A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos

Apresentado em: “Social Sciences and Humanities in the Changing North-South Relations”, INTERCO-SSH – Cordoba, 2015

Esta exposição trata do encontro de funcionários da Fundação Ford – uma das grandes entidades filantrópicas americanas que financiam a produção de conhecimento e de instituições – com parceiros e beneficiários brasileiros passíveis de negociar projetos de interesses convergentes. Por meio desse caso exemplar, que envolve as atividades da Fundação na área das ciências sociais no Brasil, nos anos 1960-1980, interesso-me pela maneira como certos projetos transnacionais são importados e difundidos, chamando a atenção para os program officers, catalisadores na transferência e difusão de projetos transnacionais envoltos nos paradigmas da ciência política e da economia norte-americana.

Na famosa descrição de Dwight Macdonald, a Fundação Ford, que se lançou no cenário internacional durante da guerra Fria, seria simplesmente uma quantidade de dinheiro rodeada de pessoas desejosas dela (Macdonald, 1955:3).

O que pretendo demonstrar aqui vai mais longe, considerando que uma fundação filantrópica não distribui seu dinheiro sem discernimento e nem age isolada. O sucesso de seus programas depende da ação de seus mediadores na escolha dos beneficiários, pois é por meio das doações, e de quem as recebe, que ela exerce sua influência. Atentando para as somas importantes que a Fundação Ford destinou à produção de conhecimentos no domínio das ciências sociais no Brasil (mais de 13 milhões de dólares entre 1966 e 1989), chamo a atenção para a maneira como se deu o encontro dos program officers, encarregados de aprovar as doações, com os intelectuais brasileiros receptivos ao suporte técnico e financeiro oferecido para a criação de instituições de pesquisa em ciências sociais inovadoras, tendo em vista um programa de formação de novas elites para o país.

A hipótese que sustenta este trabalho é a de que as estratégias nacionais e internacionais são convergentes. O sucesso das estratégias de transferência de conhecimentos depende do encontro dos atores envolvidos nessa transferência em momentos históricos muito específicos: os receptores locais, carregados de expectativas e dispostos a subverter regras que não os beneficiam, e os mediadores estrangeiros, capazes de difundir valores e promover mudanças de percepção dentro de um quadro de referências institucionais (desenvolvidas no país de origem) suficientemente flexível para que sejam adaptadas ao sistema local de forma pragmática.

Destacarei especialmente  o encontro que levou à criação do Departamento de Ciência Política na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, o primeiro do Brasil (1965), e ao recrutamento de professores dessa universidade para estudar essa disciplina no sistema pós-graduado norte-americano – dando sequência ao que as elites econômicas e políticas do estado de Minas Gerais já haviam iniciado quando, rompendo com a tradição das ciências sociais sediadas em faculdades de filosofia, incluíram, em 1954, a sociologia política numa faculdade de economia. Será sublinhado também o encontro com os professores expurgados da USP pelo governo militar, o que levou à criação, em 1969, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), o primeiro grande centro de pesquisa independente sobre a realidade brasileira, um caso privilegiado pela visibilidade que deu à complexa relação existente entre a produção científica e a vida social e política [1]. Lembrarei, ainda, a criação da pós-graduação em ciências sociais no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ e sua valorização do empirismo, a romper com a tradição eminentemente ensaística das ciências sociais. Por fim, o papel estimulante desses agentes mediadores na criação do Comitê Assessor em Ciências Sociais, que dinamizou a Associação Nacional da Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), em 1978, “expressão do novo equilíbrio de forças entre programas de pós-graduação, centros de pesquisa, disciplinas, tradições de pensamento e de prática científica” (Miceli, 1993:61).

As ações resultantes desses encontros serão apreciadas tendo em mente dois efeitos merecedores de reflexão. Primeiro, elas estiveram na origem dos novos modelos de interpretação da realidade nacional, que se desviaram dos anteriores que estavam ancorados no direito e na sociologia. Além de subverter a hierarquia dos conhecimentos, esses novos modelos trouxeram uma nova prospectiva no trato com os problemas sociais e as políticas públicas, buscando priorizar a competência técnica, fundamentada na estatística. Em segundo lugar, boa parte dos intelectuais de alto nível patrocinados pela Fundação engajaram-se posteriormente na luta pela modernização dos dispositivos de Estado e das competências de governo, transformando-se nos mais importantes atores na reestruturação do espaço político brasileiro dos anos 1990. [2]

Esta exposição está dividia em três partes. Na primeira tratarei dos propósitos da agência de financiamento. Na segunda, dos funcionários da fundação enviados ao Brasil e sua intermediação no financiamento da produção de conhecimento e de instituições junto a parceiros e beneficiários.  Por fim, uma síntese da linha da atuação da Fundação no que se refere à criação da ANPOCS.

Os contatos inicias da Fundação Ford no Brasil e o programa de transferência dos paradigmas da ciência política no Brasil

O encontro direto dos representantes da Fundação Ford com os cientistas sociais brasileiros só aconteceu após o golpe de Estado de 1964. Até então, as recomendações para os programas da Fundação a serem implantados estavam ainda fortemente vinculados à política externa dos Estados Unidos, bastando a vinda de consultores norte-americanos para tratar das questões de política e planejamento da modernização do país, na esteira dos programas da USAID, Peace Corps e Alliance for Progress.  Tais programas não exigiam contatos mais profundos com os intelectuais locais.

