O Sufrágio Universal

Apresentação do livro: Leticia Canêdo (org.). Sufrágio universal: invenção democrática. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.

Art. 1 – As Assembleias eleitorais regionais estão convocadas para no dia 9 de abril próximo eleger os representantes do povo à assembléia nacional que deve decretar a constituição.
Art. 2 – A eleição terá por base a população.
Art. 5 – O sufrágio será direto e universal.

Decreto de 5 de março de 1848, assinado em Paris

 

A redação deste decreto difundiu a idéia da originalidade política francesa no mundo ocidental. De fato, no que se refere à redução das exclusões, seguindo uma cronologia estritamente institucional, a França se adiantou aos demais países. Em 1789, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, os franceses proclamaram a igualdade civil entre os homens. Em 1848, o governo francês concebeu os homens como politicamente iguais: decretou o novo princípio eleitoral – o do sufrágio direto sem qualquer limitação de censo – e fundamentou a representação na população, estabelecendo o valor igual dos votos num sistema de proporcionalidade da representação.

A concepção de igualdade política diante da urna foi recebida pelos dirigentes políticos e intelectuais do mundo ocidental como novidade insensata. O princípio eleitoral era combatido por socialistas[1] e anarquistas, por liberais e, principalmente, pela Igreja Católica. Ora o argumento era de que a paixão do número subverteria a política[2], ora prevalecia a suspeita sobre a capacidade de independência das massas embrutecidas pelo trabalho[3], ora se duvidava da própria idéia do sistema representativo[4]. Dessa maneira, as interrogações sobre o valor e a oportunidade política da extensão a todos os indivíduos do direito do sufrágio estiveram no cerne de todos os debates políticos do século XIX. Um homem, uma voz? Esta equação simples acabou por se impor, progressivamente se constituindo em torno da conquista dos votos. Está inscrita, como evidência, em todas as constituições do mundo contemporâneo. Proclamado fundamento da ordem democrática, o sufrágio universal e direto é, hoje, considerado o único meio capaz de exprimir o assentimento coletivo, de produzir veredictos soberanos e de assegurar a alternância política.

Entretanto, embora a prática do sufrágio universal seja um objeto de intensa valorização simbólica, pouco se conhece sobre a forma pela qual foi imposta como o princípio de legitimidade da dominação política e, ao mesmo tempo, o princípio da organização da atividade das democracias ocidentais. Costuma-se esquecer o fato de que o voto, antes de ser uma prática codificada e normalizada, foi objeto de uma luta visando impor uma representação dominante da expressão política. A indiferença que cercou o aniversário de 150 anos de sua proclamação, completados em 1998, demonstra bem a frágil atenção dada pelos estudiosos às formas de apropriação de suas práticas e às condições que as tornaram possível.  Refiro-me, no caso, a uma reflexão mais fina das maneiras como, em cada país, os protagonistas dessa instituição – os eleitores e os candidatos – encontraram interesse em agir para a sua produção contínua. Ou mesmo, por quais vias foi colocado em prática este ajuste particular que faz acreditar ser o eleitor um indivíduo independente e igual em qualidade a todos os homens. Aparentemente uma operação simples, evocando gestos familiares, dentro da continuidade natural da “ordem das coisas”, a cenografia que foi sendo progressivamente imposta ao ato de votar elaborou-se em função de postulados raramente questionados pelos estudiosos.

Longe de procurar conhecer os procedimentos que materializaram, e materializam, as significações do sufrágio, bem como as normas hoje interiorizadas da conduta a demonstrar em relação a ele, o voto é praticamente um procedimento sem história. Os especialistas se contentam em declarar a sua superioridade e a necessidade da eleição. Não se discute mais o que fundamenta o recurso ao voto. Contenta-se em lutar pela ampliação do círculo dos interessados em votar, ou contra o voto obrigatório dos eleitores, por exemplo. Tenta-se fazer com que sua técnica seja aperfeiçoada de forma a impedir a fraude ou corrupção nas práticas eleitorais, como se viu recentemente na apuração das eleições presidenciais americanas de novembro de 2000; ou mesmo criar uma democracia permanente em domicílio, como se lê na imprensa a propósito das eleições via Internet, na Suíça. Do lado dos historiadores políticos, a atenção se volta para o direito eleitoral, a organização formal das instituições e as campanhas eleitorais, numa tentativa de explicar, pela história regressiva, os processos de nacionalização da vida política e os momentos fundadores das fraudes. Há também o interesse encaminhado para uma história democrática da democracia[5], isto é, uma história ideológica das idéias ou das instituições, na qual é apagado todo o trabalho social e político da produção da instituição do sufrágio universal.

