Herdeiros, militantes, cientistas políticos: socialização e politização dos grupos dirigentes no Brasil (1964-2010)

Publicado em: Kimi Tomizaki, Letícia Canêdo e Afrânio Garcia (orgs.). Estratégias educativas das elites brasileiras na era da globalização. São Paulo, Hucitec, 2013.

 

Com base em elementos marcantes encontrados na ascensão dos políticos mineiros ao poder – parte de uma longa história familiar na política de Minas Gerais[1] -, este artigo trata de estudantes mineiros que militaram nas décadas de 1960 e 1970 e que recentemente ascenderam a, ou conquistaram pelo voto, altos postos da República. Mas, diferentemente dos “herdeiros políticos”, que tiveram nas famílias um local de transmissão das competências – e também do sentimento de ter “vocação” para a política -, esses novos atores adquiriram a predisposição para a “defesa de uma causa política” no ambiente escolar, nos movimentos trotskistas e católicos e também na luta armada contra o governo militar.

O artigo faz parte de uma pesquisa mais ampla sendo realizada sobre a sócio história da vida política brasileira e voltada para a observação sistemática dos usos, dos comportamentos e das representações dos atores políticos e sociais, procurando compreender como, de um lado, os indivíduos interiorizam e incorporam as maneiras de pensar e agir; de outro lado, que uso fazem disso nas suas práticas dentro das instituições.

Sendo assim, a emergência desse novo grupo na política é mostrada neste artigo a partir da hipótese de que é o modelo de socialização política original que o distingue do grupo dos herdeiros e explica os recursos materiais e simbólicos distintos que ele investe na política.

Por sua vez, o caráter peculiar da aquisição desses recursos e das competências políticas – indissociável de engajamento militante dessemelhante em duas conjunturas históricas precisas – justifica a separação dos ex-militantes mineiros em dois conjuntos geracionais distintos[2]: o primeiro correspondendo aos que viveram os acontecimentos que levaram ao golpe de Estado de 1964 dentro de uma mesma classe de idade e de uma história escolar comum de sucesso em Belo Horizonte; o segundo, demarcado pelos efeitos do AI-5 de 13 de dezembro de 1968 que os expulsou da escola, com menos de vinte anos, e os levou a viver experiências extremas.

O artigo, fundamentado em base de dados prosopográfica construída progressivamente[3], está dividido em três partes. A primeira – apoiada na comparação dos modos diversificados de adquirir predisposição para a atividade política e no confronto das trajetórias escolares -, está voltada para a análise das “barreiras à entrada” a uma carreira profissional na política enfrentada por estudantes de origem social e intelectual bem diferente dos herdeiros políticos de Minas Gerais e, por conseguinte, do drástico investimento feito por uma parte deles para tentar subverter as regras e as modalidades da organização do campo político.

A segunda parte trata de duas dinâmicas que contribuíram para que os nomeados de primeira geração delimitassem e requalificassem seus objetivos, possibilitando-os transferir suas práticas militantes para o conjunto das organizações políticas. Em primeiro lugar, a interação da Igreja Católica latino-americana com a sociedade civil durante no período da ditadura militar e durante a abertura democrática (Della Cava, 1992; Ferreira, 2010), que foi chave para a requalificação dos objetivos dos estudantes católicos que tiveram contato com o trabalho de organizações católicas no exílio e puderam mobilizar recursos da CNBB para criação de ONGS; em segundo lugar, as estratégias hegemônicas das grandes fundações filantrópicas americanas durante a guerra fria, em especial as da Fundação Ford e suas práticas de recrutamento de estudantes de países limítrofes a este conflito para estudar ciência política nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, os recrutados tiveram condições substantivas para reavaliar os modos de pensar a vida política nacional, engajando-se na modernização dos dispositivos de Estado e das competências de governo (Canedo, 2009).

A terceira parte trata da requalificação dos ex-militantes mineiros da luta armada (nomeados segunda geração) dentro das formas institucionalizadas da política. Em razão do endurecimento do regime militar (prisão, tortura, morte, etc.), eles não se beneficiaram da circulação pelas potências democráticas e, diferentemente do grupo anterior, atuam em partido político, o Partido dos Trabalhadores (PT), que ajudaram a criar. No Governo, eleitos pelo PT, fortalecem suas posições no jogo político, em que pese as contradições entre o que aguardavam a partir da prática militante anterior e os novos conhecimentos e experiências com que se defrontam na aprendizagem das regras, ritos e savoir-faire requerido pelas formas políticas instituídas (Lefebvre, 2010: 219-247).

Por meio da trajetória dos militantes, chamo a atenção para a maneira como as habilidades conferidas pela militância (valorização do trabalho ideológico, domínio do aparelho e uma concepção tática da política), como as competências importadas do exterior (via doutorados completados em universidades dos Estados Unidos e via modos de condutas adquiridos em ações vinculadas a organizações internacionais durante exílio) foram requalificadas na prática política, sem renúncia a qualquer uma delas[4].

O artigo testemunha meu interesse em refletir sobre os caminhos, no mais das vezes improváveis, pelos quais homens e mulheres, dotados de percepções diferentes e contraditórias, se apropriam, por meio de práticas e usos diversos, de responsabilidades políticas que acreditam “dever” assumir. Tem por objetivo pensar a politização sem reduzi-la à difusão ou à ingestão de categorias universais vindas do alto; considerá-la resultado de práticas e crenças de atores sociais que, conscientemente, ou não, episodicamente ou de maneira contínua, contribuem para produzir transformações na instituição política (Lagroye, 2003; Offerlé, 2007).

 

 

Transmissão de poder e enquadramento moral em “grandes famílias”

 

Quanto ao meu ingresso na vida pública, o início se deu da seguinte forma: meu tio Paulo Campos e o Magalhães Pinto [governador de Minas Gerais] resolveram que eu deveria ser deputado no lugar dele, Paulo, já que o Magalhães havia lhe dado o cartório. Naquela época, quando você ganhava cartório, de imediato não podia tirar licença, só depois. Eles me elegeram deputado, eu não tinha voto. Uma pessoa com vinte e quatro anos de idade não pode ter voto, já que não era líder classista e havia saído da Faculdade de Direito recentemente.[5]

 

A escolha de Benedito [Valadares] foi feita por razões familiares. A irmã de D. Odete, sua mulher, era casada com Ernesto Dornelles, que era primo de Getulio Vargas e que ocupava postos importantes aqui em Minas. Ovídio de Abreu costumava dizer que a política mineira era feita com os laços familiares. Carlos Luz deu todo o apoio ao Milton Campos, em 1947, porque foi casado, em primeiras núpcias, com uma irmã de dona Déia, mulher do Milton. O Tancredo tinha uma tia que foi casada com um irmão do Ernesto Dornelles. O Zequinha Bonifácio e o Bias Fortes eram concunhados, assim como Juscelino Kubitschek e Gabriel Passos.[6]

 

Os depoimentos dos dois herdeiros políticos acima fazem uma síntese das condições políticas e sociais a que os interessados em galgar os postos eletivos e os da hierarquia dos partidos políticos existentes em Minas Gerais, ou mesmo da alta administração pública, estavam submetidos até os anos 1990. Eles evidenciam o monopólio de fato dos postos eletivos, “reserva de caça” dos grandes grupos familiares desse estado da federação. Explicitam, ainda, o montante de capital de relações sociais e políticas necessárias para assegurar um lugar entre as «raposas mineiras”.

O montante de relações sociais, expresso pelos depoentes acima num conjunto complexo de laços matrimoniais, se realizava fazendo vingar o “espírito de família”, gerador dos devotamentos, das generosidades, das solidariedades, e era mantido pelas mulheres, sujeito e objeto da história dessas famílias. Cabia a elas a introdução de talentos políticos masculinos na linhagem familiar por meio dos casamentos, ou aceitar, se necessário, o celibato; cuidar dos convites para festas familiares; receber as visitas, comparecer às festas de batizado e de aniversário, etc. Esta atividade realizada por mães, filhas, irmãs e afilhadas chama a atenção pela “disponibilidade” com que era operada e está associada à crença no poder político masculino articulado às competências políticas e tecno-burocráticas (Canêdo 1998).

