estado promovidas no período. Das reformas de que participaram sobressai as do sistema estatístico do IBGE, órgão que reúne os indicadores e as informações básicas para o governo e a população, responsável pela reorganização do impacto dos serviços sociais oferecidos pelo governo com educação básica e assistência à saúde e principalmente os benefícios da previdência social e o pagamento de pensões (Schwartzman, 2009).  Chama a atenção também a elaboração da chamada “rede de proteção social do governo”, que pretendia, sob a coordenação de Vilmar Farias, combater a pobreza nas cidades com pequeno Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)[14], e deu início às profundas  transformações nas políticas sociais brasileiras, parte dos Plano de Combate à Fome e a Miséria, do Conselho Nacional de Segurança Alimentar – CONSEA, e Lei nº 8.742, Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS.

Melhor dizendo, enquanto os ex-estudantes da FACE que receberam bolsa da Ford, no regresso ao Brasil, emprestaram sua experiência militante na área acadêmica e na de governo, os que se exilaram com apoio da Igreja Católica a emprestaram na área da organização da sociedade civil. Tendo em vista a revolução tecnológica acontecendo no mundo, não é surpreendente o fato de os dois grupos terem pugnados pela difusão da informação, democratização do acesso aos computadores e às suas redes de comunicação.

Embora os destinos desses ex-militantes tenham sido diferentes, relacionados a identificações políticas e redes de relações diferentes (católicos, judeus, experiência acadêmica, em ONGS,nas reformas de Estado etc.), os distintos  caminhos não impedem que sejam colocados num mesmo conjunto geracional, que o arguto Betinho explicou como funciona na prática à partir do seu grupo de formação católica:

Queiramos ou não, nós somos de uma geração. Nós temos condição de pegar o telefone e chamar um ao outro, coisa que eu não tenho condições de fazer com outras pessoas. Apesar de todas as diferenças, isso cria um clima. Por exemplo, eu sou incapaz de ter raiva do Serra (foi líder da AP), eu tenho “pininba” com ele que é diferente, raiva eu não tenho.

(Entrevista Roda Viva – 1996)


A segunda geração de militantes

Eu não comecei a fazer política por razões teóricas. Foi por me sentir profundamente incomodada com a violência, com a fome. Só isso. Jamais tive a intenção de fazer história. Só ficava incomodadíssima com a miséria, como fico até hoje. A questão do sofrimento humano sanável. Mas a interferência direta para a mudança, isso eu acho que terminou para a maioria de nós.

Maria do Carmo Brito – ex-aluna do Estadual Central e da FACE. Militante na JEC, na POLOP, no COLINA e fez parte da direção da VPR. Esteve exilada no Chile, no Panamá, em Angola e Portugal (Vianna, 2003.)

 

Como a Maria do Carmo, os estudantes do segundo conjunto geracional tinham entre 16-20 anos quando o AI-5 de dezembro de 1968 cortou suas esperanças relativas à “interferência direta para a mudança” ou mesmo de chegar a obter um diploma. Uma parte desse conjunto, entretanto, à diferença de Maria do Carmo, atua, ainda, na mudança, mas, desta vez, dentro do campo político, no governo Dilma Roussef, engendrando políticas públicas a partir do palácio do Planalto, em nome de um partido político fundado no final do regime militar, o PT.

Uma série de diferenças distancia este grupo dos anteriores. Além da ausência de diplomas prestigiosos e da ausência de circulação pelas grandes potências democráticas como bolsistas ou exilados, há a presença de mulheres em cargos de direção como uma marca do grupo. Uma delas se encontra hoje atuando, como eleita, no mais alto cargo da Republica. Montou um governo com muitas mulheres em altos cargos. Entretanto, eleita com o slogan de “mãe do PAC”, e conhecida na mídia como “afilhada de Lula”, por não ter, até então, enfrentado uma única eleição, ela mantém a representação da mulher na política vinculada a uma definição familiar (mãe, afilhada), trazendo a tona, novamente as manifestações do “espírito de família” que asseguraria, desta vez em termos mais abstratos, a unidade política dos membros da nação[15].

Diferenciando-se, ainda, da geração anterior, muitos pais desses militantes mineiros possuem curso superior (a maioria médicos, havia um advogado e um agrimensor, entre outros comerciantes bem sucedidos), grande parte habitante de cidades do interior mineiro (Nahas, 2003). Assim, boa parte do grupo chegou a Belo-Horizonte somente após o curso ginasial, realizado no mais das vezes em escolas confessionais do interior mineiro. Foi uma geração que vivenciou com sofreguidão em Belo- Horizonte tudo o que sentiram não existir no local de origem:

Cinema novo, gente!. Nesta época havia sessão no CEC – Centro de Estudos Cinematográficos. Fazia sessão de domingo, dez horas da noite. Vinha Glauber Rocha discutir, vinha Vidas Secas, vinha o diretor discutir. Era um movimento. Era uma juventude toda em ebulição.[16]

 

Em Belo-Horizonte, na universidade, entraram em contato com o grupo da POLOP e da JUC, já transformada em Ação Popular, e ajudaram a fundar o COLINA (Comando de Libertação Nacional). Os anos duros da ditadura militar, marcados pelo fechamento do Parlamento e o crescimento da repressão não lhes proporcionou “esse negócio de ir em festa na casa do outro. O encontro sempre tinha ter um motivo lógico, um motivo. A disciplina foi ficando cada vez mais rígida” (Nahas, 2003, p. 14). Na prática não se constituíram numa geração como a anterior, pois até mesmo dentro da própria organização um desconhecia o outro (Leite, 2009), por atuarem, por motivo de segurança, em células separadas (comando da inteligência, comando armado, etc.). Atuando em grupo fechado, não têm, hoje, “condição de pegar o telefone e chamar um ao outro”, como expressou o Betinho para a sua geração. A não ser em relação aos com os quais conviveram em células. A amplitude da rede de sociabilidade difere, pois, radicalmente entre o conjunto de 1964 e o de 1968.

A outra diferença diz respeito à prisão. Foram presos, ou mortos, antes de se diplomarem e a direção do COLINA foi quase toda exilada em troca do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben sequestrado por dois dos grupos armados existentes no período, a  VPR – Vanguarda Popular Revolucionária e a FLN – Frente de Libertação Nacional (Leite, 2005). Poucos da liderança aqui ficaram e puderam terminar a graduação após a anistia. Na expressão de Maria do Carmo Brito, foi uma “geração que pelo menos conseguiu mostrar ao mundo inteiro o horror que este país era, e não deixou que a ditadura se implantasse de graça, sem que corresse um pouco de sangue” (Vianna, 2003).

Após o exílio, ou prisão, a abertura política no Brasil os levou a mobilizar o que adquiriram em conhecimento e experiência através dos percursos militantes para áreas bem distantes das instituições acadêmicas e do trabalho das ONGS: encaminharam-se para sindicatos de profissionais liberais (economistas) e de funcionários públicos (professores), e para praticar a política no seio dos partidos de oposição possíveis, como o PDT do Brizola, culminando na fundação do PT, ao qual emprestaram seus talentos de organizadores. Desde 2004, passaram, pouco a pouco, a ocupar os principais postos nacionais de governo, encarregados de assegurar a formulação das políticas sociais. Assim, dão à sua presença nos circuitos do poder uma idéia de continuidade do projeto da militância, exibindo-a através da experiência vivida no engajamento da luta contra a fome e a miséria, tema central que desenvolvem em suas biografias, e que é bem exemplificado na declaração de Maria do Carmo Brito, em epígrafe e, ainda, na declaração do Dilma Roussef à revista Marie Claire (abril/2009):

…mudei para o colégio Central, porque se continuasse no Sion, teria que fazer ‘normal’, seria professora, e não queria isso. Meu primeiro dia de aula foi em 10 de março de 1964, um mês antes do golpe. O colégio era uma efervescência só. Era moderno, tinha representantes de vários grupos da esquerda. Com o golpe, alguns segmentos da classe média de que eu fazia parte se radicalizaram. Como alguém de 16 anos acha que pode existir democracia se um mês depois do início das aulas há um golpe de estado?(…) foi nesse período que ganhei minha sensibilidade social, a noção de que era impossível o País viver com tanta miséria. A percepção crescente dos problemas sociais, políticos e econômicos, etc.

 

Dilma Roussef, que pertenceu ao COLINA, ocupou Ministério e a Chefia da Casa Civil no governo Lula, é a atual presidente da República. Há quem foi prefeito de Belo-Horizonte e Ministro, caso de Patrus Ananias, Fernando Pimentel. Os ex-trotiskistas aí se distinguem por uma ação política muito pragmática, haja vista a coligação eleitoral feita por Fernando Pimentel – atual Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior -, com o herdeiro político mais emblemático de Minas, Aécio Neves, visando eleger prefeito de Belo Horizonte um ex-membro do COLINA, Marcio Lacerda. Lacerda havia sido responsável pelo célebre “choque de gestão”, a grande bandeira do governo Aécio Neves. Os que se originaram do movimento católico dos anos 1970 (posterior à AP), como Patrus Ananias (ex-Ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome) e Luiz Dulci (ex-Secretario Geral da Presidência da República), emprestam sua experiência militante na área da política social. Chama a atenção, também, no que se refere à círculos de decisão de políticas públicas, a permanência da divisão entre católicos e trotskistas que, hoje,  gira em torno  do tema “choque de gestão” na área da assistência social (IPEA, 2011; Rocha, 2011), em especial no que se refere às denominadas condicionalidades (exame pré-natal, acompanhamento nutricional e de saúde, a freqüência à escola -Art. 3o. da Lei no.10.836/2004). O governo Dilma Roussef, entre outros exemplos, não atribuiu cargos, ainda, a católicos, como Patrus Ananias e Luis Dulci, que sempre se manifestaram pela universalização dos benefícios, dentro do modelo católico contra as condicionalidades. Fernando Pimentel é o seu principal assessor no palácio do Planalto.

A trajetória desses ex-militantes mineiros não deixa, portanto, de levantar certo numero de interrogações ligadas à distância política que percorreram na continuidade do projeto iniciado na militância estudantil – preso na desconfiança vis-à-vis à política dos partidos – e a lógica que os guiou na atividade incessante de transferência das competências adquiridas na luta contra a ditadura para o conjunto das organizações políticas.

Vale a pena aprofundar o exame das carreiras políticas de Dilma Roussef e de Fernando Pimentel, ex-membros do COLINA, e as de Luis Dulci, ex-militante do movimento católico ligado aos jesuítas, considerando-as três casos exemplares de politização que, com seus   bloqueios, crises, reconversões, continuidades e acordos, permitem pensar o problema da formação e reprodução dos novos quadros dirigentes no Brasil.


Três biografias exemplares

 

Dilma Roussef e Fernando Pimentel provêem de família de recurso econômico e intelectual. A mãe de Dilma, normalista, é filha de pecuarista de Uberaba (MG), e o pai, advogado, era imigrante búlgaro do Partido Comunista que fez fortuna no ramo imobiliário de Belo Horizonte (Carvalho, 2009:23), além de ter sido também poeta e frequentado círculos literários de seu país nos anos 1920[17]. No dizer de sua filha famosa, “ele foi uma pessoa que teve forte vínculo com todos os movimentos de transformação europeus” (Rodrigues, 2010). No caso de Fernando, havia um avô que conheceu a decadência cafeeira, um pai proprietário de um comércio de couro em Belo-Horizonte, uma mãe professora de música e uma importante origem protestante. Acredito que o fato de eles não pertencerem à tradicional família católica mineira, explica o interesse dos dois pela militância junto à POLOP, de onde se originou a organização COLINA. A amizade dos dois vem dessa época e permanece forte.

Ambos terminaram seus estudos superiores após a anistia, nos anos 1980, pois estiveram na clandestinidade e foram presos durante a repressão desencadeada após o sequestro do embaixador alemão (1970-1973). Dilma terminou o curso de economia na UFRGS e não chegou a completar uma pós-graduação, diferentemente de Fernando que se diplomou em Economia na PUC-MG e tem mestrado em Ciência Política pela UFMG.

Após a prisão, a vida de Dilma foi reconstruída em Porto Alegre, em razão do seu segundo casamento com o advogado gaúcho Carlos Paixão Araújo, ex-militante da VAR Palmares[18]. Com Araujo atuou no Instituto de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais, o IEPES (Reis, 2008), que abrigava, na época, muitos dos que, nos anos 1970, se sentiam sem espaço de atuação política[19]. Trabalhou, como estagiária, na Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (1974), da qual foi demitida, junto a outros ex-militantes fichados pela polícia política. Retornou à Fundação após a anistia e presidiu-a de 1991-1993. Como muitos dos que aglutinavam em torno da liderança de Carlos Araújo, ajudou na fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT) e, ainda, graças a rede de relações militantes e experiência comum de prisão (Reis, 2008) foi convidada para Secretária Municipal da Fazenda (1985-88) no primeiro governo municipal (PDT) eleito após a abertura. Rompeu com o PDT após ter sido indicada para a Secretaria Estadual de Minas e Energia (1999-2002) no governo do petista Olívio Dutra. Em 2002, participou, já como filiada ao PT, da equipe que formulou o plano de governo de Luiz Inácio Lula da Silva para a área energética e foi escolhida para ocupar o Ministério de Minas e Energia. Em 2010, após exercer o cargo de ministra-chefe da Casa Civil, foi eleita, por maioria de votos, presidente da República, sem nunca haver antes concorrido a cargos eletivos. Sua atuação foi sempre no executivo de governos de esquerda.