Mesmo nesta história mais conceitual do político, costuma-se refletir pouco sobre a ruptura intelectual que a idéia de igualdade política introduziu nas representações sociais do século XIX ao afirmar o princípio de equivalência dos votos. Grande parte dos bons historiadores tem visualizado o direito de voto somente pelo prisma produzido por uma concepção econômica ou social de igualdade, julgada mais verdadeira. No Brasil, tal visão é evidenciada na valorização concedida aos numerosos trabalhos publicados em comemoração aos 150 anos da publicação do Manifesto Comunista, também em 1998, em oposição à indiferença concedida ao aniversário da declaração do sufrágio universal. Contudo, sob o ponto de vista do significado que hoje damos à democracia – soberania do povo –, o sufrágio universal vem sendo considerado, por muitos pesquisadores, mais revolucionário do que o socialismo, mesmo que muitos outros constatem que a equivalência material dentro das urnas é mais declarada do que alcançada, ou melhor, que a fusão igualitária aí realizada mistura votos de alcance e intensidade desiguais.  [6] Isto porque, para a grande maioria, é na idéia de sufrágio universal como poder do povo e celebração da mítica sociedade de iguais, como bem explora Rosanvallon[7], que a democracia encontra seu ponto de tensão e seu significado, diferindo das formas históricas anteriores por marcar a entrada definitiva no mundo dos indivíduos e a formação de um novo laço social.

O mergulho nesta confusão do princípio (a equivalência) com os procedimentos (os modos de produção dos votos) é justamente o que vem atraindo a atenção de estudiosos da política para o fato de que a representação do sufrágio foi elaborada em função de postulados raramente questionados: competência igual dos participantes comprometidos no rito político, neutralidade das técnicas mobilizadas para o gesto eleitoral, a assimilação do voto a uma escolha  sincera e motivada, a dissociação do cidadão–eleitor do ser social que ele é… Estes estudiosos, que se autodenominam sociohistoriadores do político (no sentido amplo do termo), historiadores, antropólogos, sociólogos, cientistas políticos, trabalhando empiricamente sobre o político a partir de um material histórico que se apóia em problemáticas e métodos das ciências sociais, têm concluído que o lugar de firmamento da modernidade dado ao voto no cenário político tem conseqüências nas maneiras de atuar dentro da atividade política.

Os trabalhos reunidos neste livro foram recolhidos e escolhidos, na sua maioria, de colóquios e mesas-redondas organizadas por esses sociohistoriadores, como o intitulado “Ato do voto”, organizado em Paris, em dezembro de 1992, e a conferência “Como eles se tornaram eleitores?”, realizada em Florença, em 1995. Diferentemente dos trabalhos clássicos em sociologia eleitoral, que compreendem o voto como instrumento estatístico de medida da opinião pública e a tradução política de uma vontade coletiva, ou da sociologia política, interessados em comportamentos e partidos políticos, os trabalhos aqui apresentados foram construídos conjugando o trabalho de investigação empírica em arquivos (método dos historiadores) com o uso dos conceitos e problemáticas sociológicas e antropológicas. O sentido é o de interrogar sobre o que tornou (e torna) possível o voto.  O sufrágio universal é aqui entrevisto mais como objeto político do que como parte da história de um fenômeno político, razão pela qual foi escolhido o artigo de Pierre Bourdieu, “O mistério do ministério”, para introduzir o livro. Esse autor, ao relacionar ministério com mistério para pensar a execução da vontade geral produzida pelo voto individual, tornado coletivo pela agregação estatística de opiniões, individualmente fabricada e expressa, levanta a questão central que permeia todas as partes deste livro, ou seja: afinal, o que significa votar?