O escritório da Fundação Ford no Brasil foi instalado em 1962, no mesmo ano de outros semelhantes na América Latina (Chile e México) e na África (Nairóbi). A abertura dos escritórios marca, portanto, o deslocamento da filantropia internacional da Fundação para regiões limítrofes de governos comunistas. A mudança de rumo já havia sido anunciada com a inauguração oficial do escritório de Istambul, na Turquia, em 1960. Mas para a América Latina, dentre os vários eventos políticos desestabilizadores neste período da Guerra Fria, a motivação principal para este movimento foi a revolução cubana, que priorizou a  canalização das doações para a difusão de ideias de modernização, desenvolvimento e democracia no continente.

A divulgação dessas ideias no Brasil, no delicado momento político dos anos 1960, foi facilitada pelas discussões que existiam na sociedade brasileira concernentes à aceleração da industrialização do país, as quais prolongavam os temas da Comissão Mista Brasil/Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico[3] (1951-1953), ligada ao Ponto IV do Plano Marshal. Os trabalhos desta Comissão haviam contribuído para a prática de gestão e aplicação mais racional dos recursos públicos, além da formação de uma equipe de técnicos brasileiros aptos a devolver projetos de infraestrutura. Mas, até o final dos anos 1950, nenhum dos temas da discussão em administração pública chegou a enfrentar a área do desenvolvimento social e político.

A Fundação Ford no Brasil viria, portanto, atuar exatamente nos domínios não contemplados pela Comissão Mista Brasil/Estados Unidos: o social e o político, por meio da educação superior

A estratégia para o financiamento de pesquisas e cursos de pós-graduação na área das ciências sociais foi estabelecida pouco a pouco. Em 1964, o golpe de Estado, que contou com o apoio do governo americano, afastou a Fundação dos programas locais ligados à política externa norte-americana ( USAID e à Alliance for Progress.). Em seu lugar, foram trazidas as técnicas da Behavioral Sciences, apreendidas no famoso Salzburg Seminar ( o qual a Fundacao havia financiado) como base para expandir, também no Brasil, the United States thinking about political and economic development through education (Holmes, 2013:42-43; Pollack,1979:56-58). Pensava-se em possibilitar o aparecimento de uma comunidade de cientistas sociais brasileiros que não fosse territorialmente circunscrita e que dialogasse com a sociologia empirista, o modelo das relações entre pesquisa social e agentes econômicos e políticos elaborado por Paul F. Lazarsfeld,nos Estados Unidos. Como Peter Bell, o mais importante agente da Fundação no Brasil no período de 1965 a 1969 afirmou,  “os cientistas sociais poderiam ajudar a explorar e clarificar as dimensões política e social do desenvolvimento”.

A orientação para essas ações coincide com a que foi dada pelo Seminário de Salzburg, ou seja, primeiro recrutar e atrair estudiosos em ciências sociais integrando-os às estratégias promovida pelo mecenas, na esperança de que eles desenvolvessem, mais tarde, programas de ensino e pesquisa no país de origem sem mais intervenção direta da Fundação. Segundo,  assistir o grupo de cientistas apoiados para que eles pudessem criar e desenvolver em seu país uma agência científica central, a fim de coordenar a pesquisa científica nacional e evitar a “fuga de cérebros” (Rose, 2003:72-94).

Peter Bell na implementação do programa da Fundação Ford

O representante da Fundação selecionado para a implementação desse programa no Brasil foi Peter Bell que, então com 22 anos, fez jus às recomendações contidas no Gaither Report  no que se refere aos principais critérios para a escolha dos  agentes que garantiriam o sucesso do programa filantrópico da Ford: uma maior ênfase nas  habilidades interpessoais, na imaginação e na experiência em interesses gerais do que na idade, especialização ou reputação.; experiência em viagens e “flexibility to deal with all kinds of people, and a deep conviction with respect to the fundamental objectives of the program”. Qualidades que seriam “necessary to change the content of the program from time to time to meet new conditions”.  (Gaither:133-136).

Quando foi escolhido, Peter Bell havia acabado de receber seu diploma da Woodrow Wilson School of International Affairs em Princeton. como ele prórpio registrou,  seus contatos com o exterior, sensibilizando-o para  “opportunities to resolve conflict, to make peace, to bring about justice, to protect the vulnerable, and to support the poor and disadvantaged”, já vinham do tempo de seus estudos secundários, quando recebeu uma bolsa de estudos para o American Field Service, fazendo parte do primeiros grupo de estudantes secundaristas a ir para o Japão após da Segunda Guerra Mundial, visitando Nagasaki com uma família japonesa. Depois do segundo ano da graduação em Yale, ele se engaged in the civil rights movement, na Operation Crossroads Africa, que resulted in the award to him, entregue a estudantes dedicados a resolver problemas internacionais e buscar a paz, pelo trabalho realizado na Costa do Marfim. Posteriormente adquiriu familiaridade com o governo norte-americano em área sensível da política externa ao trabalhar como estagiário em international security affairs at the Department of Defense, aprendendo o suficiente “about American involvement in Vietnam to be deeply troubled”;  o que o decidiu a desistir de uma carreira governamental e  aceitar o convite para entrar  na Divisão Internacional da Fundação Ford. Em suas entrevistas, usa como uma espécie de mantra, as palavras de seu professor de metafísica em Yale: “Go out and make the world less miserable.”[4]