A trajetória de Fernando Pimentel também o inclui nessa linhagem de gestores – característica da nova elite no poder -, que só tardiamente acedeu a cargos políticos pelo voto popular[20]. Sua atuação nos cargos técnicos de governo também foi tardia, o que mais uma vez confirma a profunda diferença entre a “tradição política de Minas” e a nomeada “trabalhista” do Rio Grande do Sul (Grill, 2008). Após a saída da prisão, diferentemente de Dilma, ele se dividiu entre a gestão da rede de lojas de sua família, a Belorizonte  Couros, e as atividades acadêmico-docentes como Professor Assistente do Departamento de Economia e Coordenador do Centro de Extensão da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, nos anos 1970-85. Participou da criação do PT em Belo-Horizonte, mas até 1993, quando integrou o governo municipal de Belo-Horizonte na gestão de Patrus Ananias (Secretário da Fazenda), foi somente um integrante ativo das entidades de categorias profissionais: exerceu a vice-presidência da Associação de Professores Universitários de Belo Horizonte (1985/1987), diretor do Sindicato dos Economistas de MG (1986/1992) e presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (1991/1992). Após ter sido Secretário Municipal de Governo, Planejamento e Coordenação Geral (governo do socialista Célio de Castro (1996-2000), prefeito substituto, foi eleito prefeito de Belo-Horizonte, por maioria de votos no primeiro turno. Foi uma gestão marcada por grandes investimentos nas áreas urbana e social, entre os quais se destaca o Vila Viva, programa de urbanização de vilas e favelas, o programa Orçamento Participativo Digital, com votação eletrônica, por meio do qual, qualquer cidadão pode opinar e votar nas obras de sua preferência via  internet, inovando o que já havia sido feito pelo governo petista em Porto Alegre.

O caso de Luís Dulci importa por ser representativo do grupo de origem católica e igualmente da quebra de uma tradição familiar que chega a ser recomposta. Iniciou sua militância no colégio dos Jesuítas de Juiz de Fora, que era dirigido pelos padres ligados à Teologia da Libertação e ao Padre Vaz, o teórico da AP. É filho de professora primária e sobrinho neto, do lado materno, de dois importantes políticos mineiros, Martim Soares e Milton Soares Campos, este último o grande líder udenista dos anos 1950, que se tornou célebre graças a seus escritos, talento de orador e amizade com literatos mineiros, como Carlos Drumond de Andrade, Afonso Arinos, entre outros. Mas, diferentemente de Aécio Neves, neto pelo lado materno de Tancredo Neves e do paterno de Tristão da Cunha (líder do PRM na Primeira República e signatário do Manifesto dos Mineiros), Dulci vem de um ramo da família com capital político e econômico em declínio. Destaca-se de outros herdeiros políticos no recurso diferencial para entrar na carreira.

Como grande parte dos novos políticos mineiros, ele foi ativo no movimento sindical dos professores secundários (liderou uma greve célebre em 1979). Diplomou-se em Letras na UFRJ, título de menor peso do que os possuídos pelos herdeiros políticos oriundos da Faculdade de Direito, mas que o fez ser considerado uma espécie de “intelectual” do governo Lula. Foi deputado na primeira bancada do PT na Câmara Federal (1982), eleito com votos dos professores e o apoio da igreja Católica, e secretário municipal da Cultura nas gestões de Patrus Ananias (líder da ala católica do PT) e do socialista Celio de Castro, mas não da gestão de Fernando Pimentel. Foi presidente do Instituto Perseu Abramo (1996-2003) de onde saiu para integrar o governo Lula. Atualmente atua no Instituto da Cidadania, criado pelo ex-presidente.

A partir de sua trajetória, pode-se dizer que ele é representativo das diferentes variantes de capital político que estão hierarquizadas no espaço político, em especial as que inscrevem as grandes famílias como participantes de uma mesma cultura que remonta aos séculos que precedem a construção do Estado Moderno na Europa, como lembra Ana Catherine Wagner ao se referir às elites da globalização (Wagner, 2007:10): o universalismo das letras, inscrito nas tradições do saber eclesiástico; a vontade de distinção das linhagens elitistas que marcam, dessa maneira, sua superioridade vis-à-vis à cultura das línguas vulgares das classes populares; o capital familiar. No caso de Dulci, esta variante se complementa com os recursos acumulados na militância. Não é surpreendente, portanto, constatar que tenha, como seu tio avô, se casado também com uma mulher da família Resende, ocupado alto cargo de comunicação no governo Lula e, no PT, seja considerado um homem que tem por missão redigir os documentos do partido e o discurso de seus líderes.

Enfim, nos altos cargos da burocracia do Estado, enquanto tantos outros militantes foram deles eliminados durante o processo político, o conjunto de políticos oriundos de Minas Gerais no poder demonstra que a concorrência política é marcada por barreiras de entrada tão discretas quanto eficazes. Para aceder com sucesso no espaço político é preciso dispor de competências e recursos materiais e simbólicos capazes de lhes permitir o confronto com os dirigentes tradicionais. Sob este aspecto, esta nova elite de Estado composta de antigos militantes estudantis da segunda geração, com atuação em sindicatos distantes do sindicalismo operário, na competição política, faz uso da tradição política mineira. Mas diferentemente dos “herdeiros”, eles encontram dificuldade profunda no trabalho parlamentar, prática longínqua em sua socialização política[21]. Quando eleitos deputados permanecem muito pouco tempo no Parlamento onde, geralmente, são desqualificados pelos já estabelecidos no universo fechado da política. E nos cargos executivos e da administração dos negócios do Estado revelam a predominância de certos princípios de ação política coerentes com valores adotados no início da militância. Seja como prefeito de Belo Horizonte eleito, seja, como ministro do Desenvolvimento Social, ou ainda como presidente da República continuam depositários da crença nas mobilizações sociais como instrumento necessário para garantir a legitimidade de suas ações, da importância em conceber os interesses do povo como antagônicos aos das elites tradicionais, da importância da ideologia e ter um passado militante radical.

 

 

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[1] Cf. Canêdo, 1993, 1997, 1998, 1999, 2004, 2009. Este artigo é uma versão modificada do texto apresentado e discutido no colóquio “Saber e Poder”, realizado no FOCUS – Grupo de pesquisas sobre Instituição Escolar e Organizações familiares -, FE/Unicamp, em 2008. Agradeço Afrânio Garcia, Michel Offerlé e Yves Dezalay as observações feitas na ocasião. E a Igor Grill, Ernesto Seidl e José Carlos Durand a leitura cuidadosa da primeira versão do artigo..

[2] Geração está compreendida aqui no sentido que a ela deu Mannheim, com distinções entre  “situação de geração, “conjunto geracional” e  “unidade de geração” . Para este autor, indivíduos da mesma idade só estão ligados a um conjunto geracional na medida em que tomam parte em correntes sociais e intelectuais […] e em que participam ativamente e passivamente a essas interações que formam uma nova situação”. Ver  Karl Mannheim, Le problème des generations, Paris, Nathan, 1990, página 59 e seguintes.

[3] O material de pesquisa utilizado neste artigo se compõe de dicionários históricos (Monteiro, 1995; Abreu, 2001), informações sobre os percursos dos antigos militantes (entrevistas e testemunhos publicados em jornais e revistas, acadêmicas ou de grande circulação) teses (Leite, 2009; Reis, 2007) e pesquisa em sites de instituições especializadas (Fundação Padre Anchieta, Fundação Perseu Abramo, Memória Roda Viva, Tortura Nunca Mais, Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos). Os dados aí obtidos foram comparados com os que haviam sido utilizados nas minhas pesquisas anteriores, baseadas num banco de dados genealógicos, e que solicitaram também trabalhos realizados na área da sócio-história do político e da politização (Lagroye 2003; Deloye et Voutat, 2002; Offerlé, 2007)

[4] É como Jacques Legroye ”(2003:360-1) entende a politização, “uma requalificação das atividades sociais as mais diversas, requalificação que resulta de um acordo político entre agentes sociais predispostos, por múltiplas razões, a transgredir ou desafiar a diferenciação dos espaços de atividades”.

[5] Depoimento de Carlos Eloy Carvalho Guimarães a CEMIG (2004). Ele foi deputado estadual à Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais (1963 a 1979) e deputado federal por Minas Gerais em duas legislaturas na Câmara dos Deputados (1978-1982 e 1982-1986). Foi também secretário de Obras Públicas de Minas Gerais (1979 – 1982) e presidente da CEMIG (1991-1998). É também sobrinho de Francisco Campos, do lado materno, e da família de Gustavo Capanema. É primo do atual deputado federal pelo PT, Virgilio Guimarães.

[6] Cf. Depoimento de Pio Canedo (Vaz, 1966, 181), que iniciou sua carreira como vereador e prefeito do município de Muriaé , foi também Secretario estadual da Justiça e, ainda da Agricultura, Indústria, Comércio e Trabalho antes de se eleger deputado estadual pelo PSD em três legislaturas. Liderou a bancada de seu Partido, a minoria e a maioria, foi líder do Governo, Presidente da Assembléia Legislativa (1962) e Vice-Governador do Estado (1966-1970).Foi também Diretor Jurídico e Assessor Especial da Fundação João Pinheiro, vice-presidente do Banco do Estado de Minas Gerais e Presidente do Conselho Nacional de Política Penitenciária.Era neto de políticos conservadores na Assembléia Geral do Império, filho, sobrinho, irmão e tio de importantes políticos mineiros.

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[7] Não se pode esquecer que este fechamento do espaço político não é substancial e está em constante tensão. Ver sobre o tema Michel Offerlé (2011, p.153).

[8] A pesquisa realizada por Amilcar Martins Filho (2009) sobre a distribuição de nomeações para cargos públicos na Primeira República mostra que nenhum dos governadores de Minas se notabilizou por favorecer sua região de origem. Esta equanimidade da elite no apadrinhamento como fator crucial para o sucesso do sistema político implantado em Minas pode ser observada também até os anos 1980. E todos os herdeiros entrevistados durante os meus anos de pesquisa sobre o poder político mineiros insistem muito neste aspecto de não incidência de nomeações maiores para a região de origem do governador.

[9] Bacha, Lara Resende e também Francisco Lopes não eram herdeiros de um patrimônio eleitoral, mas de um estilo político mineiro inaugurado em Minas pelo bisavô de Lara, João Pinheiro, seguido por Juscelino Kubitschek e Israel Pinheiro que atuaram mais como planejadores e executores de políticas econômico-financeiras de um Estado modernizador do que como parlamentares. O ponto de encontro dos político-técnicos de Minas Gerais foram as Secretarias do governo Benedito Valadares, na década de 30, e a Cia. Vale do Rio Doce, nos anos 1940. As redes montadas por estes técnicos–políticos, tanto no Brasil como no exterior  (anos 1940-50), as práticas que adquiriram na participação nas Comissões Brasil Estados Unidos durante o governo Vargas podem ser vistas na atuação unida de seus descendentes na PUC/RJ e em Harvard. A criação do departamento de Pós-Graduação em Economia da PUC esteve, em grande parte sob a responsabilidade de Francisco Lopes e Edmar Bacha. Pai e tio desse último já haviam tido participação na criação da Faculdade de Economia de Minas Gerais, em 1941. O respaldo dado a eles, e aos seus planos cruzado e real, pelos meios financeiros e acadêmicos internacionais, bem como à sua aplicação, se deve muito a redes estabelecidas anteriormente por eles e a credibilidade que, como herdeiros, tinham já interiorizado na explicação de seus trabalhos no circuito internacional (Canedo, 2004, :121-125).

[10] O estado de Minas Gerais é conhecido como viveiro de político de envergadura nacional. Daí se originaram sete presidentes da República, numerosos ministros (entre as pastas mais importantes), dez vice-presidentes, fortes representação nas principais Comissões financeiras e de justiça do Congresso nacional e nas principais funções em todos os ministérios.

[11] Em entrevista a Aleluia Heringer Lisboa Teixeira (2011, p.42) um ex- aluno (filho de bancário) expressou o colégio no imaginário da Belo-Horizonte dos anos 1950-1960: “Na minha casa existiam algumas verdades absolutas, uma delas era o Estadual, a outra era o Atlético, a outra era Getúlio e o Juscelino. Eram quatro verdades. O Estadual era um mito em casa, isso era inquestionável (…). O Estadual era próximo, fazia parte do panteão dos deuses. Era impressionante”. Na tese de doutorado da Prof. Heriger Lisboa intitulada “Uma escola sem muros”, são analisados os muros simbólicos lá existentes, entre eles a entrada pelo “mérito” já que os competidores não estavam em posições iguais no momento da largada.

[12] Betinho explica bem o que era o método da ação Católica nessa escola. De acordo com ele, “era Ver-Julgar-Agir. Esse método na verdade era aplicado em cima de duas preocupações. Era toda uma discussão em torno do Evangelho. A ação católica não lia a Bíblia, lia o Evangelho. Era uma visão bastante revolucionária do que significava o Cristianismo. A outra vertente era a análise política. Essa constituía para todo mundo uma novidade, porque de repente chegava um cara e dizia que Cristo era homem, que o Evangelho revolucionava a vida, quando você tinha sido criado numa Igreja conservadora. A Ação Católica produziu um choque cultural e conseguiu atrair uma turma grande. Esse período se caracterizou por um amplo processo de recrutamento. Alguns anos terminavam com quinze caras decidindo largar tudo e entrar para o convento. E foi assim que a Ordem dos Dominicanos cresceu imensamente neste período” (entrevista – Betinho. Revista Teoria e Debate,nº 16, outubro/novembro/dezembro 1991).

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[13] O objetivo declarado na criação do IBASE era contribuir para o desenvolvimento da democracia após o regime militar, seguindo os princípios de participação cidadã, diversidade e solidariedade. Desenvolve, desde entao, projetos e/ou iniciativas nas seguintes linhas: Alternativas Democráticas à Globalização; Desenvolvimento e Direitos; Direito à Cidade; Economia Solidária; Processo Fórum Social Mundial; Juventude Democracia e Participação; Observatório da Cidadania: direitos e diversidade; Responsabilidade Social e Ética nas Organizações; Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.Produz publicações como o Jornal da Cidadania – distribuído em escolas públicas – e a Revista Democracia Viva – distribuída para formadores(as) de opinião –, como também mantém um portal na internet. A instituição também está inserida no debate e no fortalecimento do software livre e fez parte da história da internet brasileira, ao ter criado o Alternex, na década de 90. Fundação Perseu Abramo, http://www2.fpa.org.br/conteudo/memoria-entrevista-betinho. Publicado em 14/04/2006.