O livro está organizado em cinco partes. A primeira reúne trabalhos que discutem a natureza do recurso ao voto.  A segunda reúne pesquisas sobre o processo de produção das normas e instrumentos eleitorais e do seu ajustamento às práticas sociais de cinco países (Itália, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos e Portugal). Tais artigos têm em comum o fato de procurar compreender o sufrágio sob a perspectiva das práticas de seus usuários, que aparecem numa seqüência de hesitações e não como fonte de certezas políticas. A terceira parte é uma reflexão sobre a formação de três protagonistas das eleições: os eleitores, os candidatos e os comentaristas, com artigos escolhidos dentro de uma visão da história contemporânea que considera “o Estado” como uma relação social, na qual não se separa o social do político. A quarta parte está voltada para uma pergunta: como foi pensada a não-inclusão das mulheres no sufrágio universal, rebatizado posteriormente de masculino?  Afinal, todos os cidadãos são indivíduos?  Esta pergunta continua como motivo da última parte que agrega dois artigos saídos de pesquisas realizadas em municípios brasileiros e preocupados em pensar por que, 150 anos depois da declaração do sufrágio universal, um século depois da adoção do sistema republicano, continuamos a alinhar os princípios democráticos no rol das  utopias.

Na primeira parte, o artigo «O rascunho do sufrágio universal», do sociohistoriador Alain Garrigou, é uma arqueologia do decreto de 5 de março feita com base no documento de sua preparação, encontrado nos Arquivos Nacionais franceses. O autor, que há muito vem se preocupando com a história das práticas eleitorais, do direito ao voto e com as implicações da invenção do “cidadão”, no século XIX, utiliza as correções feitas a lápis e a tinta existentes no documento original para interpretar as condições em que foi realizada a redação do decreto do sufrágio universal, trazendo à luz as lutas políticas que presidiram o trabalho de codificação. Seu estudo demonstra toda a operação envolvendo a redação como lances de confrontações políticas e seu resultado – o decreto do sufrágio universal – como um produto de acordos e compromissos. Melhor dizendo, antes de se tornar símbolo democrático, o voto participou de uma operação que transformou a mensagem original em regra legal, com todas as conseqüências aí implícitas. O achado de Garrigou traz novos elementos para se pensar a produção do direito, pois que, diferentemente do que a literatura jurídica faz crer, os debates sobre as formalizações jurídicas do decreto  foram  mais do que seqüências de um princípio previamente adquirido. Sobre este aspecto, as conclusões deste artigo vão, também, de encontro à importância dada por muitos historiadores às intenções do redator como verdade do texto, à atribuição de um texto ao seu autor jurídico, etc., tendo em vista a ênfase dada por Garrigou às tramas ou ajustes políticos que levaram à redação final do documento.

É o que se apreende também da leitura dos trabalhos que se seguem na primeira parte, de autoria de dois juristas e deputados célebres do Parlamento do Império brasileiro: o conservador José de Alencar e o liberal Belisário Soares de Souza. O texto de José de Alencar foi retirado do livro O sistema representativo, publicado em 1868, e o de Belisário Soares de Souza é um capítulo do seu muito citado livro O sistema eleitoral no Brasil, publicado quatro anos mais tarde. A leitura de ambos nos leva a deduzir que as várias combinações da prática do voto experimentadas durante o Império eram precedidas de discussões sobre o que fundamentava o recurso do voto, diferentemente do que se faz hoje, quando a evidência do procedimento eleitoral o faz perder seu caráter conflitual para adquirir status de dispositivo formal. Num período particularmente prolixo em leis eleitorais, a discussão que opõe conservadores e liberais no Parlamento do Império é manifestada no plano do exercício, da competência e dos modos de escrutínio, lembrando, ainda, que toda ela se mostra inseparável da polêmica noção de cidadão eleitor.  Assim, na luta para impor uma definição legítima do sufrágio universal, José de Alencar procura preservar um poder fundado na mobilização dos laços de clientela da sociedade rural brasileira, determinando, para tal, a organização concreta do escrutínio. Para Belisário, opondo-se aos particularismos locais – “só algumas das muitas constituições francesas, filhas da demagogia triunfante, têm conferido o direito de voto indistintamente a todo cidadão que tenha atingido certa idade” (p. 116) –, o mais necessário era precisar os limites do exercício do voto. As limitações teriam por conseqüência a transparência do escrutínio e a autenticidade da representação, pois “as massas populares, alternadamente indiferentes ou apaixonadas e desvairadas serão sempre o instrumento cego de todos os despotismos e nunca a base segura e sólida em que repouse o edifício trabalhoso e delicado do governo constitucional representativo”.