O investimento social e político efetuado por meio dos casamentos era o que atava os herdeiros nos laços familiares e garantia a presença de pais, filhos, maridos, sobrinhos e primos nos altos cargos políticos como eleitos, ou como técnicos na administração pública. A competência parlamentar era adquirida muito cedo junto a gabinete de deputados (condução dos procedimentos, conhecimento dos regulamentos, etc); obtinham as demais práticas nos gabinetes de secretários estaduais, nas ante-salas do governo do estado, nas dos ministérios e da presidência da República, nos cargos de confiança dentro das agências estatais. Dessa maneira as grandes famílias asseguravam o controle dos cargos e dos organismos administrativos federais, estaduais e municipais, confirmando sua posição famílias como mediadoras entre os órgãos das administrações e os eleitores, perpetuando as relações de clientela pela distribuição, ou promessa de distribuição, de bens públicos aos eleitores, tanto no que concerne a empregos, favores, postos administrativos, encaminhamentos para médicos, etc., quanto a políticas públicas[7]

Por meio da gestão familiar da escola, os conhecimentos necessários para os diversos momentos da vida política e social eram reunidos dentro do grupo e ao mesmo tempo, reagrupados dentro das agências de governo (Canedo, 2002). Os diplomas das Faculdades de Direito e das Faculdades de Engenharia, por exemplo, forneceram a estes grupos familiares o núcleo hegemônico dos conhecimentos e habilidades necessárias ao Estado durante o período desenvolvimentista. Ao mesmo tempo, as escolas superiores eram os locais onde os parentes distantes se reconheciam e mantinham relações voltadas para a expansão do poder da parentela (Canedo, 1993).

Sob este aspecto, os políticos mineiros conheceram uma homogeneidade notável dentro da sua diversidade, na qual a escola de Direito em Minas Gerais, a Escola de Engenharia do Rio de Janeiro e os belos casamentos representaram papéis importante no processo de legitimação e de gestão dos compromissos passados entre as diferentes facções das elites. As relações sociais materializadas nessas escolas de prestígio garantiam o direito de entrada na carreira política pela via dos partidos políticos (partido Liberal ou Conservador, no Império; UDN ou PSD no período 1945-1965, etc.) pelos quais todos eram regularmente eleitos aos mais altos cargos da Federação, e nos quais se mantiveram fiéis. Era o que lhes propiciava, cada qual em seu partido, um universo comum de referências, a partir do qual os grupos familiares orientavam e avaliavam suas práticas, assentadas na lógica das obrigações pessoais recíprocas nos termos de amizade, de fidelidade[8].

A partir dos anos 1970, o aumento das demandas de serviços e equipamentos sociais nas cidades médias e nas grandes capitais ampliou o raio de ação desses grupos familiares, mantendo-os no mercado político (Hagopian, 1996). Isto porque os militares, no processo de consolidação da hegemonia financeira da União, fizeram proliferar as agências responsáveis pelas transferências de recursos para os programas especiais surgidos para municípios demandantes. (Castro, 1987). Valendo-se dos tipos de bens e tecnologias que detinham para o funcionamento desses programas (projetos de planejamento urbano, saneamento básico, infra-estrutura de rios portos e canais, etc.), os membros dessas grandes famílias foram cada vez mais encaminhados para o interior das agências estatais ao mesmo tempo em que propiciavam aos municípios controlados por suas famílias a modernização necessária para lhes preservar as posições políticas. Como se sabe, o regime militar, em meio a toda sorte de casuísmo, se sustentou com base nas eleições proporcionais que não foram suspensas.

O senso prático das estratégias educativas dessas famílias (Bourdieu, 1980), que permite a interiorização da capacidade de se adaptar a novos tempos, pode ser vista, ainda, na presença de alguns de seus membros em altos postos dos anos posteriores ao governo militar: os principais responsáveis pelos planos cruzado e real, Edmar Bacha e André Lara Resende, pertencem a essas grandes famílias mineiras[9].

Nessas condições, era pequena, ou quase nula, a chance efetiva dos descendentes de imigrantes, dos oriundos do baixo funcionalismo público, do comércio ou de ofícios, como alfaiate, assim como os membros de famílias decadentes da grande propriedade do café, conseguirem alcançar os altos postos político de Minas Gerais e, por meio deles, os postos elevados do governo federal. Nessa camada média da sociedade belo-horizontina, onde a maioria fortemente católica convivia com poucos protestantes e judeus, situavam-se os militantes dos anos 1960 numa Minas Gerais afastada dos grandes centros culturais do país, São Paulo e Rio de Janeiro, mas, ao mesmo tempo, segundo colégio eleitoral e local em que sete presidentes da República se socializaram[10]. Apesar das “barreiras não visíveis” que tornavam altamente improvável o ingresso de sucesso na política de jovens originários de circuito exterior às “grande famílias”, é  dessa camada social  que saem os importantes atores da reestruturação do espaço político brasileiro dos anos posteriores ao regime militar.

A sociologia dos campos de Pierre Bourdieu evidenciou o papel desempenhado pelos atores dominados e suas capacidades para subverter as regras que não os beneficiam (Bourdieu, 1985), trazendo novas reflexões sobre a problemática das condições de possibilidade da ação política e dos seus limites, em especial ao sublinhar que uma das propriedades dos campos é a relação de forças e como tal é um campo de luta para transformar essas relações de força (Bourdieu, 2000, p.61). A análise da entrada de novos pretendentes no campo político – com características sociais e intelectuais diversas dos grupos dirigentes tradicionais – foi feita a partir dessas reflexões. E exigiu conhecimento deles no que diz respeito ao enquadramento moral, objetivos iniciais atribuídos à suas ações militantes (culturais, religiosos, luta contra a ditadura, etc.). O que assegurou a alguns, e não a outros, nos momentos posteriores ao regime militar (anos 1990), a força necessária para agir, com sucesso, nas modificações das regras de funcionamento do campo político e de suas relações de força? Como se passa de um engajamento militante que se inscreve na perspectiva da revolução social e do radicalismo (luta armada contra a ditadura) para ação dentro de organizações políticas legitimadas?

 

O enquadramento moral de novos quadros políticos

Eu sou da América do Sul
Eu sei, vocês não vão saber
Mas agora eu sou cowboy
Sou do ouro eu sou vocês
Sou do mundo, sou Minas Gerais.

Para Lennon e MacCartney
(Lô Borges, Marcio Borges e Fernando Brandt)

 

Diferentemente dos herdeiros políticos mineiros, a Escola e a Igreja foram mais decisivas no trabalho de socialização política dos militantes dos anos 1960 do que a família. É o que a liderança estudantil que viveu o golpe político em 1964 tem em comum com a que foi alvo do AI-5, em 1968: o enquadramento moral realizados dentro da instituição escolar e dos movimentos estudantis, seja marxista ou católico. Donde o meu interesse em seguir a lógica prática que guiou os esforços e os investimentos pessoais desses ex-militantes dentro de duas escolas de primeira linha de Belo Horizonte, qual seja, o Colégio Estadual Central e a Faculdade de Ciências Econômicas da UMG.

Estas duas escolas – que serão representadas aqui como casos limite desta socialização política – se constituíam, na época em estudo, não só em viveiro de militantes, como também num lugar de acumulação de fatores contraditórios derivados da super seleção escolar. Para nelas entrar, e nelas permanecer, havia que se submeter a exames muito rígidos, muito seletivos, que diferenciavam grupos (bolsistas x não bolsistas; pessoal do teatro e da crítica de cinema x grupo cristão; grupo cristão x grupo marxista, etc.), e criava animosidades.

 

Quadro I –  O Colégio Estadual Central [11]

Situado num prédio que “flutuava alegre e solto em um grande espaço sem muros” (Vianna, 2003, p. 23), o Colégio Central, nome pelo qual era conhecido, foi projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1958, visando à ampliação dos estudos de outras camadas sociais fora da elite social e política tradicional e a promoção da idéia de ascensão social pela meritocracia. A edificação, projetada a pedido de Juscelino Kubitschek, então governador do Estado, alude, de maneira inigualável, a objetos de uso comum na vida escolar: a caixa d’água lembra um giz, as salas de aula uma régua “T”, a cantina tem o formato de uma borracha e o auditório, de um mata borrão. Foi neste colégio que os integrantes do Clube da Esquina fizeram seu primeiro contato. Aí estudaram Fernando Brant, Mauro Borges, Lô Borges, Beto Guedes, sem deixar de mencionar também, entre outros célebres personagens, o Henfil, cartunista, e seu não menos famoso irmão Herbert de Souza, o Betinho. Foi neste colégio também que frei Mateus fundou a JEC, dirigindo a Ação Católica brasileira para práticas sociais concretas e criando aí o núcleo dos militantes católicos que atuaram nos anos 1960-1970 contra o regime de exceção. Mas a escola congregava todos os credos, reunia protestantes, judeus, etc. que em outro local não teriam espaço garantido. Dilma Roussef (atual Presidente da República) declarou numa entrevista publicada em revista (IstoÉ,14/12/05) que foi esta escola de BH que a tornou subversiva: “nela eu percebi que o mundo não foi feito para debutantes”. Por meio do grêmio, do jornal do colégio (A INÚBIA), dos festivais de música, da ação de Frei Mateus e dos grupos de dissidência do Partido Comunista, uma fração destes secundaristas aprendeu a fazer política, terminando, mais tarde por contribuir para outra definição de “excelência” em política.