A primeira missão de Peter Bell no Brasil lhe mostrou o valor desse curriculo para atuar no cenário brasileiro que Sergio Miceli descreveu, com muita propriedade, como mais assemelhado a um enredo de filme  policial do que a um exercício profissional do mecenato (Miceli, 1993:47). De fato, ao chegar na  Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG , em 1965, foi recebido com a  explosão de uma bomba detonada por estudantes avisando-o para que mantivesse distância. Durante os cinco anos de permanência no Brasil  atuou em meio a essas bombas de intimidação, ameaças, provocações, perseguições aos beneficiários das doações, o que, no final acabou “contribuindo para a modelagem de  rotas próprias e arriscadas para a atuação  da Fundação no Brasil” (Miceli, 1993:47) na área das  ciências sociais. A primeira doação aprovada foi para a criação do Departamento de Ciência Política na Faculdade de Ciências Econômicas – FACE, apesar das bombas – seguidas das bolsas de estudo para professores desta escola estudarem ciência política nas principais universidades americanas.  Como se pode ver, abaixo, das 26 bolsas doadas nos primeiros anos, 16 eram da Faculdade de Ciências Economicas de UFMG.

Quadro 1

Science politique – Boursiers de la Fondation FORD (1966-1976)
(par pays, institution d’origine, et destination)

Institution de destination Institution d’origine
UFMG UFRG UFF PUC-RIO USP UnB UFRGS Total
Stanford – EUA 4 1 5
MIT- EUA 3 3
Berkeley- EUA 1 2 3
Harvard – EUA 2 1 3
Michigan – EUA 3

 

3
UCLA – EUA 2 2
Chicago – EUA 1 1
Vanderbilt – EUA 1 1
Cornell- EUA 1 1
Universités

européennes

2 1 3
Total 16 3 1 1 2 1 1 25

Source –Curriculo Lattes, Associaciacão Nacional dos Cientistas Políticos, informations d’entrevues.

 

A ciência política como disciplina ainda não havia sido introduzida nos cursos superiores brasileiros. E não havia ainda no país um sistema de bolsas de estudos institucionalizado e muito menos voltado para a área das ciências sociais. O sistema de bolsas de estudos no Brasil só foi institucionalizado após a reforma universitária de 1968.

Nesse contexto, como compreender as razões da escolha da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG feita em detrimento de outras instituições possíveis, entre diversas renomadas que funcionavam em centros intelectuais mais conhecidos e centrais, tanto no Rio de Janeiro como em  São Paulo – num momento político em que a Fundação Ford, no Brasil, era percebida como uma espécie de “instrumento do imperialismo americano” e os estudantes e professores que se aproximavam dela eram encarados como “abomináveis” (Miceli 1993; Reis, 2004)? O que levou os estudantes e professores de Minas Gerais a aceitarem  o auxílio da agência filantrópica e como eles se legitimaram perante os agentes da Fundação no Brasil?

O encontro com o curso de sociologia política na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG e seus professores bolsistas

A escolha da FACE veio de pontos internacionais comuns nos primeiros    contatos de Peter Bell no Brasil. Primeiramente, com Leonidas Xausa, um PhD em ciência política pela Universidade de Columbia[5] . Como se sabe, foi nessa universidade que Lazarsfeld desenvolveu as técnicas de sondagem, a ferramenta chave de toda pesquisa americana até os anos 1960.  Leonidas Xausa lhe apresentou  Octávio Cintra, um jovem professor do curso de Sociologia e Política da FACE,   ex-bolsista da ONU– FLACSO, localizada em Santiago, no Chile, onde se situavam  os escritórios  especializados das Nações Unidas na America Latina. Esses pontos itnernacionais comuns levaram Bell a conhecer o curso de sociologia que funcionava, diferentemente de todos os outros cursos de sociologia no Brasil, dentro de uma Faculdade de Economia.

Em meio a bombas de repúdio jogadas por estudantes, Bell encontrou nesta escola uma geração de sociólogos disciplinados, com uma formação sociológica internacional que selava a aliança  entre política e pesquisa social,  a começar com o empirismo das sondagens. No cursos de de Sociologia, davam um novo impulso às reflexoes sobre política no Brasil, com artigos publicados na Revista Brasileira de Estudos Políticos RBEP, divulgando temas novos no meio acadêmico , como natureza dos sistema de partidos e comportamento eleitoral, origem social dos dirigentes, etc. Única no gênero no Brasil da época, era a mais internacional das revistas de Ciências Sociais feitas no Brasil e foi a primeira a suscitar artigos empíricos orientados metodologicamente por surveys. Uma área de estudos que a própria Fundação Ford havia criado, em 1954, no Center for Advanced Studies in the Behavioral Sciences, em Stanford, e exportado para a Europa, com  fundos substanciais, por meio do Salzburg Seminar criado em Harvard.