Esses três trabalhos, lembrando as tentativas esquecidas e naturalizadas da gênese do sufrágio, levam a outras interrogações, entre elas o fato de um limitado grupo de países, animado por disposições formais, ter conseguido construir os quadros da representação moderna, impondo-os ao resto de mundo. Em suma, uma interrogação sobre as formas materiais, jurídicas, e mesmos rituais, que possibilitaram a organização pacífica conjunta dos países sob um mesmo conjunto de regras, com o poder político submetido ao controle da opinião pública e a luta política regulamentada por um conjunto de normas universais.

É a partir dessa interrogação que foram aqui incluídos os artigos de Bernard Voutat sobre a codificação do voto na Suíça, no período 1848-1918, o de Raffaelle Romanelli sobre o estabelecimento do sistema eleitoral na Itália no mesmo período (1848-1895), assim como os estudos de Christophe Jaffrelot e de John Crowley sobre a introdução da cabine de votação, isto é, do voto secreto, no período de 1880-1910, na Inglaterra e nos Estados Unidos, respectivamente.  O texto de João Serra sobre as eleições portuguesas convocadas pelo Governo Provisório da República, em 1911, tal como os demais acima, e em especial o trabalho de Romanelli, interessa por discutir uma República sendo feita contra e ao mesmo tempo pelo canal de sociedades locais, nas quais se justapõem segmentos de linhagens políticas e se manifesta a cidadania em seus usos. A idéia é a de que a variedade de exemplos e a comparação da montagem do sistema eleitoral em diferentes contextos possam nos ajudar a desafiar a validade da abordagem evolucionista, normalmente adotada na interpretação da história do sufrágio durante o fim do século XIX e a primeira metade do século XX. Uma história forjada dentro do pressuposto de uma gradual evolução do processo democrático, caminhando para um resultado final de sucesso. Ao contrário, os cinco artigos demonstram que a história do sufrágio traz muito que pensar, principalmente no que se refere ao fato de que tanto o eleitor quanto as elites políticas tiveram que aprender a se apropriar da relação eleitoral para  instrumentalizar o ato do voto.

Esta última frase já ensaia o propósito da terceira parte deste livro: o de pensar a democracia a partir do significado da constituição de um corpo eleitoral – o corpo do povo – e da produção do eleitor pelos programas políticos, pelo direito (código eleitoral), pelas relações estabelecidas entre os candidatos e o eleitor, mas também a partir do processo de produção dos números eleitorais pelas sondagens e pelos comentaristas. Dentro dessa linha está o trabalho de Michel Offerlé, intitulado “A nacionalização da cidadania cívica”, que, ao questionar a evidência da individualização dos cidadãos, encara a invenção da categoria de cidadão eleitor como um enigma e reflete sobre a construção realizada pela ação dos múltiplos atores que compõem a instituição do sufrágio universal para fabricar um corpo eleitoral, um eleitor e um eleitorado. Tal como Patrick Champagne em “As sondagens, o voto e a democracia”, Offerlé procura unir a análise da cidadania com a sociologia do Estado como empreendedor eleitoral e fabricante de identidade. Os dois artigos, em especial o de Champagne, chamam a atenção por não separarem as construções intelectuais, que permitem explicar racionalmente o que o povo quis dizer (mapas eleitorais, sondagens, comentários, etc.), dos modos de produção dos votos constituídos como opinião.  Porém, mais do que tudo, esses artigos levam a indagar se as grandes formas de objetivação social, tais como o direito, as estatísticas e os instrumentos cognitivos, ao permitirem pensar o indivíduo na sua singularidade, na sua universalidade e na sua equivalência, não estariam, ao mesmo tempo, criando maneiras de pensar que também têm a sua história?