Até a década de 1970, o colégio possuía a estrutura de uma universidade, com reitores indicados pelo governador, e os professores como catedráticos. A escola era o núcleo das demais escolas estaduais da cidade, daí a denominação Central. Na década de 1970, as unidades se tornaram escolas independentes. O nome atual de “Escola Estadual Governador Milton Campos” é recente, de 1978, isto é após a reforma do ensino secundário (DL5692).

 

Quadro II

Faculdade de Ciências Econômicas da UMG

 

A Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Minas Gerais – FACE -foi fundada em 1941 como entidade privada. Dela participaram tanto representantes do empresariado financeiro mineiro quanto das associações patronais (Federação das Indústrias e Comércio), tendo um corpo de professores de nomes conhecidos nacionalmente, como Lucas Lopes e José de Magalhães Pinto. Em 1948 foi incorporada à Universidade Federal de Minas Gerais. A Faculdade foi criada para assegurar a modernização do estado de Minas Gerais face ao Rio de Janeiro e a São Paulo (Arruda, 2004). A intenção manifesta era formar a elite da burocracia pública, daí o peso dos cursos de Política, Administração e Economia, num equilíbrio curricular totalmente distinto do modelo dominante, centrado na Sociologia e voltado essencialmente para a formação de professores secundários (Forjaz, 1997).

Nos anos 1950 sofreu uma série de inovações importantes, entre elas a implantação do sistema de bolsas de estudos, que contemplava os melhores alunos, selecionados após provas consideradas muito difíceis, a adoção do regime de tempo integral para o corpo docente e discente, a criação de revistas que veiculavam temas importantes da realidade brasileira. O programa escolar, longe da realidade agrária da economia mineira, estava de acordo com os planos políticos de formação de um profissional que se tornava necessário no plano nacional numa época em que o país dava os primeiros passos para um planejamento da economia nacional. De fato, os cursos de Política, Administração e Economia ministrados na Faculdade de Ciências Econômicas de Minas Gerais propiciaram aos alunos alto grau de profissionalização acadêmica e convívio universitário, sendo que a referência ao sistema de bolsas e a consciência de constituírem uma “elite acadêmica” está sempre presente no depoimento dos ex-alunos.

Se o enquadramento moral foi comum para os estudantes dessas duas escolas, o período do engajamento e as razões que determinaram a ação militante correspondem a etapas diferentes do movimento contra a ditadura. Estes aspectos bem observados deixaram ver dois conjuntos geracionais distintos.

O primeiro grupo dos militantes objeto desse estudo saiu das turmas do curso de sociologia e política inserido na Faculdade de Ciências Econômicas – FACE -, no período entre 1959 e 1964. O golpe militar de 1964 o encontrou organizado em torno da POLOP (Política Operária) – o braço antistalinista e trotskista do movimento estudantil – e da AP (Ação Popular) – com origem na JEC (Juventude Estudantil Católica) e JUC (Juventude Universitária Católica) da Ação Católica. Possuíam entre 22 e 24 anos quando foram perseguidos pelo governo militar e grande parte se exilou em países latino-americano, no Canadá e na Bélgica, com apoio da Igreja Católica. Uma fração importante, entretanto, foi recrutada pela Fundação Ford para estudar ciência política e economia nos Estados Unidos.

O segundo conjunto viveu os anos mais duros da ditadura militar que a encontrou, em 1968, no Colégio Estadual Central e nos primeiros anos dos cursos de Economia da FACE e de medicina da UMG, militando na JEC, na AP e na POLOP. Eram mais jovens que os da primeira geração. Tinham entre 17 e 22 anos quando foram presos, torturados e alguns, assassinados. Não tiveram tempo para terminar os estudos. Os que sobreviveram somente os terminaram nos anos 1980, após a anistia aos presos políticos. Dessa maneira, não se doutoraram nos Estados Unidos, como o grupo anterior. Os que foram exilados viveram na Argélia, em Cuba, em países de língua portuguesa na África.

Mas o que chama mais a atenção nos dois conjuntos geracionais é a maneira como todo um repertório político militante, frequentemente ideológico, foi requalificado nos anos 1990, durante a reestruturação das instituições políticas que esses mineiros, ex-alunos do Colégio Estadual Central e da FACE, ajudaram a arquitetar com a saída dos militares. Trata-se de uma reconversão bastante coerente com os percursos desenvolvidos. O doutoramento em ciências políticas em universidades americanas, por exemplo, propiciou aos estudantes considerados “brilhantes” na FACE a possibilidade de assessorar associações e organizações nacionais ou internacionais (Canedo, 2009) onde são geradas influências normativas de grande importância, em especial no campo das políticas públicas. O percurso pelo exílio, com apoio da Igreja Católica, levou os ex-militantes cristãos à criação, no Brasil, das importantes ONGS apoiadas pela CNBB, e aos movimentos para criação de associações humanitárias, movimentos anti-globalização, sem falar na introdução, no Brasil, de categorias novas de mobilização (anti-Aids, contra fome, etc.). O percurso pelo SUL-SUL percorrido pela segunda geração levou a ações voltadas ao fortalecimento do sindicalismo do setor público, o qual se transformou na via de acesso de professores (escolas públicas) e bancários (bancos estatais) às organizações políticas. Donde veio o meu interesse em conhecer as propriedades sociais dessas duas gerações de líderes estudantis dentro da continuidade de percurso.

 

A primeira geração de militantes: uma elite cosmopolita

 

Eu acho que é a consciência de que, se você está numa província economicamente frágil, se você intelectualmente se torna provinciano, aí você entra numa escala exponencial. Aí você eleva tudo à potência décima, não é? Então justamente a consciência de que era uma periferia econômica tornava indispensável a vocação cosmopolita.

Bolivar Lamounier  (Arruda, 1989:256)

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Herbert de Souza, o Betinho, resumiu o tempo da sua geração como um tempo “que matava Getúlio, inaugurava Juscelino e prenunciava Jânio”. Na verdade, o tempo em que o diagnóstico realizado pela comissão Mista Brasil/Estados Unidos, entre 1951-1953, foi posto em prática pelo governo desenvolvimentista Juscelino com intuito de remover os obstáculos que se interpunham na superação do atraso brasileiro em relação aos países desenvolvidos, conforme divulgado a partir das “etapas do desenvolvimento econômico”, concepção desenvolvida por Walter Rostow (1960) que fazia sucesso no meio governamental dos países ocidentais.

Nada surpreendente constatar, portanto, que, no cômputo geral das propriedades sociais da liderança estudantil que viveu este tempo, o que sobressai é a homogeneidade do grupo dada por um projeto familiar de ascensão social pela formação escolar. O tempo de Juscelino apontava o investimento intelectual como caminho para superação da diferença existente entre a oportunidade que os pais tiveram e a que muitos deles visualizavam para os filhos. Um projeto que se distinguia, portanto, daquele que orientava a formação dos “herdeiros”, que estava mais voltado para a valorização do capital social (rede durável e vasta de relações de parentela) e simbólico (nome da família, ligações com a alta direção política, etc.) do que para o investimento intelectual.

Esse projeto, entretanto, implicava em deslocamentos fortes, tendo em vista o fato de que, na sua maioria, estes estudantes constituíam a primeira geração com curso superior na família. O primeiro deslocamento foi, portanto, moral, com o abandono lento do mundo da família e de seus interesses. Inicialmente, isto ocorreu em função do isolamento exigido para os rituais das provas e exames necessários a entrada nas escolas de prestígio. Ele se aprofundou com as exigências ligadas às bolsas de estudos concedidas aos melhores estudantes da Faculdade de Ciências Econômicas, as discussões intelectuais incessantes com os professores que passaram a frequentar, o estímulo à escrita em jornais, as atividades políticas, etc. Estas atividades eram, naturalmente, compreendidas com dificuldade pela geração de seus pais, e podiam até serem vistas como falha de motivação ou preguiça, conforme explica Simon Schwartzman, um dos fundadores da POLOP:

 

Meu pai sempre achava que eu desisti da engenharia porque eu era preguiçoso, não queria trabalhar, estudar para o concurso, estudar matemática. Ele não entendeu o que eu estava fazendo. Quer dizer, ninguém sabia o que era isso. Realmente, era um aventura, porque… Era uma coisa que parecia interessante, mas… O que é que é isso? Que profissão é essa? Para que é que serve?  Ninguém tinha idéia.