 

 

[14] – A Rede de Proteção Social consistiu na junção de diferentes programas de cunho social que coordenavam esforços voltados à assistência da classe brasileira mais carente, definida a partir de parâmetros de renda e constituição familiar, tendo início, em 1995. Como uma forma de redistribuição de renda, visava o desenvolvimento social, tanto de forma imediata, como mediata, ao agir progressivamente para que cada geração beneficiada pudesse ter a oportunidade de proporcionar melhoria nas condições sociais, também, de seus descendentes. A Rede foi concebida como um conjunto de transferências monetárias a pessoas ou famílias de mais baixa renda, destinado a protegê-las nas distintas circunstâncias de risco e vulnerabilidade social. Sob a liderança do Projeto Alvorada e apoiada na implantação do Cadastro Único operado pela Caixa Econômica, instrumento da unificação das transferências, a Rede Social se formava pelos seguintes programas: Bolsa-Escola (MEC); Bolsa-Alimentação (MS); Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) (MPAS); Programa do Agente Jovem (MPAS); Bolsa-Qualificação (MT); Benefício Mensal – Idoso (MPAS);  Benefício Mensal – Portadores de Deficiência (MPAS); Renda Mensal Vitalícia (MPAS);  Bolsa-Renda (seguro-safra) (MA); Auxílio-gás (MME); Aposentadorias Rurais (MPAS); Abono Salarial PIS/Pasep (CEF); Seguro-desemprego (MT).(Rocha,2004).

 

[15] A influência da família no mundo da política é ainda pouco estudada. A tendência majoritária da historiografia, com base no modelo individualizado da cidadania, é a de negar qualificação política ao privado, ao doméstico, ao familiar ou ao feminino, com motivos apresentados como histórica e socialmente constituídos e, igualmente, portando efeitos automáticos: a dependência social acarreta o desapossamento político. Sobre o tema há importantes trabalhos de Anne Verjus, Le Bon mari. Une histoire politique des hommes et des femmes à l’époque révolutionnaire, Paris, Fayard, 2010 ; Le cens de la famille. Les femmes et le vote 1789-1848. Paris, Belin, 2002; « Contribuição para o estudo do processo de individualização das mulheres na primeira metade do século XIX », in Letícia Canêdo (org.), O sufrágio universal e a invenção democrática São Paulo, Editora Estação Liberdade 2005.

[16] Cf. Maria José Carvalho Nahas, do comando armado do grupo COLINA, filha de medico da Zona da Mata de Minas Gerais, exilada em Cuba durante 10 anos e casada com um companheiro de luta, médico como ela. É funcionária pública e seu marido é Secretário municipal de políticas sociais do governo Marcio Lacerda. Ele o foi também na gestão de Fernando Pimentel, todos os quatro ex-membros do COLINA. Entrevista dada à Isabel Leite, 11/01/2003.

[17] Who Is Who: Bulgarian Origins and Relatives of Brazil’s Dilma Rousseff – http://www.novinite.com/view_news.php?id=120755, acessado em 21/08/2011. A influência literária do pai foi grande. Colegas do Sion relatam espanto quando ela ganhou do pai a coleção completa de Jorge Amado (Azevedo, 2010).

[18] Seu primeiro casamento foi com um jornalista, na época da POLOP, que hoje é assessor do prefeito de Belo-Horizonte Marcio Lacerda. O segundo marido, Carlos Araújo, tinha trânsito nacional significativo entre os “grupos armados” de 1969, ocasião em que conheceu Dilma Roussef. Quando filiado ao PCB, chegou a ser militante nas Ligas Camponesas criadas por Francisco Julião (Reis, 2008).

[19] O IPES foi criado em 1972 por iniciativa de um conjunto de militantes proveniente dos meios universitários gaúchos e razão pela qual a ele foi atribuído um caráter de formulação e de formação política.

[20] Cf. Canedo (2004), o recrutamento dos herdeiros políticos mineiros aos postos eletivos se dá na faixa média dos 30 anos. O ingresso dos novos pretendentes se dá na faixa média dos 50 anos, a partir da acumulação de capital militante e escolar, e depois de uma situação profissional já estabelecida. Também, diferentemente dos herdeiros, os novos ingressantes não se elegem, inicialmente para cargos locais. São eleitos diretamente para cargos de nível nacional, ou para prefeituras de capital de visibilidade nacional, como o caso de Belo Horizonte, apoiados nos recursos financeiros de grandes sindicatos, de grandes empresas,etc .

[21] Esta observação foi feita lembrando que a formação política desse grupo de segunda geração se deu no período em que o AI-5 estava em vigor. E este foi um instrumento que deu poderes quase absolutos ao regime militar, tendo como primeira consequência o fechamento do Congresso nacional. Além do mais, as ações praticadas de acordo com o AI-5 e seus atos complementares não eram submetidas a qualquer apreciação judicial, subordinando o Judiciário também ao Executivo. O grupo em estudo, portanto, se socializou sem conhecer o funcionamento dessas instituições e também a imprensa livre. A situação vivida por esta segunda geração difere, portanto, não só da dos herdeiros, que, historicamente,  se sentiam  participantes da construção das  instituições políticas desde o Império, como do grupo que denominei de primeira geração, isto é o grupo que se formou na segunda metade dos anos 1950, período em que a vida parlamentar foi muito ativa e a imprensa atuava com total liberdade.

La formation à la recherche au Brésil et la concurrence mondialisée des agences de coopération scientifique

Leticia Bicalho Canêdo et Afrânio Raul Garcia Jr.
In Michele LECLERC-OLIVE, Grazia SCARFO GHELLAR, Anne-Catherine WAGNER (org.). Les mondes universitaires face au marché: circulation des savoirs et pratiques des acteurs. Paris: Karthala, 2011.

Cet article vise à comprendre les modes d’implantation des formations doctorales au Brésil, notamment le rôle joué par l’avis des experts internationaux dans l’évaluation des systèmes éducatifs et le destin des propositions qu’ils font pour la mise en place d’un nouveau cadre institutionnel favorable à l’essor de la recherche scientifique. Suivant la méthode comparative, il adopte les questionnements proposés par Sandrine Garcia (2008) sur le rôle des experts à l’occasion de l’implantation du système LMD pour la constitution de « l’espace européen de l’enseignement supérieur » dans les années 90. Néanmoins, l’étude de la même problématique en Amérique Latine impose une autre périodisation, car la réforme universitaire qui a instauré le découpage des études universitaires en licence (équivalent des études jusqu’au bac plus trois ou quatre années), master (bac plus cinq ou six années), doctorat (bac plus huit ou neuf années), les modes de définition des carrières d’enseignant-chercheur et de l’évaluation de leur performance, tout comme le souci de subordonner les études supérieures aux évolutions des « systèmes de marchés formateurs de prix » (Polanyi, 1944), date des années 60. D’autre part, l’intensification sans précédent des études doctorales des Brésiliens à l’étranger a connu une formidable accélération après les années 50, avec la mise en place des agences publiques de financement à la recherche et à l’installation sur place des agences privées, comme la Fondation Ford. L’accroissement de l’offre de savants porteurs de titres et compétences certifiés par les principaux centres européens et nord-américains a été un facteur important pour stimuler les débats sur l’évolution du système d’études supérieures et de faire de la recherche une clé de la quête de l’excellence universitaire.

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Um capital político multiplicado no trabalho genealógico

Publicado em: Revista Pós Ciências Sociais. v. 8 n. 15 São Luis/MA, 2011

RESUMO

Utilizando arquivos privados e entrevistas como suporte da discussão, este artigo analisa uma genealogia, publicada em 1970, que retraça, seletivamente, uma longa história de famílias de Minas Gerais que controlaram recursos políticos ligados aos postos da administração do Estado, desde o Império, passando pela República e por ditaduras, até os anos 1960. Examinando as formas escolhidas pelo autor para construir a genealogia  – em especial a escolha de uma mulher (e não de um casal) para a origem de uma família que agrupa pessoas dispersas em muitas linhagens masculinas, e que não poderiam ser ligadas de outra forma – e , ao mesmo tempo, estudando minuciosamente as alianças matrimoniais cumulativas, o estudo dessa genealogia dá uma visão do que permitiu a estas famílias, durante mais de cento e cinquenta anos, disputar com sucesso num campo de forças tão instável como a política. Dessa maneira, o artigo vai além do estudo genealógico propriamente dito, permitindo compreender o que assegura a determinados grupos a força necessária para agir, com êxito, nas transformações do espaço político.

Palavras-chave: Genealogia como instrumento político. Alianças matrimoniais. Famílias de políticos. Controle de recursos políticos. Acumulação de capital político e social. Produção simbólica.

ABSTRACT

Using private archives and interviews to give support to the discussion, this paper analyses a genealogy book, published in 1970, which presents the account of kinship of several families from the State of Minas Gerais whose members participated actively in politics and government administration from the independence of Brazil up until the 1960s. By examining the choices of the author on building the genealogy – in particular the choice of a woman as the origin of the family in order to embrace many male lines that wouldn’t be connected otherwise – and studying the cumulative marriage alliances, the review of this genealogy helps to unfold this family history, over more than 150 years, observing what enabled all those different lineages to act successfully on a power field as instable as this of politics. Thereby, the paper goes beyond the mere genealogical review, by allowing the reader to understand what ensures certain groups the necessary strength to succeed despite the transformations of the political space.

Keywords: Genealogy. Marriage alliances. Political family. Command of political resources. Accumulation of political and social capital. Political means.

Artigo completo aqui.

Escola versus cultura?

Publicado em:  Educação e Pesquisa. vol.35 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2009

RESUMO

Originariamente uma aula magna proferida num concurso para professor titular, o artigo reúne instrumentos para uma reflexão sobre a relação entre escola e cultura, tendo em vista a coincidência que se costuma estabelecer entre a instituição escolar e a cultura. Essa coincidência, à priori impossível, realiza-se na prática, ainda que seja contestada, pois como a história registra, ela é feita com o uso de recursos de grande brutalidade. Primeiramente discute-se como a cultura (definida como o conjunto de atividades que fornece descrições do mundo por meio da “livre expressão”) é vivida na prática da instituição escolar. Em seguida, são mostradas as fórmulas políticas que escondem a relação de força por trás da obra da institucionalização da escola, a qual, fundando-se na premissa de que só ela é eficiente para educar os indivíduos, vem se apresentando como solução duradoura para o dilema. Procura-se demonstrar que o dilema da coincidência entre escola e cultura existe porque fórmulas sedutoras conseguem esconder o segredo de uma lógica que repousa nas relações de força existentes na obra de construção do Estado Nacional da qual nós, assim como a escola, somos produto. Nesse contexto, a análise da relação escola versus cultura é feita em analogia com a que vincula Estado versus nação.

Palavras-chave: Escola – Cultura – Estado – Nação – Sóciohistória.


 

 

Originariamente uma aula magna proferida num concurso para professor titular na disciplina Escola e Cultura, este artigo visa reunir instrumentos para uma reflexão sobre o título da disciplina. Está centrado no dilema proposto por muitos programas de várias faculdades de educação no país que, nos seus enunciados, sugerem uma coincidência, à priori impossível, entre a instituição escolar e a cultura. Ora, escola e cultura se relacionam, mas seguramente não são coincidentes. Entretanto, tal coincidência se realiza na prática, ainda que seja frequentemente contestada.

Procurarei examinar esse dilema a partir de dois pontos. Primeiramente o sentido que os sociohistoriadores1dão à palavra cultura e a relação existente entre esse termo e o que é vivenciado, de forma prática, na escola. Em seguida, procurarei mostrar as fórmulas políticas que escondem a relação de força por trás da obra de construção do Estado e a consequente institucionalização da escola, a qual, com base nas ideias da eficácia da instituição escolar, como forma de se educar as pessoas, vem se apresentando como solução duradoura para o dilema.

Sob o termo cultura, os sociohistoriadores englobam todas as atividades que têm por base fornecer novas descrições do mundo, e estas se apresentam sob formas extremamente variadas. O sociohistoriador francês Gérard Noiriel (2006) propõe, sumariamente, agrupá-las em dois conjuntos: o primeiro é organizado em torno das questões de “verdade”, do qual fazem parte os jornalistas e os pesquisadores que têm por função a produção de informações ou fatos apresentados como verdadeiros. O segundo conjunto reúne o mundo das artes e do espetáculo, isto é, as atividades voltadas para a criação e o divertimento. O ponto de ligação entre os indivíduos que fazem parte desses meios culturais é a defesa da “livre expressão” em oposição às leis de mercado e ao Estado. Nesse caso, a cultura é definida como o conjunto dos discursos e das práticas que tentam escapar das duas principais formas de empecilho (econômicas e políticas) para a livre expressão e que são reinantes no mundo de hoje. Não à toa, Pierre Bourdieu fez da cultura um lugar privilegiado para observar o funcionamento do poder simbólico.

Os sociohistoriadores compreendem os diferentes domínios da vida cultural como configurações interligando os atores (escritores, artistas etc.) que concorrem para captar os favores do que denominam “público”. Esse termo foi escolhido para mostrar que enquanto a esfera econômica tem a empresa como centro de atividades e a esfera política tem o partido político, a cultura tem o público como seu centro de energia. Com isso, dão relevo aos tipos de relação que caracterizam os agrupamentos culturais. Daniel Roche (1998) e Roger Chartier (1992) estudaram assim as relações existentes entre os que escrevem e os que leem, ou seja, o público, graças à mediação do texto impresso.

Antoine Hennion (1993) estudou a paixão pela música por meio da mediação de uma série de objetos e de operações efetuadas pelos atores sociais que vão permitir a apreciação da música. Para ele, a música vive graças aos homens que a animam e desempenham um papel de intermediários na relação entre a música e o público. Marco Aurélio de Lima (2007), no seu trabalho de tese sobre bandas estudantis, mostra exatamente isso: a teia que interliga o maestro de bandas, o mecenas, o produtor dos concursos de bandas, o editor da editora de partituras Irmãos Vitale, o proprietário da Cesar Sons que fabrica os instrumentos musicais, os administradores de bandas estudantis, entre outros, visando colocar a banda na praça pública. Considera ainda os objetos de intermediação: o instrumento, a partitura, o disco, o aparelho de som, o computador etc.