A pergunta assume seu sentido completo ao ser dirigida, por fim, à maneira pela qual pensamos o indivíduo, que é feita na medida da representação de um indivíduo biológico assexuado, como já chamou a atenção Michel Offerlé.[8] Tanto assim que o sufrágio universal só foi rebatizado de “masculino” posteriormente, talvez para melhor enfatizar que a prática do ato do voto e a prática discursiva da cidadania não deveriam se conjugar com o feminino.  Os dois artigos que compõem a quarta parte do livro têm por eixo exatamente uma reflexão sobre o indivíduo e a diferença de sexo, a partir da problemática histórica do acesso das mulheres à individualidade que elas ajudaram a produzir. Por isso, nessa parte do livro, Anne Verjus, em seu artigo “Voto de família e voto familiar”, demonstra que o princípio do sufrágio individual e igualitário, ao reconhecer somente os cidadãos em “idade viril”, substituiu uma unidade eleitoral ao mesmo tempo natural e política, que era a família, por uma outra unidade política: o homem adulto do sexo masculino, representando sua esposa e filhos. Em outras palavras, o que mantinha, antes, as mulheres em situação de exterioridade eleitoral era o estatuto socionatural de esposas e mães.  Não era o sexo. Nessa construção, a situação das mulheres não era pensada como problema. Foi o aparecimento do voto individual masculino que trouxe “uma visibilidade sem precedente para a separação política entre os homens e as mulheres”, em razão da não-inclusão das mulheres no corpo eleitoral.  Mais do que a exclusão, para a autora do artigo, é a não-inclusão que começou a ser questionada e se transformou em luta política parlamentar e, sobretudo, intelectual.

O estatuto socionatural de esposa e mãe, e não o sexo, é também a base do argumento contra a reivindicação do voto feminino, defendida pela argentina Ana Francia Minneti. Em sua tese para a obtenção do título de doutora em Direito na Universidade de Santa Fé, em 1920, a autora não trata como problema o fato de a mulher não expressar publicamente a sua preferência individual, defendendo para tanto a unidade familiar como unidade eleitoral.  Sendo assim, o interesse pelo artigo se situa menos na qualidade das reflexões do que em a autora evidenciar, nos debates jurídicos, o fato de o voto envolver unidades sociais mais amplas do que os indivíduos únicos veiculados pelo discurso da individualização dos cidadãos.

Este tema está presente também na última parte deste livro, com o meu trabalho e o dos antropólogos Beatriz Heredia e Moacyr Palmeira. O artigo “O voto como adesão” é parte da pesquisa que Heredia e Palmeira vêm desenvolvendo sobre concepções de política entre populações rurais em alguns municípios de Pernambuco e do Rio Grande do Sul, desde 1988. Os dois autores procuram demonstrar que nas regiões pesquisadas, antes de ser uma escolha, o voto tem o significado de uma adesão, um gesto de identificação com uma facção. Isto é, o voto não seria, necessariamente, uma empresa individual, pois a adesão é um processo que compromete toda a família, ou alguma outra unidade social significativa, ao longo do tempo, para além do período eleitoral, ou do tempo da política. Nesta “sócio-lógica”, o pai de família continuaria a representar o grupo doméstico frente ao mundo exterior, o que, dependendo das circunstâncias, inclui tanto as relações com as unidades domésticas vizinhas como com a vila e a cidade.  Como as demais atividades públicas nessas regiões, a política e tudo o que ela envolve, desde conversas até a decisão do voto, é também masculina.

Mas, e quanto ao fenômeno moderno dos contingentes crescentes de trabalhadores rurais que se transferiram para as “periferias” das cidades? Para os autores, a grande inversão será a procura do voto de quem não tem vínculos, isto é, a tentativa de comprometer individualmente eleitores enquadrados socialmente por novos recortes sociais. A mulher, na condição de “largada”, desprovida da experiência masculina da negociação do voto, por exemplo, torna esposas e filhos existentes para o processo eleitoral. Sendo assim, a subversão representada pelo voto conservador da “mulher largada”, dos “desempregados da firma tal”, dos “que não são daqui” transparece da denúncia da “compra do voto” e no elogio comum da “sinceridade do voto do campo”.