(S. Simon Schwartzman,  2009)

 

Os estudantes se distinguiam por meio dessas atividades. Havia “o curso regular e a elite do curso que eram os alunos bolsistas, mais os professores jovens de tempo integral”, relatou o cientista político Otávio Cintra, um desses bolsistas, também demonstrando a progressiva inclusão dos bolsistas em círculos de sociabilidade ligada à uma militância cada vez mais exigente:

Essa integração [com os professores] era sobretudo no sistema de horário integral. Depois que acabava a parte da manhã, que eram as aulas, aí havia toda essa parte da tarde de intenso estudo, intensa conversa, produção, porque tanto os professores, como também os alunos, escreviam em jornal.[…] fazíamos crítica de livros, escrevíamos críticas de assuntos culturais e havia outros gruppos também que escreviam, mas um peso grande era da nossa turma de Ciências Econômicas […]. Então, eram alunos assim, atípicos, porque a gente tinha muita atividade, além da participação política no movimento católico, movimentos marxistas, depois a UNE.

(Cf. Arruda, 1989: 259)

A grande tensão vivida pelos estudantes dentro desta escola, onde o superinvestimento intelectual parecia não ajudar a vislumbrar um futuro claro nesta sociedade de oligarcas, foi expresso por uma das grandes lideranças do grupo católico – José Herbert de Souza -, como conflito entre duas visões de encaminhamento político existentes no interior do movimento estudantil, mas que assinala também a concorrência intelectual intensa que os levou a convergir para o marxismo:

A tensão, que se manifestou na JUC, era a divergência com o grupo marxista. Ali, no mesmo edifício da Faculdade de Ciências Econômicas, onde estavam os fundadores da Ação Popular, estavam também os fundadores da POLOP. Teotônio dos Santos Júnior, Simon Schwartzman, etc. Era o conflito entre cristãos e marxistas, que, de alguma forma, levou o grupo cristão a estudar marxismo. Eu não li primeiro Marx, li sobre Marx através de um jesuíta. Mas Teotônio (dos Santos) e os outros já estavam lendo direto Marx. O nosso grupo nasceu e teve que debater com os novos marxistas, com o Partidão, com este grupo cultural [grupo da música e do cinema) que infernizava a nossa vida e com a Igreja tradicional.

(Herbert souza, 1991)

 

Na verdade, como também demonstra o artigo de Nicolas Guilhot sobre os neoconservadores americanos (2006, p. 153-173), a tensão se situava no fato de eles serem representativos de uma seleção ao mesmo tempo escolar e política muito mais rigorosa do que aquela dos herdeiros das famílias tradicionais. Estes faziam carreira em virtude de sua inteligência e de sua capacidade, sem dúvida, mas também fazia parte do processo a disponibilidade e o desembaraço social que os levava a aparecer nos escritórios de parentes e velhos amigos da família a partir de um simples chamado telefônico para emprego. Já os estudantes da Faculdade de Economia pertenciam a um grupo de estudantes que superaram os rigorosos exames de entrada nas escolas públicas seletivas, possuindo, pois, um capital intelectual fruto de um extraordinário investimento feito ao longo dos anos. Mas este capital adquirido se constituía numa parte dominada quando posto, simbolicamente, em relação ao dos herdeiros, pois tanto o colégio Estadual Central quanto a Faculdade de Ciências Econômicas eram escolas, na época, afastadas do circuito social e político frequentado pelas grandes famílias mineiras. Esta diferença no tipo de capital escolar ajuda a compreender a prática política dos atores dominados no interior dessas escolas e suas capacidades de subverter as regras que não os beneficiavam.

A prática da liderança estudantil radical derivava, em parte, da organização da JEC dentro do Colégio Central onde grande parte dessa liderança estudou. O dominicano frei Mateus aí conclamava adolescentes masculinos e femininos, católicos de classe média, a fundar um novo tipo de cristianismo, no qual eles seriam os responsáveis pelo futuro[12]: “Jovem que não quer transformar o mundo é como um burguês que sonha em morrer velho e gordo, dentro de uma banheira de água morna” (Fraga, 2003, p.69), dizia frei Mateus impressionando uma platéia de adolescentes católicos sensíveis. Competindo com colegas “marxistas” que criaram a POLOP – compostos na sua maioria por judeus e protestantes -, o grupo de ação política católica também pregava a transformação da sociedade oligárquica que lhes turvava o horizonte.

A militância do grupo estudantil era em tempo integral. No dizer de Betinho, “o sujeito se engajava na luta com a alma, o corpo, com a vida, com a morte”. A identificação muito grande com os pobres, com os dominados, com a desgraça, de matriz judaico-cristã, se juntava aí a uma missão tornada necessária pelas experiências pessoais de participação em acontecimentos específicos ao longo da vida escolar. O deslocamento da norma política oficial sintetizava, para eles, a busca de uma gramática política nova, que transformava a militância numa exigência: “Cultivávamos uma religiosidade muito politizada no sentido de uma sociedade justa, como uma visão anticapitalista e socialista, e a comunhão entendida como comunidade, enfim, muita coisa que não se comparava com a tradição predominante” (GONTIJO, 1989, p. 57).

Muitos proveitos foram retirados da passagem por essas escolas nos anos que antecederam o golpe de Estado de 1964. Sem dúvida, tais proveitos estiveram à altura dos sacrifícios consentidos. Uma parte conseguiu bolsa para a FLACSO – Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), que havia sido criada em 1957, no Chile, sob os auspícios da UNESCO. Na volta assumiram cargos de professores no próprio curso de Ciências Sociais onde haviam se formado. Outros, na porta de saída da Faculdade encontraram empregos na burocracia federal, que foram avocados como lutas culturais e políticas herdadas da militância estudantil: atribuíram-se, desde cedo, a formulação e a coordenação ideológica de muitos programas do governo João Goulart. Entre eles, os do Ministério da Educação, na gestão de Paulo de Tarso, o qual teve Betinho como chefe de sua assessoria.

A repressão política desencadeada após golpe de 1964 os afetou de maneira diferente.

A grande maioria dos militantes da AP se exilou. O exílio lhes proporcionou a convivência com democracias representativas consolidadas do mundo ocidental desenvolvido, em especial a do Canadá. Voto distrital, contato estreito entre o parlamentar e sua comunidade, participação intensa da sociedade civil organizada etc. impressionaram muito o grupo católico que no Canadá atuou menos na universidade e muito mais na descoberta das organizações não governamentais e sua atuação por meio do Conselho Mundial de Igrejas. Ao acompanhar a chegada dos microcomputadores às universidades canadenses,   puderam observar o crescimento das redes de informação e o potencial transformador da tecnologia. É o que explica o interesse que demonstraram, no retorno ao Brasil, pelo trabalho com o envolvimento da comunidade na discussão de políticas públicas, como faziam alguns institutos que conheceram no exílio, e o esforço empregado no lançamento do primeiro sistema de informações destinado às organizações da sociedade civil na América Latina, o AlterNex (Carvalho, 2006: 111-117). Para tal, evitaram os partidos políticos e o trabalho no governo. O caso típico de bandeira homologada fora das fronteiras do Brasil é a criação do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, o IBASE, em 1981[13], gestado no Canadá junto a Latin America Research Unit e o Conselho Mundial de Igrejas (Carvalho, 2006). A criação do IBASE foi o primeiro passo para a articulação da sociedade civil com empresas públicas que pudessem pensar a problemática da FOME no Brasil, o que contribuiu para dar origem a uma série de ações governamentais na área social, que vem se desdobrando em programas de eliminação da miséria. Em suma, emprestaram sua experiência militante, com apoio da Igreja Católica, na organização da sociedade civil, na difusão da informação, pugnando pela democratização do acesso aos computadores e às suas redes de comunicação (Carvalho, 2006). Não por coincidência, desde o final dos anos 1970, a CNBB vinha elaborando sua política em relação aos meios de comunicação, e propugnava para tal a colaboração entre a Igreja e os meios de comunicação leigos (Della Cava e Montero, 1991: 30-42).

Os que vivenciaram o sistema de bolsas por mérito na Faculdade de Ciências Econômicas, com a consciência de constituírem “uma elite acadêmica”, ampliaram uma internacionalização iniciada com bolsa de estudos na FLACSO. Com as bolsas de estudos doadas pela Fundação Ford, se doutoraram em ciência política nas universidades americanas (Harvard, Michigan, Stanford, Cornell). No final dos anos 1970, investiram seu capital militante, inicialmente, no campo das ciências sociais brasileiras, buscando o reconhecimento de sua competência e sua autoridade intelectual em matéria de análise dos fenômenos políticos. Introduziram, assim, a ciência política no interior do ensino superior, nos centros de pesquisas, nas instituições de Estado e nos mercados de expertises, dando origem a novos modelos de interpretação da realidade nacional.