Ora, essas formas de interdependência convivem mal dentro das fronteiras da escola, que costuma ser considerada o lugar da transmissão dessas descrições do mundo produzidas e criadas nos diferentes domínios da vida cultural. No dizer de Bernard Lahire (1993), um dos sociólogos da educação bem conhecido no momento, o modo de transmissão da cultura não se dissocia da natureza escrita dos conhecimentos. Trata-se, portanto, de fazer com que, na escola, os alunos interiorizem

[…] os conhecimentos que conquistaram sua coerência na e pela escrita […]. Uma pedagogia do desenho, da música, da atividade física, da atividade literária, da dança etc… não se faz sem uma escrita do desenho, uma escrita musical, uma escrita esportiva, uma escrita militar, uma escrita da dança. São escritas que implicam, o mais das vezes, gramáticas, teorias, práticas. (p. 30)

Um dos efeitos dessa transmissão escrita pode ser acompanhado na dissertação de Ana Roseli dos Santos (2008) sobre o aprendizado musical; no texto de Lia Braga Vieira (2001) sobre o ensino musical; e no livro Hennion (1988): tudo ocorre nas aulas de música como se o que está codificado no papel fosse realmente o som musical, evidenciando a abstração do código em relação ao som e a autonomia das regras em relação à música.

Esse modo de transmitir os conhecimentos associados à escrita encaminha para as descobertas do antropólogo britânico Jack Goody (1987), ligadas a essa espécie de “razão gráfica” que habita o âmago da cultura escrita desde que aparece e se dissemina. Com bastante coerência e originalidade, ele dá a entender, desde o seu primeiro livro publicado nos anos 1960, que a tentativa de colocar uma cultura em forma escrita é um processo de objetivação que permite, àquele que escreve, selecionar, nos fluxos multiformes das atividades humanas, os elementos que interessam. Esses elementos acabam por se impor como evidências ou verdades primeiras e assim serem transportados no espaço e no tempo. É para esse aspecto que Gérard Noiriel (2006) chama a atenção quando ajunta o fato de que, longe de obedecer a um puro desejo de conhecimento, a escrita se desenvolve por razões práticas, frequentemente, de ordem econômica ou política. É o caso, por exemplo, do progresso da Cartografia durante a época colonial, que resultou dos esforços empregados pelos europeus para balizar itinerários, identificar lugares, assinalar riqueza, visando concentrar forças militares que permitiram subjugar populações locais e as espoliar. O caso da literatura colonial procurando justificar a dominação europeia também é emblemático. É a partir dessa premissa que os sociohistoriadores ficam atentos para as várias consequências trazidas pela escrita na tentativa de descrever o mundo.

Voltando a Jack Goody, em entrevista a Peter Burke e Maria Lúcia Pallares-Burke (2004), o autor explanou como escritas diferentes podem significar coisas muito diferentes. Segundo ele, na Libéria, por exemplo, existe uma escrita arábica para os versos religiosos, uma escrita inglesa na escola e a escrita da língua nativa Vai, que foi inventada em 1819.

O que era particularmente interessante era a facilidade com que a escrita na primeira língua [o Vai] era ensinada. Ela era ensinada informalmente, e tanto quanto eu saiba, o único lugar em que ocorria dessa maneira. A escrita parece se converter facilmente em sistemas de ensino, onde quer que você esteja, seja na China, na Índia, ou num país islâmico. As pessoas criam sistemas escolares, mas os Vai prescindiam dele. Quando chegavam na idade em que queriam comunicar-se ou escrever em Vai, iam até um tio, ou até qualquer pessoa, e diziam ‘poderia me ensinar a escrever isto?’ E tudo acontecia muito facilmente. Mike Cole e eu estávamos especialmente interessados em tudo isso, porque naquela época estávamos tentando imaginar como lidar com a aversão à aprendizagem da leitura e escrita que encontrávamos em algumas escolas do mundo ocidental. E argumentávamos que valeria a pena experimentar um sistema no qual as pessoas passassem a escrever em diferentes idades, isto é, que não todas começassem a escrever com a mesma idade. Dessa maneira, tornaríamos a aprendizagem da escrita um ato mais voluntário. (p. 338)

No entanto, isso, como se sabe, desde a institucionalização da escola no mundo ocidental no século XIX, tornou-se praticamente impossível. A escola substituiu a aprendizagem como meio de educação, o que se tornou possível, como demonstrou Ariès (1981), desde que a criança, a partir do século XVI, deixou de ser misturada aos adultos e de aprender a vida diretamente por meio do contato com eles. Retirada do mundo dos adultos, passou a conhecer um longo processo de enclausuramento, a qual se dá nome de escolarização.

Dessa maneira, diferentemente do que acontece no mundo da cultura no espaço escolar, a descrição do mundo é feita distintamente das práticas do mundo social, isto é, do espaço, do tempo e da vida social, pois tem como objetivo travar identificações prematuras com um grupo social. Aprender a ler, a escrever e a armazenar conhecimentos dentro do espaço escolar acontece numa situação que separa o ensino das operações nas quais se está investindo, de modo tal que ele só serve para aprender sem outro fim diferente dele mesmo. Fora do jogo social imediato, tal modo de ensino contribui para formar uma individualidade abstrata e capaz de abstração, de aprender de maneira diferente da prática (Queiroz, 1995). No entanto, de outro lado, importa sublinhar que como a elaboração das “descrições do mundo” a serem introduzidas na escola advém de uma construção sociohistórica ou ainda, para retomar o conceito de Bourdieu, de um “arbitrário cultural”, porque submetido a imperativos morais, políticos ou econômicos, ela necessita de um trabalho técnico – a transposição didática – para ser acessível, compreendida e assimilável. É o que se entende hoje pelo nome de cultura escolar e que o historiador Dominique Julia (2001) descreve como

[…] um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que podem variar segundo as épocas (finalidades religiosas, sociopolíticas ou simplesmente de socialização). (p. 10)

A Cultura é, portanto, transmitida pela escola, mas de forma muito diferente da forma como foi produzida e com finalidades também muito diferentes. No total, o que a escola realiza é a tentativa de comunicar a todos a ideia da cultura, da ciência, do conhecimento objetivo e, principalmente, de uma razão universal, visando construir o indivíduo das sociedades modernas, cuja característica é a capacidade de abstração, de distanciar-se: a pessoa moderna é reflexiva. É o que dificulta aos alunos de meios populares, saídos de um modo de socialização prático com forte predomínio da oralidade, a adaptação ao texto escolar. E o que leva Bourdieu (2003) a escrever que

[…] a liberdade de se libertar das restrições escolares pertence apenas àqueles que assimilaram suficientemente a cultura escolar para interiorizar a atitude autônoma em relação a esta cultura, ensinada por uma Escola tão profundamente impregnada pelos valores das culturas dos grupos dominantes que ela retoma, por sua conta, a desvalorização mundana das práticas escolares. A oposição escolar entre cultura canônica, estereotipada, por um lado, e, por outro, cultura autêntica, libertada dos discursos escolares, só tem sentido para uma ínfima minoria de homens cultos, porque a plena posse da cultura escolar é a condição da superação da cultura da Escola em direção à cultura livre – ou seja – libertada de suas origens escolares. (p. 93)

Enfim, o que quero dizer é que cultura e escola se relacionam, mas seguramente não são coincidentes.

Entretanto, tal como acontece quando se pensa na relação entre Estado e nação, essa coincidência se realiza no dia a dia, apesar de uma nítida ausência de evidência dela. Por exemplo, a fixação das fronteiras de um Estado não transcreve de maneira satisfatória a existência de uma nação e do seu direito à autonomia: todo “princípio das nacionalidades”, como bem o demonstra Anne-Marie Thiesse (1999), é uma fórmula de ética política que esconde as relações de força econômicas e militares em ação durante a formação dos Estados. E como a história registra, ela é escondida ao preço de um gigantesco trabalho, teórico e prático, que é reinterpretado em termos nacionais quando incluído nas fronteiras do Estado. Lembro aqui os recursos angustiantes empregados no período da descolonização para a fixação de fronteiras dos vários Estados da África, ocasião em que se procurou deslocar os equilíbrios tradicionais por razões impostas pelo nacionalismo. Lembro também os recentes deslocamentos maciços de população vividos nos episódios da “limpeza étnica” na antiga Iugoslávia. Em todos os casos, a “nacionalização” do Estado foi conduzida por políticas que aliaram, de acordo com a relação de força e as épocas, coerção e inculcação do sentimento de pertencimento em populações muito diferentes sobre o plano linguístico, religioso, histórico. Nesse dispositivo, como se sabe, a escola dos Estados nacionais constituiu uma peça mestra na imposição de uma mesma língua nacional, uma história, uma geografia, um sistema de ensino unificado etc., contribuindo para construir o que é designado como identidade nacional na inculcação dos fundamentos de uma verdadeira “religião cívica” e, mais precisamente, os pressupostos fundamentais da imagem (nacional) de si (Bourdieu, 1994). Não há aí a negação da diversidade, mas a sua integração realizada de uma maneira que hierarquiza: tudo que está situado no território do Estado resulta da nação, e toda particularidade local é um componente do conjunto. A diversidade, no caso, não é contradição da unidade: é a sua riqueza e deve ser traduzida de maneira harmoniosa. Os subconjuntos que impedem a representação da harmonia são ocultados (Thiesse,1999) sob a aparência do universal que fundamenta, também no caso brasileiro, a visão brutalmente integradora dos ideais republicanos. Tendo em vista o fato de que a universalização das exigências assim instituídas não se acompanha da universalização do acesso aos meios de as satisfazer, ela favorece ao mesmo tempo a monopolização do universal por alguns e a privação de todos os outros da especificidade de sua humanidade.

Nesses termos, penso nos efeitos da tentativa de fazer coincidir o conhecimento da população de alunos das periferias mais pobres, cada vez mais numerosa, com o ponto de vista cultural exigido pelos padrões de excelência do sistema escolar dos Estados nacionais que têm por base a escrita e a abstração. A brutalidade psicológica para fazer essa coincidência se realizar em termos harmoniosos tem levado, como a imprensa traz correntemente para suas manchetes, muitos adolescentes a rupturas violentas com a ordem escolar e social, a fim de restaurarem sua identidade cultural ameaçada. Lembro aqui o tráfico de drogas, a depredação das escolas, as agressões físicas a professores e colegas (O Estado de São Paulo, 16/11/2008), o caso de Columbine nos Estados Unidos. O filme, dirigido por João Jardim, Pro dia nascer feliz (2006) retrata de forma pungente essa brutalidade psicológica: no relato anônimo de uma adolescente que conta como matou a facadas uma colega de escola: “ela ainda demorou dez minutos para morrer. Sou menor, três anos na Febem passam rápido”; no caso do menino de Duque de Caxias que está na fronteira da marginalidade e não disfarça o orgulho que sentiu quando foi a um baile funk armado, mas que também sente o mesmo orgulho ao se apresentar num grupo de percussão do colégio; na história da menina que se sente rejeitada na escola; ou naquela da professora que é, no sentido figurado, violentada pelos estudantes. Enfim, as histórias do filme mostram o comportamento de adolescentes dentro da escola, não apenas em relação ao professor, mas também em relação aos colegas e a esse momento intenso do medo frente ao presente e a falta de perspectiva no futuro, o qual eles tentam extravasar – ora se mostrando violentos, ora deprimidos – no ambiente claustrofóbico da escola.

Assim, se esse dilema da coincidência entre Estado/nação e escola/cultura existe, é porque nele há uma solução de eficácia duradoura. Considerando, por exemplo, que estar dentro das fronteiras de um Estado não indica verdadeiramente o pertencimento à nação, torna-se difícil pensar o termo nação – como ficou fixado nos fins do século XIX – fora de uma tensão que opõe, ao mesmo tempo, uma definição subjetiva, isto é, político-cultural, e uma definição objetiva, ou seja, jurídico-administrativa. Esse embaralhado de conceitos pode ser visto no trabalho de Gomes (2004) sobre os refugiados políticos angolanos.

A confusão do pertencimento ao Estado com o pertencimento à nação, de acordo com Gérard Noiriel (2001), existe porque favorece os empreendimentos de dominação política. Da mesma maneira, pode-se dizer que o padrão cultural fixado nas fronteiras da escola existe porque favorece os empreendimentos de dominação das elites do Estado. Nessa situação, a escola permanece sendo o único local considerado legítimo para o acesso à cultura. Escola e cultura, Estado e nação vivem, assim, dentro da mesma tensão que, no século XIX, opôs cultura erudita e cultura popular, cultura dos intelectuais e cultura dos manuais, cultura dos colonizadores e cultura dos colonizados etc.

Christophe Charle (1987; 1990), nos seus dois livros sobre as elites republicanas e sobre o nascimento dos intelectuais, estuda essa tensão como resultado da ação das novas categorias sociais (profissões liberais, profissões econômicas, profissões intelectuais), com recursos diferentes daqueles dos membros da nobreza ou da Igreja, os quais, no momento em que foi fixado o poder do Estado leigo, passaram a reclamar uma nova distribuição de postos de autoridade fundada no volume do capital escolar. Quando no poder, essas categorias se preocuparam, para garanti-lo, em tomar o controle das instâncias de produção da memória e da cultura nacional.

No caso específico do Brasil, o trabalho de Sérgio Miceli (1979) sobre os intelectuais, publicado dez anos antes do de Charle, retraça essas mesmas estratégias. Os intelectuais lutaram para alcançar posições criadas nos setores público e privado do mercado de postos durante o período Getúlio Vargas, isto é, durante o processo de nacionalização do Estado brasileiro. O trabalho de construção da ideia de nação no período e sua definição em termos jurídico-administrativo esteve ancorado na abertura, entre outros, do Ministério da Educação e Saúde Pública, do Conselho de Imigração e Colonização, Departamento de Imprensa e Propaganda e das leis orgânicas do Ensino, que contribuíram para redefinir os canais de acesso e influência no poder político central.

A valorização da escola e, por meio dela, a do capital escolar não deixou de ser, em ambos os casos, a maneira encontrada para se valorizar propriedades sociais das novas categorias sociais emergentes no campo do poder. Na França, que escutou o célebre discurso de Jules Ferry pronunciado na Sala Molière, em Paris, em 1870, a luta entre dois modos de produção das elites, meritocrática ou tradicional, condicionou os termos do debate que opunha os defensores do ensino leigo, igual para todos, a advogados do ensino confessional. Por essa razão, entre outras, a escola esteve no coração das preocupações dos republicanos. Isto é, ela foi um dos instrumentos mais importantes de legitimação da posição dominante das novas elites do século XIX europeu e meados do século XX no Brasil. E é ainda por meio dela que os grupos dirigentes continuam a utilizar os recursos do Estado para fazer valer uma representação de ordem social que justifica e mantém uma situação privilegiada. Situação essa realizada ao preço de um gigantesco trabalho teórico e prático, no qual os formuladores de políticas públicas agem de maneira competitiva pelo monopólio das vantagens materiais e simbólicas derivadas do campo estatal, ajustando suas contradições nas reformas que procuram solução para crises no sistema de ensino.