O curso de sociologia e política havia sido criado dentro da FACE, em 1953, com vistas a pensar a modernização da administração pública do Estado de Minas Gerais (Arruda, 1989), quando Juscelino Kubitschek era governador do estado. Por essa razão,  foi anexado ao de Administração Pública. Sua constituição tinha a ver com as  estratégias políticas de formação de profissionais necessários no plano nacional, num momento em que os grandes progressos para o planejamento da economia nacional estavam em curso na Comissão Mista Brasil/Estados Unidos. Longe da realidade agrária da economia mineira, muitos professores do curso já procuravam  romper com a tradição ensaística dos estudos políticos brasileiros ligados ao direito constitucional e à economia política, orientando-se em proximidade com a ciência política elaborada nos Estados Unidos (Reis, 2004:17). Manter um curso de sociologia política acoplado ao de Administração Publica numa Faculdade de Economia era uma grande inovação e, pelo apoio dado a ele por banqueiros e políticos renomados (Paula, 2006:333; 2011), pode-se pensar no seu papel de  garantir a posição dos políticos mineiros junto às instituições do Estado Nacional. , Juscelino Kubitschek, por exemplo, que fora eleito presidente da República, em 1955, com um ambicioso plano de metas para eliminar os “pontos de estrangulamento” da economia brasileira, realizado  com base no diagnóstico da Comissão Mista , foi membro da direcao dessa Faculdade..

Dos 11 primeiros professores recrutados por Peter Bell para estudar ciência política nos Estados Unidos, no período 1966-1969, sete deles  foram selecionados deste curso por dois professores da universidade de Stanford, Frank Bonilla e Robert Packeman, onde se encontrava o Center for Advanced Studies in the Behavioral Sciences criado pela  Ford Foundation. Uma pesquisa (Canedo, 2009:41-42) identifica esses sete professores mineiros como possuindo um capital social relativamente modesto, a primeira geração a aceder aos estudos superiores na família e, sobretudo, sem qualquer laço de parentesco com a rede das grandes famílias políticas de Minas Gerais, que detinham as mais importantes posições governamentais, inclusive no nível nacional[6]. Ainda assim frequentaram escolas secundárias de primeira linha em Belo Horizonte e obtiveram  bolsas de estudos para se diplomarem na FACE, dentro de um programa criado por um professor da Universidade de Pittsburgh, Elwyn A. Mauck, enviado pelo Brazilian Board of Advisors on Public Administration para adaptar o curso aos conceitos dos estudos multidisciplinares que eram desenvolvidos nos Estados Unidos (United States. Foreign Operations Administration, 1954:20; Barros, 2013:112-118)[7]. O programa de bolsas foi implementado pela direção da Faculdade com apoio dos empresários e banqueiros mineiros(Barros, 2013:112-118). Foi o primeiro no gênero implantado no Brasil, baseado no mérito, dispondo de infraestrutura extraordinária em relação aos demais cursos similares no Brasil. Tinha por base a ideia de que, em ambiente continuado, os  graduandos da FACE, selecionados por concursos,  se  transformassem na massa inicial para uma pós-graduação sólida e competente, abrindo caminho para a capacitação e a reprodução do quadro docente (Canedo,2009).

O fato de terem conquistado bolsas de estudos por mérito em importantes instituições nacionais e internacionais e serem intelectuais reconhecidos na academia não apagava o fato de a sociologia não ser considerada um curso de prestígio para o mercado local. Além  do mais, a formação fora dos parâmetros dos mais influentes cursos de sociologia existentes nas universidades brasileiras indica a dificuldade para encontrar uma porta para atuação profissional fora da UFMG,  ou alcançar altos cargos na administração pública federal, que estavam preferencialmente abertos para os herdeiros das grandes famílias mineiras (Canedo, 2009). Esses herdeiros escolhiam a tradicional Faculdade de Direito, de maior prestígio para quem aspirava a altos postos políticos.

José Murilo de Carvalho, um desses ex-bolsistas, hoje membro da Academia Brasileira de Letras e autor de livros que contribuíram para a revisão total da história republicana brasileira,  explica,  em entrevista, esta situação e o  funcionamento prático da hierarquia universitária:

Eu não tinha perspectiva profissional. Para dar um exemplo, não me passava pela cabeça que um dia pudesse comprar um carro […].  O fenômeno era mais geral e transparecia nos bailes do Diretório Central dos Estudantes. Na dança, a distância entre moças e rapazes era definida a partir da resposta que se dava a uma pergunta inevitável que elas faziam logo que de início: “que curso você está fazendo?” Se a resposta fosse Sociologia Política, ou outro curso de pequeno prestígio, a distância entre os pares aumentava e daí a pouco elas se escusavam e voltavam às cadeiras à espera de melhor sorte. Quem quisesse se dar bem tinha que responder Engenharia, Medicina, Direito, ou Economia. Aí elas grudavam. (Paiva, 2010: 228)

Motivo pelo qual, muitos deles filiaram-se a grupos de esquerda, no início dos anos 1960, e foram profundamente afetados pela repressão política após o golpe de Estado de 1964. Como para a maioria dos brasileiros, o golpe os pegou de surpresa, “como o céu desabando sobre nossas cabeças […]. Vagávamos perdidos pelas ruas de Belo Horizonte, enquanto os alunos de direita circulavam armados, denunciando colegas e fazendo prisões” (Paiva, 2010: 228).