Com o contínuo apoio da Fundação Ford, que financiava trabalhos de pesquisadores neo-marxistas nos Estados Unidos e na América Latina (Guilhot,2006), contribuíram para a criação dos programas pioneiros de pós-graduação em política no IUPERJ, de onde se originou a revista Dados – Revista de Ciências Sociais. Contribuíram, ainda, para a criação da ANPOCS, em 1977, onde trabalharam ativamente na criação de Grupos de Trabalho sobre partidos, comportamento eleitoral, problemas de institucionalização política, inovando os estudos sobre autoritarismo e desigualdade social, tema das teses que defenderam nos Estados Unidos. Como parte do grupo de intelectuais que assumiu ao poder nos anos 1990, eles se transformaram nos principais assessores para as políticas de Estado promovidas no período. Das reformas de que participaram sobressai as do sistema estatístico do IBGE, órgão que reúne os indicadores e as informações básicas para o governo e a população, responsável pela reorganização do impacto dos serviços sociais oferecidos pelo governo com educação básica e assistência à saúde e principalmente os benefícios da previdência social e o pagamento de pensões (Schwartzman, 2009).  Chama a atenção também a elaboração da chamada “rede de proteção social do governo”, que pretendia, sob a coordenação de Vilmar Farias, combater a pobreza nas cidades com pequeno Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)[14], e deu início às profundas  transformações nas políticas sociais brasileiras, parte dos Plano de Combate à Fome e a Miséria, do Conselho Nacional de Segurança Alimentar – CONSEA, e Lei nº 8.742, Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS.

Melhor dizendo, enquanto os ex-estudantes da FACE que receberam bolsa da Ford, no regresso ao Brasil, emprestaram sua experiência militante na área acadêmica e na de governo, os que se exilaram com apoio da Igreja Católica a emprestaram na área da organização da sociedade civil. Tendo em vista a revolução tecnológica acontecendo no mundo, não é surpreendente o fato de os dois grupos terem pugnados pela difusão da informação, democratização do acesso aos computadores e às suas redes de comunicação.

Embora os destinos desses ex-militantes tenham sido diferentes, relacionados a identificações políticas e redes de relações diferentes (católicos, judeus, experiência acadêmica, em ONGS,nas reformas de Estado etc.), os distintos  caminhos não impedem que sejam colocados num mesmo conjunto geracional, que o arguto Betinho explicou como funciona na prática à partir do seu grupo de formação católica:

Queiramos ou não, nós somos de uma geração. Nós temos condição de pegar o telefone e chamar um ao outro, coisa que eu não tenho condições de fazer com outras pessoas. Apesar de todas as diferenças, isso cria um clima. Por exemplo, eu sou incapaz de ter raiva do Serra (foi líder da AP), eu tenho “pininba” com ele que é diferente, raiva eu não tenho.

(Entrevista Roda Viva – 1996)


A segunda geração de militantes

Eu não comecei a fazer política por razões teóricas. Foi por me sentir profundamente incomodada com a violência, com a fome. Só isso. Jamais tive a intenção de fazer história. Só ficava incomodadíssima com a miséria, como fico até hoje. A questão do sofrimento humano sanável. Mas a interferência direta para a mudança, isso eu acho que terminou para a maioria de nós.

Maria do Carmo Brito – ex-aluna do Estadual Central e da FACE. Militante na JEC, na POLOP, no COLINA e fez parte da direção da VPR. Esteve exilada no Chile, no Panamá, em Angola e Portugal (Vianna, 2003.)

 

Como a Maria do Carmo, os estudantes do segundo conjunto geracional tinham entre 16-20 anos quando o AI-5 de dezembro de 1968 cortou suas esperanças relativas à “interferência direta para a mudança” ou mesmo de chegar a obter um diploma. Uma parte desse conjunto, entretanto, à diferença de Maria do Carmo, atua, ainda, na mudança, mas, desta vez, dentro do campo político, no governo Dilma Roussef, engendrando políticas públicas a partir do palácio do Planalto, em nome de um partido político fundado no final do regime militar, o PT.

Uma série de diferenças distancia este grupo dos anteriores. Além da ausência de diplomas prestigiosos e da ausência de circulação pelas grandes potências democráticas como bolsistas ou exilados, há a presença de mulheres em cargos de direção como uma marca do grupo. Uma delas se encontra hoje atuando, como eleita, no mais alto cargo da Republica. Montou um governo com muitas mulheres em altos cargos. Entretanto, eleita com o slogan de “mãe do PAC”, e conhecida na mídia como “afilhada de Lula”, por não ter, até então, enfrentado uma única eleição, ela mantém a representação da mulher na política vinculada a uma definição familiar (mãe, afilhada), trazendo a tona, novamente as manifestações do “espírito de família” que asseguraria, desta vez em termos mais abstratos, a unidade política dos membros da nação[15].

Diferenciando-se, ainda, da geração anterior, muitos pais desses militantes mineiros possuem curso superior (a maioria médicos, havia um advogado e um agrimensor, entre outros comerciantes bem sucedidos), grande parte habitante de cidades do interior mineiro (Nahas, 2003). Assim, boa parte do grupo chegou a Belo-Horizonte somente após o curso ginasial, realizado no mais das vezes em escolas confessionais do interior mineiro. Foi uma geração que vivenciou com sofreguidão em Belo- Horizonte tudo o que sentiram não existir no local de origem:

Cinema novo, gente!. Nesta época havia sessão no CEC – Centro de Estudos Cinematográficos. Fazia sessão de domingo, dez horas da noite. Vinha Glauber Rocha discutir, vinha Vidas Secas, vinha o diretor discutir. Era um movimento. Era uma juventude toda em ebulição.[16]

 

Em Belo-Horizonte, na universidade, entraram em contato com o grupo da POLOP e da JUC, já transformada em Ação Popular, e ajudaram a fundar o COLINA (Comando de Libertação Nacional). Os anos duros da ditadura militar, marcados pelo fechamento do Parlamento e o crescimento da repressão não lhes proporcionou “esse negócio de ir em festa na casa do outro. O encontro sempre tinha ter um motivo lógico, um motivo. A disciplina foi ficando cada vez mais rígida” (Nahas, 2003, p. 14). Na prática não se constituíram numa geração como a anterior, pois até mesmo dentro da própria organização um desconhecia o outro (Leite, 2009), por atuarem, por motivo de segurança, em células separadas (comando da inteligência, comando armado, etc.). Atuando em grupo fechado, não têm, hoje, “condição de pegar o telefone e chamar um ao outro”, como expressou o Betinho para a sua geração. A não ser em relação aos com os quais conviveram em células. A amplitude da rede de sociabilidade difere, pois, radicalmente entre o conjunto de 1964 e o de 1968.

A outra diferença diz respeito à prisão. Foram presos, ou mortos, antes de se diplomarem e a direção do COLINA foi quase toda exilada em troca do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben sequestrado por dois dos grupos armados existentes no período, a  VPR – Vanguarda Popular Revolucionária e a FLN – Frente de Libertação Nacional (Leite, 2005). Poucos da liderança aqui ficaram e puderam terminar a graduação após a anistia. Na expressão de Maria do Carmo Brito, foi uma “geração que pelo menos conseguiu mostrar ao mundo inteiro o horror que este país era, e não deixou que a ditadura se implantasse de graça, sem que corresse um pouco de sangue” (Vianna, 2003).

Após o exílio, ou prisão, a abertura política no Brasil os levou a mobilizar o que adquiriram em conhecimento e experiência através dos percursos militantes para áreas bem distantes das instituições acadêmicas e do trabalho das ONGS: encaminharam-se para sindicatos de profissionais liberais (economistas) e de funcionários públicos (professores), e para praticar a política no seio dos partidos de oposição possíveis, como o PDT do Brizola, culminando na fundação do PT, ao qual emprestaram seus talentos de organizadores. Desde 2004, passaram, pouco a pouco, a ocupar os principais postos nacionais de governo, encarregados de assegurar a formulação das políticas sociais. Assim, dão à sua presença nos circuitos do poder uma idéia de continuidade do projeto da militância, exibindo-a através da experiência vivida no engajamento da luta contra a fome e a miséria, tema central que desenvolvem em suas biografias, e que é bem exemplificado na declaração de Maria do Carmo Brito, em epígrafe e, ainda, na declaração do Dilma Roussef à revista Marie Claire (abril/2009):

…mudei para o colégio Central, porque se continuasse no Sion, teria que fazer ‘normal’, seria professora, e não queria isso. Meu primeiro dia de aula foi em 10 de março de 1964, um mês antes do golpe. O colégio era uma efervescência só. Era moderno, tinha representantes de vários grupos da esquerda. Com o golpe, alguns segmentos da classe média de que eu fazia parte se radicalizaram. Como alguém de 16 anos acha que pode existir democracia se um mês depois do início das aulas há um golpe de estado?(…) foi nesse período que ganhei minha sensibilidade social, a noção de que era impossível o País viver com tanta miséria. A percepção crescente dos problemas sociais, políticos e econômicos, etc.