O fato é que o dilema da coincidência entre Escola e Cultura existe porque fórmulas sedutoras conseguem esconder o segredo de uma lógica que repousa nas relações de força existentes na obra de construção do Estado Nacional da qual nós, assim como a escola, somos produto.

Parafraseando Bourdieu (1993), um dos poderes principais do Estado é o de produzir e impor, especialmente por meio da escola, as categorias de pensamento que utilizamos espontaneamente a todas as coisas do mundo e ao próprio Estado. Vem daí a sedução exercida pelas representações do Estado e a dificuldade para pensá-lo. É o que o levou a modificar a célebre fórmula de Max Weber: “o Estado é uma comunidade humana que reivindica com sucesso o monopólio do uso legítimo da violência física em um território determinado”. Para Bourdieu (1993),

[…] o Estado é uma comunidade X (a ser determinada) que reivindica com sucesso o monopólio do uso legítimo da violência física e simbólica em um território determinado e sobre o conjunto da população correspondente. (p. 107)

O Estado, portanto, nessa definição, é resultado de um processo de concentração de diferentes tipos de capital: capital de força física, econômico, cultural – ou melhor, de informação – e simbólico. A concentração dos diferentes tipos de capital leva de fato à emergência de um capital específico, propriamente estatal, que permite ao Estado exercer um poder sobre os diversos campos e sobre as diferentes espécies de capital, em especial sobre o valor dado a elas (e ao mesmo tempo sobre as relações de força entre seus detentores).

Ainda que as diferentes dimensões desses processos de concentração (forças armadas, leis) sejam interdependentes por exigência da exposição do tema, detenho-me aqui no exame da contribuição do Estado para a unificação do mercado cultural ao unificar todos os códigos – jurídicos, linguísticos, métrico – e realizar a homogeneização das formas de comunicação, especialmente a burocrática (formulários e impressos). E é, sobretudo, por meio da escola que, com a generalização da educação primária durante o século XIX, se exerce a ação unificadora do Estado na questão da cultura, elemento fundamental da construção do Estado-nação.

A criação da sociedade nacional acompanha a afirmação da possibilidade da educação universal: todos os indivíduos são iguais perante a lei; o Estado tem o dever de fazer deles cidadãos dotados dos meios culturais de exercer ativamente seus direitos civis. Segue-se que o Estado é um campo de poder, um espaço de jogo no interior do qual os detentores de capital (de diferentes tipos) lutam particularmente pelo capital estatal que assegura o poder sobre sua reprodução, em especial por meio da instituição escolar.

Não é surpreendente, portanto, constatar, no discurso de Ferry (1893) “De l’égalité d’éducation”, que a concepção de educação republicana era algo desconhecido, misterioso e recebido por muitos como novidade, e mesmo insensatez, para os notáveis empenhados nas famosas e conhecidas guerras escolares do século XIX. E chega a ser curioso constatar que onze anos mais tarde, por ocasião da promulgação da lei da gratuidade e, no ano seguinte, da obrigatoriedade e da laicidade, a ideia já fosse considerada natural. As duas citações abaixo mostram a diferença existente entre um discurso eloquente pronunciado por um jornalista, deputado em início de carreira (1870), e o discurso de um ministro com carreira realizada, na carta aos professores de 1883, na qual toda a fala exprime a segurança do sistema público de ensino em curso:

Quando me coube (Ferry, 1893) esta suprema honra de representar uma seção da população parisiense na Câmara dos Deputados, eu me fiz um juramento: entre todas as questões, entre todas as necessidades do tempo, entre todos os problemas, eu escolhi um ao qual consagrarei toda a minha inteligência, toda a minha alma, meu coração, poder físico e moral: […] é o problema da educação do povo. […] Eu mesmo escolhi este tema: da igualdade da Educação, e estou certo que, entre as pessoas que me fazem a honra de me ouvir, há um grande número que, no aspecto desse título um pouco geral, um pouco misterioso, se dizem: o que é esta utopia? Ora, minha pretensão é mostrar que a igualdade da educação não é uma utopia; é um princípio; […] esta utopia aparente está na ordem das coisas possíveis. […] Eis as duas grandes conquistas deste século; a liberdade do trabalho e o sufrágio universal; doravante, nem o direito de trabalho, nem o direito de votar, isto é, de contribuir para a formação dos poderes públicos, estão mais atados ao nascimento: eles são o patrimônio de todo homem vindo ao mundo. […] A lamúria existente (à ideia da igualdade) é a das pessoas que resistem, sem provavelmente se dar conta disso, à civilização moderna, e que evitam tomar o partido da era democrática na qual entramos. (p. 287)

CIRCULAR

Aos professores, concernente ao ensino moral cívico

A abertura deste ano escolar corresponde ao segundo ano da aplicação da lei de 28 de março de 1882. Não quero deixá-lo começar sem lhes dirigir pessoalmente algumas recomendações que, sem dúvida não lhes parecerão supérfluas após o primeiro ano de experiência neste regime novo. Das diversas obrigações que ele lhes impõe, a que seguramente é tomada a peito, que lhes traz o maior acúmulo de trabalho e de preocupação, é a missão que lhes foi confiada de dar aos seus alunos a educação moral e a instrução cívica […].

A lei de 28 de marco se caracteriza por duas disposições que se completam sem se contradizer: de um lado, ela retira do programa obrigatório de ensino todo o dogma particular, de outro ela aí inclui o ensino moral e cívico. A instrução religiosa pertence às famílias e à igreja, a instrução moral á escola.

O legislador não fez uma obra negativa. Sem dúvida ele tomou como primeiro objetivo o de separar a escola da igreja, assegurar a liberdade de consciência dos mestres e dos alunos, de distinguir, enfim, dois domínios há muito tempo confundidos, o das crenças que são pessoais, livres e variáveis, e a dos conhecimentos que são comuns e indispensáveis a todos. Mas há outra coisa na lei de 28 de março: ela afirma a vontade de fundamentar em nós uma educação nacional e fundamentá-la sobre noções do dever e do direito que o legislador não hesita em inscrever em nome das primeiras verdades que ninguém pode ignorar. (p. 262)

Igualdade, obrigatoriedade, laicidade. Essa equação acabou por se impor com grande rapidez. Tal como o sufrágio universal, está inscrita em quase todas as constituições do mundo, com a escola pública sendo considerada instrumento essencial de promoção social e política. Passa-se rapidamente da regra imposta para a regra aceita. E tudo se torna natural junto com o vigor da crença no princípio meritocrático para o acesso às funções públicas, em especial para as altas funções públicas, que hoje se conhece com o nome de competência.

A evolução da posição dos oponentes da escola pública frente ao controle do Estado é significativa do uso comum que os grupos dominantes passaram a fazer da escola no Brasil dos anos 1950. No livro coordenado por Roque Spencer Maciel de Barros (1960) sobre a campanha pela escola pública nos anos 1950, é possível visualizar os antigos adversários que acederam aos postos do Estado se unirem aos liberais progressistas e aos socialistas em torno das teses básicas dos grandes renovadores da educação brasileira no período do entre-guerras. A convulsão da sociedade e da cultura nos anos 1960 acarretou um corte nesse longo processo. Para melhor compreendê-lo, cito Philipe Ariès que fala sobre o lugar da crise que se espalha pela escola nesse período.

Por mais inédita que seja, a revolução atual da juventude deixa de ser surpreendente quando a situamos na longa história das idades da vida desde a Idade Média: a passagem de uma sociedade rural, de classes de idade e de ritos de iniciação a uma sociedade mais urbanizada onde a criança torna-se um adulto sem transição; em seguida, passagem dessa sociedade de adultos muito jovens, do Antigo Regime, à nossa, onde a infância, de início, e depois a adolescência foram prolongadas e mantidas até muito tarde nos purgatórios escolares. Somos hoje um estudante passivo numa idade em que outrora exercíamos funções ativas.

Essa situação já antiga foi tolerada enquanto era limitada à nobreza e à burguesia. No entanto, quando, desde os anos 1930, o desenvolvimento econômico estendeu a classes cada vez mais numerosas a longa escolaridade dos jovens burgueses, os jovens tornaram-se uma sociedade maciça e pesada, privada dos modelos familiais, à margem da sociedade global. Como essa situação se tornou explosiva pertence a outra História. Observaremos apenas que, enquanto a revolta da adolescência foi limitada a bandos efêmeros (referência ao cinema, a James Dean etc.), ela não fascinou ninguém e foi confundida com manifestações de delinquência, típicas do após-guerra. Ela inquietou a opinião quando abalou, em particular na Franca, o sistema escolar. Era lógico que a juventude tivesse encontrado seu campo de batalha onde havia sido pouco a pouco encerrada, desde que os colégios latinos do fim da Idade Média começaram a ser frequentados por pequenos leigos (citado por Prado Jr, 1980).

Sobre o fundo dessa situação, aparecem, na mesma época do trecho acima de Ariès, os trabalhos de Pierre Bourdieu que apresentam uma outra dimensão do problema, ao mesmo tempo cotidiana e antropológica, que invade os prazeres, as paixões e as concepções de existência. Os gostos mais inocentes – o amor à música clássica, por exemplo – são estudados como meios estratégicos de posicionamento de um grupo social contra outros. Eram trabalhos que apareciam com grande sentido no convite a um posicionamento de si mesmo no contemplar o panorama objetivo das práticas culturais. Com rigor de análise linguística e estatística, os trabalhos colocavam em questão a fraseologia igualitária com que se exprimia a pedagogia. O livro A Reprodução (1982) é a tese de que o ensino escolar funciona como chancela das diferenças culturais e linguísticas já dadas antes da escolarização.

Assim, até os anos 1990, o debate sobre a igualdade das chances escolares, de um modo geral, tomou a forma de uma oposição um tanto artificial entre o que ficou conhecido como “teoria da reprodução”, desenvolvida por Bourdieu e Passeron, e o “modelo das escolhas racionais” (nível de instrução é agregação livre de condutas individuais – as condutas são racionais e cada um sabe bem o que faz – valores e tradições explicam as condutas), importado para a França por Raymond Boudon (1979) e daí reexportado ao Brasil.

A essa problemática se segue uma transformação nas elites de Estado interessadas na resolução dos problemas criados na e pela instituição escolar, e também transformações do estatuto daqueles a quem foram confiadas a função de definir o conteúdo escolar a ser seguido, em particular no campo político, para o qual se voltam os personagens autorizados, “oficiais”, agindo como detentores de uma função assinada pelo Estado, encarregados das políticas públicas, sejam juristas, economistas ou cientistas políticos, com os sociólogos da educação.

Assim, ao debate dos anos 1960-1980, se superpôs, nos anos 1990, a “democratização quantitativa”. Esta nomeia o alongamento da duração da escolarização e se opõe à “democratização qualitativa” que descreve, também de forma estatística, o enfraquecimento do laço entre diplomas e origem social. Objetivando legitimar as políticas escolares e procurando evitar análises críticas sobre a reprodução cultural e social realizada pela escola, os dados da “democratização quantitativa” só mostraram a transposição das desigualdades sociais dos jovens de famílias modestas ascendendo aos níveis de formação mais elevado, enquanto a relação dos jovens saídos dos meios sociais mais favorecidos permanecia tão importante quanto antes. Já os números da democratização qualitativa, como argumento crítico contra a teoria da reprodução, ao procurar mostrar o sucesso da escola, o fez como “efeito estabelecimento”. Foi o que levou a mobilização das equipes pedagógicas para um trabalho eficaz das escolas locais. Nesses estudos, vê-se concorrência entre os que podem dominar o número verdadeiro sobre a escola, ligado aos economistas e cientistas políticos, contra alguns sociólogos despidos do domínio da produção do número. Por trás desses trabalhos que manipulam as medidas do sucesso escolar, está em jogo, na verdade, as transformações da ideia de igualdade. O jogo político dos indicadores da democratização é o de assimilar a igualdade de chances ao aumento do número de alunos dentro da escola. Esse aumento, no entanto, abre às categorias populares o acesso a diplomas dotados de um valor frágil do ponto de vista social e profissional. Nessa produção de dados, não é abordada a igualdade de condições de entrada nos estabelecimentos escolares, o valor econômico dado pelo Estado às diferentes categorias de alunos e muito menos as condições de inserção profissional. Na verdade, a equivalência material dentro das escolas é mais declarada do que alcançada. Tal como acontece na fusão igualitária realizada dentro das urnas eleitorais, a agregação contábil dos alunos no interior das escolas, desembaraçados de todo particularismo social e cultural, e exibida publicamente nos dados estatísticos, como os votos, mistura estudantes de alcance e intensidade desiguais.

Esses debates, evidentemente, afetaram também a área da história da educação. Até então os estudos nessa área eram parte integrante do esforço da representação da escola, que faz parte da própria realidade da escola. Ou seja, esses estudos tiveram a sua atenção voltada para a organização formal das instituições escolares, numa tentativa de explicar, pela história regressiva, os processos de nacionalização da vida política de que ela fez parte e os seus momentos fundadores. A partir dos anos 1990, também se voltaram para as práticas internas da instituição escolar com base na noção de cultura escolar. A partir da observação das técnicas e dos conteúdos de ensino, feitos na longa duração, historiadores da escola procuram aí a existência de uma cultura formada pela ordem pedagógica, analisando as relações históricas criadas entre essa ordem e a sociedade na qual se insere (Chervel, 1998; Julia, 2001; Forquin, 2003; Faria Filho, 2004). Dessa maneira, as dúvidas sobre a finalidade da escola e da cultura que aí é transmitida, cujos sintomas apareceram cem anos após o discurso otimista de Ferry, retornaram para o seu interior, enredadas nas mesmas fórmulas políticas que engendraram a instituição ao ignorar a existência dos formuladores de conhecimentos de Estado que competem na luta para atualizar os dispositivos de Estado2. Assim, tanto as análises sobre a cultura escolar quanto as da “democratização qualitativa” e “democratização quantitativa” pressupõem e têm por suposto que o sistema escolar pode realizar o que toda a lógica do seu funcionamento, marcado pelas leis do Estado e pelo universal, tende a contradizer.