Para refletir sobre essas formas de politização, utilizo-me das práticas desenvolvidas pelo profissional da política nas estruturas sociais não políticas, como a família. Para tanto, descrevo duas cerimônias – um enterro e uma festa de confraternização – realizados num município de Minas Gerais. Essas duas cerimônias, à primeira vista com funções diferentes, são mostradas modificadas de seus usos originais pela energia de membros de uma “família de políticos” que as transformam em ações para lembrar obrigações, manter a continuidade das relações sociais na sociedade e criar condições para o “interesse desinteressado” pela política. Dessa maneira, são obtidas respostas positivas dos eleitores à solicitação para a sua presença nas urnas , seja “em favor de um lado”, seja em favor “do outro lado”. Isto porque, ao se votar por um candidato, vota-se também pela instituição do voto. Em outras palavras, na medida em que se reforça o sentimento de dever perante o outro, o dever obriga as opiniões a se exprimirem na e para a instituição eleitoral.

Um homem, uma voz, uma opinião. Transitando dentro de arquivos e no discurso daqueles que impregnaram o gesto eleitoral de postulados raramente postos em questão, os autores dos artigos aqui recolhidos situam de forma analítica o problema do ato de votar e da maneira de se escrever a história (social, sociológica, intelectual, política) da instituição do sufrágio universal. Para aqueles que procuram ir além do que nos foi imposto com a força da evidência, e se interessam por um mergulho na complexidade do sufrágio, esta coletânea é um ganho.

 

Letícia Bicalho Canêdo

São Paulo, janeiro de 2004

[1] “Não há nada mais triste e mais inexplicável que a fascinação que exerce ainda hoje o sufrágio universal sobre a generalidade da classe trabalhadora… Se alguma coisa demonstrou a história destes últimos anos, é que a emancipação política do proletariado resultante da sua admissão ao escrutínio, é uma burla; é que toda a intervenção eleitoral da classe trabalhadora converte-se fatalmente em proveito do seu inimigo – a burguesia”. Jules Guesde, in Almanach du Peuple, 1873.

[2]  “O primeiro remédio seria acabar com o sufrágio universal, a vergonha do espírito humano. […] O número domina o espírito, a instrução, a raça e até mesmoo dinheiro.”  Gustave Flaubert, 1871.

[3]  “A maior parte da população por seu trabalho rude, que lhe toma o dia inteiro, não pode entregar-se ao estudo, à reflexão ainda a mais ligeira sobre os negócios políticos. Entre nós o que leva ás urnas os votantes é o forte estímulo da luta local, apaixonada e pessoal. Se em lugar da eleição do vizinho que disputa o eleitorado se decidisse diretamente na urna da paróquia a candidatura de tal ou tal pretendente à deputação, não se iluda pessoa alguma que os atuais votantes se movessem e incomodassem por um pleito que não compreendem. Hoje é o chefe de eleições que dá ao votante o cavalo, que lhe fornece o calçado, o chapéu, a roupa para apresentar-se na matriz da paróquia, quem o obriga a comparecer.”  (Belisário Soares de Souza, 1872).

[4] Eu respondo que ,  se o grande ato que objetiva produzir a representação nacional consiste em reunir a cada cinco anos, ou a cada três anos, uma  turba de cidadãos designados, que devem nomear um deputado portador de um mandato em branco, o qual, em virtude desse mandato passará a representar, além daqueles que lhe deram seus sufrágios, também os que votaram contra ele, além da massa eleitoral, todas as categorias de pessoas que não votaram, todas as forças, faculdades, funções e interesses do corpo social,  eu respondo que, se está aí o que se entende por sufrágio universal, não há nada a esperar dele, e que todo o nosso sistema político é uma mistificação e uma tirania.”  Cf. Proudhon, Théorie du mouvement constitutionnel au XIXème siècle, in Oeuvres posthumes.

[5] “História democrática da democracia” está sendo usada aqui no sentido dado por Alain Garrigou, Le vote et la vertu, Paris, Fondation Nationale des Sciences Politiques, 1992, p. 10, que vê a história da instituição eleitoral comprometida com pressupostos ideológicos que, mesmo sendo dignos de apreciação, não são os que deveriam ser solicitados numa análise científica.

[6] “Os votos são dados como equivalentes, embora todos saibam que eles não têm o mesmo valor.” Offerlé, Michel – « Le vote comme évidence et comme énigme », in Genèses 12, mai 1993, p. 149.

[7] – Pierre Rosanvallon, Le sacre du citoyen, Gallimard, 1992.

[8] – Cf. Michel Offerlé, “Femme, famille, individu”, Genèses, 31, junho de 1998, p. 2.  

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