 

Dilma Roussef, que pertenceu ao COLINA, ocupou Ministério e a Chefia da Casa Civil no governo Lula, é a atual presidente da República. Há quem foi prefeito de Belo-Horizonte e Ministro, caso de Patrus Ananias, Fernando Pimentel. Os ex-trotiskistas aí se distinguem por uma ação política muito pragmática, haja vista a coligação eleitoral feita por Fernando Pimentel – atual Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior -, com o herdeiro político mais emblemático de Minas, Aécio Neves, visando eleger prefeito de Belo Horizonte um ex-membro do COLINA, Marcio Lacerda. Lacerda havia sido responsável pelo célebre “choque de gestão”, a grande bandeira do governo Aécio Neves. Os que se originaram do movimento católico dos anos 1970 (posterior à AP), como Patrus Ananias (ex-Ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome) e Luiz Dulci (ex-Secretario Geral da Presidência da República), emprestam sua experiência militante na área da política social. Chama a atenção, também, no que se refere à círculos de decisão de políticas públicas, a permanência da divisão entre católicos e trotskistas que, hoje,  gira em torno  do tema “choque de gestão” na área da assistência social (IPEA, 2011; Rocha, 2011), em especial no que se refere às denominadas condicionalidades (exame pré-natal, acompanhamento nutricional e de saúde, a freqüência à escola -Art. 3o. da Lei no.10.836/2004). O governo Dilma Roussef, entre outros exemplos, não atribuiu cargos, ainda, a católicos, como Patrus Ananias e Luis Dulci, que sempre se manifestaram pela universalização dos benefícios, dentro do modelo católico contra as condicionalidades. Fernando Pimentel é o seu principal assessor no palácio do Planalto.

A trajetória desses ex-militantes mineiros não deixa, portanto, de levantar certo numero de interrogações ligadas à distância política que percorreram na continuidade do projeto iniciado na militância estudantil – preso na desconfiança vis-à-vis à política dos partidos – e a lógica que os guiou na atividade incessante de transferência das competências adquiridas na luta contra a ditadura para o conjunto das organizações políticas.

Vale a pena aprofundar o exame das carreiras políticas de Dilma Roussef e de Fernando Pimentel, ex-membros do COLINA, e as de Luis Dulci, ex-militante do movimento católico ligado aos jesuítas, considerando-as três casos exemplares de politização que, com seus   bloqueios, crises, reconversões, continuidades e acordos, permitem pensar o problema da formação e reprodução dos novos quadros dirigentes no Brasil.


Três biografias exemplares

 

Dilma Roussef e Fernando Pimentel provêem de família de recurso econômico e intelectual. A mãe de Dilma, normalista, é filha de pecuarista de Uberaba (MG), e o pai, advogado, era imigrante búlgaro do Partido Comunista que fez fortuna no ramo imobiliário de Belo Horizonte (Carvalho, 2009:23), além de ter sido também poeta e frequentado círculos literários de seu país nos anos 1920[17]. No dizer de sua filha famosa, “ele foi uma pessoa que teve forte vínculo com todos os movimentos de transformação europeus” (Rodrigues, 2010). No caso de Fernando, havia um avô que conheceu a decadência cafeeira, um pai proprietário de um comércio de couro em Belo-Horizonte, uma mãe professora de música e uma importante origem protestante. Acredito que o fato de eles não pertencerem à tradicional família católica mineira, explica o interesse dos dois pela militância junto à POLOP, de onde se originou a organização COLINA. A amizade dos dois vem dessa época e permanece forte.

Ambos terminaram seus estudos superiores após a anistia, nos anos 1980, pois estiveram na clandestinidade e foram presos durante a repressão desencadeada após o sequestro do embaixador alemão (1970-1973). Dilma terminou o curso de economia na UFRGS e não chegou a completar uma pós-graduação, diferentemente de Fernando que se diplomou em Economia na PUC-MG e tem mestrado em Ciência Política pela UFMG.

Após a prisão, a vida de Dilma foi reconstruída em Porto Alegre, em razão do seu segundo casamento com o advogado gaúcho Carlos Paixão Araújo, ex-militante da VAR Palmares[18]. Com Araujo atuou no Instituto de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais, o IEPES (Reis, 2008), que abrigava, na época, muitos dos que, nos anos 1970, se sentiam sem espaço de atuação política[19]. Trabalhou, como estagiária, na Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (1974), da qual foi demitida, junto a outros ex-militantes fichados pela polícia política. Retornou à Fundação após a anistia e presidiu-a de 1991-1993. Como muitos dos que aglutinavam em torno da liderança de Carlos Araújo, ajudou na fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT) e, ainda, graças a rede de relações militantes e experiência comum de prisão (Reis, 2008) foi convidada para Secretária Municipal da Fazenda (1985-88) no primeiro governo municipal (PDT) eleito após a abertura. Rompeu com o PDT após ter sido indicada para a Secretaria Estadual de Minas e Energia (1999-2002) no governo do petista Olívio Dutra. Em 2002, participou, já como filiada ao PT, da equipe que formulou o plano de governo de Luiz Inácio Lula da Silva para a área energética e foi escolhida para ocupar o Ministério de Minas e Energia. Em 2010, após exercer o cargo de ministra-chefe da Casa Civil, foi eleita, por maioria de votos, presidente da República, sem nunca haver antes concorrido a cargos eletivos. Sua atuação foi sempre no executivo de governos de esquerda.

A trajetória de Fernando Pimentel também o inclui nessa linhagem de gestores – característica da nova elite no poder -, que só tardiamente acedeu a cargos políticos pelo voto popular[20]. Sua atuação nos cargos técnicos de governo também foi tardia, o que mais uma vez confirma a profunda diferença entre a “tradição política de Minas” e a nomeada “trabalhista” do Rio Grande do Sul (Grill, 2008). Após a saída da prisão, diferentemente de Dilma, ele se dividiu entre a gestão da rede de lojas de sua família, a Belorizonte  Couros, e as atividades acadêmico-docentes como Professor Assistente do Departamento de Economia e Coordenador do Centro de Extensão da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, nos anos 1970-85. Participou da criação do PT em Belo-Horizonte, mas até 1993, quando integrou o governo municipal de Belo-Horizonte na gestão de Patrus Ananias (Secretário da Fazenda), foi somente um integrante ativo das entidades de categorias profissionais: exerceu a vice-presidência da Associação de Professores Universitários de Belo Horizonte (1985/1987), diretor do Sindicato dos Economistas de MG (1986/1992) e presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (1991/1992). Após ter sido Secretário Municipal de Governo, Planejamento e Coordenação Geral (governo do socialista Célio de Castro (1996-2000), prefeito substituto, foi eleito prefeito de Belo-Horizonte, por maioria de votos no primeiro turno. Foi uma gestão marcada por grandes investimentos nas áreas urbana e social, entre os quais se destaca o Vila Viva, programa de urbanização de vilas e favelas, o programa Orçamento Participativo Digital, com votação eletrônica, por meio do qual, qualquer cidadão pode opinar e votar nas obras de sua preferência via  internet, inovando o que já havia sido feito pelo governo petista em Porto Alegre.

O caso de Luís Dulci importa por ser representativo do grupo de origem católica e igualmente da quebra de uma tradição familiar que chega a ser recomposta. Iniciou sua militância no colégio dos Jesuítas de Juiz de Fora, que era dirigido pelos padres ligados à Teologia da Libertação e ao Padre Vaz, o teórico da AP. É filho de professora primária e sobrinho neto, do lado materno, de dois importantes políticos mineiros, Martim Soares e Milton Soares Campos, este último o grande líder udenista dos anos 1950, que se tornou célebre graças a seus escritos, talento de orador e amizade com literatos mineiros, como Carlos Drumond de Andrade, Afonso Arinos, entre outros. Mas, diferentemente de Aécio Neves, neto pelo lado materno de Tancredo Neves e do paterno de Tristão da Cunha (líder do PRM na Primeira República e signatário do Manifesto dos Mineiros), Dulci vem de um ramo da família com capital político e econômico em declínio. Destaca-se de outros herdeiros políticos no recurso diferencial para entrar na carreira.