Em suma, as normas que dominam as atividades escolares, presas às normas que dominam a cultura nacional, estão submetidas a uma disciplina coletiva. Nela, os desejos pessoais, os ideais e as paixões, mesmo as políticas, estão presas no laço dos procedimentos de controle institucionalizados pelo Estado, nos quais as lutas pelo alargamento do grupo no poder levam novos detentores de uma forte cultura escolar a invocar justificativas universalistas da eficácia da instituição escolar como forma de se educar as pessoas, isto é, à monopolização do universal por alguns. Dessa maneira, tal como no caso da coincidência entre Estado e nação, a coincidência entre escola e cultura se realiza na prática porque favorece os empreendimentos de dominação das elites do Estado, conjunto de pessoas investidas da missão do interesse geral ou, pelo menos, a constituir seu ponto de vista em ponto de vista legítimo, isto é, universal, especialmente pelo recurso de uma retórica do oficial. E toda interrogação crítica sobre a coincidência, a priori impossível, entre escola e cultura, tende a ser percebida como sacrilégio, levando em consideração sua realização embrulhada na capa do universal.

 

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1. Conforme a prática dos sócio-historiadores, esta aula solicita instrumentos de reflexão emprestados de outras disciplinas das ciências sociais para construir seus questionamentos a partir do mundo contemporâneo e daí voltar ao passado. De onde a atenção que o texto dá à gênese dos fenômenos que analisa e à amplitude dos obstáculos que pesam sobre a ação dos que agem tanto num como no outro campo (escolar ou cultural) em razão da quantidade das interdependências nas quais estão presos. Sobre a sócio-história ver, em especial, Noiriel, 2006; Offerlé, 2001; Déloye, 1997.
2. De onde as perguntas existentes em esclarecedor artigo: “Até que ponto, por exemplo, não estamos produzindo um conhecimento historiográfico demandado pelas constantes reformas educacionais do presente? Até que ponto o presentismo e o pragmatismo das políticas educacionais estão atingindo nossas pesquisas? Até que ponto estamos aparelhados (ou nos aparelhando) para um diálogo fecundo e crítico com os nossos colegas das demais áreas da educação e com os responsáveis pelas políticas educacionais?” Cf. Faria Filho, 2004.

 

Les boursiers de la Fondation Ford et la recomposition des sciences sociales brésiliennes: Le cas de la science politique

Publicado em: Cahiers de la recherche sur l’éducation et les savoirs, Hors-série n°2, 2009, pp. 33–55.

Qu’est-ce qui assure à certains groupes, à des moments déterminés de restructuration de l’espace politique, la force suffisante pour agir, avec succès, dans le champ de la politique académique et dans les transformations de l’espace politique ?

Cet article[1] traite d’un groupe d’anciens boursiers de la Fondation Ford qui, après leur doctorat aux états-Unis, ont lutté, dans le champ des sciences sociales brésiliennes des années 1960-1980, pour faire reconnaître leur compétence et leur autorité intellectuelle en matière d’analyse des phénomènes politiques et pour fonder cette discipline scientifique au sein de l’enseignement supérieur brésilien, dans des centres de recherche et des institutions scientifiques, à côté des institutions de l’état et des marchés de l’expertise.

Deux dynamiques ont contribué au fort investissement réalisé par ce groupe d’anciens boursiers dans la délimitation et l’opérationnalisation de l’objet d’étude de la discipline. En premier lieu, la stratégie hégémonique des grandes organisations philanthropiques américaines dans le contexte de la guerre froide a occupé un rôle clef dans la production de connaissances, aux état-Unis et dans le monde entier (Hammack, 1999 : 44). Deuxièmement, dans le contexte autoritaire du Brésil des années 1964-82, les paradigmes de la science politique et de l’économie américaines ont été à l’origine de nouveaux modèles d’interprétation de la réalité nationale, s’écartant des anciens, ancrés dans le droit (Dezalay & Garth, 2002, 2006 ; Engelmann, 2006), ou dans la sociologie, et bousculant la hiérarchie des savoirs.

L’hypothèse qui soutient ce travail est que l’importation de la science politique est le résultat d’actions d’individus, d’institutions concrètes, et non le produit de tendances et de forces incontrôlées et abstraites. C’est ce qui justifie l’investigation des pratiques qui ont présidé au recrutement de boursiers par la Fondation Ford, et la mise en relation des réseaux familiaux, des écoles secondaires, des cours supérieurs et des bourses d’études avec les carrières et les investissements réalisés à cet effet.

Le matériel de recherche utilisé, outre la bibliographie concernant l’action philanthropique de la Fondation Ford dans le champ des sciences sociales, provient d’informations sur les parcours de ces anciens boursiers (correspondance, entrevues, témoignages, publiés dans des revues scientifiques : Pesquisa, Teoria e Sociedade, Estudos Históricos) et de recherche dans des banques de données et institutions spécialisées (Plataforma Lattes du CNPq, sites internet d’universités, de l’Académie des Sciences, de l’Académie brésilienne des Lettres, d’entreprises de consultants politiques, d’organismes internationaux comme CARE, le Club de Madrid, etc). Ces données ont été comparées avec celles existant dans la banque des boursiers créée par la recherche-mère « Circulation internationale d’universitaires et transformation de l’espace culturel », laquelle emmagasine les données d’études de 15 915 individus bénéficiaires d’une bourse d’étude au moyen des agences CAPES, CNPq, et FAPESP, entre 1987 et 1998.

Science politique : les stratégies de la philanthropie internationale

La science politique au Brésil n’a pas encore fait l’objet d’une histoire reconnue, bien que son existence institutionnelle ne puisse pas être mise en doute : elle présente un ensemble d’attributs matériels (présence dans les universités, dans des agences de contrôle et de financement de la recherche de l’état, dans les instances de représentation académique, les organismes intergouvernementaux, les associations internationales, etc.) qui en font une discipline respectable. Selon la chronologie institutionnelle, la dénomination “science politique”, au singulier, comme discipline spécialisée dans l’analyse de l’espace public, apparaît officiellement, au Brésil, en 1965, quand est créé le Département de Science politique à la Faculté de Philosophie de l’Université Fédérale du Minas Gerais (UFMG). Auparavant, les études politiques faisaient partie du cursus des écoles de Droit, de Philosophie et de Sociologie, étant liées à la réflexion sur le droit constitutionnel, à l’analyse de certains phénomènes sociaux et à l’économie politique (Arruda, 1989 ; 2004).

La discipline a été légitimée dans les années 1970, lors de son inclusion dans le domaine des Sciences humaines d’après le classement des agences publiques de financement à la recherche. L’Association brésilienne de Sciences politiques a été créée en 1986. Mais l’identité de la discipline avait commencé à être discutée vingt-cinq années auparavant, au début de 1960, à Belo-Horizonte, à la Faculté de Sciences économiques (FACE), où existait un cours intitulé “Sociologie et Politique” couplé au cours d’Administration publique. De ces discussions est né le Département de Science politique à l’Université du Minas Gerais, le premier du Brésil, sous le patronage de la Fondation Ford.

Je n’ai pas la prétention de combler ici les lacunes existantes dans l’histoire de la science politique au Brésil, mais de soulever quelques points relatifs à l’action de la Fondation Ford pour y introduire cette discipline, à partir du cours de Sociologie et Politique de la FACE. Dans les deux seuls articles disponibles qui traitent spécifiquement de l’émergence de la science politique au Brésil (Arruda, 1989 ; Forjaz, 1997), on constate que le lien qui rattachait cette discipline au droit public et à l’économie politique a été coupé par l’engagement quasi-militant d’un groupe de nouveaux professeurs formé dans ce cours.

Ces professeurs, au nombre de seize, faisaient partie des vingt-cinq étudiants brésiliens recrutés par la Fondation Ford pour étudier la science politique à l’étranger. Sur ces seize, douze venaient de la FACE et sont partis aux état-Unis ; trois sont allés dans des universités européennes : deux d’entre eux venaient de l’USP, et le troisième de l’Université Fédérale du Rio Grande do Sul (tableau 1).

Après avoir obtenu le doctorat aux états-Unis, dix des boursiers de la FACE ont pu, avec l’appui de la Ford (cf. infra), créer à l’Institut Universitaire de Recherche de Rio de Janeiro (IUPERJ), le premier doctorat de Science Politique du pays. Toujours à l’IUPERJ, le groupe a contribué à la création de la revue Dados – Revista de Ciências Sociais, désormais la principale revue brésilienne dans ce domaine, et, grâce à ces réseaux, à la création de l’Association Nationale de pós-graduação et de Recherche en Sciences Sociales (ANPOCS), en 1977. Au sein de cette association, sous la direction de Olavo Brasil de Lima Jr, ces anciens doctorants de la FACE, parrainés par la Fondation Ford, ont travaillé activement à la création de « Groupes de travail », sur les partis, le comportement électoral et les problèmes d’institutionnalisation politique. Depuis, ces dix chercheurs siègent dans des comités du CNPq et de la CAPES, figurent comme conseillers ou experts auprès du gouvernement fédéral ou du parlement, et ont une présence constante dans les conférences et colloques internationaux.

Dans le tableau 2 (ci-dessous), construit avec les donnés concernant six scientifiques sélectionnés pour la démonstration[2], il est possible de vérifier la “rentabilité” propre à la circulation internationale dans la carrière de ces représentants de la nouvelle discipline et, en même temps, de constater leur présence dans les hauts lieux des décisions stratégiques internationales, dans la haute administration brésilienne et sur le marché de l’expertise.

L’observation de l’activité et de la carrière de ces anciens boursiers de la Fondation Ford nous permet de les situer non seulement comme les introducteurs de la science politique au Brésil, mais surtout comme des cadres dirigeants participant à l’élaboration des politiques publiques. Ils s’engagent dans des luttes pour moderniser les dispositifs de l’état, les compétences du gouvernement, et les circuits du marché, tant au niveau national qu’international, en tant que membres de commissions de réformes de l’état ou de conseils consultatifs internationaux. Ils comptent donc au nombre de ceux qui prétendent dire quelles sont « les meilleures manières » de s’insérer dans les transformations en cours dans le champ du pouvoir à une échelle globalisée.

C’est ce qui m’amène à montrer rapidement, à partir du programme Individual Behavior and Human Relations lancé par la Fondation Ford dans les années 50, les stratégies qui ont amené cette fondation à intervenir au Brésil et, plus spécifiquement, à privilégier un programme d’enseignement, essentiellement axé sur la science politique dans le Minas Gerais et à Rio de Janeiro, en se désintéressant de la formation des étudiants paulistes en sociologie. À São Paulo, l’investissement de la Fondation a concerné un centre de recherche sur la réalité brésilienne le CEBRAP – Centro brasileiro de Análise e Planejamento – qui a accueilli, hors de l’USP, une bonne partie des intellectuels de haut niveau évincés des universités paulistes par la dictature militaire. Le programme développé dans cette institution favorisa l’engagement en politique de nombre d’entre eux, dans les années 80, comme ce fut le cas pour l’ancien président de la République, Fernando Henrique Cardoso.

Il n’est donc pas surprenant de constater que les représentants de la nouvelle discipline ont été à la source d’un conflit entre les différentes factions du champ traditionnel des études politiques (droit, sociologie, philosophie), ce qui ouvre une voie à une réflexion sur la façon dont le champ s’est redéfini et reproduit avec l’arrivée de nouvelles générations.

La Fondation Ford et la formation d’un paradigme international des sciences sociales

Au début des années 50, les programmes de la Fondation Ford visaient le remplacement de la théorie politique traditionnelle par des études comparatives, relatives aux formes de gouvernement et aux comportements politiques dans un cadre international. Bernard Berelson, le directeur du programme, croyait que par ce biais, la Fondation pourrait influencer la conception et l’organisation d’un nouveau champ intellectuel (Gemelli, 2003 : 271) qui comprendrait non seulement la diffusion d’une culture en sciences sociales fondamentales, mais également d’une culture empirique en sciences sociales appliquées, qui servirait à « changer le cours de l’histoire », conformément à l’expression de Frank Sutton, dernier vice-président aux affaires internationales de la Ford (Rose, 2003 : 91).

La comparaison entre l’action de la Fondation Ford en Turquie et au Brésil aide à comprendre l’opération de mise en place d’un modèle de modernisation pour les pays en voie de développement (Lipset, 1963), par l’entremise d’intellectuels financés par la Fondation pour des projets techniques. De la même façon que la révolution cubaine a entraîné une priorité donnée aux actions développées en Amérique latine, la crainte de l’influence communiste en Europe méridionale et au Moyen Orient a mené à des actions similaires en Turquie. La Fondation y a fait 80 dons, d’un total de 16 millions de dollars, entre 1953 et 1971 (Rose, 2003). La date d’ouverture des bureaux de la Ford dans ce pays – 1960 – et l’orientation donnée au travail qui y était effectué coïncident bien avec ce qui a été fait au Brésil : premièrement, recruter et attirer des étudiants en sciences sociales en des lieux disposant des bases institutionnelles qui permettraient de les intégrer aux stratégies promues par les mécènes, en espérant qu’ils développeront, plus tard, des programmes d’enseignement dans le pays d’origine, sans plus d’intervention directe de la Fondation ; deuxièmement, assister le groupe de scientifiques ainsi soutenus pour qu’il puisse créer et développer dans leur pays une agence scientifique centrale, afin de coordonner la recherche scientifique nationale, et éviter le « brain-drain » (Rose, 2003). Dans les deux pays, le lieu préférentiel choisi pour le recrutement initial a été une école d’administration : celle d’Istanbul en Turquie et, au Brésil, celle de Belo-Horizonte.

En Turquie, les chercheurs se sont dirigés vers Harvard, alors qu’au Brésil, les étudiants se sont dispersés dans différentes universités des états-Unis (cf. supra, tableau 1). La Fondation partageait la croyance positiviste de la sociologie des années 60, qui affirmait que la science sociale était une science précise, ayant les moyens de modifier la réalité[3]. Ce qui justifiait les 16 millions de dollars que la Fondation a investis dans le programme scientifique de la Turquie, pendant la période 1966-1988, et les plus de 13 millions de dollars investis au Brésil, entre 1966-1988, essentiellement consacrés (tableau 3), au développement de la science politique considérée comme un outil stratégique. Ce financement a permis la création de formations doctorales qui sont encore de nos jours les pôles dominants, et de centre de recherches novateurs comme le CEBRAP, dirigé lors de sa création par le sociologue Fernando Henrique Cardoso.