Nessa Faculdade de Ciências Econômicas, entre os que vagavam perdidos neste momento político especial, Peter Bell encontrou o terreno favorável a seus objetivos: não só o de constituir uma ciência rigorosa da sociedade, como o de também cultivar virtudes cívicas indispensáveis à construção de um mercado internacional da competência do Estado.  O apoio para a criação do Departamento de Ciência Política na UFMG  ajuda a entender a estratégia de longo prazo da Fundação: investir em algo novo, numa disciplina ainda inexistente no Brasil com forte apoio de uma universidade reconhecida. É o que explica o desinteresse manifestado por Bell à solicitação financeira da USAID para um projeto de estudos do Centro de Estudos e Pesquisas no Ensino do Direito – CEPED – visando a reforma no ensino jurídico:

As with housing, it can be easier to build from scratch than to restructure a pre-existing but outmoded building. Reforming legal education meant changing well-entrenched institutional practices and cultures—no easy task, as the Foundation and CEPED would discover. […]  I had some inkling of how difficult it might be for a small center–outside of any law school and without strong university support–to bring about the far-reaching reform of legal education; but in retrospect we failed to appreciate what a slow, uphill climb it would at best be (Bell, 2010:13).

A decisão de investir na FACE e nos seus professores, com forte suporte de uma universidade, em lugar de reformar o ensino jurídico com suas práticas e culturas institucionais, resultou em frutos de alta qualidade, compatível com o investimento feito de ambos os lados.

Com o contínuo apoio financeiro da Fundação Ford, criaram programas pioneiros de pós-graduação em política, tanto em Minas Gerais quanto no Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro – IUPERJ,  que foi localizado dentro de uma das mais antigas instituições privadas  de ensino superior do país (Faculdade Candido Mendes). Dentro do IUPEJ transformaram a revista Dados: Revista de Ciências Sociais, de nome bem significativo para a valorização do empirismo, numa revista internacional que, ainda, é uma referência na área.

 

O encontro com intelectuais expurgados da USP: a produção de conhecimento em ciências sociais como  vetor das  reformas de Estado

Também receptivos a desenvolver um projeto em conjunto com a Fundação Ford foram os intelectuais expurgados Universidade de São Paulo pelo Ato Institucional n. 5 (13 de dezembro de 1968). Neles Peter Bell encontrou o desejo e a expectativa de permanecerem produtivamente engajados no Brasil em atividades de pesquisa por meio da criação de um think tank independente, capaz de implementar novos métodos de trabalho científico para superar a compartimentalização do conhecimento, promover mudanças e influir na realidade.

Sob inspiração e liderança de Fernando Henrique Cardoso,  cinco desses professores afastados da universidade, oriundos de diversos campos do conhecimento – o filósofo José Arthur Giannotti, a demógrafa Elza Berquó, o sociólogo Candido Camargo Procópio, o economista Paul Singer e o cientista político Juarez Brandão Lopes – haviam se reunidos, seis meses depois do expurgo, para organizar o centro e  “criar as condições de continuidade de um pensamento livre nos anos da truculenta ditadura militar” (Montero, 2002). A rapidez do movimento indica que a ideia já vinha sendo desenvolvida há alguns anos (Sorj, 2001: 30-31).

Tal como os professores de Minas Gerais, esses paulistas tinham formação em universidades americanas (com exceção de Singer) e procuravam algo novo, diferenciado do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) – o mais influente think tank do país naquele momento – pois não tinham a  intenção  de se assumirem como porta vozes dos movimentos sociais e, menos ainda, criar um centro de pesquisas  formulador de doutrinas. Assim, na ata de fundação, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – CEBRAP foi  definido como uma sociedade civil, sem fins lucrativos, com objetivos de pesquisa, assistência técnica, consultoria, treinamento e ensino (Berquo, 2012).

Um projeto com esta ambição necessitava de respaldo político e financeiro, o que apresentava dificuldades. Além da falta de recursos, era  enorme a suspeita de “subversivos” em relação ao grupo. Seus integrantes mobilizaram inicialmente as relações sociais e políticas que mantinham com os setores liberais da elite (sobretudo paulista): entre os empresários – todos com forte orientação intelectual – destacam-se os nomes de José Mindlin, Celso Lafer, Oswaldo Gusmão, P. Farkas e, entre os políticos, Paulo Egídio, Severo Gomes, Dilson Funaro.

Tratava-se de “vínculos bastantes sofisticados tanto no nível dos indivíduos como no nível de relações com instituições”, de acordo com Frank Bonilha, consultor da Fundação Ford (Sorj, 2001:33), o que capacitava o grupo para uma solicitação de verba para a criação do centro. Bolivar Lamounier, umdos  mineiros da FACE que já havia sido tirado da prisao por peter Bell, desempenhou um papel de intermediário nas negociações.

Num discurso de agradecimento aos colegas do CEBRAP que o celebravam pelo premio Kluger, Fernando Henrique relata que Peter Bell “agiu incisivamente para convencer seus patrocinadores de que valia a pena dar algum recurso para uma organização como o CEBRAP, que nascia numa área cinzenta: não se sabia se seria aceito com legitimidade, ou se seria considerado uma organização subversiva” (Cardoso, 2002:199).