Como grande parte dos novos políticos mineiros, ele foi ativo no movimento sindical dos professores secundários (liderou uma greve célebre em 1979). Diplomou-se em Letras na UFRJ, título de menor peso do que os possuídos pelos herdeiros políticos oriundos da Faculdade de Direito, mas que o fez ser considerado uma espécie de “intelectual” do governo Lula. Foi deputado na primeira bancada do PT na Câmara Federal (1982), eleito com votos dos professores e o apoio da igreja Católica, e secretário municipal da Cultura nas gestões de Patrus Ananias (líder da ala católica do PT) e do socialista Celio de Castro, mas não da gestão de Fernando Pimentel. Foi presidente do Instituto Perseu Abramo (1996-2003) de onde saiu para integrar o governo Lula. Atualmente atua no Instituto da Cidadania, criado pelo ex-presidente.

A partir de sua trajetória, pode-se dizer que ele é representativo das diferentes variantes de capital político que estão hierarquizadas no espaço político, em especial as que inscrevem as grandes famílias como participantes de uma mesma cultura que remonta aos séculos que precedem a construção do Estado Moderno na Europa, como lembra Ana Catherine Wagner ao se referir às elites da globalização (Wagner, 2007:10): o universalismo das letras, inscrito nas tradições do saber eclesiástico; a vontade de distinção das linhagens elitistas que marcam, dessa maneira, sua superioridade vis-à-vis à cultura das línguas vulgares das classes populares; o capital familiar. No caso de Dulci, esta variante se complementa com os recursos acumulados na militância. Não é surpreendente, portanto, constatar que tenha, como seu tio avô, se casado também com uma mulher da família Resende, ocupado alto cargo de comunicação no governo Lula e, no PT, seja considerado um homem que tem por missão redigir os documentos do partido e o discurso de seus líderes.

Enfim, nos altos cargos da burocracia do Estado, enquanto tantos outros militantes foram deles eliminados durante o processo político, o conjunto de políticos oriundos de Minas Gerais no poder demonstra que a concorrência política é marcada por barreiras de entrada tão discretas quanto eficazes. Para aceder com sucesso no espaço político é preciso dispor de competências e recursos materiais e simbólicos capazes de lhes permitir o confronto com os dirigentes tradicionais. Sob este aspecto, esta nova elite de Estado composta de antigos militantes estudantis da segunda geração, com atuação em sindicatos distantes do sindicalismo operário, na competição política, faz uso da tradição política mineira. Mas diferentemente dos “herdeiros”, eles encontram dificuldade profunda no trabalho parlamentar, prática longínqua em sua socialização política[21]. Quando eleitos deputados permanecem muito pouco tempo no Parlamento onde, geralmente, são desqualificados pelos já estabelecidos no universo fechado da política. E nos cargos executivos e da administração dos negócios do Estado revelam a predominância de certos princípios de ação política coerentes com valores adotados no início da militância. Seja como prefeito de Belo Horizonte eleito, seja, como ministro do Desenvolvimento Social, ou ainda como presidente da República continuam depositários da crença nas mobilizações sociais como instrumento necessário para garantir a legitimidade de suas ações, da importância em conceber os interesses do povo como antagônicos aos das elites tradicionais, da importância da ideologia e ter um passado militante radical.

 

 

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_____Le cens de la famille. Les femmes et le vote 1789-1848. Paris, Belin, 2002;

 

_____« Contribuição para o estudo do processo de individualização das mulheres na primeira metade do século XIX », in Letícia Canêdo (org.), O sufrágio universal e a invenção democrática São Paulo, Editora Estação Liberdade 2005.

 

VIANNA, Martha, Uma Tempestade Como a Sua Memória – a História de Lia, Maria do Carmo Brito – Record, 2003.

Wagner, Anne-Catherine, Les classes sociales dans la mondialisation, Paris, La Découverte, 2007.

 

[1] Cf. Canêdo, 1993, 1997, 1998, 1999, 2004, 2009. Este artigo é uma versão modificada do texto apresentado e discutido no colóquio “Saber e Poder”, realizado no FOCUS – Grupo de pesquisas sobre Instituição Escolar e Organizações familiares -, FE/Unicamp, em 2008. Agradeço Afrânio Garcia, Michel Offerlé e Yves Dezalay as observações feitas na ocasião. E a Igor Grill, Ernesto Seidl e José Carlos Durand a leitura cuidadosa da primeira versão do artigo..

[2] Geração está compreendida aqui no sentido que a ela deu Mannheim, com distinções entre  “situação de geração, “conjunto geracional” e  “unidade de geração” . Para este autor, indivíduos da mesma idade só estão ligados a um conjunto geracional na medida em que tomam parte em correntes sociais e intelectuais […] e em que participam ativamente e passivamente a essas interações que formam uma nova situação”. Ver  Karl Mannheim, Le problème des generations, Paris, Nathan, 1990, página 59 e seguintes.

[3] O material de pesquisa utilizado neste artigo se compõe de dicionários históricos (Monteiro, 1995; Abreu, 2001), informações sobre os percursos dos antigos militantes (entrevistas e testemunhos publicados em jornais e revistas, acadêmicas ou de grande circulação) teses (Leite, 2009; Reis, 2007) e pesquisa em sites de instituições especializadas (Fundação Padre Anchieta, Fundação Perseu Abramo, Memória Roda Viva, Tortura Nunca Mais, Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos). Os dados aí obtidos foram comparados com os que haviam sido utilizados nas minhas pesquisas anteriores, baseadas num banco de dados genealógicos, e que solicitaram também trabalhos realizados na área da sócio-história do político e da politização (Lagroye 2003; Deloye et Voutat, 2002; Offerlé, 2007)

[4] É como Jacques Legroye ”(2003:360-1) entende a politização, “uma requalificação das atividades sociais as mais diversas, requalificação que resulta de um acordo político entre agentes sociais predispostos, por múltiplas razões, a transgredir ou desafiar a diferenciação dos espaços de atividades”.

[5] Depoimento de Carlos Eloy Carvalho Guimarães a CEMIG (2004). Ele foi deputado estadual à Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais (1963 a 1979) e deputado federal por Minas Gerais em duas legislaturas na Câmara dos Deputados (1978-1982 e 1982-1986). Foi também secretário de Obras Públicas de Minas Gerais (1979 – 1982) e presidente da CEMIG (1991-1998). É também sobrinho de Francisco Campos, do lado materno, e da família de Gustavo Capanema. É primo do atual deputado federal pelo PT, Virgilio Guimarães.

[6] Cf. Depoimento de Pio Canedo (Vaz, 1966, 181), que iniciou sua carreira como vereador e prefeito do município de Muriaé , foi também Secretario estadual da Justiça e, ainda da Agricultura, Indústria, Comércio e Trabalho antes de se eleger deputado estadual pelo PSD em três legislaturas. Liderou a bancada de seu Partido, a minoria e a maioria, foi líder do Governo, Presidente da Assembléia Legislativa (1962) e Vice-Governador do Estado (1966-1970).Foi também Diretor Jurídico e Assessor Especial da Fundação João Pinheiro, vice-presidente do Banco do Estado de Minas Gerais e Presidente do Conselho Nacional de Política Penitenciária.Era neto de políticos conservadores na Assembléia Geral do Império, filho, sobrinho, irmão e tio de importantes políticos mineiros.

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[7] Não se pode esquecer que este fechamento do espaço político não é substancial e está em constante tensão. Ver sobre o tema Michel Offerlé (2011, p.153).

[8] A pesquisa realizada por Amilcar Martins Filho (2009) sobre a distribuição de nomeações para cargos públicos na Primeira República mostra que nenhum dos governadores de Minas se notabilizou por favorecer sua região de origem. Esta equanimidade da elite no apadrinhamento como fator crucial para o sucesso do sistema político implantado em Minas pode ser observada também até os anos 1980. E todos os herdeiros entrevistados durante os meus anos de pesquisa sobre o poder político mineiros insistem muito neste aspecto de não incidência de nomeações maiores para a região de origem do governador.

[9] Bacha, Lara Resende e também Francisco Lopes não eram herdeiros de um patrimônio eleitoral, mas de um estilo político mineiro inaugurado em Minas pelo bisavô de Lara, João Pinheiro, seguido por Juscelino Kubitschek e Israel Pinheiro que atuaram mais como planejadores e executores de políticas econômico-financeiras de um Estado modernizador do que como parlamentares. O ponto de encontro dos político-técnicos de Minas Gerais foram as Secretarias do governo Benedito Valadares, na década de 30, e a Cia. Vale do Rio Doce, nos anos 1940. As redes montadas por estes técnicos–políticos, tanto no Brasil como no exterior  (anos 1940-50), as práticas que adquiriram na participação nas Comissões Brasil Estados Unidos durante o governo Vargas podem ser vistas na atuação unida de seus descendentes na PUC/RJ e em Harvard. A criação do departamento de Pós-Graduação em Economia da PUC esteve, em grande parte sob a responsabilidade de Francisco Lopes e Edmar Bacha. Pai e tio desse último já haviam tido participação na criação da Faculdade de Economia de Minas Gerais, em 1941. O respaldo dado a eles, e aos seus planos cruzado e real, pelos meios financeiros e acadêmicos internacionais, bem como à sua aplicação, se deve muito a redes estabelecidas anteriormente por eles e a credibilidade que, como herdeiros, tinham já interiorizado na explicação de seus trabalhos no circuito internacional (Canedo, 2004, :121-125).