Une fondation philanthropique ne distribue pas son argent sans discernement. Elle sait bien que le succès de ses programmes dépend de la rencontre de bénéficiaires expérimentés et susceptibles de négocier des projets en commun. Comprendre le choix du cours de Sociologie et Politique de l’UFMG pour le recrutement des boursiers, au détriment d’autres cours plus réputés, mais dominés par le marxisme, comme ceux de l’USP, dans un contexte politique où la Fondation était perçue, au Brésil, comme un « instrument de l’impérialisme américain », c’est comprendre l’espace de concurrence académique avec lequel et contre lequel la Fondation intervenait (Miceli, 1993 ; Reis, 2004).

Les étudiants mineiros dans l’espace des études politiques des années 1950-1960

Le recrutement des étudiants du cours de Sociologie et de Politique de la FACE par l’agent de la Fondation Ford, Peter Bell, tient à un ensemble de dispositions incorporées de ces étudiants. Le tableau 4 (ci-dessous) montre un groupe relativement homogène socialement, dont les études précédentes avaient été financées par des bourses d’études accordées par des institutions brésiliennes ou internationales.

Comme on peut l’observer, les étudiants mineiros recrutés possédaient un capital social relativement modeste et, surtout, aucun n’appartenait au réseau des familles d’hommes politiques connus du Minas Gerais. Mais ils ont fréquenté des écoles secondaires de premier plan, comme le Collège Arnaldo ou le Collège Marconi[4] , ce qui démontre l’intérêt de leurs familles pour l’investissementscolaire. À l’exception de l’un d’entre eux, tous semblent constituer la première génération qui accède aux études supérieures dans la famille. Tous ont bénéficié des bourses d’études de la FACE depuis la licence. Deux étudiants sont partis à l’étranger pour la première fois en tant que boursiers de l’ONU, pour une maîtrise en sociologie au Chili, à la Faculté Latino Américaine de Sciences Sociales (FLACSO). L’accès à ces formations exigeait un fort investissement en mathématiques et statistiques, une orientation qui « avait beaucoup à voir avec la science sociale nord-américaine » (Carvalho, 1998 : 61)[5] .

Le tableau souligne aussi le fait qu’ils avaient un engagement politique dans des mouvements étudiants de gauche clandestin : à l’AP ou à la POLOP6 , ce qui les distingue des héritiers des familles traditionnelles mineiras, inscrits à la Faculté de Droit, destinés à une carrière dans la haute fonction publique et qui étaient membres ou militants des partis politiques officiels. Eux appartenaient à la Faculté de Sciences économiques, une faculté éloignée du circuit social et politique fréquenté par les héritiers des “grandes familles” mineiras. Ces étudiants ont reçu des bourses d’études au mérite, financées par des entrepreneurs mineiros à la suite d’un concours considéré comme très difficile. Les étudiants comme les professeurs étaient soumis à un régime de travail à plein temps, fait rare au Brésil. Le privilège était accompagné d’une discipline d’acier, ils étaient tenus d’aider les collègues en difficulté et de rédiger un mémoire à la fin de chaque année scolaire (Carvalho, 1998 : 359). À cet effet, ils avaient à leur disposition une bibliothèque comportant les classiques de l’économie et de la sociologie, ainsi que des abonnements à des périodiques considérés comme les plus importants du monde académique international. L’entretien avec l’un des anciens boursiers montre que l’agenda de ces étudiants était dense :

« Après la matinée, consacrée aux cours, tout l’après-midi était occupé par des études intenses, des conversations soutenues, des travaux de rédactions, parce que les étudiants aussi bien que les professeurs collaboraient à la presse écrite. Par exemple, le quotidien Diário Católico avait un supplément littéraire qui a duré quelques années : la plupart de ses contributeurs venaient de notre équipe, nous faisions des comptes-rendus de livres ou d’autres articles sur des thèmes culturels ; il y avait aussi d’autres groupes qui collaboraient à la presse, mais le poids de notre équipe de Sciences économiques était particulièrement important » (Arruda, 1989 : 259).

Une grande partie d’entre eux a été engagée comme professeurs de la FACE, après le diplôme. « On inaugure, en ce moment, [1962] la première génération de professeurs anciens boursiers, ayant une tête moderne et nécessairement autodidactes », a écrit Cláudio de Moura Castro, ancien boursier[7]. Selon l’expression de Simon Schwartzman, le système des bourses a créé une trajectoire intellectuelle et professionnelle dans la « périphérie de la périphérie » (cité par Arruda, 1989 : 255), à savoir : dans la périphérie des écoles considérées comme légitimes, et dans la périphérie des grands centres intellectuels du pays.

Ainsi, les agents de la Fondation Ford ont trouvé à Belo-Horizonte une génération de sociologues à la fois disciplinés, mais aussi arrogants et iconoclastes comme tous les prétendants contrariés dans leur vocation politique, avec une formation sociologique plus proche des sciences sociales américaines que de l’orientation française accordée par des écoles paulistes. Ils expérimentaient « la sensation qu’il n’y avait rien avant nous, que tout devait être réinventé et recréé […]. La question était seulement de lire et d’étudier (dans les livres français qui arrivaient à la librairie Duas Cidades, ou en anglais, que nous apportait, Dieu sait d’où, Júlio Barbosa) », comme le dit Schwartzman (1997)[8] .

La discipline intellectuelle exigée par ce système de bourses distinguait ces élèves de ceux de la Faculté de Droit ou de la Faculté de Philosophie, où fonctionnaient également des cours de sciences sociales. Contrairement aux autres, le cours de Sociologie et politique de la FACE se déroulait au sein d’une Faculté d’économie créée pour assurer la modernisation de l’état du Minas Gerais et combler son retard face à Rio de Janeiro et à São Paulo (Arruda, 2004)[9]. Cette institution n’était pas le fruit du travail d’une mission étrangère, comme celles de l’état de São Paulo, mais celui des changements qui s’étaient produits dans l’état depuis les administrations de Milton Campos et de Juscelino Kubitschek, financées par la Fondation Rockfeller. La modernisation de l’appareil administratif a été promue par le recrutement de fonctionnaires basé sur le mérite, ce qui exigeait une filière d’enseignement spéciale, susceptible de développer l’ambition de jeunes brillantes recrues. C’est un tel enseignement qui a été assuré par la FACE, qui dispensait, entre autres cours, ceux d’économie et d’Administration Publique. Les étudiants de cette école étaient formés pour exercer la fonction de “conseiller du prince”. Ce programme, loin de la réalité agraire de l’économie mineira, était, cependant, en phase avec les stratégies politiques de formation de professionnels nécessaires sur le plan national, afin de maintenir les hommes politiques mineiros au pouvoir, au moment où des grandes avancées pour la planification de l’économie nationale avaient lieu.

Bolivar Lamounier, un des anciens boursiers, est assez explicite au sujet des objectifs du cours de Sociologie et de Politique :

« Cela veut dire que personne n’avait de doute sur le fait que, dans cette faculté, se formaient les futurs experts du Gouvernement [du Minas Gerais] ou de l’État [fédéral]. Et ceci, de fait, s’est produit… Moi, par exemple, j’ai eu comme professeur de Politique économique Fernando Reis, qui deviendra par la suite une figure puissante de l’état, président de la Compagnie Vale do Rio Doce, directeur d’entreprises d’état. Personne ne doutait qu’une génération d’experts s’y formait » (Arruda, 1989 : 255).

La première reconnaissance de l’efficacité du système de bourses de la FACE a été, dans un premier temps, le recrutement de ses meilleurs boursiers par la FLACSO. Au Chili, grâce à la FLACSO, ces étudiants mineiros, militants de mouvements de gauche, entrèrent en contact direct avec la science politique nord-américaine et avec une définition analytique de la politique, qui permettait « de montrer ce qu’il y a de politique dans les foyers de conflits et de solidarité qu’on trouverait dans toute sphère de la vie sociale, de même que leur éventuelle importance, plus ou moins grande, pour ce qui se passe sur le plan de l’État » (Reis, 2004 : 29).

La FLACSO a constitué la première grande impulsion pour la Science politique brésilienne. Dans cette approche de la politique, éloignée de l’orientation philosophique et juridique, il y avait déjà une accroche à Belo Horizonte, via les études électorales dirigées par Orlando Carvalho, avec la Revista Brasileira de Estudos Políticos (RBEP). Créée à la faculté de Droit en 1956, la revue, tournée vers l’édition des études empiriques, divulguait des méthodes et des thèmes nouveaux dans le milieu académique brésilien, comme la nature du système de partis, l’origine sociale des dirigeants, l’idéologie des partis, leurs finances, les pratiques électorales. Elle publiait des auteurs nationaux et étrangers, favorisant la circulation internationale des idées. Unique dans son genre au Brésil, elle servait de pont entre deux générations en combinant la tradition philosophique et juridique de la science politique française avec l’orientation nord-américaine, contribuant à la formation des étudiants de la FACE.

Le créateur de la RBEP, Orlando Carvalho, avait été un des fondateurs de l’UDN[10], et secrétaire d’état dans le gouvernement de l’udeniste Milton Campos. Ainsi, la revue mobilisait, dans les enquêtes et monographies qu’elle publiait sur les élections dans le Minas Gerais, toute l’idéologie udeniste tournée vers le “légalisme” et l’exhibition de l’attachement aux vertus civiques, ce qui n’était pas pour déplaire à des agences nord-américaines engagées dans la guerre froide[11]. Dans les commémorations des 75 ans de l’UFMG, en 2002, Murilo de Carvalho a fait une déclaration éclairante sur ce lien de la revue avec les militants udenistes, qui s’est développé avec la chute de Getúlio Vargas, en 1945 :

« En créant la RBEP un peu plus de dix ans après la démocratisation du pays [Orlando de Carvalho] était conscient que le perfectionnement du système des partis et des pratiques électorales était une condition essentielle à la consolidation de la démocratie. En cela, il représentait le bon côté de l’udenisme mineiro, personnifié surtout par Milton Campos. Mais la démocratie n’est pas advenue à cette époque. La bataille continue encore, et c’est l’honneur d’Orlando de Carvalho d’avoir été un des militants d’une cause à laquelle il faut croire pour ne pas la perdre » (Carvalho, 2002 : 2).

Dans ce milieu étudiant engagé, les agents de la Fondation Ford ont su trouver un terrain favorable à l’un de leurs objectifs, qui était non seulement de constituer une science rigoureuse de la société, mais aussi de cultiver une vertu civique indispensable à la construction d’un marché international de la compétence d’état[12], sous hégémonie américaine.

Du côté des étudiants recrutés, il est important de souligner le fait qu’ils n’auraient pas pu monter facilement la hiérarchie des partis politiques existants, ou même de la haute administration, qui constituaient une “réserve de chasse” des héritiers des grandes familles mineiras, sortis de la Faculté de Droit. Carlos Eloi Guimarães[13], député fédéral pendant six législatures, et descendant de grands chefs politiques nationaux de l’UDN, originaires de la même circonscription électorale que Bolivar Lamounier, exprime bien ce monopole de fait des postes électifs :

« Quant à mon entrée dans la vie publique, le début s’est déroulé de la façon suivante : mon oncle Paulo Campos et Magalhães Pinto (gouverneur UDN de l’État) ont décidé que je devrais être député […]. J’ai été élu député sans être connu des électeurs : à vingt-quatre ans, je ne pouvais pas être connu des électeurs ; de plus, je n’étais pas même un dirigeant syndical, et je venais de sortir récemment de la Faculté de Droit… » (CEMIG, 2004 : 14).

Les nouveaux politologues et la recomposition des sciences sociales

L’adhésion, sans beaucoup de discussion, de ces étudiants mineiros de la FACE à l’offre qui leur avait été faite par la Fondation Ford n’est pas surprenante, comme l’illustre les propos de Murilo de Carvalho, premier de ces boursiers à avoir été sélectionné :

« La Fondation Ford avait décidé d’investir dans les sciences sociales en Amérique latine, particulièrement dans les domaines de la science politique, de l’anthropologie et de l’économie […]. Cet appui a eu de grandes conséquences, il a entraîné ici la création de divers cours de science politique – celui du Minas, celui de l’IUPERJ […]. La motivation de la Ford est venue évidemment en réponse à la Révolution Cubaine. Mais il importe de dire qu’elle n’en a jamais retiré de profits directs. Elle donnait simplement aux institutions l’argent destiné aux bourses, et l’institution l’utilisait comme elle voulait. J’étais tout juste en train de terminer la licence (à la FACE), quand s’est ouverte la sélection des boursiers pour les États-Unis. J’ai été reçu et sélectionné dans la première promotion. D’autres l’ont été après, tant de l’IUPERJ […] que du Minas. J’y ai réellement été par hasard, j’ai terminé ma licence et je suis parti ensuite. Cela a été la raison pour laquelle je suis parti aux États-Unis, rien d’autre » (Carvalho, 1998 : 363).

Le témoignage de Fábio Wanderley Reis, un des chantres du Département de Science politique de l’université mineira, révèle la même absence d’une réflexion plus attentive sur les stratégies hégémoniques de la Fondation :

« Il s’est trouvé que la Fondation Ford a décidé de mettre en œuvre un programme de soutien aux sciences sociales au Brésil, certainement avec une motivation au moins confusément politique, et l’UFMG a été la première institution à être pourvue d’une dotation significative. António Octávio Cintra a occupé un rôle important dans les premiers contacts avec la Fondation Ford, grâce à Peter Bell, qui fut le premier agent effectif de la Fondation dans ce domaine. Des conversations entretenues alors, nous avons négocié la possibilité de créer, avec le soutien financier de la Fondation, un Département de Science politique […] qui inclurait les activités et les personnes en relation avec la politique, non seulement de la Faculté de Sciences économiques (Júlio Barbosa, Antonio Octávio Cintra, moi-même) mais aussi de l’École de Droit, autour du Professeur Orlando de Carvalho et de la Revista Brasileira de Estudos Políticos, et de l’ancienne Faculté de Philosophie, de Sciences et de Lettres, d’où le Professeur Tocary de Assis Bastos a intégré l’équipe initiale du Département » (Reis, 2004 : 27).