Pelo seu lado, Peter Bell continuava a receber ameaças. Desta vez, elas não vieram de estudantes e nem mesmo dos policiais que ele visitara numerosas vezes nas delegacias de policia para dar respaldo a professores presos. A ameaça veio do próprio representante da embaixada americana no Rio:

Ele começou me avisando: “Se você sabe o que é bom para a sua carreira, você irá desistir de obter a verba para o CEBRAP”. Eu disse a ele que nós trabalhamos muito na recomendação, revisamos com cuidado a proposta e os planos de Fernando Henrique e seus colegas, e estávamos convencidos de que atendia aos nossos parâmetros. Realmente, nós estávamos entusiasmados com aquela oportunidade […].  Ele respondeu marcando um encontro para mim no dia seguinte com um oficial da CIA. Ele chegou carregando uma pasta com memorandos e clippings de jornal. Eu examinei o material com ele: cada item simplesmente indicava que Fernando Henrique havia sido visto na presença de um “conhecido esquerdista”. Eu disse ao meu visitante que a pasta era tão somente sobre “culpado por associação” e que eu não havia visto nada que invalidasse nossa recomendação aos representantes da fundação. Eles de fato rapidamente aprovaram a doação. (Bell, 2012)

A disposição de Bell de apoiar o CEBRAP desencadeou uma intensa polêmica entre os intelectuais diante do significado político e mesmo moral que a aceitação do dinheiro dessa instituição poderia ter naquele momento, e das possíveis restrições de ordem intelectual que este tipo de vínculo poderia acarretar para os membros do Centro (Sorj, 2001:32).

Entretanto, foi a  doação que Bell aprovou  para a criação do CEBRAP (dois milhões duzentos e dezesseis dólares) que transformou o Centro numa referência na produção de conhecimentos de ponta nas diferentes ciências sociais, funcionando como fórum de debates sobre grandes  problemas nacionais e  não somente como meio para  transferência  de conceitos clássicos, como se fazia até então. Desta maneira, o Centro contribuiu para definir o papel social e político dos intelectuais, aproximando-os de públicos relativamente divergentes, como tecnocratas e reformadores modernistas, mas também  ideólogos da esquerda marxista e  apoiadores do movimento de 1964.

A Fundação amparou financeiramente o trabalhos do CEBRAP até 1976, quando a FINEP – Financiamento de Estudos e Projetos Científicos e Tecnológicos – vinculada ao Ministério do Planejamento, iniciou o processo de construção institucional das Ciências Sociais no Brasil,  iniciado pela Fundação Ford.

Boa parte dos fundadores do CEBRAP, assim como os primeiros beneficiários das doações da Fundação Ford em Minas Gerais,  fez parte do governo Fernando Henrique Cardoso, quando este foi eleito presidente da República em 1994, após a redemocratização do país.  Eles foram chamados pelo presidente a assumir o papel de principais assessores para as políticas de Estado inovadoras promovidas no período. Das reformas de que participaram sobressai a do sistema estatístico do IBGE, órgão que reúne os indicadores e as informações básicas para o governo e a população, responsável pela reorganização do impacto dos serviços sociais oferecidos pelo governo com educação básica e assistência à saúde e principalmente os benefícios da previdência social e o pagamento de pensões (Schwartzman, 2009). Foi o que possibilitou o impacto dos programas sociais públicos de redistribuição da renda implantados no período, em especial  no campo da política de enfrentamento da pobreza, lideradas por Vilmar Farias, relativas às instituições do sistema de proteção social: a elaboração da chamada “rede de proteção social do governo”, que pretendia combater a pobreza nas cidades com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Esse programa inaugurou no Brasil a política social de transferências monetárias a pessoas ou famílias de mais baixa renda, destinado a protegê-las nas distintas circunstâncias de risco e vulnerabilidade social. Os ex- beneficiários das dotações fizeram parte também da maioria dos conselhos criados, entre eles o de educação e política externa, e vários ministérios, como o da Saúde e o da Cultura, participando das reformas do Estado brasileiro, para transformá-lo em indutor do crescimento e regulamentador da economia. Enfim, essa equipe de governo foi produto de uma elite gerada por um modelo de Estado desenvolvido dentro do CEBRAP, que formou gerações de intelectuais, cientistas e técnicos de primeira grandeza. .

Ao completar seus quarenta anos em 2011, o CEBRAP contava com algo em torno de 68 pesquisadores entre sêniores, plenos e assistentes.  A criação e a consolidação de programas de pós-graduação nas universidades trouxe novas gerações ao Centro, mas como a maioria dos fundadores, estas novas gerações  também foram formadas, na sua maioria,  nos centros de pós-graduação em ciência política dos Estados Unidos, continuando a trazer de lá os novos instrumentais analíticos para enfrentar os debates mais contemporâneos sobre democracia, Estado, partidos políticos e eleições

A criação da ANPOCS: agregar os pesquisadores numa comunidade internacional

Peter Bel deixou o Brasil no final de 1969. As doações que aprovou cumpriram os objetivos da Fundação Ford, inscritos no famoso Relatório Gaither de 1950: ajustamento das atividades acadêmicas ao trabalho de militância política democrática no modelo americano, com vistas ao fortalecimento e treinamento de elites políticas para quadros executivos nacionais e internacionais, e “tomando as áreas subdesenvolvidas do mundo como foco especial” (Gaither, 1950: 52-61).  Em 1970, instituições de pesquisa em ciências sociais apoiadas pela Fundação (o Departamento de Ciência Política de Minas Gerais, o IUPERJ e o CEBRAP, bem como o programa de pós-graduação em antropologia social do Museu Nacional) já estavam funcionando bem, transformando-se em estruturas com futuro no panorama brasileiro. Mas moviam-se de forma isolada, sem discussão dos problemas de ensino e de pesquisa dos pós-graduados nas Ciências Sociais, cujos programas cresciam ano a ano como resultado da reforma universitária de 1968 (Canedo e Garcia, 2011)