[10] O estado de Minas Gerais é conhecido como viveiro de político de envergadura nacional. Daí se originaram sete presidentes da República, numerosos ministros (entre as pastas mais importantes), dez vice-presidentes, fortes representação nas principais Comissões financeiras e de justiça do Congresso nacional e nas principais funções em todos os ministérios.

[11] Em entrevista a Aleluia Heringer Lisboa Teixeira (2011, p.42) um ex- aluno (filho de bancário) expressou o colégio no imaginário da Belo-Horizonte dos anos 1950-1960: “Na minha casa existiam algumas verdades absolutas, uma delas era o Estadual, a outra era o Atlético, a outra era Getúlio e o Juscelino. Eram quatro verdades. O Estadual era um mito em casa, isso era inquestionável (…). O Estadual era próximo, fazia parte do panteão dos deuses. Era impressionante”. Na tese de doutorado da Prof. Heriger Lisboa intitulada “Uma escola sem muros”, são analisados os muros simbólicos lá existentes, entre eles a entrada pelo “mérito” já que os competidores não estavam em posições iguais no momento da largada.

[12] Betinho explica bem o que era o método da ação Católica nessa escola. De acordo com ele, “era Ver-Julgar-Agir. Esse método na verdade era aplicado em cima de duas preocupações. Era toda uma discussão em torno do Evangelho. A ação católica não lia a Bíblia, lia o Evangelho. Era uma visão bastante revolucionária do que significava o Cristianismo. A outra vertente era a análise política. Essa constituía para todo mundo uma novidade, porque de repente chegava um cara e dizia que Cristo era homem, que o Evangelho revolucionava a vida, quando você tinha sido criado numa Igreja conservadora. A Ação Católica produziu um choque cultural e conseguiu atrair uma turma grande. Esse período se caracterizou por um amplo processo de recrutamento. Alguns anos terminavam com quinze caras decidindo largar tudo e entrar para o convento. E foi assim que a Ordem dos Dominicanos cresceu imensamente neste período” (entrevista – Betinho. Revista Teoria e Debate,nº 16, outubro/novembro/dezembro 1991).

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[13] O objetivo declarado na criação do IBASE era contribuir para o desenvolvimento da democracia após o regime militar, seguindo os princípios de participação cidadã, diversidade e solidariedade. Desenvolve, desde entao, projetos e/ou iniciativas nas seguintes linhas: Alternativas Democráticas à Globalização; Desenvolvimento e Direitos; Direito à Cidade; Economia Solidária; Processo Fórum Social Mundial; Juventude Democracia e Participação; Observatório da Cidadania: direitos e diversidade; Responsabilidade Social e Ética nas Organizações; Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.Produz publicações como o Jornal da Cidadania – distribuído em escolas públicas – e a Revista Democracia Viva – distribuída para formadores(as) de opinião –, como também mantém um portal na internet. A instituição também está inserida no debate e no fortalecimento do software livre e fez parte da história da internet brasileira, ao ter criado o Alternex, na década de 90. Fundação Perseu Abramo, http://www2.fpa.org.br/conteudo/memoria-entrevista-betinho. Publicado em 14/04/2006.

 

 

[14] – A Rede de Proteção Social consistiu na junção de diferentes programas de cunho social que coordenavam esforços voltados à assistência da classe brasileira mais carente, definida a partir de parâmetros de renda e constituição familiar, tendo início, em 1995. Como uma forma de redistribuição de renda, visava o desenvolvimento social, tanto de forma imediata, como mediata, ao agir progressivamente para que cada geração beneficiada pudesse ter a oportunidade de proporcionar melhoria nas condições sociais, também, de seus descendentes. A Rede foi concebida como um conjunto de transferências monetárias a pessoas ou famílias de mais baixa renda, destinado a protegê-las nas distintas circunstâncias de risco e vulnerabilidade social. Sob a liderança do Projeto Alvorada e apoiada na implantação do Cadastro Único operado pela Caixa Econômica, instrumento da unificação das transferências, a Rede Social se formava pelos seguintes programas: Bolsa-Escola (MEC); Bolsa-Alimentação (MS); Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) (MPAS); Programa do Agente Jovem (MPAS); Bolsa-Qualificação (MT); Benefício Mensal – Idoso (MPAS);  Benefício Mensal – Portadores de Deficiência (MPAS); Renda Mensal Vitalícia (MPAS);  Bolsa-Renda (seguro-safra) (MA); Auxílio-gás (MME); Aposentadorias Rurais (MPAS); Abono Salarial PIS/Pasep (CEF); Seguro-desemprego (MT).(Rocha,2004).

 

[15] A influência da família no mundo da política é ainda pouco estudada. A tendência majoritária da historiografia, com base no modelo individualizado da cidadania, é a de negar qualificação política ao privado, ao doméstico, ao familiar ou ao feminino, com motivos apresentados como histórica e socialmente constituídos e, igualmente, portando efeitos automáticos: a dependência social acarreta o desapossamento político. Sobre o tema há importantes trabalhos de Anne Verjus, Le Bon mari. Une histoire politique des hommes et des femmes à l’époque révolutionnaire, Paris, Fayard, 2010 ; Le cens de la famille. Les femmes et le vote 1789-1848. Paris, Belin, 2002; « Contribuição para o estudo do processo de individualização das mulheres na primeira metade do século XIX », in Letícia Canêdo (org.), O sufrágio universal e a invenção democrática São Paulo, Editora Estação Liberdade 2005.

[16] Cf. Maria José Carvalho Nahas, do comando armado do grupo COLINA, filha de medico da Zona da Mata de Minas Gerais, exilada em Cuba durante 10 anos e casada com um companheiro de luta, médico como ela. É funcionária pública e seu marido é Secretário municipal de políticas sociais do governo Marcio Lacerda. Ele o foi também na gestão de Fernando Pimentel, todos os quatro ex-membros do COLINA. Entrevista dada à Isabel Leite, 11/01/2003.

[17] Who Is Who: Bulgarian Origins and Relatives of Brazil’s Dilma Rousseff – http://www.novinite.com/view_news.php?id=120755, acessado em 21/08/2011. A influência literária do pai foi grande. Colegas do Sion relatam espanto quando ela ganhou do pai a coleção completa de Jorge Amado (Azevedo, 2010).

[18] Seu primeiro casamento foi com um jornalista, na época da POLOP, que hoje é assessor do prefeito de Belo-Horizonte Marcio Lacerda. O segundo marido, Carlos Araújo, tinha trânsito nacional significativo entre os “grupos armados” de 1969, ocasião em que conheceu Dilma Roussef. Quando filiado ao PCB, chegou a ser militante nas Ligas Camponesas criadas por Francisco Julião (Reis, 2008).

[19] O IPES foi criado em 1972 por iniciativa de um conjunto de militantes proveniente dos meios universitários gaúchos e razão pela qual a ele foi atribuído um caráter de formulação e de formação política.

[20] Cf. Canedo (2004), o recrutamento dos herdeiros políticos mineiros aos postos eletivos se dá na faixa média dos 30 anos. O ingresso dos novos pretendentes se dá na faixa média dos 50 anos, a partir da acumulação de capital militante e escolar, e depois de uma situação profissional já estabelecida. Também, diferentemente dos herdeiros, os novos ingressantes não se elegem, inicialmente para cargos locais. São eleitos diretamente para cargos de nível nacional, ou para prefeituras de capital de visibilidade nacional, como o caso de Belo Horizonte, apoiados nos recursos financeiros de grandes sindicatos, de grandes empresas,etc .

[21] Esta observação foi feita lembrando que a formação política desse grupo de segunda geração se deu no período em que o AI-5 estava em vigor. E este foi um instrumento que deu poderes quase absolutos ao regime militar, tendo como primeira consequência o fechamento do Congresso nacional. Além do mais, as ações praticadas de acordo com o AI-5 e seus atos complementares não eram submetidas a qualquer apreciação judicial, subordinando o Judiciário também ao Executivo. O grupo em estudo, portanto, se socializou sem conhecer o funcionamento dessas instituições e também a imprensa livre. A situação vivida por esta segunda geração difere, portanto, não só da dos herdeiros, que, historicamente,  se sentiam  participantes da construção das  instituições políticas desde o Império, como do grupo que denominei de primeira geração, isto é o grupo que se formou na segunda metade dos anos 1950, período em que a vida parlamentar foi muito ativa e a imprensa atuava com total liberdade.

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