La rencontre qui s’est réalisée entre ces étudiants brillants et ambitieux – au capital social relativement faible et sans aucun capital politique notable, ayant par conséquent peu d’espoir d’insertion professionnelle à Belo-Horizonte – et les objectifs de la Fondation Ford a produit des fruits de grande qualité, compatibles avec l’investissement fait de part et d’autre : les boursiers se sont imprégnés de la culture libérale et légaliste des universités américaines et, à partir des liens forts qu’ils y ont établis, ils ont créé un réseau d’anciens collègues et d’élèves, imposant une nouvelle façon de concevoir la science politique. Ce réseau a irradié les principaux centres académiques et politiques brésiliens, puis s’est élargi au niveau international.

José Murilo de Carvalho, dans un commentaire exemplaire, éclaire la façon dont, à leur retour des états-Unis, les liens des anciens boursiers se sont consolidés pour modeler ce qui deviendra la science politique au Brésil :

« J’ai connu Wanderley (Guilherme dos Santos) à Stanford, nous sommes devenus amis, je suis revenu au Brésil, il est rentré peu après et m’a invité à quitter Minas pour venir à l’IUPERJ. À ce moment, il m’a semblé que ce serait une expérience intéressante […]. Il n’y a pas de doute que Rio et São Paulo sont beaucoup plus au centre du débat politique » (Carvalho, 1998 : 366).

Fábio Wanderley Reis est plus explicite quant à l’importance de l’articulation du système de disposition de ces jeunes mineiros avec les objectifs de la Fondation Ford pour la réorientation de l’enseignement politique :

« Mais le départ, à un moment donné, de nombreux mineiros pour Rio, en particulier à l’IUPERJ, s’est combiné avec les opportunités semblables de formation, favorisées par l’appui de la Fondation Ford à notre Département de Science politique et à l’IUPERJ, afin de créer une certaine homogénéité d’orientation qui, au moins dans le secteur de la science politique, permettait un contraste plus ou moins clair de ces deux expériences avec celles de l’USP ou de l’UNICAMP » (Reis, 2004 : 27).

De fait, de retour de l’étranger, ces représentants de la nouvelle discipline se sont transformés en une espèce de « jeunes Turcs », selon l’expression de Fábio Wanderley lui-même, par le conflit qu’ils engendrèrent entre les différentes factions du secteur traditionnel des études politiques (droit, sociologie, philosophie). Il en résulta de grandes tensions au sein de l’UFMG, allant jusqu’à la destitution de directions[14]. Ces polémiques se répercutaient fortement sur le groupe de sociologues et de philosophes paulistes. Les jeunes Turcs, obsédés par le traitement systématique de données empiriques – « couplage entre la référence à un matériel empirique et la réflexion qui ne renonce pas à être théorique » (Reis, 2004 : 24) – refusaient aux autres concurrents leur classement même dans la science politique, voire dans la science tout court.

Une génération entière de politologues a été formée avec cette orientation, qui allait dans le sens opposé de celle des sciences sociales dispensée par la Mission française des années 1930. Le nombre de thèses qu’ils ont orientées, le nombre d’universités où ils ont enseigné, et les centres de recherche dans lesquels ils ont circulé, ne laissent pas de doute sur la signification et l’impact de leur voyage aux états-Unis dans l’organisation des modes de production de la nouvelle discipline et dans les directions qu’elle a prise au Brésil. Leur rôle dans la formation à la théorie et aux méthodes et techniques de recherche véhiculées par les sciences sociales américaines, les processus de sélection, de filtrage et de traduction, c’est-àdire tout le travail de comparaison que constitue un voyage d’études, ressort dans le réseau intellectuel qu’ils ont développé pour une confrontation avec d’autres groupes actifs à São Paulo, à l’USP et au CEBRAP, et dans le Minas Gerais, réseau que résume le tableau 5.

De cette façon, un corps de producteurs reconnu en science politique a pu émerger, autour d’une dénomination, d’un objet, et d’une confrontation de questions et de méthodes dans l’espace des sciences sociales. L’action de ces anciens boursiers a permis de fonder une discipline. Comme l’écrit Michel Offerlé (2002 : 256), rappelant les travaux de Victor Karady (1979 : 49), celle-ci a surmonté les trois épreuves de légitimation face aux autres disciplines de sciences sociales : la production d’une connaissance spécifique (légitimation scientifique), la définition de moyens propres de recrutement (légitimation académique), et la réunion d’un public plus ou moins profane (légitimation sociale).

Mais c’est le recrutement pour une formation aux états-Unis qui a rendu possible l’homogénéité d’orientation nécessaire à l’insertion du programme de la nouvelle science politique dans les cadres institutionnels de l’académie brésilienne. En même temps, la formation, favorisée par les bourses de la Fondation Ford, a intégré les politologues brésiliens dans les débats promus par les cercles savants nord-américains, dont les contacts, jusqu’alors, se faisaient prioritairement dans le champ disciplinaire de l’économie, via la PUC/Rio et l’EPGE/FGV (Loureiro, 1997).

Cet article n’est qu’un premier pas dans une recherche plus vaste portant sur les facteurs qui ont permis l’importation de la science politique de facture nord-américaine au Brésil. Le travail est parti de l’hypothèse que le système organisé des échanges internationaux en matière de méthodes de gouvernement, autant dans sa définition économique (développement d’un marché international d’expertise) que dans sa définition éducationnelle (programme de formation de nouvelles élites pour les pays en développement), a été établi entre les années 1950-1970, avec l’appui de la Fondation Ford. Au moyen de bourses d’études pour parrainer des professions stratégiques, cette fondation a cherché à créer une opinion publique favorable au renforcement des études privilégiant certaines questions et certaines façons de les traiter.

Les thèses soutenues dans les universités américaines, au moment où l’autoritarisme au Brésil s’affichait dans sa face la plus dure, démontrent bien le déplacement des modes de penser la vie politique nationale, surtout si on considère que, d’une façon ou d’une autre, toutes portent sur la tradition autoritaire brésilienne dans une perspective historique et comparatiste[15]. Mais ces travaux ne sont pas réductibles à une reprise des problématiques de la science politique nord-américaine ; ils portent tout autant la trace des questions anciennes et nouvelles posées à propos de l’évolution de l’espace public brésilien. Au retour des états-Unis, les nouveaux politologues furent confrontés à la résistance du milieu académique à l’émergence de nouveaux savoirs autonomes. Leur combat pour la légitimation de la science politique provoqua une recomposition disciplinaire et suscita des problématiques qui ont eu des effets durables.

Le choix des étudiants de Belo-Horizonte par la Fondation était dû non seulement à l’intérêt des élites politiques locales pour cette association, dans le but de moderniser l’état, mais aussi à l’existence, sur place, d’une formation en études politiques plus proche des méthodes empiriques et des vertus civiques nord-américaines. L’adhésion des étudiants de la FACE – qui militaient dans des mouvements contre la dictature militaire au Brésil – à la proposition faite par la Fondation résulte de la rencontre d’un groupe d’étudiants brillants et ambitieux, au capital social relativement faible et au capital politique inexistant, ayant par conséquent peu d’espoir de carrière à Belo Horizonte, avec les objectifs de la Fondation Ford d’encourager l’émergence d’une génération de personnalités scientifiques capable d’affronter des débats interdisciplinaires et transnationaux.

BIBLIOGRAPHIE CITÉE

ARRUDA (M.-A.), 1989 « A modernidade possível: cientistas e ciências sociais em Minas Gerais », in S. Miceli (dir.), História das Ciências sociais no Brasil, vol. 1, São Paulo, IDESP, Vértice, pp. 234-315.

ARRUDA (M.-A.), 2004, « A lírica sociológica de Fernando Correia Dias », UFMG, Teoria e Sociedade, numero spécial, pp. 32-43.

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SChWArTZMAN (S.), 1997, « Francisco Iglésias », O Tempo, Belo Horizonte, http// http://www.schwartzman.org.br/sitesimon-opiniao

ANNEXE

SIGLES

ANPOCS – Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais
AP – Ação Popular (movimento político ligado á esquerda católica)
CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
CEBRAP – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
CESOP – Centro de Estudos de Opinião Pública
CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
CPDOC – Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea
FACE – Faculdade de Ciências Econômicas
FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
FGV/RJ – Fundação Getúlio Vargas,Rio de Janeiro
FGV/SP – Fundação Getúlio Vargas, São Paulo
FINEP – Financiadora de Estudos e Projetos
FLACSO – Faculdade Latino Americana de Ciências Ssociais
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IUPERJ – Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro
POLOP – Organização Revolucionária Marxista – Política Operária
PUC – Pontifícia Universidade Católica
SPBC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais
UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas
USP – Universidade de São Paulo

NOTES

1– Ce travail est une version modifiée de la communication présentée au colloque « Circulation internationale
d’universitaires et renouveau de l’espace culturel », réalisé au CRBC/EHESS à Paris, au mois de novembre 2005. Je remercie J.-P. Faguer, M. Gheorghiu et Y. Dezalay pour les observations faites à cette occasion, et L. Avelar pour les précieuses informations sur le cours de Sociologie et de Politique de la Faculté de Sciences économiques du Minas Gerais, au Brésil.

2– Les six autres boursiers de la FACE, Amaury de Souza, Octávio Cintra, Olavo Brasil de Lima Jr (décédé), Sonia Avelar, Laura da Veiga et Regina Lima, étaient présents dans ce tableau, mais n’apporteraient pas d’éléments nouveaux à notre démonstration. On peut les trouver et les examiner dans l’Annexe, à côté d’autres boursiers de la Fondation.

3– « C’était l’époque de Parsons, qui publiait des articles conseillant au gouvernement d’adopter certaines politiques en direction des sciences sociales, d’investir de l’argent, etc. Ce fut réellement le sommet, l’âge d’or de l’Université américaine de façon générale, et en particulier des Sciences Sociales. […] Quand j’ai été à Princeton, dans les années 80, cette croyance était déjà en déclin. Tout ne fonctionnait pas très bien, le prestige de l’Université était en train de tomber, et ne cessa pas de tomber » (Carvalho, 1998 : 360).
4– Sur le Collège Arnaldo, où ont étudié une grande partie de l’élite du Minas Gerais, voir Cançado (1999) ; Canêdo (2002a). Le collège Marconi a été fondé par Orlando Carvalho, qui a publié, édité et dirigé la première revue brésilienne d’études politiques, au Brésil, en plus d’avoir été le recteur de l’UFMG, entre autres importantes charges dans le Minas Gerais.
5– Carvalho lui-même n’a pas reçu cette bourse, pour n’avoir pas réussi à résoudre une équation pendant le test de sélection.

6– L’AP a été un mouvement politique né de l’action des militants étudiants de la Juventude Universitária Católica et d’autres adjonctions de l’Ação Católica, en juin 1962, à partir d’un congrès de la JUC tenu à Belo Horizonte. Son inspiration idéologique puise chez Mounier, Teilhard de Chardin, Maritain et le Père Lebret. La POLOP date de 1961, avec des racines dans la Juventude Socialista do Partido Socialista Brasileiro, en fusion avec les circuits d’étudiants venus de la « Mocidade Trabalhista » du Minas Gerais, quelques trotskistes et dissidents du PCB de Rio de Janeiro, São Paulo, et du Minas.

7– http//www.dee.feis.unesp.br/pet/arquivos/visao.htm
8– Julío Barbosa, avocat, est celui qui a pensé et créé le cours de Sociologie et Politique du Minas Gerais, en 1953.
9– Le cours a été dirigé d’une main de fer par Ivon de Magalhães Pinto, personnalité liée à l’ancienne Banco Hypotecário de Minas Gerais et qui appartenait à un réseau social très connu dans le Minas. Il était, par ailleurs, descendant de députés de l’Assemblée générale de l’Empire et de la Chambre fédérale républicaine, cousin et neveu de signataires du manifeste des exploitants de mines qui, comme lui-même, ont également été fondateurs de l’UDN du Minas Gerais (Horta, 1956 ; Arruda, 1989 ; Góes Monteiro, 1994).
10– L’UDN – União Democrática Nacional – était l’un des partis nationaux créés en 1945, après la chute de Vargas et la libéralisation de la vie politique. Plutôt ancrée à droite, l’UDN visait directement et explicitement les classes moyennes – par son programme, ses discours, ses interventions dans la presse et, surtout, ses dénonciations de la corruption administrative. Son symbole était une torche olympique, avec la devise « le prix de la liberté est l’éternelle vigilance ».
11– À l’occasion de notre enquête, quatre des anciens boursiers ont tenu à souligner l’attachement de leurs parents aux idéaux de l’UDN.
12– En effet, pendant toute la période de la guerre froide, la concurrence entre différentes conceptions de l’état et de ses modalités d’existence se matérialise à travers l’offre d’expertise des grandes puissances (cf. Dezalay & Garth, 2002).
13– Carlos Eloy était aussi le neveu de Francisco Campos, du côté de sa mère, et de la famille Gustavo Capanema, tous deux importants hommes politiques de Minas Gerais, devenus des ministres de Vargas entre 1930 et 1945. Il est également le cousin de l’actuel député fédéral du PT, Virgilio Guimarães. Il a été l’un des premiers à écrire dans la RBEP : dans le premier numéro de la revue, en 1956, on trouve une de ses enquêtes sur les résultats électoraux à Dores do Indaiá. Murilo de Carvalho a publié ses premières études scientifiques dans la même revue (« Estudos do Poder Local no Brasil », n° 31, 1968/1969 : 231-248) ; « Barbacena, a Familia, a Política e uma Hipôtese », n° 20, 1966 : 153-193).

14– Voir Reis, 2004, et la déposition de Cláudio Moura e Castro (http://www.dee.feis.unesp.br/pet/arquivos/ visao.htm). Une ancienne élève de la FACE, à Belo-Horizonte, raconte, dans une entrevue, que la véhémence du débat, à laquelle elle n’était pas habituée, était telle qu’elle se renfermait totalement sur elle-même.

15– Par ordre alphabétique : Carvalho (J.-M.), « Elite and State-Building in imperial Brazil » ; Farias (V.), « Occupational Marginality, Employment and Poverty urban Brazil ; Reis (E.), « The agrarian roots of Conservative modernization Brazil 1880-1930 ; Reis (F.-W.), « Political development and social class : brazilian authorianism in perspective ; Schwartzman (S.), « Regional cleavages and political patrimonialism in Brazil.