A necessidade de agregar os pesquisadores numa comunidade nacional surgiu, naturalmente, dos centros privados, CEBRAP e IUPERJ, criados dentro da linha de atuação da Fundação Ford, e tomou corpo em 1978 por ocasião da criação da ANPOCS – Associação Nacional de Pós graduação em Ciências sociais (ver em anexo os primeiros documentos ligados à criação da ANPOCS com endereço do IUPERJ).

A primeira discussão sobre o assunto aconteceu durante o Seminário sobre Indicadores Sociais do Desenvolvimento Nacional na América Latina, organizado no IUPERJ, em maio de 1972, no Rio de Janeiro. Mas o esboço da redação da minuta da futura associação foi escrito por um funcionário da FINEP, Mario Brockmann Machado, ele próprio um ex-bolsista da Fundação, e distribuído no 1º Encontro Nacional de Coordenadores de Programas de Pós-graduação em Ciências Sociais, realizado no ano seguinte, em Fortaleza, o que o levou a dizer que a ANPOCS, fundada em 1978,  não foi somente um caudatário das ações dos program officers da Fundação (Machado, 1993:103).

Menos do que a dotação aprovada para a ANPOCS, o segredo da missão de exportação de conhecimentos da Fundação Ford, levada a efeito pelos seus program officers, notadamente Peter Bell, situa-se no fato deles terem sabido perceber, em cada momento histórico, qual deveria ser a prioridade, fazendo valer, antes de tudo a capacidade operacional já existente. Assim, no caso da ANPOCS, souberam exercer uma influência grande na percepção dos professores da pós-graduação no que dizia respeito à importância da ANPOCS para a divulgação de virtudes cívicas na prática do trabalho de equipe capazes de lhes assegurar o acesso à produção internacional por meio de exigências quanto à literatura sobre o tema, hipóteses orientadoras, natureza dos dados a serem coletados etc. (ANPOCS, 1991).

E essa foi a tarefa dos membros do Comitê Assessor em Ciências Sociais, organizado por Shepard Forman, para julgar auxílio à pesquisa, financiado pela Fundação nas áreas de Sociologia, Ciência Política e Antropologia. Neste concurso FORD/ANPOCS, o funcionamento do comitê levava em conta o mérito, com normas publicamente orientadas (ANPOCS, 1991). Seus membros eram escolhidos “aos olhos de pesquisadores que regularmente se encontram, discutem e formam opinião (nos GTs, nos Encontros e nas Assembleias) ”, o que  influía nos próprios parâmetros do concurso (Brandão, 1993:160-162)[8].

Membros do Comitê Assessor em Ciências Sociais (criado pela Fundação Ford) que deu origem à ANPOCS, em 1978. Da esquerda para a direita, Shepard Forman e Priscila (representante e secretária da Fundação), Otávio Velho, Sílvio Maranhão, José Murilo de Carvalho, Fábio Wanderley Reis, Klass Wortman, Ruth Cardoso e Juarez Brandão Lopes. Agachado, Boris Fausto. (foto: arquivo pessoal ) . Fonte:  Revista Ciência Hoje, 2013.. 

<http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2013/301/imagens/pensadordobrasil02.jpg/view&gt;

Para Juarez Brandão Lopes, as normas de garantia de impessoalidade, isenção do julgamento pela defesa das notas em discussão com os pares, criadas para o Comitê, foram aspectos que deram legitimidade à comissão do concurso administrado pela Fundação. Ele levava em conta o fato de que nos comitês assessores das financiadoras governamentais os julgadores são pareceristas que não se encontram e que são escolhidos pelo grupo interno dos altos funcionários. Assim, mesmo quando a Fundação Ford decidiu passar a administração do concurso de auxílio à pesquisa para a própria ANPOCS, as normas continuaram a existir.   Por meio do auxílio à pesquisa foi também assegurado o acesso a produção internacional, garantidas pelas normas do edital para o projeto de pesquisa.

José Murilo de Carvalho, presente na fotografia acima, comenta em entrevista dada a estudantes de ciências sociais que “quem opta por fazer Ciências Sociais hoje, candidata-se a fazer parte dessa comunidade sólida e pujante, que já conversa de igual para igual com os interlocutores externos e começa a fazer parte relevante de uma comunidade internacional”.  (2012)

Paro por aqui, esperando que com esse caso possa ter contribuído para uma discussão sobre a exportação e importação de conhecimentos, um fenômeno de difícil medição, inscrito em estratégias de jogo duplo, com resultados nada triviais no campo científico e na área social e política (Dezalay). Resultados que se manifestam com intervalos e reajustes institucionais que confirmam episódios mais ou menos longos de afrontamentos, tão sensíveis e controversos como aqueles revelados durante o apoio dado pela Fundação Ford à institucionalização das ciências sociais no Brasil.

Referências

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Quadro 3.- Major Ford Foundation endowments in favor of social sciences in Brazil, initiating in the years 1967 -1979

Início e  encerramento dos convênios Posição Instituições Disciplinas prioritárias Montante das dotações em US$
1969-1987 Cebrap – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – São Paulo (única instituição Política a receber endowment de US$ 750.000 em 1975 Economia, Demografia, Sociologia e Ciência Política 1.721.200
1967-1989 Iuperj – Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro Ciência Política e Sociologia 1.671.323
1968-1989 Museu Nacional/UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro Antropologia 1.283.496
1979-1989 Cedec – Centro de Estudos de Cultura Contemporânea – São Paulo Ciência Política e Sociologia 1.097.079
1978-1989 Anpocs – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais Antropologia, Sociologia e Ciência Política 922.032
1966-1984 UFMG/DCP – Universidade Federal de MinasGerais/ Departamento de Ciência Política Ciência Política 860.477
1982-1990 Fundação Carlos Chagas/São Paulo Estudos sobre mulheres 585.200
1970-1984 UFP/Pimes – Universidade Federal de Pernambuco /Programa Integrado, Mestrado em Economia e Sociologia Mestrado em Economia e Sociologia 538.782
1972-1988 UnB – Universidade Nacional de Brasília Antropologia 436.315
1967-1975 10º UFRGS/Universidade Federal do Rio Grande do Sul Ciência Política 422.311
1973-1983   Total para instituições   9.538.215  (71%)
Concursos de bolsas   1.558.145  (12%)
Demais dotações   2.296.749  (17%)
Total geral/dotações Ford   13.393.109 (100%)

Source: Ford Foundation, New York, 1988, reproduce from Miceli (1990, p. 72).

NOTAS

[1]. Fazer a relação com a criação do ITDT, em 1963,  nas palavras de Enrique Oteiza (director del Instituto): “es imperioso conocer la naturaleza de nuestros problemas y ensayar auténticas soluciones a los mismos”.

[2] O caso que exponho faz parte de uma pesquisa maior sobre a sociohistória da vida política brasileira, voltada para a observação sistemática dos usos, dos comportamentos e das representações dos atores políticos e sociais, procurando compreender, de um lado, como os indivíduos interiorizam e incorporam maneiras de pensar e agir e, de outro, que uso fazem disso em suas práticas dentro das instituições. O trabalho resulta de dois projetos temáticos conduzidos pela mesma equipe de pesquisadores ligados a universidades brasileiras, francesas e argentinas. O primeiro temático foi patrocinado por um dos acordos Brasil/França – CAPES/COFECUB – e tratou dos itinerários intelectuais dos estudantes brasileiros que se dirigiram ao exterior na busca de formação doutoral. O segundo foi financiado pela FAPESP e identificou os recursos sociais empregados pelos que vão estudar no exterior, bem como as vias internacionais percorridas por eles para rentabilizar o diploma obtido e se inserir nas transformações em curso no domínio do poder em escala globalizada.

[3] Formada no âmbito do Ministério da Fazenda, e integrada por técnicos brasileiros e norte-americanos, a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico fazia parte do plano norte-americano de assistência técnica para a América Latina, contido no Ponto IV do Programa que norteou a política externa dos Estados Unidos após a II Guerra Mundial. A finalidade era “promover o desenvolvimento econômico do Brasil, tendo em vista, particularmente, a formulação de planos de investimento destinados a vencer as deficiências em transporte e energia”. Quarenta e um minuciosos projetos foram elaborados. Além disso, a Comissão preparou um Relatório Geral em que são examinadas as tendências a longo prazo da economia brasileira. O Relatório pode ser lido em:  <http://www.centrocelsofurtado.org.br/arquivos/image/201109231638540.MD2_0_277_1.pdf>

[4] Disponível em: <http://alumninet.yale.edu/classes/yc1962/pbell0804-2.html&gt;

[5] – Tratava-se de Leonidas Xausa era professor catedrático da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).Devo a Helgio Trindade esta informação (Trindade, 2004).

[6] O Estado de Minas Gerais é conhecido por ser um viveiro de políticos de envergadura nacional. Biografias, entrevistas e crônicas literárias são algumas das fontes comumente utilizadas pelos historiadores para funcionar como princípio de avaliação do poder da elite política mineira durante o Império (1822-1889) e, em especial, sob a República: seis presidentes da República, numerosos ministros (entre os das pastas mais importantes), oito vice-presidentes da República, uma forte representação nas principais comissões de finanças e de justiça no Congresso Nacional, e as principais funções em todos os ministérios. Desde o início da Nova República, nos anos 1980, a formação política de três presidentes sobre cinco foi realizada em Minas Gerais (Canedo, 1998).

[7] Foi esta experiência que Elwyn A. Mauck levou, posteriormente,  como base para a criação de Departamentos de Administração Pública  na Nigéria, Taiwan, Coréia e na Turquia (Pittsburgh Univ. 1968:VIII).

[8]No ano de 1983, o Informe ANPOCS traz a lista completa das 38 dotações aprovadas pela Fundação para projeto de pesquisa, com nome dos aprovados, com títulos de projetos mostrando grande diversidade, e concentração de pesquisados na UFRJ, PUC/Rio, USP e UFRGS.

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4 comentários sobre “A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos

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